Tara Smith

Professora de Filosofia na Universidade do Texas, em Austin.

Escreveu diversos livros e artigos sobre temas como Objetivismo, teoria política, ética e moral.



Visão Original - Independência e Egoísmo na obra "A Nascente"


NOTA DO AUTOR[1]

Ayn Rand é conhecida pela sua defesa do egoísmo, a visão de que os indivíduos deveriam agir para promover o seu interesse próprio[2]. A Nascente oferece um retrato dramático sobre a independência. Por meio de seu impetuoso e independente herói, Howard Roark, assim como pelos personagens que refletem diversos tipos de dependência, Ayn Rand revela a relação simbiótica entre independência e egoísmo. O egoísmo (e a conquista do interesse racional e felicidade que ele torna possível) requer independência, e a independência requer egoísmo. Pois o sacrifício do autointeresse que é imposto por outros códigos morais é incompatível com o exercício da independência. É o retrato dessa relação de duas vias presente em A Nascente que explorarei neste ensaio.

Na primeira parte, ao focar em Roark, Keating e Wynand, nós observaremos a forma pela qual o egoísmo depende da independência. Depois, ao considerar Toohey (inclusive os efeitos práticos de sua filosofia sobre Katie), veremos como o altruísmo sufoca a independência. Por fim, investigaremos a personagem mais enigmática do livro, Dominique, cuja transformação pessoal depende da compreensão de que tinha subestimado o poder do egoísta independente.

Ayn Rand escreve que a independência é “a aceitação da responsabilidade de formar seus próprios julgamentos e de viver pelo trabalho de sua própria mente”[3]. Independência é um elemento primordial da equação fundamental pela qual uma pessoa vive sua vida. A fim de adquirir conhecimento e obter valores, responder questões e tomar decisões, para o que a pessoa direciona sua atenção: para o que as outras pessoas pensam sobre a realidade, ou para a realidade em si? Ela busca suporte intelectual nas opiniões dos outros ou em seu próprio julgamento? Ela busca suporte material no trabalho dos outros ou no seu próprio trabalho produtivo? Enquanto que “a preocupação do criador é a conquista da natureza”, Roark observa, “a preocupação do parasita é a conquista dos homens[4]”.

A alternativa à pessoa independente é a nulidade[5] que “considera a consciência de outros homens como superior à sua própria e aos fatos da realidade”[6]. Rand às vezes se refere a esse tipo de pessoa como um “metafísico social”, o qual vivamente transmite tal premissa de que o que é real e importante é ditado pelas crenças sociais[7]. Enquanto tal parasitismo pode assumir diversas formas (aproveitador, ditador, alpinista social, patife, e assim por diante), a essência compartilhada em todas as suas encarnações é a tentativa de substituir a soberania da realidade pela opiniões de outras pessoas.

Ao recomendar independência, Ayn Rand não está endossando a visão subjetivista de que qualquer crença, desejo ou ação de um indivíduo é válida só por ser dele. “O julgamento independente próprio de um indivíduo é o meio pelo qual as ações devem ser escolhidas”, ela explica, “mas não é um critério moral, nem uma confirmação moral”[8]. Como a independência consiste em uma orientação à realidade, ela requer julgamento racional. A atitude da pessoa independente não é “eu primeiro”, mas “a realidade primeiro”. Tampouco Ayn Rand está sugerindo que o homem independente é rebelde ou antissocial. Um esforço deliberado de rebeldia seria meramente uma forma de subserviência aos outros, um jogo inverso de “O mestre disse”, no qual ele obtém pistas dos outros. Sem dúvida, relacionamentos com outras pessoas podem agregar valor inestimável à vida de um indivíduo. Roark prontamente reconhece tal fato ao afirmar que: “preciso das pessoas para me darem trabalho. Não construo mausoléus”[9]. O que impede que isso comprometa sua independência é que isso não envolve sacrificar o seu julgamento em prol do dos outros. “Um arquiteto precisa de clientes, mas não subordina seu trabalho aos desejos deles. E eles precisam de um arquiteto, mas não encomendam uma casa só para lhe dar trabalho..” Além disso, enquanto “um arquiteto precisa de muitos homens para erguer sua construção... ele não pede que opinem sobre seu projeto”[10].

A essência da independência, novamente, consiste na orientação primária à realidade ao invés de uma orientação na direção de outros homens[11]. O homem independente não filtra seus pensamentos, valores ou ações através das atitudes de outras pessoas. Ele é, na frase ressonante de Roark, o homem de “visão original[12]”.

EGOÍSMO REQUER INDEPENDÊNCIA

Embora muitos leitores sejam emocionalmente atraídos pela independência de Roark, é importante apreciar que sua independência está no centro do seu egoísmo. A independência é indispensável para a habilidade de uma pessoa verdadeiramente servir seu interesse e alcançar a felicidade. Uma demonstração completa deste ponto depende de uma explanação detalhada da origem e da objetividade do valor, um tema muito mais amplo do que se pode abordar aqui[13]. Para nosso propósito, todavia, alguns pontos são reveladores.

A felicidade resulta da realização de valores – daquelas coisas que melhoram a vida de um indivíduo. Valores abrangem uma vasta gama de coisas, de alimento a moradia, passando por lazer e arte até um casamento feliz ou uma carreira desafiadora. Os valores, todavia, são objetivos. Embora os indivíduos possam diferir quanto às coisas específicas que consideram valorosas, e embora certas coisas possam ser de valor para algumas pessoas e não para outras, é uma questão evidente que algo ou gera um impacto positivo ou negativo sobre a vida do indivíduo. O valor não diz respeito às diferentes perspectivas das pessoas; valor não é criado por vontade, crença ou atitude individual ou coletiva[14]. A obtenção de valores, portanto, requer racionalidade (a adesão deliberada à realidade no uso de sua mente)[15]. Dado que vivemos na realidade, é somente por meio do respeito à realidade (isto é, à racionalidade) que podemos tomar as ações necessárias para alcançar fins que sustentam a vida. Logo, por sua natureza, a racionalidade é um ato primário, criador. “Pensar é algo que não se pega emprestado nem se penhora,” como destaca Kent Lansing[16]. “A mente é um atributo do indivíduo,” Roark explica em sua defesa no caso Cortlandt. Um cérebro coletivo é algo que não existe. Um pensamento coletivo é algo que não existe. Uma conclusão à qual várias pessoas chegaram é apenas um consenso ou uma média proveniente de vários pensamentos individuais. Essa conclusão é uma consequência secundária. O ato primário, o uso da razão, tem que ser executado por cada um, individualmente[17].

Falhar em pensar por si próprio é, de fato, falhar em pensar. A repetição das palavras de outras pessoas – independentemente se elas representam conclusões racionais por parte das mesmas ou meros ruídos – sem a confirmação própria e original de sua validade, não se trata de pensamento racional. É o comportamento de um papagaio[18]. Cada um desses elementos aponta para a necessidade de independência para o homem. E para vermos isso mais vivamente, consideramos Roark.

O homem que não depende dos outros para existir

Roark é o único personagem que é feliz, do início ao fim. Somente ele serve consistentemente seus interesses. Embora enfrente sérios obstáculos, ele consegue esboçar e construir, conquista Dominique e é verdadeiro consigo mesmo, do início ao fim.

Nós encontramos Roark solitário, rindo de sua expulsão da faculdade[19]. Essa reação à adversidade é um tema recorrente: ele ri quando descobre que Dominique estava por trás da perda da comissão de Sutton[20], que Toohey intercedeu para que ele fosse selecionado para o Templo Stoddard[21] e que Monadnock Valley era uma fraude destinada a gerar prejuízo[22]. Sua risada não expressa uma negação nervosa, mas a tolice dos esquemas desses adversários. Totalmente em paz consigo mesmo e com o mundo, Roark não reage contra os esforços alheios para intimidá-lo, confiante de que eles não podem ter êxito. Isso não é petulância quanto às chances de sua vitória em uma batalha particular. Em vez disso, reflete sua autoestima consumada. Como ele vive racionalmente e como sabe que esse é o único caminho pelo qual os seres humanos podem obter valores, ele está confiante de que seus valores, no final das contas, prevalecerão. Ele sabe que o mundo é conducente à felicidade humana e que ele está vivendo da maneira requerida. A atitude de Roark reflete o que Ayn Rand rotula de premissa do universo benevolente, a convicção de que o mundo é fundamentalmente favorável à prosperidade humana e que o sucesso e a felicidade dos seres humanos são a norma em vez da exceção[23]

Ao contrário de Keating, que sofre continuamente com conflitos internos já que, incessantemente, se esforça tentando decidir a quem agradar, Roark procede de forma prática pelo seu próprio julgamento racional. Sua independência é a base de sua tranquila confiança e serena autoestima.

Nós vemos que Roark sente dor raramente, como quando descobre que Dominique casou-se com Keating[24]. Claramente, ele experimentou sérios reveses: perda de comissões, perda da licença profissional, derrota no julgamento da Stoddard, separação da mulher que ama. Ainda assim, o pior tipo de dor da vida resulta de se autodesapontar (como Wynand dolorosamente ilustra). Contanto que Roark não faça isso, os golpes externos causarão danos limitados, machucando “até certo ponto[25]”. Golpes infligidos por outros não podem machucá-lo, no sentido que não podem atingir o seu caráter. (Durante o imbróglio do Templo Stoddard, ele afirma a Dominique que as “reações dos outros quanto ao prédio não importam, mas sim que foi ele quem o construiu”[26].

Muito do que é atraente sobre Roark diz respeito à sua integridade. Ele repetidamente se recusa a comprometer suas convicções[27]. Todavia, sua integridade consiste não em uma adesão teimosa a ideais sancionados pela sociedade. Roark é fiel aos seus princípios, baseado no veredicto de seu julgamento racional. Quando Heller o reprime por recusar uma comissão já acordada, dizendo “você tem que viver” – Roark responde: “não desse jeito”[28].  Roark vive segundo seus termos. Sua independência mostra-se ainda mais claramente em sua recusa ao projeto do Manhattan Bank, um trabalho do qual ele desesperadamente precisa. Ele responde à incredulidade geral sobre seu “egoísmo” dizendo que: “essa foi a coisa mais egoísta que você já viu um homem fazer.[29]”. O dinheiro que ele teria obtido por meio do emprego não teria valido nada para ele – para seus objetivos e felicidade. Somente ao recusá-lo Roark poderia se preservar.

Conquanto Roark não se importe com o que os outros pensam sobre ele, e tampouco se compare com os outros[30], sua disposição para com os outros é totalmente benevolente. Ele é respeitoso em sua reunião com o reitor da faculdade e normalmente generoso com Keating e Wynand. Roark está totalmente disposto a ajudar os outros; ele não está disposto a se sacrificar pelos outros – conceder maior valor por menor valor ou nenhum valor[31]. Roark não vê as relações humanas como competitivas - que o bem-estar de uma pessoa pode somente ocorrer à custa dos outros. Quando Keating pergunta a Roark por que ele o odeia, Roark inocentemente questiona, “por que eu deveria?”[32].  Em seu julgamento, a multidão percebe que “não lhe era possível sentir qualquer ódio”[33].  Quando Toohey pergunta o que Roark pensa dele, sua resposta é “mas eu não penso em você[34]”. (Por simplesmente colocar esta pergunta, vemos a orientação maliciosa de Toohey).

Roark desfruta de uma amizade muito próxima com Mike, Mallory e Wynand – laços construídos sobre os valores que cada um, individualmente, traz para essas relações. Ele está feliz por Wynand gostar dele não porque Wynand é um “VIP”, mas porque ele respeita Wynand. Roark sinceramente reconhece sua necessidade e amor por Dominique, indo tão longe a ponto de dizer que: “é claro que você me possui. Tudo de mim que pode ser possuído[35]. Roark ama um seleto grupo de indivíduos e está preparado para morrer por eles, mas não para viver por eles. Isso, novamente, reflete sua independência. Amar outra pessoa não é subordinar-se a ela. É reconhecer o valor objetivo que ela oferece para a felicidade do indivíduo[36].

A independência de Roark não é um truque de sua personalidade idiossincrática. Ele aprecia a importância da independência – a dos outros e a sua. Logo no início, quando Keating solicita seu conselho de carreira, Roark chama atenção para o fato de que mesmo perguntá-lo seria um erro[37]. Quando Dominique lhe diz que ela anularia seu casamento com Keating se Roark pedisse, ele sabe que tal submissão destruiria qualquer chance de sua felicidade. Ele não dá ordens às pessoas porque percebe que a dependência das “pessoas certas” não oferece maior valor que qualquer outra forma de dependência. Note que ele espera Dominique perceber seu próprio erro, ao invés de tentar impor a lição antes que ela esteja pronta. Da mesma forma, Roark faz com que Keating explique porque ele deveria desenhar Cortlandt ao invés de simplesmente projetá-lo. Roark percebe que a racionalidade demanda que os indivíduos entendam os princípios corretos por conta própria[38].

Roark é autossuficiente por excelência e deseja que os outros também o sejam. Ele não considera os pensamentos ou ações das outras pessoas, como tal, importantes. Outras pessoas não têm espaço em sua mente simplesmente porque elas são outras pessoas. Ele explica sua atitude no julgamento Cortlandt:

O egoísta é o homem que está acima da necessidade de usar os outros de qualquer forma. Ele não funciona por intermédio deles. Nunca se preocupa com eles em questões fundamentais. Nem na escolha do seu objetivo, nem no seu motivo, nem no seu pensamento, nem nos seus desejos, nem na fonte da sua energia. Ele não existe para benefício de nenhum outro homem... e não pede a nenhum outro homem que exista para seu benefício[39].

E essa independência é critica para sua felicidade. Sua função emerge de forma mais completa quando consideramos as duas personagens que buscam servir seus próprios interesses, mas fracassam, por causa de seus métodos de segunda mão.

Autotraição

Keating representa um tipo comum de nulidade, o conformista sem vergonha. Ele é introduzido, adequadamente, como um membro da multidão, dificilmente distinguível de uma “geleia mole e trêmula, feita de uma mistura de braços, ombros, peitos e barrigas”. Desde o princípio, ele está muito atento aos olhares dos outros[40]. Pois são os outros que davam a Keating uma sensação de seu próprio valor[41]. Ele era “espetacular, tão espetacular quanto o número de pessoas que lhe diziam isso. Estava certo, certo como o número dos que acreditavam nisso”[42]. Como Roark bem descreve: Os outros ditaram as convicções dele, que ele não tinha, mas ele estava satisfeito porque os outros acreditavam que tinha. Os outros foram a sua força motriz e a sua preocupação principal[43]. Keating aconselha Roark que a política inteligente para a sucesso na vida é “seja sempre o que as pessoas quiserem que você seja”[44]. Enquanto a orientação de Roark à realidade é aparente em sua paixão pelas construções, Keating tem dificuldade em se concentrar no trabalho que tem pela frente e não pode nem mesmo se lembrar dos seus projetos[45].  Embora buscasse sucesso como arquiteto, Keating “odiava cada fragmento de rocha na face da Terra”[46].

Keating é egoísta – no sentido convencional. Ele é um alpinista social “focado em ser o nº 1”, cruelmente buscando avanço na carreira a qualquer preço (testemunhe sua manipulação de Tim Davis, Claude Stengel, e Lucius Heyer). Ainda assim o que é dolorosamente exposto, no decorrer da história, é a sua falta de personalidade. “Foi o seu próprio ego que ele traiu e abandonou,” Roark observa[47], - toda a vez que ele se sujeita às preferências de sua mãe, clientes, Toohey ou sociedade. Ele faria qualquer coisa para tomar a dianteira – pelo padrão de significado estabelecido pelos outros. Correspondentemente, ele estava disposto a ser qualquer coisa, tendo, assim, sua identidade dissolvida no processo.

Em contraste à serenidade de Roark, Keating está em guerra contra si mesmo. Sua vida é repleta de atos de autotraição. Ele persegue uma carreira na arquitetura apesar de sua preferência pela pintura. Ele odeia Dominique por sua falha de não ter respondido ao seu beijo, mas não permite que isso se interponha à utilidade estratégica de sua relação[48]. Ele nunca se casa com Katie, a mulher que verdadeiramente ama. Durante uma conversa surpreendentemente honesta e comovente com Dominique sobre a forma como tem levado sua vida, ele se atira pela chance oferecida por um telefonema de Toohey[49]. Em todo o momento de decisão no qual pode declarar seu próprio julgamento, Keating submete-se ao dos outros, tratando a vontade deles como uma ordem. (Este padrão de comportamento é confirmado já no início, em uma incidente aparentemente trivial: embora Keating deseje ficar sozinho com Howard, ele diz a sua mãe o contrário[50]).

Frequentemente, Keating resiste antes de abdicar e se resignar aos outros. Inicialmente, ele comenta à Katie que não desejaria encontrar o tio dela, por exemplo, porque ele teme que ele possa usá-la para explorar o lado bom do tio. Porém, rapidamente, ele se contradiz, não levando a sério suas antigas restrições[51]. Da mesma forma, quando Wynand propõe comprar Dominique em troca da comissão Stoneridge, Keating repele a proposta de forma indignada – momentaneamente. Rapidamente, porém, ele sucumbe, enterrando em seguida sua vontade inicial[52]. Todavia, a erosão da identidade de Keating não é demonstrada unicamente em suas falhas repentinas em se posicionar e fazer uso de suas armas. Ele também tem, rotineiramente, problemas até mesmo em entender e formar seus desejos. Quando Dominique lhe pede em casamento, ele fica enervado pela necessidade de decidir e deseja “escapar da responsabilidade de estar consciente”[53]. Ele nunca chega a decidir ele próprio se quer realmente casar-se com Katie. Mais do que isso, ele provisoriamente se aventura em um estágio inicial - “estamos noivos, não estamos?”[54]. Depois ele pede a Katie para insistir com seu casamento, ao invés de insistir nisso ele mesmo[55]. Valores sólidos e definitivos não estão ao alcance de Keating, porque ele cede fácil aos desejos dos outros. 

Depois de vender Dominique a Wynand, Keating sente como se tivesse se vendido. E isto é exatamente o que ele fez – como o fez também em diversas ocasiões anteriores, essa sendo simplesmente uma das mais grotescas. Ao fazê-lo, ele perdeu toda a sua identidade. Longe de servir a si mesmo, Keating se autoimolou no altar dos padrões alheios. O resultado não é uma vida feliz que uma pessoa autointeressada procura. De modo crescente, é fato, observamos o vazio que a satisfação de Keating traz consigo. Na inauguração de seu triunfo, o prédio Cosmo-Slotnick, ele não está feliz. A felicidade ressentida por ter ganho a comissão pelo Condomínio Stoneridge é “pequena, quase inexistente”. Mesmo nas partes finais da história, quando ele obteve um sucesso espetacular por meios convencionais (chefe de uma firma prestigiada que obteve diversos contratos, alguém exibindo uma mulher-troféu e o patrocínio de Toohey), seus dias são contaminados com chatice e impaciência, indiferença ao seu trabalho e uma insegurança que beira o pânico em sua busca desesperada pela confiança alheia. Apesar de ter conquistado tudo o que sempre quis, Keating não é feliz[56]. A razão é que ele não queria todas essas coisas. Keating tentou obter seus valores, sua autoestima – sua própria identidade – através dos outros. Mas eles não poderiam prover isso.

No decurso de seu casamento, Dominique já havia servido, deliberadamente, como espelho para Keating, expondo a falsidade do seu ser. Sua descrição, certa noite, de como ela tem se comportado na verdade revela o que ele tem sido por toda a sua vida. Keating lamenta que Dominique não tenha expressado seus verdadeiros desejos, durante o casamento. “O que você realmente é não existe mais,” ele observa, e a sua alma, “a coisa que pensa e avalia e toma decisões”, tem estado dormente. Quando ele finalmente pergunta: “Onde está o seu eu?” ela responde, com efeito devastador: “Onde está o seu, Peter?”[57].

Eventualmente, o próprio Keating percebe que sua maior culpa é a traição de seus próprios desejos.

O outro caso primaz de autotraição é Wynand. Frente aos padrões convencionais de egoísmo, Wynand acumulou o que qualquer pessoa egoísta poderia querer: riqueza, fama e poder. Ainda assim, o que ele está fazendo quando o leitor o encontra pela primeira vez? Contemplando o suicídio[58]. Seu flerte com o suicídio é somente casual; aprendemos, todavia, que isso torna tudo uma indicação ainda maior do estado de sua vida. Que ele possa brincar com o pensamento de se matar é uma indicação de que valores se tornaram ausentes em sua vida. Todos os seus “sucessos” lhe têm dificilmente trazido felicidade.

Wynand não é um conformista de carteirinha. Ao contrário de Keating, que dança complacentemente de acordo com a música alheia, Wynand aparentemente toca sua música. Ainda assim, sua busca por poder significa meramente uma forma diferente de escolha de segunda mão. Wynand busca sua felicidade ao estar no topo – na obtenção de certa relação para com outras pessoas. Ele busca reger a sua vida não porque tem uma visão independente do bem que pensa benevolentemente poder, de forma racional, levar outras pessoas também a perceber. Em vez disso, ele simplesmente cobiça a submissão alheia.

Wynand escolhe o jornalismo como carreira porque é a que promete a maior influência possível, já que, refletiu: “o que entrava em todas aquelas casas, tanto nas obscuras quanto nas brilhantes, o que alcançava cada sala, cada pessoa?[59]”. O que, em resumo, lhe permitiria comandar? Depois, ao treinar o quadro de funcionários da revista Banner para identificar notícias não como eventos significativos do ponto de vista objetivo mas como é “aquilo que cria a maior agitação entre o maior número de pessoas”[60]. Wynand amarra seu sucesso aos caprichos erráticos dos gostos populares. Embora o nome do seu iate, Eu Dou, tenha como intenção ser uma declaração orgulhosa da supremacia de Wynand sobre os outros (“sou eu quem manda nas coisas por aqui”), ela de fato testemunha sua subserviência permanente. Ele permanece consumido por sua relação com outras pessoas. Irritado pelas ordens que recebe dos outros quando jovem, Wynand erroneamente conclui que a única alternativa a ser mandado é mandar. Ele assume que os interesses dos homens estão em conflito perpétuo e que a vida é uma competição por posição social: o que é mais importante não é a obtenção de valores objetivos, mas a dominação de outras pessoas[61].

Embora Wynand aspire a uma posição aparentemente diferente do que Keating, seu padrão de escolhas de segunda mão é igualmente estéril. Mesmo o feito que representa seu prêmio e seu poder são uma ilusão. Isso é dolorosamente revelado quando ele tenta mobilizar o Banner por uma causa na qual ele acredita: a defesa de Roark contra a acusação da explosão de Cortlandt. Ele descobre que seu império é um castelo de cartas e que ele tem sido na verdade escravo das pessoas desde o início, sendo capaz de exercer poder de acordo ao que estavam dispostos a conceder. Por mais que Wynand possa desejar, como confessa a Toohey, não ser confundido com seus leitores, ele tinha cedido a independência que teria preservado a base daquela distinção. Tudo que ele tem sido é qualquer coisa que seus leitores queriam que ele tivesse sido.

Por meio de Wynand, Ayn Rand está ilustrando que a pessoa que procura dominar os outros é ainda dependente dos outros. Ao tratar a conquista dos outros como um meio para a felicidade, Wynand na verdade criou o poder que o destrói. Ele concedeu aos outros o poder de controlar seu sucesso, e é ele quem é destruído no processo. A busca por poder da parte de Wynand é destinada ao fracasso porque, como ele em última instância percebe, “Uma correia é apenas uma corda com um laço nas duas pontas”[62]. A intenção do homem de dominar acaba por torná-lo um escravo.

Em muitos aspectos, Wynand é muito superior a Keating. Meu ponto aqui, todavia, é que sejam quais forem as suas diferenças, ambos, Keating e Wynand, aceitam a política de Keating de ser qualquer coisa que as pessoas desejam que sejam. Keating é simplesmente mais consciente nesse sentido. Enquanto observamos Keating vender sua alma aos poucos ao longo da história, Wynand vende a sua alma por atacado, já no início, quando ele traça o curso de conquista do qual ele raramente se desvia. As exceções – sua coleção particular de arte, suas relações com Dominique e Roark – oferecem exemplos da alma gloriosa que sacrificou (eles revelam, como Roark menciona, que ele não “nasceu para ser um homem que vive à custa dos outros”. Ainda assim, Wynand reafirma sua decisão de segunda mão ao se render às demandas dos grevistas pelo abandono da asserção mais completa do seu eu que jamais ousou.

Tanto Keating como Wynand querem ser egoístas; eles procuram avançar (o que eles pensam que seja) seu autointeresse. Por causa dos métodos de segunda mão que cada um deles adota, todavia, sua felicidade permanece miseravelmente irrealizada. As intenções egoístas não são suficientes. A independência é essencial para se alcançar o interesse de um indivíduo. O homem não pode ter êxito na realidade erigindo qualquer soberania acima da realidade, e uma pessoa não pode alcançar o autointeresse por meios que destroem a si próprio[63].

INDEPENDÊNCIA REQUER EGOÍSMO

Por intermédio de Roark, Keating e Wynand vemos que o egoísmo racional requer independência. O egoísmo e a independência estão entrelaçados ainda mais intimamente, todavia. Principalmente através de Toohey, Ayn Rand revela a forma pela qual o altruísmo destrói a independência. A independência pode ser sustentada somente por meio da prática consistente do egoísmo racional[64].

Assim como todas as nulidades, a vida de Toohey gira em torno das outras pessoas. Em comparação a ele, Keating e Wynand parecem amadores – facilmente, crianças perdoáveis. Toohey leva as decisões de segunda mão a profundezas muito mais sinistras. Ambos Keating e Wynand experimentam alguma atração pelo bem e demonstram alguns elementos de egoísmo, porém rapidamente suprimidos ou compartimentalizados. Toohey, não.

Como Wynand, Toohey busca o poder 22. Enquanto a atitude de Wynand é dar às pessoas o que elas querem, lucrando ao fazê-lo, Toohey tem uma visão distinta do que as pessoas deveriam querem e ele metodicamente planeja para fazê-las aceitarem o que ele vislumbra. Toohey não somente pratica as decisões de segunda mão; ele as prega, sistematicamente plantando as sementes para que se arraiguem e dominem o ambiente. O código moral específico que Toohey apoia é o altruísmo, o qual depende crucialmente das decisões de segunda mão.

Literalmente, “altruísmo” significaria outro-ismo[65]. “O princípio básico do altruísmo é de que o homem não tem direito de existir por interesse próprio, que servir aos outros é a justificação de sua existência, e que o autosacrifício é o seu dever moral mais elevado, valor e virtude”[66]. Wynand acredita (embora erroneamente) que ele possa obter valor genuíno ao exercer poder sobre os outros. Toohey, por outro lado, busca o poder meramente como uma forma de destruição. O motivo de Toohey promover o altruísmo não é um amor sincero, porém desencaminhado, por seus semelhantes. Ele busca apenas destruir os outros. Sua atitude básica está cristalizada no episódio no qual, com sete anos de idade, ele aponta a mangueira aberta contra o terno de Johnny Stokes[67]. Ao longo de sua vida, Toohey aponta aquela mangueira aberta contra todo mundo[68].A campanha de Toohey é consideravelmente diferente do esforço de Wynand para contratar escritores de talento na condição de que eles doravante publicariam somente coisas sem sentido. Para Wynand, isso é parte de uma tentativa mal concebida de provar que a integridade é impossível – e por meio disso justificar sua própria falta de integridade. Wynand precisa comprovar isto porque ele próprio não acredita verdadeiramente nisso (como evidenciado em sua resposta a Roark e seus prédios). Toohey, por outro lado, não tem dúvida de que a integridade seja possível. É por isso que ele busca destruí-la.

Toohey sabe exatamente o que está fazendo, como as explicações de seus métodos para Dominique e a Keating deixam claro em vários estágios da história. Ele reconhece as grandes conquistas, tais como a grandeza das construções de Roark[69]. Ainda assim, ele anseia por ver Roark seguindo ordens[70]. Tampouco ele duvida da felicidade simples que a conquista criativa torna possível. Ele despista seu olhar da foto do rosto alegre de Roark – colocada na Residência Enright – precisamente porque ele entende o que a conquista significa. Toohey não deseja aquilo, nem para si, nem para ninguém mais. (Isso é o que leva Mallory a atirar nele)[71].

A descrição feita por Roark, em seu discurso acalorado no tribunal, sobre a alternativa básica entre o parasita e o criador não era novidade para Toohey. Toohey percebera que era um parasita segundo a descrição de Roark. Mas isso não engendrara nenhum conflito interno ou autocensura, como causaria, ocasionalmente, em Keating ou Wynand. Ele deseja ser um parasita. Toohey está intencionalmente comprometido em sugar a vida daqueles que criam valor e treinar outros a fazer o mesmo. Ele percebe plenamente que o altruísmo não oferece nenhum valor genuíno à vida humana[72].

É importante apreciar que Toohey não reflete meramente um traço virulento e exótico de altruísmo, ou distorções estranhas introduzidas por um homem perverso. Toohey representa a essência do altruísmo. Ele exibe uma compreensão magistral de seu caráter fundamental e de todas as suas implicações. Por sua natureza, o altruísmo destrói. Isso não quer dizer que todas as pessoas que abraçam o altruísmo percebam suas repercussões destrutivas, colocando-as em prática, como Toohey o faz. Todavia, isso é o que a prática do altruísmo inescapavelmente fornece. A única forma de praticar o altruísmo é subverter a sua própria mente. Subserviência aos outros – às suas necessidades, desejos, crenças – é o imperativo supremo. Não obstante, esse caminho repousa somente em destruição na medida em que a independência é pré-requisito para a criação de valores objetivos que sustentam a vida. É somente por meio de um respeito resoluto pela realidade como padrão (ao invés das opiniões de outra pessoa sobre a realidade) que os seres humanos podem criar os valores que propelem nossas vidas (o dano infligido pelo altruísmo é frequentemente minimizado pela forma diluída no qual é tipicamente praticado. Quanto mais consistentemente uma pessoa obedece aos comandos do altruísmo e sacrifica os valores objetivos, mais destrutivos são seus efeitos[73].

Para entender realmente o ataque do altruísmo à independência, vale a pena examinar a relação mais detalhamente.

O altruísmo instrui as pessoas a sacrificarem seu bem em prol do bem alheio. Isto está a um passo somente da ideia de que uma pessoa deveria renunciar o seu interesse e da ideia de que deveria renunciar ao seu próprio julgamento. Pois o repúdio do eu por parte do altruísmo é bastante abrangente. O altruísmo não deixa uma pessoa com “antes pouco do que nada”; ele não diz: “mantenha sua alma, sua mente, mas nos conceda seu trabalho braçal e os frutos materiais decorrentes”. Em vez disso, o altruísmo reivindica o ser humano como um todo, material e espiritualmente. Assim o faz, pois a única forma pela qual ele pode seguramente tirar algo material das pessoas é apelando para o lado espiritual, (isto é, persuadindo suas mentes). Uma chicotada será suficiente para escravizar o corpo de uma pessoa; não é necessária a aceitação do altruísmo para tal. Desta sorte, o altruísmo busca o alistamento voluntário à serviço dos outros. E a única forma de atrair pessoas a adotar voluntariamente tal código é destruindo sua capacidade racional. Todos os códigos morais devem apelar às mentes, é claro, se desejarem ser adotados voluntariamente. O que Toohey percebe é que dada a insensatez das medidas altruístas, as pessoas não podem racionalmente adotá-lo. A única forma de obter seguidores, portanto, é fazer com que as pessoas abandonem seu julgamento racional e independente.

Se uma pessoa fosse pensar sobre o altruísmo de forma honesta, por si próprio, julgando-o pelo padrão de medida da realidade ao invés de sua aprovação geral dos outros, ele facilmente constataria suas contradições básicas e seu caráter inconclusivo. Ayn Rand expõe alguns destes pontos no discurso de Galt em A Revolta de Atlas:

Por que é moralmente correto servir à felicidade alheia, mas não à sua própria? Se o prazer é um valor, por que ele é moralmente aceitável quando experimentado pelos outros, porém imoral quando experimentado por vocês? Se a sensação de comer um bolo é um valor, por que é um ato imoral de gula para o seu estômago, porém um objetivo moral a ser atingido para o estômago dos outros? Por que desejar é imoral para vocês, mas não o é para os outros? Por que é imoral produzir um valor e ficar com ele, mas não o é dá-lo aos outros? E, se é imoral para vocês ficar com um valor, por que não é imoral para os outros aceitá-lo? Se vocês são altruístas e virtuosos quando o dão, eles não serão egoístas e maus quando o aceitam? Então a virtude consiste em servir o vício? Então o objetivo moral dos bons é se imolar em benefício dos maus?[74]

Para que as pessoas aceitem que o autosacrifício é a filosofia que devem praticar, muito embora a ausência de razão lógica para tal, é, sobretudo, necessário asfixiar seu exercício de razão. Como o julgamento independente ameaça expor a absurdidade da doutrina altruísta, o julgamento independente é o inimigo do altruísmo[75].

O antagonismo entre altruísmo e independência é ainda mais profundo, todavia. O julgamento independente é anátema não somente como um meio de expor a irracionalidade do altruísmo: o julgamento independente de um indivíduo é parte central da diretiva básica do altruísmo de autosacrifício.

A ação racional requer avaliação racional das opções de um indivíduo[76]. Para que uma pessoa tenha razão para fazer algo, ela deve compreender o porquê deveria fazê-lo, do bem (dentro da sua hierarquia de valores) que ela conquistará. Não pode haver tal coisa como entender por que um indivíduo deveria sacrificar um valor, todavia, ou por que um indivíduo deveria despender um valor maior por um valor menor ou por valor nenhum. Consequentemente, ao demandar o sacrifício, o altruísmo demanda que uma pessoa desconsidere seu julgamento da realidade. O altruísmo essencialmente instrui uma pessoa a parar de se importar se ela tem ou não razão para fazer algo. Ele deveria calar sua mente e se tornar um servo obediente e descuidado. Ao sacrificar seus valores, portanto, ele está sacrificando sua própria independência. É por isso que Rand observa:

É à sua mente que eles querem que vocês renunciem, todos os que pregam a doutrina do sacrifício, quaisquer que sejam os rótulos que atribuam ou os objetivos que proclamem. Tanto faz se exigem isso de vocês para conquistar suas almas ou seus corpos, se lhes prometem uma outra vida no céu ou a barriga cheia neste mundo. Aqueles que começam dizendo ‘É egoísmo buscar satisfazer seus próprios desejos, é necessário sacrificá-los aos desejos dos outros’ terminam afirmando ‘É egoísmo se ater às suas convicções, é necessário sacrificá-las às convicções dos outros’[77].

Toohey compreende plenamente tudo isso. Ele reconhece astuciosamente o que é necessário para o altruísmo prevalecer, e ele conduz sua campanha neste sentido. Note que seus esforços não estão focados em grandes benefícios que possam supostamente se tornar realidade por meio de sacrifícios altruístas. Mas antes disso, ele direciona seu ataque a todos aqueles que criam valores. A alma não pode ser governada, ele acredita; portanto, ela deve ser estraçalhada. Na sua última conversa com Keating, Toohey explica suas principais técnicas: mate a aspiração e a integridade (ao fazer os homens sentirem-se pequenos e culpados; mate o senso de valor do homem (ao idolatrar a mediocridade); destrua a referência (por meio do escárnio); mate a felicidade e a alegria de viver (ao tirar “tudo que é querido ou importante para eles... faça-os sentir que o mero fato do desejo pessoal é mal[78]. O objetivo altruísta é um mundo no qual “nenhum homem terá desejo próprio, mas direcionará todos os seus esforços para satisfazer os de seu vizinho, que, por sua vez, não terá nenhum desejo, exceto o de satisfazer os do próximo vizinho, que não terá nenhum desejo... pelo mundo afora, Peter. Uma vez que todos devem servir a todos[79]...

O emprego dessas técnicas por Toohey é visível em vários momentos da trama. Desde sua juventude, Toohey torna-se amigo de todos que dele se aproximam e trata de dissuadi-los de seu caminho de carreira; ele desencoraja Katie de fazer faculdade[80]. Ele eventualmente aconselha Katie que ela deve parar de querer qualquer coisa – isto é, tornar-se completamente uma pessoa de segunda mão, vazia de desejos pessoais. (Mais sábia do que ele poderia esperar, Katie reflete: quando obter esse “nobre” status, quem entrará nos portais de pérolas? A resposta característica de Toohey à expressão de preocupação de alguém sobre alguma questão mais importante é trivializar e ridicularizar. Ele identifica o amor com chocolates de bancas de jornal e reduz o casamento a um mingau de aveia. Ele censura a solicitação de Katie por sua aprovação de seu casamento, como se a coisa toda fosse importante o suficiente para ser desaprovada e totalmente desconsidera a própria felicidade como algo “tão classe média[81]”. Quando Katie procura seu conselho sobre sua infelicidade, ele ilumina sua “tragédia cósmica” e a ridiculariza por se preocupar tão egoisticamente sobre sua felicidade[82]. Nada é sério para Toohey; ele declara que o senso de humor é a única coisa que é sagrada[83]. Essa postura superficial “acima de tudo” é em si cuidadosamente calculada, porque ele sabe que as coisas que ele casualmente descarta como insignificante são tudo menos isso.

A capacidade de destruição das ações de Toohey não poderia ser mais clara. Todos os alvos de Toohey – aspiração, integridade, valores, reverência, felicidade – são egoístas; elas são expressões do pensamento e vontade individuais, e portanto, da identidade individual. Toohey não defende a integridade, alegando que deveria ser direcionada ao serviço de ideias altruístas. Em vez disso, ele afirma: “mate a integridade através da corrupção interior. Use-a contra si mesma. Direcione-a para um objetivo que destrua toda a integridade. Pregue a abnegação. Ele reconhece, em outras palavras, que a integridade é incompatível com o altruísmo e que o altruísmo é uma fraude. “Diga aos homens que o altruísmo é o ideal. Nem um único deles jamais o alcançou e nem um único jamais o alcançará” [84]. Ao reconhecer isso, Toohey está reconhecendo que seu alvo é a destruição. Altruísmo é somente um meio para um fim que é destruir as almas dos homens e a sua capacidade de alcançarem a felicidade.

Os métodos de Toohey são letais, como a trajetória de Katie tragicamente ilustra. Quando a encontramos pela primeira vez, Katie é uma idealista inteligente que deseja fazer o que é certo. Contando a Keating sobre seu tio, ela fala afetuosamente com admiração sincera, descrevendo Toohey como “realmente maravilhoso”, “surpreendente”, “tão gentil, tão compreensivo[85]. Ela fala totalmente cândida e despretensiosamente sobre seus sentimentos por Keating (tanto que ele comenta a respeito de suas pobres técnicas e estratégias de flerte); ela não dá nenhum sinal de apresentar traços de nulidade. Katie propõe-se a ser uma altruísta independente; pela natureza do altruísmo, todavia, ela está paulatinamente sendo levada para o parasitismo. A demanda pelo autosacrifício gradualmente destrói sua independência e a consome.

Ao final do romance, quando Katie encontra Keating pela primeira vez depois de muitos anos, ela se parece sinistramente com seu tio ao disfarçar a dor pelo término de seu relacionamento. Ela é indiferente à confissão de Keating sobre sua infelicidade e, pior, parece não se preocupar nem mesmo com a sua própria, tratando seus sentimentos como infantis e inconsequentes[86]. Esse é o ideal de Toohey. Esse é o modelo de pessoa no qual ele se esforça para moldar a todos. (Vale também a pena notar que, ao levar uma vida de altruísta, a benevolência inicial de Katie é substituída por ódio e ressentimento. A suposta natureza “humanitária” de Toohey repreende veementemente quem não aprecia suficientemente os sacrifícios de Katie como “lixo”, irritando-se bastante com alguém que consegue resolver um problema sem a sua ajuda, e desencoraja uma jovem de ir para faculdade por inveja de ele estar seguindo um caminho que ela tinha abandonado, Veja um excerto da passagem:

Fiquei extremamente magoada por alguém sair de um aperto sem a minha ajuda. Ontem eu estava falando com um rapaz que queria fazer faculdade, e eu o desencorajei e disse-lhe que em vez disso ele deveria arranjar um bom emprego. E eu estava muito zangada. De repente, percebi que era porque eu quis tanto ir para a faculdade... Você se lembra? Você não me deixou... e, portanto, eu não ia deixar aquele garoto ir também... Tio Ellsworth, você não percebe? Eu estou ficando egoísta[87].

Para resumir esta seção, permitam-me reiterar as duas formas principais pelas quais o altruísmo está em conflito com a independência. Primeiro, uma política que demanda sacrifício dos valores que sustentam a vida e a felicidade de um indivíduo é uma política de suicídio. Dado que ninguém poderia racionalmente adotar tal postura (exceto quem desejasse cometer suicídio), resta que a racionalidade e o julgamento independente são inimigos do altruísmo[88]. Desta sorte, o altruísmo condena o julgamento independente não somente porque tal julgamento ameaça expor a irracionalidade do altruísmo. O julgamento independente é atualmente parte e parcela do que o altruísmo demanda que o indivíduo renegue. O altruísmo ordena que uma pessoa aja desafiando seu julgamento racional para escolher valores menores ao invés de valores maiores; é a ordem para abandonar a racionalidade. A doutrina altruísta do autosacrifício, como temos visto, é total. Tudo que é seu – seus pensamentos, valores, sonhos, assim como suas posses materiais – deve ser sacrificado em prol dos outros. O altruísmo decreta que é errado ater-se a qualquer elemento propriamente individual. A independência, portanto, a qual é a virtude de direcionar a vida de um indivíduo na realidade, é seu anátema.

DOMINIQUE

Do outro lado do espectro de Katie, a figura que passa por mudança significativa para melhor, graças à influência da filosofia de Roark, é Dominique. Ela é também a personagem de mais difícil compreensão. Dominique reconhece a capacidade criativa e a reverência, mesmo assim trabalha contra ela e parece adotar, em muitos aspectos, o caminho da nulidade. Ela joga fora a estátua que adora no poço de ventilação de sua casa; ela faz lobby para ameaçar a carreira de Roark; ela escreve elogiando a arquitetura derivativa e faz estandartes bajuladores de uma moralidade convencional para um jornal de segunda; ela se casa com um alpinista social e depois com uma pessoa que busca o poder pelo poder - tudo o que ela despreza. O que explica o seu comportamento?

 

Dominique está presa em um conflito interno entre idealismo e pessimismo[89]. Dominique é uma idealista na medida em que valoriza o melhor que os seres humanos podem criar. Ela reconhece o valor único das conquistas dos criadores e não está disposta a resignar-se à mediocridade prevalecente ao seu redor. Dominique deseja a perfeição ou nada, ela explica a Alvah Scarret; ela não pode aceitar o parcial, deixa transparecer em seus diálogos com Roark. Junto com seu idealismo, todavia, receosamente permanece uma crença (profundamente instaurada) de que os valores não podem ser alcançados no longo prazo. O bom está fadado ao insucesso. Querer algo, Dominique acredita, tornaria sua felicidade dependente de “todo o mundo” – um mundo repleto de nulidades que apenas esperam o sucesso alheio. Dominique reflete a premissa do universo malevolente: a crença de que o mundo não é fundamentalmente conducente ao sucesso e à felicidade do homem; fracasso e frustação são a norma.

Claramente, as suas premissas estão em conflito. Faz sentido aspirar por ideais somente se um indivíduo acredita que sua realização seja possível. Para fugir da contradição, Dominique priva-se da busca de valores. Sua atitude é essencialmente: por que se incomodar? “De que adianta construir para um mundo que não existe[90]? Ela não tem nenhum desejo de travar batalhas fúteis ou sofrer o prejuízo da derrota para oponentes tão desprezíveis. O idealista em Dominique torce por Roark, acreditando – ou pelo menos, esperando – que terá sucesso. O pessimista trabalha contra Roark, de modo a poupar ambos da dor maior do que ela considera a derrota inevitável e eventual[91].

Assim como a deferência deliberada de Dominique durante seu casamento com Keating expõe a falta de ego de Keating, o casamento com Wynand (um homem muito parecido com ela em certos aspectos) esclarece algumas coisas sobre ela. Wynand e Dominique admiram os valores objetivos intelectualmente, mas nenhum deles os persegue na prática de uma forma racional e saudável. Wynand busca proteger sua coleção de arte (e depois, a própria Dominique) em um santuário privado, protegido do olhar alheio; Dominique ambiciona proteger Roark do resto da humanidade, ressentindo-se dos transeuntes e de quem olhar para ele. Dominique e Wynand compartilham uma análise desanimadora das chances de sucesso dos homens de integridade, concordando que, no final, não alcançarão o sucesso. Diante dessa crença, cada qual luta contra esses homens: ele, cada escritor com opinião própria; ela, mais notavelmente, Roark. Enquanto Wynand tenta destruir homens de integridade e espera vencer, todavia “o homem que eu não conseguisse subjugar me destruiria[92]”, Dominique luta para “acabar com qualquer chance” de Roark e espera que ele seja derrotado. “Vou rezar para que você não possa ser destruído[93]. Quando Dominique vê pela primeira vez a galeria de arte de Wynand, ela pensa o pior dele pois seu julgamento impecável mostra do que ele é capaz e tudo que traiu. No decorrer do seu casamento, Dominique passa a reconhecer seu próprio erro análogo. Wynand e ela se comprometeram com o mesmo tipo de traição, ela percebe, contra eles próprios, contra as convicções do seu julgamento independente. E por causa disso, são os perdedores.

Seria incorreto descrever Dominique como uma nulidade. Suas crenças e valores não são tão de segunda mão quanto os dos outros. Embora muitas de suas ações possam levar um indivíduo a pensar o contrário, o que é crucial é que seu curso de ação não advém de dúvidas sobre seu próprio julgamento e valor pessoal (contraste Keating nesse quesito). Por que ela trabalha no Banner? Ele é a personificação da cultura de segunda mão que ela acredita não poder ser derrotada, então ela submerge em sua pobre cultura para desafiar seu poder sobre ela. Por que ela se casa com Keating? Para se autopunir, ela reconhece (aparentemente, pelo seu idealismo “insensato” de valorizar coisas). Por que ela se casa com Wynand? Como uma forma de autodestruição[94]. Sua carreira zomba de todos os valores verdadeiros; ao se tornar a “Sra Jornais Wynand[95]”, Dominique pensa que pode matar sua própria capacidade de valorizar algo. Por que ela luta com Roark? A resposta aqui é mais complexa.

O desejo predominante de Dominique de proteger o bem da profanação. (Ela destrói sua estátua de Hélio, por exemplo, para salvá-la do pior destino de degradação nas mãos dos outros). Sua cruzada contra Roark é o exemplo mais dramático disso. Por acreditar que ele não pode vencer no longo prazo, Dominique pensa que ela pode acelerar sua derrota ao desviar seus trabalhos e comissões e, assim, poupá-lo de maior sofrimento. Em um nível, Dominique está tentando se convencer de que seu idealismo não é viável; o fracasso de Roark reforçaria sua premissa de universo malévolo. Ao mesmo tempo, todavia, uma parte de Dominique reza para que ele não possa ser destruído e para provar que está errada e ter seu idealismo justificado.

O que é visível é que Dominique, em nenhum momento, rende-se às premissas das nulidades A visão dos outros não interfere em sua certeza sobre o que é real e o que é valioso. Ela simplesmente calcula mal o poder das falsas ideias. Por meio de métodos de primeira mão, ela chega à falsa conclusão sobre a eficácia daqueles métodos. Esse é um erro sério, que carrega consequências significativas, mas não é um reflexo de nulidade.

A confissão de Dominique de que querer algo a tornaria dependente de outras pessoas revela seu erro central. Na verdade, ao negar a si mesma por aquela razão, ela involuntariamente dá aos outros poder e a torna dependente deles. Ela pensa que atinge “liberdade” por nada querer, ainda assim esse abandono de seus valores somente pauta seu curso de ação aos parâmetros estabelecidos pelos outros. Diferentemente de Keating, que considera a opinião alheia o padrão definitivo de valor, Dominique os considera abertamente repugnantes. A intensidade de seu sofrimento quanto à atitude dos outros, todavia, revela que ela concede importância excessiva ás opiniões alheias. O testemunho de Dominique no caso Stoddard, condenando Roark: “quando você vê um homem jogando pérolas sem receber em troca ao menos uma costeleta de porco, não é contra o porco que você se sente indignado[96],” implica que os criadores necessitam de algo de segunda mão. Eles não necessitam. Ela pode estar certa de que a maioria dos homens não é merecedora de uma construção feita por Roark, mas ele não as constrói para eles, na origem. E o próprio merecimento deles é algo que não vem ao caso.

Roark, é claro, percebe isso desde o início. Eventualmente, Dominique também. “Você deve aprender a não ter medo do mundo”, ele diz a ela quando ela o informa de seu casamento com Keating. A não ficar à mercê dele como você está agora[97]” Quando ela visita Roark em seu local de trabalho em Ohio, ela liga tal fato ao seu exílio na pedreira[98]. Embora ela não possa suportar vê-lo reduzido a tais trabalhos vulgares, ele os aceita sem ressentimento, pois ele simplesmente ama o trabalho, o desenho e a construção. Ele percebe em seu encontro que Dominique não está pronta para ficar com ele porque, tendo inquirido bastante sobre o seu contato mais casual com estranhos, ela permanece consumida pelas respostas alheias; ela permanece com medo de “vagões-lanchonete e janelas de estranhos?[99]”. Eles não podem ficar juntos, ele explica, indicando para as ruas, “Até você parar de odiar tudo isso, parar de ter medo disso, aprender a não reparar em nada disso[100]”. Quando Dominique pergunta: “o que você está esperando?[101]”, Roark responde simplesmente que ele não está esperando. O leitor observa que ele está silencioso, mas persistentemente fazendo tudo o que pode, todos os dias, para moldar o mundo ao seu gosto. A real questão é: o que Dominique está esperando? Ela é quem tem postergado a realização de seus valores (incluindo Roark) e, por meio disso, evitado sua própria felicidade.

Embora Dominique tente por muito tempo adotar alguns dos métodos das pessoas de segunda mão, suprimindo seu próprio julgamento para adequar-se aos padrões alheios, esse curso de ação não atenua sua dor e não lhe traz felicidade[102]. Seus casamentos não extinguem sua capacidade de avaliação. Tentando o quanto pode resistir a seu idealismo, seu próprio idealismo não é reduzido. Além disso, Dominique observa Roark ter êxito – florescendo apesar dos grandes obstáculos externos: indiferença, hostilidade, mesmo campanhas organizadas para derrotá-lo. Ele é tão inflexível e idealista quanto alguém poderia imaginar, embora feliz, tendo êxito em seus termos. Roark é a refutação ambulante da premissa do universo malevolente.

Dominique aprende, por sua própria experiência e pela experiência de Roark, que ela é quem errou em seus cálculos. A felicidade não depende do endosso do mundo externo, e a pessoa independente pode suceder. A ação que sinaliza a liberação de Dominique é sua cumplicidade na execução da explosão de Cortlandt. Aqui, ela inequivocamente se alia a Roark contra os padrões da sociedade e toma ação em busca de valores genuínos. Enquanto no passado Dominique tinha medo de dividir Roark com os outros, ela agora faz propaganda de seu relacionamento na imprensa. Mesmo sua raiva contra Wynand por defender os grevistas reflete sua arrancada final e seu reconhecimento incondicional de que a integridade é possível e deveria ser demandada.

Dominique aprende que a felicidade não requer o abandono dos seus ideais e que nenhum bem pode advir de tal abandono. O que a independência, a integridade e o sucesso de Roark demonstram é que o idealismo e a realidade não estão em conflito.

Quando o rapaz, pedalando pelas trilhas, vê o Monadnock Valley, ele obtém “coragem para buscar os seus sonhos). Roark não procura inspirar ninguém[103]. Ele simplesmente vive sua vida. Ao fazê-lo em primeira mão, de forma totalmente humana, todavia, ele confirma o espírito da juventude (que é o Ayn Rand certa vez identificou como a fonte do apelo duradouro de seu romance). Esse espírito é “um senso de profunda expectativa, um sentimento de que a sua vida é importante, que as grandes conquistas estão dentro de sua capacidade, e que grandes coisas estão por vir”. Através de sua irresoluta independência, Roark mostra que todas as grandes coisas são possíveis. Realmente, para o próprio Roark, as riquezas da felicidade não são meramente possíveis; elas são realizáveis. É um universo benevolente. E a independência é essencial para colher suas ilimitadas recompensas[104].
 

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Tradução por Matheus Pacini

Revisão de Mateus Bernardino

Publicado originalmente em Essays on Ayn Rand’s The Fountainhead.

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[1] Originalmente publicado em SMITH, Tara. Unborrowed Vision: Independence and Egoism in The Fountainhead,” Essays on Ayn Rand’s The Fountainhead, ed. Robert Mayhew, New York: Lexington Books. 2007

[2] RAND, Ayn. A virtude do egoísmo: o princípio moral da ética objetivista. Porto Alegre: Sulina, 2013. p. 7-15

[3] RAND, Ayn. Objectivist Ethics. p. 28

[4] RAND, Ayn. A Nascente. São Paulo: Arqueiro, 2013. Vol II, p. 333. Para mais sobre a natureza e sobre os vários tipos de escolhas de segunda mão, ver: PEIKOFF, Leonard. Objectivism: The Philosophy of Ayn Rand New York: Dutton, 1991. p. 253-258. Ver também:  SMITH, Tara. Ayn Rand’s Normative Ethics: The Virtuous Egoist. New York: Cambridge University Press, 2006. cap 5.

[5] Para o termo “second-handers”, o tradutor decidiu utilizar o termo “nulidade”. Agradeço a Roberto Rachewski por uma breve explicação: Ayn Rand usava o termo "second-handers" para definir o que eu chamaria de "nulidades". Aqueles que nada produzem, nada acrescentam, duvidam de tudo, jogam contra, criam intrigas, parasitam mentes e valores alheios e quando resolvem ter uma iniciativa decidem agir fazendo exatamente o oposto do que deveriam. Preocupam-se muito mais com a opinião alheia, com o que podem pensar dele do que com a realidade, com seu propósito de vida e com usar sua mente racionalmente com independência e confiança. "Second-handers" estão sempre à espera de um milagre, um ato revelatório, uma opinião esclarecedora, uma mão salvadora, alguém a quem recorrer para não terem que decidir por si mesmos, para não terem que se responsabilizar caso não obtenham o sucesso almejado. Afinal, o que os outros vão pensar deles se fracassarem?

[6] RAND. A virtude do egoísmo: o princípio moral da ética objetivista. p. 217

[7] RAND. A virtude do egoísmo: o princípio moral da ética objetivista. p. 213-221. HARRIMAN, David. Journals of Ayn Rand. New York: Dutton, 1997. p. 678.

[8] RAND. A virtude do egoísmo: o princípio moral da ética objetivista. p. 13

[9] RAND. A Nascente. Vol I, p. 175

[10] RAND. A Nascente. Vol II, p. 335. Para mais sobre relacionamentos convenientemente independentes com outras pessoas, ver: SMITH. Ayn Rand’s Normative Ethics, cap. 5.

[11] PEIKOFF. Objectivism. p. 251

[12] RAND. A Nascente. Vol II, p. 331. No discurso final de defesa no tribunal, Roark disse algo importante e que clarifica a visão de Ayn Rand sobre o tema. Para uma discussão sobre a propaganda sensacionalista de interdependência dos homens, ver: PEIKOFF. Objectivism. p. 257–58, e SMITH. Ayn Rand’s Normative Ethics. cap. 5.

[13] Ver: RAND. The Objectivist Ethics; PEIKOFF. Objectivism. p. 206–49 e SMITH, Tara Smith. Viable Values: A Study of Life as the Root and Reward of Morality. Lanham, MD: Rowman & Littlefield, 2000. p. 83–151.

[14] Estritamente falando, algo precisa ser reconhecido por uma pessoa como um valor para que seja efetivamente um valor para ela. Ver: PEIKOFF. Objectivism. p. 241–43. Para uma discussão sobre valores opcionais que podem objetivamente variar para indivíduos distintos, ver: SMITH. Viable Values. p. 99–101, 127–28.

[15] Para mais sobre a natureza fundamental da racionalidade, ver: PEIKOFF. Objectivism. p. 116–21, 152–63; e SMITH. Ayn Rand’s Normative Ethics. cap 3.

[16] RAND. A Nascente. Vol I, p. 345

[17] RAND. A Nascente. Vol II, p. 333

[18] A confirmação necessária sobre a natureza de primeira linha não requer que uma pessoa seja o mais bem sucedido dos traders ou tenha o conhecimento dos sábios. Para mais sobre este aspecto da independência ver: PEIKOFF. Objectivism. p. 257–58; e SMITH. Ayn Rand’s Normative Ethics. cap 5.

[19] RAND. A Nascente. Vol I, p. 15

[20] RAND. A Nascente. Vol I, p. 299

[21] RAND. A Nascente. Vol I, p. 351

[22] RAND. A Nascente. Vol II, p. 139

[23] Para uma discussão sobre este princípio, ver: PEIKOFF. Objectivism. p. 342–43. Rand usa esse termo nas tiras de jornal relativas à Atlas Shrugged. Ver: HARRIMAN. Journals of Ayn Rand, p. 425, 555–56. A premissa do universo benevolente reflete-se, ao longo de diversas passagens da obra A Revolta de Atlas, na resposta de Ragnar para a questão de Dagny sobre o risco que ele toma, na explicação de John Galt de sua atitude relativamente a dor, e na compreensão de Dagny que “nós nunca devemos levar qualquer uma dessas coisas a sério.”

[24] RAND. A Nascente. Vol I, p. 413-416

[25] RAND. A Nascente. Vol II, p. 108

[26] RAND. A Nascente. Vol II, p. 109

[27] Independência e integridade são duas das maiores virtudes na teoria moral de Ayn Rand. Junto com a honestidade, justiça, produtividade e orgulho, são as reflexões da virtude fundamental da racionalidade; cada um, para poder ser completamente praticada, requer todas as outras. Ver discussões sobre todas as virtudes em: PEIKOFF. Objectivism. p. 250–324; e SMITH. Ayn Rand’s Normative Ethics.

[28] RAND. A Nascente. Vol I, p. 179

[29] RAND. A Nascente. Vol I, p. 197

[30] RAND. A Nascente. Vol I, p. 28

[31] RAND. A Virtude do Egoísmo. p. 64-75. Veja também o discurso de John Galt em A Revolta de Atlas.

[32] RAND. A Nascente. Vol I, p. 97

[33] RAND. A Nascente. Vol II, p. 331

[34] RAND. A Nascente. Vol I, p. 431

[35] RAND. A Nascente. Vol I, p. 343

[36] Para explicações sobre como um egoísta poderia estar disposto a morrer por outra pessoa, ver: RAND. A Virtude do Egoísmo. p. 64-75; SMITH. Viable Values. p. 143–45. Sobre a amizade de maneira geral, ver: SMITH, Tara. Egoistic Friendship. American Philosophical Quarterly 42, no. 4 (Outubro, 2005). p. 263–77.

[37] RAND. A Nascente. Vol I, p. 36

[38] A Revolta de Atlas inclui diversas passagens que enfatizam a necessidade de ver as coisas por si próprio. Ver mais especialmente as trocas entre Dagny e Akston e entre Dagny e Mullignan, dizendo respeito a sua decisão sobre como permanecer no Vale.

[39] RAND. A Nascente. Vol II, p. 335

[40] RAND. A Nascente. Vol I, p. 31

[41] RAND. A Nascente. Vol I, p. 79

[42] RAND. A Nascente. Vol I, p. 205

[43] RAND. A Nascente. Vol II, p. 249

[44] RAND. A Nascente. Vol I, p. 288

[45] RAND. A Nascente. Vol I, p. 32

[46] RAND. A Nascente. Vol I, p. 78

[47] RAND. A Nascente. Vol II, p. 249

[48] RAND. A Nascente. Vol I, p. 196

[49] RAND. A Nascente. Vol I, p. 424

[50] RAND. A Nascente. Vol I, p. 20

[51] RAND. A Nascente. Vol I, p. 65

[52] RAND. A Nascente. Vol II, p. 50-53

[53] RAND. A Nascente. Vol I, p. 409

[54] RAND. A Nascente. Vol I, p. 92

[55] RAND. A Nascente. Vol I, p. 92

[56] RAND. A Nascente. Vol II, p. 40

[57] RAND. A Nascente. Vol II, p. 41-48

[58] RAND. A Nascente. Vol II, p. 7

[59] RAND. A Nascente. Vol II, p. 22

[60] RAND. A Nascente. Vol II, p. 27

[61] Sua visão é comparável com o tipo de egoísmo do filósofo Thomas Hobbes.

[62] RAND. A Nascente. Vol II, p. 310

[63] É justamente porque as noções convencionais de egoísmo não fazem verdadeiramente avançar o autointeresse das pessoas que Ayn Rand acaba intitulando seu livro de A Virtude do Egoísmo, ao invés de adotar qualquer título mais palatável para sua visão e submeter o termo “egoísmo” a esses que não entendem sua verdadeira natureza e requerimentos. Ela pleiteia que cada pessoa persiga sua própria felicidade e argumenta que apenas um egoísmo verdadeiro – o egoísmo racional do indivíduo independente – permite avançar na direção deste fim.

[64] Uma defesa integral desta última reivindicação vai além do escopo e do propósito deste artigo. Uma vez que o altruísmo não é a única alternativa ao egoísmo (sacrifício por si mesmo ou em nome de Deus, por exemplo, também são possíveis), o fato de que o altruísmo destrói a independência não sustenta, por si só, a forte reivindicação de que a independência requer o egoísmo. Qualquer apelo ao sacrifício é igualmente incompatível com a independência, todavia, como deve ficar claro assim que nos focarmos diretamente no conflito entre independência e altruísmo.

[65] As palavras que têm raízes latinas e francesas são apresentadas no dicionário Oxford English Dictionary. New York: Oxford University Press, 1971.

[66] Rand, “Faith and Force: The Destroyers of the Modern World,” Philosophy: Who Needs It. New York: Bobbs-Merrill, 1982. 74. Ver também: RAND. The Objectivist Ethics. p. 37–38. Esta caracterização é bastante peculiar em Ayn Rand. Ver, por exemplo, entre os estudiosos da contemporâneos da ética, NAGEL, Thomas. The Possibility of Altruism. Oxford: Clarendon Press, 1970. p. 79; BOND. E.J. Theories of the Good Encyclopedia of Ethics, ed. Lawrence C. Becker. New York: Garland, 1992. vol 1. p. 410; PORTER, Burton F. The Good Life. New York: Ardley House, 1995. P. 283; BLUM, Lawrence. Altruism, Encyclopedia of Ethics, ed. Becker vol. 1. p. 35.

[67] RAND. A Nascente. Vol I, p. 324

[68] Essa forma de entender a atitude de Toohey foi sugerida por Allan Gotthelf.

[69] RAND. A Nascente. Vol I, p. 268

[70] RAND. A Nascente. Vol II, p. 281

[71] RAND. A Nascente. Vol I, p. 246

[72] Toohey apresenta uma semelhança óbvia, em suas motivações mais profundas, com o personagem James Taggart de A Revolta de Atlas. Em seus ensaios, Rand observa que “Os advogados do altruísmo são motivados não pela compaixão pelo sofrimento, mas pelo ódio pela vida humana”, e que “O altruísmo apoia a morte como objetivo final e como um padrão de valor”. Ver: An Untitled Letter. Philosophy: Who Needs It. p. 123; e The Objectivist Ethics. p. 38, ênfase no original.

[73] Um egoísta pode eventualmente escolher, de forma consistente com seu próprio interesse, fazer coisas para os outros. Ternura e caridade, por exemplo, não são coisas contraditórias perante o egoísmo racional desde que elas não envolvam o sacrifício pessoal. Ver: RAND. A Ética em Emergências in A Virtude do Egoísmo, p. 64. SMITH. Ayn Rand’s Normative Ethics. Cap 10; e a palestra “Virtues or Vices? Kindness, Generosity, and Charity,” audio disponível em Ayn Rand Bookstore (www.aynrandbookstore.com).

[74] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. Vol. III, p. 354

[75] Para uma discussão sobre a ameaça que a independência de julgamento coloca aos ideais políticos, ver:  GHATE, Onkar. Breaking the Metaphysical Chains of Dictatorship: Free Will and Determinism in Anthem,” em Robert Mayhew, ed., Essays on Ayn Rand’s AnthemLanham, MD: Lexington Books, 2005. p. 225–54.

[76] Este parágrafo deve créditos à aula de Darryl Wright sobre “Razão e Egoísmo”, áudio disponível na Ayn Rand Bookstore.

[77] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Vol. III, p. 353. Visto que a ação humana é volitiva e que o corpo e a mente de uma pessoa estão integrados em um todo indivisível, nenhum código moral pode fazer apelo ao desempenho de determinadas ações físicas (como a doação de dinheiro aos pobres) sem correlatamente (ou ao menos implicitamente) fazer também apelo ao desempenho de algumas faculdades mentais (como colocar a fé em Deus, dispensando as prioridades lógicas e etc).

[78] RAND. A Nascente. Vol II, p. 283

[79] RAND. A Nascente. Vol II, p. 286

[80] RAND. A Nascente. Vol I, p. 64

[81] RAND. A Nascente. Vol I, p. 256-260

[82] Rand observa alhures que “A culpa é o estoque do altruísmo nas trocas, e induzir a culpa é seu único meio de se autoperpetuar”. “Moral Inflation,” Part II, Ayn Rand Letter III, 13, 2.

[83] RAND. A Nascente. Vol I, p. 255

[84] RAND. A Nascente. Vol II, p. 282

[85] RAND. A Nascente. Vol I, p. 64

[86] Rand identifica, entre as principais consequências do altruísmo, a falta de orgulho-próprio e a falta de respeito pelos outros. RAND. A virtude do egoísmo. p. 64

[87] RAND. A Nascente. Vol I, p. 401

[88] Isto não quer dizer que qualquer um que escolha cometer suicídio é altruísta ou tenha razão para ser altruísta. Em certas circunstâncias, o suicídio pode ser racional, uma escolha egoísta. A questão é simplesmente que para uma pessoa que verdadeiramente não valoriza sua vida, a natureza suicida do altruísmo não torna o altruísmo irracional. Para discussões mais profundas sobre o papel do suicídio na ética objetivista, ver: SMITH. Viable Values. p. 143–45.

[89] Para uma breve discussão sobre este tema, ver: PEIKOFF. The Art of Thinking. Áudio da palestra nº 3 disponível na Ayn Rand Bookstore. (Este tópico ocupa apenas um trecho da aula)

[90] RAND. A Nascente. Vol I, p. 394

[91] Aqui eu emprego “pessimismo” apenas por uma conveniência de resumo; estritamente alando, pessimismo não é equivalente à premissa de universo malévolo. Ver: PEIKOFF. Objectivism. p. 343.

[92] RAND. A Nascente. Vol II, p. 127

[93] RAND. A Nascente. Vol I, p. 300

[94] RAND. A Nascente. Vol II, p. 71

[95] RAND. A Nascente. Vol II, p. 72

[96] RAND. A Nascente. Vol I, p. 393

[97] RAND. A Nascente. Vol I, p. 417

[98] RAND. A Nascente. Vol I, p. 215

[99] RAND. A Nascente. Vol II, p. 322

[100] RAND. A Nascente. Vol II, p. 91

[101] RAND. A Nascente. Vol II, p. 88

[102] Nós devemos notar que, todavia, sua supressão do julgamento é diferente daquele de uma pessoa de segunda linha, que não apresenta qualquer independência de julgamento a suprimir. Dominique julga continuamente, frequentemente em silêncio. Devo agradecer a Greg Salmieri por apontar este elemento de compreensão.

[103] Em determinado ponto, ele observa que ele não deseja “ser símbolo de nada”. RAND. A Nascente. Vol II, p. 247

[104] Obrigado a Harry Binswanger, Allan Gotthelf, e Robert Mayhew pela proveitosa discussão de minhas últimas ideias dedicadas neste ensaio, e a Robert Mayhew, Greg Salmieri e Ann Ciccolella pelos proveitosos comentários na submissão deste artigo.