Agustina Vergara Cid



Que venham os robôs: por que a automação é boa?


Prevê-se que o tamanho do mercado de automação global alcance US$ 200 bilhões até 2020[1]. Quanto mais indústrias utilizarem máquinas e computadores, mais transformações veremos no mercado de trabalho.

Esse é um motivo porque muitos temem que as máquinas tomarão nossos empregos, deixando-nos na fila do desemprego. Mas a automação já ocorre há séculos – mais especificamente, desde a Revolução Industrial. Desde então, alguns previram que a automação causaria desemprego em massa, tornando os seres humanos obsoletos. E hoje, mesmos CEOs de grandes empresas como Facebook[2] e Microsoft[3] fazem afirmações similares – agregando que, dessa vez, o impacto de novas tecnologias como a IA será muito maior que o de inovações anteriores, posto que muitos empregos antes considerados impossíveis de automatizar, hoje já não mais o são. Esse alerta vem de conhecedores de tecnologias emergentes, logo, parece haver motivo legítimo de preocupação.

Antes de mais nada, precisamos de uma compreensão clara do que ocorreu no passado: como os padrões tradicionais de emprego mudaram com a incorporação de novas tecnologias? Como a automação afeta a vida dos indivíduos?

Em grande medida, a automação nos séculos XIX e XX retirou trabalhos braçais, rotineiros e monótonos da vida humana. A mão de obra transferiu-se da agricultura para a manufatura têxtil e comércio, os quais requeriam menos esforço físico. E, apesar de grande parte da manufatura têxtil estar sendo automatizada, o número de trabalhadores na indústria têxtil cresceu, já que o aumento na produtividade levou a uma redução do custo do vestuário, tornando-o mais acessível para as pessoas, elevando a demanda e a necessidade de mais trabalhadores.

Além disso, como notado por Robert Hessen, o sistema fabril ajudou a aumentar o padrão de vida geral, bem como reduzir as taxas de mortalidade infantil. Ademais, ele ofereceu um meio de sobrevivência a milhares de indivíduos que, doutra forma, teriam perecido em seus empregos insalubres e perigosos. Durante essa época, as pessoas não apenas sobreviveram à automação, mas foram capazes de melhorar suas vidas por causa da automação[4].

O princípio é claro: a tecnologia permitiu a criação de mais riqueza ao aumentar a produtividade do esforço humano.

No setor de mineração, os mineradores não precisam mais cavar ou encarar diversos riscos: já existem caminhões, escavadeiras, tratores, trens e minas controlados à distância. No setor agrícola, os agricultores não precisam mais gastar dias sob o sol escaldante nas colheitas: já existem máquinas que assumem tal trabalho, com mínima supervisão requerida. As fazendas produzem mais em menos tempo, com praticamente nenhum dano físico aos agricultores.

Quando os caixas eletrônicos foram introduzidos na década de 1970, algumas pessoas previram que isso marcaria o fim dos caixas. No fim das contas, elas estavam erradas: o aumento da eficiência e o baixo custo dessas máquinas levaram os bancos a abrirem mais filiais, contratando mais caixas (nos Estados Unidos, o número de empregos para caixas aumentou em 50 mil de 1980 a 2010). Mas o trabalho deles mudou: sua tarefa evoluiu da entrega de dinheiro à venda de serviços financeiros, um trabalho mais intelectual e menos monótono, que requeria habilidades mais complexas.[5]

O princípio é simples: a tecnologia permitiu a criação de mais riqueza ao aumentar a produtividade do trabalho humano. Mais riqueza está sendo criada com menos esforço humano – gerando novas oportunidades para as pessoas perseguirem outras tipos de trabalho produtivo e criar outros valores. Graças ao fato de a tecnologia assumir trabalhos perigosos, insalubres ou monótonos, a maioria dos indivíduos tomou a iniciativa de migrar para ocupações mais recompensadoras e mais bem pagas, às vezes, na mesma indústria, às vezes, em outras indústrias. No final do século XVIII, 90% da população trabalhadora americana trabalhava em fazendas[6]. Hoje, menos de 2%[7]. Vimos os 88% restantes da população morrendo de fome ou mendigando nas ruas? Não – esses 88% passaram a trabalhar em outras indústrias.

Graças à tecnologia que aumenta a produtividade de nosso trabalho, trabalhamos menos horas do que indivíduos no passado[8], e ganhamos mais[9]. Temos mais riqueza, bem como mais tempo para o lazer. Em parte, isso é possível porque novas indústrias emergiram. Considere a indústria do videogame. Ela emprega milhares de pessoas ao redor do mundo[10] em ocupações inimagináveis há 30 anos. Por que ela se desenvolveu e qual é a razão de seu sucesso? Porque, hoje, as pessoas têm tempo para jogar videogames, dinheiro para comprá-los e necessidade de entretenimento de qualidade.

O fato é que a automação torna a vida muito mais simples e interessante. Veja, por exemplo, o comércio eletrônico. As pessoas não precisam mais passar horas visitando lojas em busca dos itens de que precisam. Disponíveis para compra com apenas um clique e, com frequência, entregues dentro de dois dias, esses itens são despachados de estoques automatizados com sistemas de embarque computadorizados. Mas o que dizer dos alertas sobre a automação vindos de CEOs de companhias de tecnologia? É verdade que, dessa vez, é diferente?

Sim, de certa forma, é verdade. A tecnologia está assumindo tarefas que não são primariamente físicas, mas intelectuais – tais como alguns aspectos do exercício da advocacia e da medicina. Por outro lado, todavia, é provável que, desta vez, não seja diferente. Como Peter Thiel nota em seu livro De zero a um, computadores não substituem, mas sim complementam, os seres humanos. “Seres humanos e máquinas são bons em coisa fundamentalmente diferentes”, argumenta ele. Humanos são bons em planejamento e tomada de decisões, mas não no processamento de grandes quantidades de dados – já os computadores são bons nisso, mas não naquilo. Avanços em IA e software são positivos, mas de nada servem sem o engajamento humano.”[11]

Thiel nos pede que pensemos nas tarefas de certos profissionais. Por exemplo, advogados devem ser capazes de buscar soluções para problemas específicos e complexos com muitas variáveis, e devem ser capazes de comunicar suas visões de diversas formas, dependendo de se estão falando com um cliente, um juiz, ou outro advogado. Médicos têm de analisar e integrar uma ampla gama de fatores, de sintomas físicos a aspectos psicológicos, de modo a realizar um diagnóstico e, então, ter a capacidade de comunicá-lo com pacientes leigos em sua área. “Computadores podem ser capazes de executar algumas tarefas, mas não podem combiná-las de forma efetiva. Tecnologias melhores (nessas ocupações) não substituirão profissionais, mas lhes permitirão fazer mais”[12], explica Thiel. E a questão do futuro, ele conclui, não é quais problemas podem ser resolvidos diretamente por computadores, mas “como os computadores podem ajudar os humanos a resolverem problemas?”[13]

Um estudo recente do Fórum Econômico Mundial aponta na mesma direção, prevendo que, nos próximos quatro anos, 75 milhões de empregos serão perdidos para a automação – mas 133 milhões de novos empregos surgirão, enquanto uma nova divisão de trabalho entre homem e máquina é estabelecida.

O ponto central é que a mente humana é a origem da tecnologia - e o seu propósito é melhorar a vida humana, e não destruí-la.

Em outras palavras, o princípio permanece o mesmo: novas tecnologias continuarão a aumentar a produtividade do trabalho humano. Logo, como disse o economista James Bessen, o problema da automação não é o “desemprego em massa”, mas sim a transição das pessoas para outros empregos.” Essa transição pode não ser fácil, e requer que os indivíduos tenham a mentalidade e atitude corretas para encarar a situação e seguir adiante.

É importante entender que a automação não é nossa inimiga e que, para prosperarmos, cada um de nós deve estar disposto a assumir a responsabilidade por sua vida e sua carreira. Tal responsabilidade engloba pensar ativamente no longo prazo, analisar as opções de emprego no mercado e optar por formação em indústrias emergentes. Contudo, para tal, é necessária total independência política. Enquanto eles forem livres para decidir, é bobagem pensar que os avanços tecnológicas levarão ao fim do mercado de trabalho. Mas precisamos ser empreendedores, dispostos a assumir riscos. Devemos estar dispostos a tomar as rédeas de nossa vida e seguir em frente, e não ficar perplexo frente à possibilidade de um robô tomar nosso emprego algum dia. Se você falhar nisso, ficará para trás num mercado de trabalho cada dia mais dinâmico.

Por exemplo, imagine um datilógrafo no início dos anos 1990, testemunhando o surgimento do PC e dos processadores de palavras e percebendo que os datilógrafos se tornariam obsoletos. É um momento crítico. Um caminho inteligente a seguir seria aprender a nova tecnologia e se tornar proficiente no uso do Microsoft Office. Uma ampla gama de oportunidades mais produtivas e recompensadoras de emprego se abririam para ele, tais como a de criar planilhas no Excel ou documentos no Word.

O ponto central é que a mente humana é a origem da tecnologia - e o seu propósito é melhorar a vida humana, e não destruí-la. A automação é uma forma de inovação e deveríamos aceitá-la, valorizá-la e nos adaptar a ela. Ela nos permite florescer. Nas palavras de um herói do romance A revolta de Atlas, “a máquina, forma concretizada de uma inteligência viva, é o poder que amplia o potencial da sua vida aumentando a produtividade do seu tempo”.

A tecnologia permite uma sociedade mais produtiva onde as inovações podem ocorrer – essa é a natureza do progresso – mas em que seus membros, se livres politicamente, são capazes de continuar a inovar, treinar e progredir. A criatividade humana é ilimitada – quem sabe quais indústrias serão criadas no futuro, e quais empregos serão demandados no futuro? O céu é o limite.

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“The Ayn Rand Institute has granted permission to Objetivismo Brasil to translate this article to Portuguese from its original English version, but does not directly endorse the translation nor guarantees its accuracy, completeness or reliability.

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Traduzido por Matheus Pacini.

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[1] "Global automation market size in 2016 and 2020, by segment,” Statista.

[2] TSUKAYAMA, Hayley. “Mark Zuckerberg Tells Harvard Grads That Automation Will Take Jobs, and It’s Up to Millennials to Create More,” Washington Post, 25 de maio de 2017. 

[3] BORT, Julie. “Bill Gates: People Don’t Realize How Many Jobs Will Soon Be Replaced by Software Bots,” Business Insider, 13 de março de 2014.

[4] MAJEWSKI, John “How the Industrial Revolution Raised the Quality of Life for Workers and Their Families,” Foundation for Economic Education, 1 de julho de 1986.

[5] AUTOR, David H. “Why Are There Still So Many Jobs? The History and Future of Workplace Automation,” Journal of Economic Perspectives 29, no. 3 (2015): p. 3-30.

[6] SPIELMAKER, D. M. “Farmers & the Land,” Growing a Nation Historical Timeline.

[7] "Employment in Agriculture (% of Total Employment),” Worldbank.org.

[8] "Hours worked, 1950-2016,” Organisation for Economic Co-operation and Development.

[9] "Total annual compensation per full-time equivalent employee in the United States from 2000 to 2016 (in U.S. dollars),” Statista.

[10] TAKAHASHI, Dean. “Where in the World Are the Game Jobs?”VentureBeat, 23 de fevereiro de 2017.

[11] THIEL, Peter e MASTERS, Blake. Zero to One: Notes on Startups, or How to Build the Future. New York: Crown Business, 2014, p. 141-50.

[12] THIEL, Peter e MASTERS, Blake. Zero to One: Notes on Startups, or How to Build the Future. New York: Crown Business, 2014, p. 147-48.

[13] THIEL, Peter e MASTERS, Blake. Zero to One: Notes on Startups, or How to Build the Future. New York: Crown Business, 2014, p. 150.