Tom Bowden



O tribalismo nos divide. Apenas o individualismo pode nos unir.


Ao nosso redor, existem diversas tendências dividindo os americanos – e o mundo – em campos opostos. A “política de identidade”, por exemplo, segrega indivíduos em grupos baseados em gênero, raça ou orientação sexual, como se tais características de fato influenciassem as suas posições políticas. Grupos abertamente racistas, como o dos supremacistas brancos, ganharam a atenção do público. Na esfera internacional, movimentos separatistas buscam a secessão enquanto a administração Trump promove diversas políticas “nós versus eles”, tais como tarifas protecionistas, que levam a guerras comerciais.

O que está por trás dessas tendências? Nos últimos dias, li o texto Balcanização global, publicado por Ayn Rand em 1977, que é particularmente relevante para a reflexão desse texto. O que vemos hoje é essencialmente o mesmo fenômeno por ela analisado: o surgimento de uma forma distinta de coletivismo dentro das sociedades ocidentais, conhecido como “tribalismo”.

Ayn Rand foi muito além das manchetes dos jornais, identificando as causas essenciais e as implicações de longo prazo do fenômeno, de modo que a sua análise filosófica ainda se aplica nos dias de hoje. Aqui, destacarei alguns pontos de seu denso ensaio que têm relevância direta às tendências atuais, na esperança de que você decida ouvir a palestra original ou ler o ensaio no livro The Voice of Reason.

“Balcanização” e tribalismo

O conceito de “balcanização” no título do ensaio ecoa os conflitos históricos na Península Balcânica que se seguiram à divisão do Império Otomano em pequenas nações belicosas durante o século XIX. Os líderes europeus, observou Rand, “orgulharam-se quando conseguiram, após a I Guerra Mundial, unir a maioria das tribos balcânicas em dois grandes países: Checoslováquia e Iugoslávia.”2 Chega-se aos anos 1970, todavia, e não apenas as tribos balcânicas ainda eram hostis entre si, mas o mundo tinha sido varrido por episódios similares de separatismo, em especial, a ameaça de secessão de Quebec do Canadá.[1]

Rand observou que esses movimentos separatistas eram explicados nos jornais por referência à “etnicidade”, um termo que, na visão de Rand, servia para encobrir o racismo – “racismo mais tradição”, como ela colocou. Mas muito mais que delimitar o problema em linhas étnicas, ela estava interessada no fenômeno mais amplo do tribalismo – e sua natureza, causas e efeitos práticos. Seu ponto mais amplo era que o tribalismo é essencialmente anti-intelectual, atraente para um tipo particular de mentalidade passiva que se sente mais confortável em uma sociedade estagnada, dominada pela tradição, do que em uma cultura vibrante, inovadora e racional.

Qual é o apelo do tribalismo?

Uma tribo é um grupo social unido por alguma combinação de raça, ascendência, local de nascimento, formação religiosa/tradicional ou outras características não escolhidas. Os tribalistas aceitam e se adaptam passivamente às normas do grupo, normalmente transmitidas de geração para geração: costumes/tradição, culinária, música e dança, idioma e credo religioso. Tribos devem ser distinguidas de associações voluntárias baseadas em valores escolhidos, tais como a força de trabalho de uma empresa, uma fraternidade ou um grupo de leitura. Essa distinção de Rand é útil por uma série de razões.

Primeiro, ela afirma o valor positivo da cooperação social e da ação em grupo na busca de valores racionais. Penso que isso seja importante porque Rand é acusada de defender uma versão selvagem de individualismo, uma postura de “lobo solitário” que não vê valor na colaboração com os outros. Mas, é claro, como Rand reconheceu em todos os seus escritos, praticamente tudo de valor na moderna sociedade civilizada envolve atividades voluntárias, cooperativas, tais como comércio, envolvimento cívico e relacionamentos pessoais.

Segundo, sua distinção sugere questões adicionais, tais como: o que atrai as pessoas a grupos centrados em características não escolhidas? Que valor tais tribos oferecem? Segundo Rand, o apelo do tribalismo advém, em última instância, do colapso da filosofia e do fortalecimento consequente do irracionalismo e do coletivismo, tendências antigas que levaram o indivíduo moderno a se sentir impotente. “Se os homens aceitam a noção de que a razão não é válida”, perguntou ela, “qual será o seu guia, e como eles deverão viver?”

Obviamente, eles procurarão unir-se a algum grupo – qualquer grupo – que clamar a habilidade de liderá-los, oferecendo algum tipo de conhecimento adquirido por meios não especificados. Se os homens aceitam a noção de que o indivíduo é impotente, intelectual e moralmente, que ele não tem mente ou diretos, que ele é um nada, enquanto o grupo é tudo, e seu único significado moral está no serviço abnegado ao grupo – eles serão direcionados obedientemente a se unir ao grupo. Mas, que grupo?

Que grupo, então? Podemos ver como as batalhas tribais que nos rodeiam refletem a tendência identificada por Rand, atraindo pessoas que preferem “um status fisiologicamente determinado e automaticamente concedido, em vez de um status que tenham de conquistar.”

Tribalismo é um sinal de retrocesso

O tribalismo tem uma “história de guerra sangrenta e sem fim”, observou Rand, “não por acidente, mas devido à sua própria natureza.”

Não há forma mais garantida de contaminar a humanidade com ódio – ódio bruto, cego e virulento – do que dividi-la em tribos ou grupos étnicos. Se um homem crê que seu próprio caráter é determinado no nascimento de forma desconhecida e inefável, e que os caracteres de todos os desconhecidos são determinados da mesma forma – então, nenhuma comunicação, entendimento ou persuasão é possível entre eles, apenas medo, suspeita e ódio mútuos. A lei tribal ou étnica sempre existiu, de uma forma ou outra, em todas as partes do mundo, ao longo da história humana. O histórico de ódio é sempre o mesmo. Os piores tipos de atrocidades foram perpetrados durante guerras étnicas (incluindo as religiosas). Um exemplo recente em grande escala foi a Alemanha Nazista.

Embora Rand identificasse as raízes centrais do tribalismo nas doutrinas abstratas do irracionalismo e coletivismo, ela argumentou que, para tais doutrinas subjugarem uma sociedade científica e tecnologicamente avançada, elas tinham de ser implementadas na política. Tanto em sua época como hoje, o fator político por trás do renascimento do tribalismo é a “economia mista”, a combinação de liberdade com controles governamentais que caracteriza os Estados Unidos e muitas outras sociedades modernas. Uma economia mista, declara Rand, “desintegra um país numa guerra civil institucionalizada de grupos de pressão, cada qual lutando por favores legislativos e privilégios especiais à custa uns dos outros.”

Não há necessidade histórica de nenhuma das coisas (remetendo ao parágrafo anterior), ela observou, pois como o homem tem livre-arbítrio. Mas a chave para avançar a sociedade no longo prazo, ela argumentou, é entender que as causas de tais tendências são, em essência, filosóficas.

Desde a época de Rand, o fenômeno do tribalismo sofreu metástases. Ele continua a incluir conflitos entre grupos “étnicos”, mas passou a incluir também conflitos culturais e políticos liderados por representantes autodenominados de gêneros, raças e orientações sexuais diferentes. Intelectuais públicos pressionam por segmentação crescente e multissetorial da sociedade em identidades de grupo.

Raramente mencionado, e muito menos tomado seriamente, é a noção de que ideias e princípios podem, e deveriam, unir indivíduos de todos os tipos físicos e contextos culturais, em prol da vida e felicidade do indivíduo.[2] O “caldeirão cultural” americano é hoje motivo de zombaria.[3]

Para Rand, o único caminho era rejeitar a perspectiva tribal e, em vez disso, entender e adotar valores racionais. Ela defendeu ideais positivos que valem a pena perseguir, ideais poderosos o bastante para se contraporem às tendências tribais.

Individualismo e capitalismo: antídotos contra o tribalismo

O que, na visão de Rand, é a solução para a propagação do tribalismo? Em poucas palavras: individualismo e capitalismo.

O indivíduo de autoestima e autoconfiança é um homem condenado ao martírio sob a lei tribal, Rand argumentou, dado que às formas tradicionais e tribais paralisa sua mente e limita seus horizontes. Os Estados Unidos, escreveu ela, é a nação do indivíduo e foi “extremamente importante que ela tenha se colocado como arqui-inimiga e destruidora da etnicidade, abolindo castas e qualquer tipo de títulos herdados, não reconhecendo grupos como tais, respeitando apenas o direito do indivíduo de escolher as associações as quais ele desejava se unir. Liberdade de associação é o oposto de etnicidade.”[4]

O sistema social voltado às necessidades dos indivíduos é o capitalismo laissez-faire – e não a economia mista atual, que Rand certa vez descreveu como “guerra civil” entre grupos de pressão. Historicamente, o capitalismo é o “único sistema que levou os homens a se unirem - formando grandes nações – e a cooperar pacificamente para além das fronteiras nacionais”, aumentando o padrão de vida e tornando “possível para homens de nacionalidades distintas, anteriormente antagônicas, viverem juntos em paz.”

Numa sociedade totalmente capitalista, Rand explicou, os indivíduos escolhem aceitar e utilizar as conquistas produtivas de outros indivíduos, com base no mérito e não em considerações de tradição ou status tribal. O somatório das realizações em todos os campos – científico, tecnológico, industrial, intelectual ou artístico – é um “uma cultura nacional civilizada e livre.”

O tribalismo divide a sociedade em grupos beligerantes; o capitalismo une as pessoas na busca pacífica de valores comuns. Rand defendia o capitalismo como um ideal moral – um ideal “desconhecido”, ela o chamava, pois a ignorância generalizada sobre sua história e benefícios o deixava vulnerável à culpa imerecida por supostos males sociais[5]. Na verdade, o capitalismo promove comércio internacional, florescimento humano e avanço sem limites.

O ensaio de Rand nos recorda de que o individualismo é o antídoto ao tribalismo. Quando você constrói o seu próprio caráter ao escrever valores racionais que avançam sua própria vida – quando você se une aos outros para perseguir e defender tais valores – quando você se livra da tradição ao abraçar as conquistas de outros indivíduos com base em seus méritos – então o tribalismo não terá mais influência sobre você. E se mais pessoas escolherem viver dessa forma, então, a influência das tribos sumirá lentamente, até desaparecer por completo.

“The Ayn Rand Institute has granted permission to Objetivismo Brasil to translate this article to Portuguese from its original English version, but does not directly endorse the translation nor guarantees its accuracy, completeness or reliability.”

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Traduzido por Matheus Pacini

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[1] Entre o ano da palestra de Rand  (1977) e os dias atuais, as tribos balcânicas continuaram a lutar, antigas nações se separaram, e nesse momento, quase 10 países coexistem em tensão na península.

[2] Na década de 1990, as guerras iugoslavas levaram à dissolução da Iuguslavia e a formação de novas nações em linhas étnicas, perpetuando as hostilidades.

[3] Em uma palestra anterior de 1972, "A Nation´s Unity", Rand discutiu em detalhe por que uma nação pode permanecer unificada apenas se o direito de cada indivíduo à busca de sua felicidade for protegido contra violação.

[4] “Tribalism had no place in the United States—until recent decades,” Ayn Rand observed in a 1973 essay. “It could not take root here, its imported seedlings were withering away and turning to slag in the melting pot whose fire was fed by two inexhaustible sources of energy: individual rights and objective law; these two were the only protection man needed.” Ayn Rand, “The Missing Link,” in Ayn Rand, Philosophy: Who Needs It (New York: Signet, 1984).

[5] RAND, Ayn. Capitalism: The Unknown Ideal. New York: Signet, 1967 Centennial edition.