Felipe Diego



O que o filme 'Aquaman' pode nos ensinar sobre política


Às vezes, é preciso se aventurar nas profundezas do oceano para perceber o que está claro em nossa frente.  Não é só belo o aforismo, como também se confirma no novo longa- metragem, Aquaman, que estreou nos cinemas brasileiros, atraindo público de todas as idades para assistir um super-herói que fala com peixes. Além de muita diversão, esse filme pode trazer bons ensinamentos de filosofia política, três deles cruciais para o entendimento das origens e consequências de qualquer maneira errada de organizar-se politicamente.

O primeiro ensinamento pode ser retirado do fato que serve de pano fundo para o roteiro clichê do filme, o grande pecado que levou Atlantis, o reino submerso, ao oceano. Antes de sua inundação, Atlantis é retratada como a capital de um império fundado em tecnologias avançadas, onde é possível ver máquinas movidas a vapor passeando pela cidade. Logo, descobrimos o motivo do desastre que a levou ao fundo do oceano: seguindo a suposta ganância do rei por mais poder, a cidade abusa de seu próprio conhecimento (ou é punida por suas próprias falhas) e é jogada aos mares pelos deuses. A interpretação do motivo exato fica a cargo do telespectador.

Uma breve análise desse mito de fundação leva a uma associação lógica da curiosidade a algo ruim, negativo; do esforço por mais capacidade e habilidade não só ao fracasso, mas à punição do destino. O pecado original de Atlantis é visto como um eco da doutrina do Pecado Original, da falha intrínseca do ser humano por ser humano. Porém, buscar sabedoria na superfície é infrutífero. Sob o contexto da filosofia política, o mesmo concreto, por outro lado, se torna muito mais revelador.

Um império é estruturado em torno de seu imperador; e Atlantis, de seu rei, Atlan. A saúde política de um estado como esse depende inteiramente das virtudes e falhas, vontades e aspirações de seu líder. Alguns homens criaram impérios, desbravando novas terras e unindo pessoas. Outros lutaram duramente para manter impérios, gerindo forças internas a ferro e fogo, mantendo o poder nas mãos de poucos, se não de um.

Para cada Rômulo temos um Remo, para cada Remo temos um Hitler. Para cada Marco Augusto temos um Nero, e para cada Oliver Cromwell temos um Richard Cromwell. Toda estrutura política erigida a partir de um tirano, morre ou vive pelas virtudes dele. Logo, no momento em que Atlan, por seus impulsos, joga Atlantis ao mar, percebemos a falha de um modelo de governo humano. O poder de jogar uma civilização ao mar; o erro de um, ser destino do resto; o arbítrio de um homem ser a vida dos outros; é como a sociedade se torna atrocidade. Nesse contexto é possível entender a força das palavras que jogam os americanos em revolução e mudam a história para melhor: gritos de igualdade no mundo de reis não fazem só sentido, fazem sonetos.

A trama do filme é construída em cima desse conflito eterno da forma monárquica de organizar a sociedade. É a vontade de Orhm, antagonista e irmão do próprio Aquaman, que representa a ameaça e é, em última instância, a virtude de nosso herói que deve se colocar como resistência. O problema surge quando, na vida real, não temos filhos bastardos de rainhas aquáticas para nos salvarem, e nem temos o poder de garantir que um dia existirão. A forma monárquica e, também, a forma tirânica, dependem da benevolência de um déspota esclarecido, da construção de civilizações com base na esperança de um bom herdeiro, ou seja, é usar cuspe para erguer a casa dos sonhos, ao invés de cimento.

Além da caracterização curiosamente exata do modelo monárquico de governo, o filme também ensina o que acontece quando o poder é concentrado nas mãos de um rei, restando apenas as tradições para controlá-lo. Essa segunda lição fica clara na tentativa do vilão de obter aquilo que quer manipulando e distorcendo regras arbitrárias adotadas por costumes. O resultado? Como na história humana, quem tem mais poder no presente usa as regras do passado para mantê-lo. E o final mais trágico possível é justamente o perseguido pelo vilão. Guerra e, consequentemente, morte.

Durante todo o filme, vemos o antagonista cumprindo os requisitos da tradição de seu povo, com o fim de lançar o mesmo na guerra exigida por sua convicção. Essas leis não o impedem de usurpar o poder de outras nações por meio de seu tridente e, muito menos, de, quando obtida força maior e mais poderosa, subjugar seus inimigos com ela. Quando analisadas fora de contexto, as “leis antigas” são criadas e estabelecidas exatamente para impedir essa forma de ação. A falha delas, tanto na guerra santa de Orhm, quanto na expansão desenfreada do parlamento inglês durante o século XVIII, mostra, todavia, a ineficiência necessária dessa forma de equilíbrio institucional, sua origem sendo um fato explicito: uma monocracia não pode ser regulada pelo respeito à regras mortas, afinal, o morto não chora a miséria dos vivos. Como diria Thomas Paine, uma não entidade não tem poder qualquer sobre uma entidade.

Isso fica perfeitamente ilustrado no final do filme, não importando o status da lei antiga que garantiria a posse do reino àquele que empunha o tridente do primeiro rei, é uma luta final que realmente demonstra o homem que pertence ao trono. Colocar como padrão a antiguidade ou tradicionalidade de uma ação, resulta num ad baculum, onde só ganha o maior concentrador de poder do presente, sendo ele adquirido por quaisquer meios, morais ou imorais. E, para o empreendimento de uma sociedade que permita a sobrevivência/florescimento moral do indivíduo, e subordine o fazer político à realização desse feito, esse resultado é o pior possível.

A terceira lição é a mais importante, uma vez que extrapola os limites da política e invade a própria investigação ética, tomando a forma do personagem feminino do filme, a princesa Mera. Ela é apresentada como uma donzela que não precisa ser salva, uma incrível lutadora e persuasiva oradora, que carrega o enredo e traz os conflitos internos dos reinos subaquáticos aos olhos de nosso protagonista. O que não sabemos, quando ela primeiro aparece, é que suas ações são traições diretas ao próprio noivo, a quem é prometida como forma de construir um pacto entre seu reino, e o reino do futuro tirano.

Nossa heroína ruma à superfície com o objetivo de evitar uma guerra que levaria ambos os povos, aquele que pertence por nascimento e o outro por promessa de casamento, a uma guerra que certamente levaria a danos irreparáveis. No entanto, apesar da impenetrabilidade superficial, a tragicidade interna da personagem se revela durante o filme.

Talvez uma das piores coisas que podem acontecer a um indivíduo é sua completa devoção a causas políticas como fim da própria existência. Essa é a essência da personagem Mera. Suas ações em nenhum momento do filme buscam beneficiá-la, mas à sociedade em que vive. Alusões ao seu dever como um dos líderes dessa sociedade são o único tipo de raciocínio permitido em sua mente. A sua própria felicidade é apenas um devaneio distante, e sua vida é definida pelo tipo de governo que a engloba. Como princesa, seu noivo não é passível de escolha; como uma boa governante dentro desse sistema, seu destino não é passível de dúvida e assim, o próprio livre-arbítrio é substituído por aquilo que a sociedade precisa ou decide.

E apesar de esse tipo de existência parecer distante, afinal, não vivemos mais numa monarquia onde cada casta tem a vida planejada pelo local de nascimento, a política está cada vez mais presente no cotidiano de todos, obrigando mudanças de escolhas e planejando a existência humana. E o mais absurdo são aqueles que, como Mera, nunca experimentaram uma realidade onde eles são os próprios construtores de seu destino, vendo tal postura com normalidade, em contra os poderes excessivos do Estado.

A tristeza de Mera por ter deixado a própria casa, por deter se aliado a alguém que não respeita, por ter golpeado o seu próprio noivo só para preservar as sociedade onde nasceu tem de servir de inspiração na luta contra o tipo de sociedade que pensa o indivíduo com roldanas para o seu funcionamento eficiente. A imagem do carneiro que caminha passivamente ao sacrifício é um dos maiores incentivos para a construção de um mundo onde isso não é nem mais regra, e nem mais necessário. Um mundo onde o ser humano é permitido agir como ser humano, usar a própria vida como padrão e a própria felicidade como fim, fugindo das tiranias e das ilusões dos benefícios da tradição, e assim conquistar o mundo onde o êxito é possível. Onde o universo pode ser benevolente.

Um mundo sem Meras, onde Orhms são impotentes e Aquamans, desnecessários; esse é o sonho, o sonho possível de uma pessoa que busca verdades até em seus momentos de risadas.

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Revisado por Matheus Pacini.

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