Stephen Hicks

Professor de Filosofia na Rockford University.

Escreveu diversos livros e artigos sobre temas como Objetivismo, empreendedorismo, ética, pós-modernismo.

Há vários artigos traduzidos ao português disponíveis na página do autor.



Johann Hamann, Johann Herder e o legado de Kant


Eu diria que, no panorama cultural alemão, Kant é quem mais se aproxima do “pensamento iluminista”. Para muitos que apreciam a sua obra, sem Kant, não haveria Iluminismo. Graças ao seu brilhantismo e fundamentalidade, ele serve de modelo para muitos estudiosos. Infelizmente, seus seguidores desenvolvem e ampliam os piores elementos de sua filosofia.

Um dos primeiros contemporâneos de Kant foi Johann Hamann (1730-1788). Assim como Kant, nasceu e viveu em Königsberg, e foi considerado por muitos de seus contemporâneos “o homem sábio do norte”. Hamann odeia as inclinações deísticas e ateísticas do Iluminismo, assim como a epistemologia da razão que leva ao deísmo e ao ateísmo. No entanto, ele não é daqueles pensadores religiosos tradicionais que simplesmente descarta a razão quando ela entra em conflito com a fé. Para ele, a razão é boa, desde que não seja vista como mais poderosa do que realmente é.

Ao contrário de Kant, Hamann afirma que a razão não é autônoma. Não é possível utilizá-la em termos de abstrações amplas para buscar verdades universais. Em vez disso, argumenta Hamann, ela é uma faculdade embutida e particular, que deriva de nossas experiências e nunca se desvincula delas.

No entanto, a experiência das coisas é individual, única, particular, pessoal e relativa: e não impessoal, abstrata e universal. A mente do homem é imagética e concreta. Logo, quando aprendemos e pensamos sobre as coisas, o melhor professor é a história e a tradição. Pouco aprendemos com a ciência e, muito menos, com a filosofia: afinal, não muito abstratas.

Como a razão é moldada por experiências concretas específicas, varia de indivíduo para indivíduo. Todos nós experimentamos coisas diferentes. Portanto, ela é muito limitada para servir de guia para a obtenção de verdades universais que possam guiar a vida dos homens. A única fonte verdadeira de orientação é, portanto, a fé religiosa. A fé é o meio básico do conhecimento. É a comunhão/conexão direta com Deus. Ler a Bíblia permite literalmente ouvir a voz de Deus. Revelação — e não razão — é a única fonte de conhecimento de Deus.

Então, como Kant, Hamann limita a razão para dar espaço à fé. Eles concordam nesse aspecto. Mas, considerando os laços de Kant com o Iluminismo, Hamann vê nele uma grande ameaça. Para ele, Kant é muito racionalista, abstrato, e atribui muito poder à razão.

Há mais evidências condenatórias sobre Kant. Ele usa a razão como guia prático para ação. Isso é ruim. No esquema kantiano, é preciso compreender racionalmente e aplicar consistentemente o imperativo categórico antes de decidir que caminho tomar. Nesse ponto, Kant atribui poder fundamental à razão. Mas para Hamann, o homem não está conectado ao mundo por meio da razão. Estamos conectados pela emoção, em especial, pelo amor: e é isso que conecta você ao universo. Como Hamann gosta de dizer "o coração bate antes que a cabeça pense".

Mas mesmo ao tornar a fé e o sentimento a conexão do homem com o mundo, Hamann não é um pensador religioso convencional, pois acrescenta um toque romântico ao seu argumento. Ele considera ser um equívoco a ideia de que existem regras estritas e pétreas que devemos seguir, ou deveres que devemos seguir sem exceção. Leia a Bíblia! A Bíblia está cheia de parábolas que ilustram exceções, paradoxos, contradições — Deus muda as regras o tempo todo! A razão exige regras, mas o coração não tem limites em sua busca apaixonada e criativa pelo divino. Paixão e criação exigem a quebra de regras, tabus e convenções. Não seguem receitas. A vida não é como uma mulher cuja virgindade você tenta proteger. Se você deseja criar vida, não pode tratar regras como "intocáveis". É preciso violá-las!

Após essa nota erótica, chega de falar de Hamann. A paixão e a força de seu argumento o tornaram extremamente influente no panteão dos grandes intelectuais alemães: Goethe, Schleiermacher, Fichte, Schelling e, especialmente, Kierkegaard. Kierkegaard foi praticamente um discípulo de Hamann.

Para além de sua influência, Hamann é fundamental para entendermos o contexto intelectual alemão. Enquanto do nosso ponto de vista (objetivistas) Kant é anti-razão e subjetivista, no contexto alemão do século XVIII, Kant representa o lado pró-razão do debate. Kant é visto como defensor da razão, da abstração e da universalidade - tudo o que Hamann rejeita. O debate é, portanto, enquadrado com os kantianos em um extremo, e os hamannianos em outro. Então, escolha.

Próximo grande nome: Johann Herder (1744-1803). Herder estudou Filosofia e Teologia na Universidade de Königsberg. Seu professor de filosofia foi Immanuel Kant. Enquanto em Königsberg, também se tornou discípulo de Hamann e, após se formar, virou clérigo luterano e um homem de letras. Ele é kantiano em seu desdém pelo intelecto, embora, diferentemente do estático e rígido Kant, agregue um componente ativista e emocionalista. "Não estou aqui para pensar", escreveu Herder, "mas para ser, sentir e viver".

O que distingue Herder dos outros não é sua epistemologia, mas sua análise da história e do destino da humanidade. Que significado — pergunta ele —, escrevendo volumosamente sobre o tema, podemos discernir na história? Tudo depende da sorte, aleatoriedade — ou existe um plano/desígnio?

Bem, existe um plano. A história, argumenta Herder, é marcada por um movimento necessário e dinâmico que leva lentamente os homens a conquistar a natureza. Esse movimento necessário culmina nas realizações da ciência, das artes e da liberdade. Até aqui, nenhuma novidade. O cristianismo luterano sustenta que o plano de Deus para o mundo concede dinâmica e direção necessárias ao desenvolvimento da história, e os pensadores iluministas projetaram a vitória do homem sobre as brutais forças da natureza.

Mas aqui está a diferença. Os pensadores iluministas presumiam uma natureza humana universal, defendendo que a razão humana poderia se desenvolver igualmente em todas as culturas. Desse modo, defendiam que todas as culturas poderiam e eventualmente alcançariam o mesmo grau de progresso e que, quando isso acontecesse, a espécie humana eliminaria todas as superstições, irracionalidades e preconceitos que separam os homens; e a humanidade finalmente alcançaria uma cosmopolita e pacífica ordem social liberal.

Não é bem assim, diz Herder. Em vez disso, cada povo, cada “volk”, possui uma cultura única. É por si só uma comunidade orgânica que se estende para trás e para frente no tempo. Cada cultura tem seu próprio gênio especial, suas próprias características. E essas culturas necessariamente se opõem. Portanto, à medida em que cada uma cumpre seu próprio destino, seu caminho único de desenvolvimento a coloca em conflito com outras culturas.

Então, perguntamos: esse conflito de culturas é ruim, é errado? Não necessariamente, diz Herder. De fato, não podemos julgar o que é errado ou o que é ruim sobre o rumo da história. Julgamentos de bom e mau são sempre definidos internamente pelos próprios padrões de uma cultura. Toda cultura só pode ser julgada por seus próprios padrões internos. Não se pode julgar uma cultura pela perspectiva de outra. Só se pode mergulhar com empatia em outra cultura, especialmente em sua cultura artística, para entender melhor o que está acontecendo lá.

No entanto, tentar entender outras culturas não é realmente uma boa ideia. Herder argumenta que a tentativa de incorporar elementos de outras culturas à própria leva necessariamente à deterioração da própria cultura. Para ser vigoroso, criativo e animado é preciso mergulhar em sua própria cultura e absorvê-la.

E para os alemães, dadas suas tradições culturais, a tentativa de enxertar o Iluminismo na sua cultura levaria ao desastre. O povo alemão não é adequado para sofisticação, liberalismo e ciência. O povo alemão deve manter suas tradições locais, seu idioma e sua paixão. Para os alemães, a cultura local é melhor que a alta cultura. Ser intocado por livros e aprendizado é o melhor. A ciência é artificial. Seja natural! Respeite suas raízes! Para os alemães, a parábola do Jardim do Éden, a Árvore do Conhecimento, é verdadeira. “Não coma dessa árvore, viva!”. Não pense! Não questione!

Herder não está dizendo que o jeito alemão é o melhor, e que é bom que os alemães se tornem imperialistas e imponham sua cultura a outros. Esse passo foi dado por seus seguidores. Ele é simplesmente, como alemão, a favor do povo alemão e argumenta que eles devem seguir seu próprio caminho e não seguir o Iluminismo.

Menciono Herder por causa de sua enorme influência, especialmente nos movimentos nacionalistas que estão prestes a tomar conta da Europa Central e Oriental. Mas também é importante entender Herder para entender a cena intelectual alemã sobre a história e o destino da humanidade. Enquanto Herder é epistemologicamente kantiano, ele rejeita o universalismo de Kant. Para Herder, como a razão molda e estrutura algo ou alguém varia culturalmente. E, assim, em contraste com a visão de Kant de um futuro cosmopolita pacífico — Kant era iluminista suficiente nesse ponto — Herder projeta um futuro de conflito multicultural. E assim, no contexto desse debate alemão em particular, sua escolha é entre Kant em uma extremidade do espectro e Herder na outra. Então, novamente, escolha.

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Publicado originalmente em Stephen Hicks.

Traduzido por Matheus Pacini.

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