Objetivismo Brasil - A Filosofia de Ayn Rand em Português.

Fazer o bem sem olhar a quem é uma boa ideia?

Quando dezembro se aproxima – seja pelo Natal, pela iminência do fim de ano ou pelo dia de Thanksgiving (Dia de Ação de Graças) a exigência de se fazer caridade aparece com ainda mais força. Encerrar o ano ajudando os menos favorecidos parece elevar os caridosos a um patamar moral que os libera da culpa com que convivem, mesmo sem perceber.

Afinal, frases prontas como “fazer o bem sem olhar a quem”, “é dando que se recebe” e tantas outras que já fazem parte do nosso folclore, fazem parecer que existe um dever moral de doar, ou que só assim uma pessoa é capaz de sentir-se realizada.

Parece haver apenas dois (falsos!) caminhos éticos: ser do grupo daqueles que doam e são altruístas – priorizando qualquer outra pessoa antes de si próprio – ou ser do grupo daqueles que não doam, pensam somente em si próprios e são “egoístas”. Há, felizmente, uma terceira via.

Na criação de meu filho, que tem 3 anos e 8 meses, sofro na pele com essa situação. Frequentemente sou alvo de olhares reprovadores de outras mães quando, de forma natural, digo a meu filho que não precisa emprestar um brinquedo que é seu; assim como, da mesma forma, digo a ele que não exija que as outras crianças lhe emprestem seus brinquedos. Entretanto, apesar de estar acostumada com esse tipo de situação, um episódio merece destaque.

Alguns dias atrás, passei por uma situação difícil na escola que meu filho frequenta. Ao receber a agenda de final de ano, verifiquei que uma das atividades, denominada Natal Solidário, consistia na integração dos alunos da escola privada com alunos de uma escola municipal. Até aí, nenhum problema.

O problema surgiu quando constatei o tipo de integração proposto: os primeiros doariam brinquedos e alimentos aos segundos, com o objetivo explícito de “reforçar e cultivar os valores de respeito, solidariedade e gratidão”.

Uma análise superficial poderia considerar louvável a ação proposta pela escola. Inclusive, imagino que grande parte dos pais envolvidos assim pensaram; afinal, práticas altruístas são per se reverenciadas.

No entanto, minha análise foi distinta, baseada na filosofia que tem guiado/norteado decididamente quaisquer atos de minha vida, o Objetivismo. Teço, portanto, algumas considerações:

Primeiro, parece-me que esse tipo de atividade pressupõe/cultiva, ainda que indiretamente, um antagonismo, com delimitações de superioridade dos doadores e inferioridade dos beneficiários da doação: as crianças que têm e necessariamente devem dar; e as crianças que não têm e necessariamente devem receber.

Segundo, as crianças doadoras devem doar de forma indistinta (sem olhar a quem!) e independente de sua vontade (são obrigadas a isso!). Ou seja, para elas, pode ser um sacrifício doar algo seu a um desconhecido, a quem não reconhecem como merecedor de seu esforço.

Terceiro, essa iniciativa desenvolve um sentimento de culpa desde a infância, fazendo com que as crianças cresçam com a ideia (equivocada, mas que vai se enraizando) de que pensar em si, buscar seu benefício próprio, saber e valorizar o que é seu e ter orgulho do que se é e do que se tem, sejam sentimentos ruins, aos quais elas devem desde muito cedo renunciar. É uma filosofia do ressentimento.

Entenda-se: não há nada de errado com a caridade. Porém, ela não é a principal virtude que devemos buscar nas pessoas, tampouco é a virtude fundamental que deve nortear a criação de nossos filhos. Segundo Ayn Rand, a caridade é uma virtude menor, justamente porque sua teoria filosófica exalta o ser humano e sua capacidade como eixos principais.

Ao contrário, glorificar a atitude de doar, independentemente do contexto, acaba por enaltecer valores prejudiciais à sociedade, tais como a improdutividade e a irresponsabilidade para com a própria vida, desencorajando os indivíduos a perseguir seu próprio bem-estar e permitindo que os mesmos atuem guiados por capricho, sem planejamento e disciplina. E esse tipo de comportamento traz consequências dolorosas, por isso levei tão a sério a situação. 

Entendo realmente que exaltar esse tipo de comportamento traz um prejuízo grave a longo prazo: aquelas, acostumadas a receber, não se veem capazes de perseguir suas metas; com isso, necessitam de instituições políticas que, por meio de regulações excessivas, governem vários aspectos da vida de todos os indivíduos, necessitando sempre dos produtivos para garantir o recebimento de privilégios pelos improdutivos. Criam-se crianças que se tornarão adultos geralmente incapazes de sair da pobreza, cujos problemas serão atribuídos a Deus, ao governo ou aos outros.

E mais, é justamente essa visão engrandecedora do altruísmo, e, por sua vez, distorcida do egoísmo (que o caracteriza como desumano e perverso) que dá sustentação às posições coletivistas, mesmo àquelas que não se rotulam claramente como tal.

Por isso, busco atuar sempre com base na ética proposta por Ayn Rand: o egoísmo racional. Trata-se de uma terceira e, verdadeiramente, única via, segundo a qual o homem é um ser individual, com direito a viver para si próprio, que não deve estar disposto a sacrificar-se para satisfazer os desejos alheios e, muito menos, exigir que outros se sacrifiquem por ele. Para isso, o indivíduo deve basear suas atitudes na realidade, ter a razão como valor, a própria felicidade como objetivo fundamental, e o respeito aos direitos à vida, à liberdade e à propriedade como limites de atuação.

Desejo que meu filho, e as crianças em geral, aprendam desde cedo que podem conservar para si seus próprios brinquedos quando o desejarem; assim como que podem compartilhá-los com quem desejarem. Ou seja, que desenvolvam critérios que lhe permitam sentir-se recompensados (e não sacrificados) em ceder algo seu a alguém, e que o façam a quem valorizem e respeitem, seguindo seu autointeresse[1]. Quero, sim, que elas cresçam sem estar dispostas a ser sacrificar nem por indivíduos nem por grupos predadores, e que não temam usar o termo correto ao se referir ao único modelo ético que acredita na aptidão de cada indivíduo: o egoísmo racional.

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Revisado por Matheus Pacini.

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[1] Em tempo, meu filho não participou da atividade.

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