Mariane Beatriz



Comentário sobre o livro '12 regras para a vida' de Jordan Peterson


No mês passado, li a obra 12 Regras para a Vida de Jordan Peterson, quem foi descrito pelo New York Times como o intelectual mais influente do mundo atual. O autor sugere 12 regras úteis, na tentativa de oferecer uma estrutura ordenada para os jovens enfrentarem o caos atual, decorrente do niilismo e do relativismo preponderantes em nossa sociedade. 

Na visão de Peterson, o conservadorismo oferece ordem e tradição, enquanto o progressismo gera caos e transformação. Peterson está influenciando toda uma nova geração a interessar-se por Alexander Solzhenitsyn, autor de Arquipélago Gulag, livro que revelou ao mundo os horrores do comunismo soviético. 

Após esta breve introdução, deixo aqui a minha crítica ao livro: 

O fato de o autor ser um psicólogo e naturalmente recorrer a figuras de linguagem não justifica o uso, em alguns capítulos, da retórica complicada, rebuscada e desnecessária para explicar suas ideias. Confesso que achei o livro muito mais difícil de ler do que imaginava, considerando-se que é um livro para jovens! 

Peterson é influenciado por Carl Jung, quem achava que havia significado e sabedoria nas imagens arquétipas dos sonhos, que vem do nosso inconsciente. 

Peterson também é fortemente influenciado pela religião cristã. Estudou a Bíblia em sua juventude nas pradarias do norte do Canadá, cujo inverno gelado chega aos -40ºC. Peterson escreve: “A Bíblia é, para o bem ou para o mal, o documento fundador da civilização ocidental.” E acrescenta: “O estudo filosófico da moralidade - do certo e do errado - é a Ética. Esse estudo pode nos tornar mais sofisticados em nossas escolhas. No entanto, mais antigo e profundo que a Ética é a Religião.” 

De fato, a religião é a forma antiga de Filosofia, e serviu de referencial para o homem, um código moral a guia-lo em sua vida. Para mim, o problema é a visão negativa do autor sobre a nossa existência e sobre a natureza humana, influenciado por sua religião. Segundo ele, “somos animais que vivem em bandos, animais de carga que precisam carregar fardos para justificar sua existência miserável.”

E se, em vez de uma ética baseada na fé, em que o homem deve obedecer mandamentos divinos, tivéssemos uma ética guiada pela razão, cujos princípios podem ser escolhidos e demonstrados como verdadeiros e necessários? Uma ética baseada na razão e na consciência humana, mas não na razão como entendida pelos materialistas dialéticos ou pelos progressistas (cientificismo). O propósito desta ética seria alcançar a felicidade aqui e agora, sem ser irracional e, muito menos, sem ter a obrigação moral de servir ao próximo para justificar nossa existência. 

Para isto é necessário ter uma visão benevolente da natureza humana, o que não ocorre com Peterson. Já no primeiro capítulo do livro, somos comparados a lagostas, uma visão darwinista do ser humano. O darwinismo social negligencia que o homem, ao contrário dos outros animais, não sobrevive se adaptando ao meio, extraindo de uma quantidade estática da natureza, à custa do sofrimento dos mais fracos, mas que, sim, sobrevive criando riqueza pelo exercício de seu intelecto e inteligência. O Marxismo também acredita que os fortes sobrevivam explorando os mais fracos. 

Esta visão negativa da vida e da existência humana conduz ao pior ponto do livro. É quando Peterson tenta demonstrar as motivações psíquicas dos adolescentes assassinos de Columbine. Como se eles não fossem doentes mentais, pois geralmente doentes mentais não possuem motivações! A loucura dos assassinos em massa não é conclusão ou consequência de nossos problemas existenciais! Em seguida, Peterson cita Tolstói para ilustrar que a vida é tão malévola, que justifica o suicídio de alguns: “Apenas algumas pessoas excepcionalmente fortes e lógicas consistentes agem assim (suicídio). Tendo compreendido a estupidez da piada (vida) de que fomos vítimas, que é melhor estar morto do que estar vivo, e que o melhor de tudo é não existir, elas agem e acabam com ela; e elas se utilizam de qualquer meio para realizar tal coisa: uma corda no pescoço, água, facadas ou até mesmo um trem.” 

O próprio Peterson passou por tragédias, como a doença de sua filha. Eu mesma já passei por várias e não estou livre de sofrimentos futuros. Não estou romanticamente negando a existência do Mal, mas estou longe de concluir, como o autor, que “dor e sofrimento definem o mundo.” 

É isto que o intelectual mais influente do mundo tem para oferecer aos jovens que procuram significado e estrutura? Que a vida é fundamentalmente trágica? Que só se encontra significado com o sacrifício? Ele chega a perguntar: “O que constitui o sacrifício máximo - para ganhar a recompensa suprema?”  Para concluir depois: “Sacrifique-se agora para ganhar mais tarde.” 

Isto é mais do mesmo, que as religiões já ofereceram: Porque foi expulso do paraíso o homem terá de “sacrificar eternamente seu presente, em prol do futuro.” Ou seja, somos eternos pagadores do Pecado Original!

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Revisado por Matheus Pacini.

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