Craig Biddle

Editor-presidente do The Objective Standard.

Escreveu diversos livros e artigos sobre temas como Objetivismo, filosofia, ética e política

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Ben Shapiro não quer entender: egoísmo racional não é hedonismo


Em sua última entrevista no programa de Dave Rubin, Ben Shapiro sugere que o autointeresse (egoísmo) racional é só outro nome para hedonismo. Mas isso não faz sentido. E Shapiro deveria (e, provavelmente) sabe disso.

Ao ser questionado por Rubin sobre Ayn Rand e o Objetivismo, Shapiro diz que existem “poucos divulgadores do capitalismo melhores que Ayn Rand”. Contudo, ele ressalta: “quanto à sua filosofia, em especial, aplicada a relacionamentos, acho que seja um monte de lixo. Não creio que o Objetivismo seja aplicável a relacionamentos pessoais.”

Shapiro diz que a explicação dos objetivistas de o porquê “abandonar sua família e filhos por uma garota atraente no bar” não está em seu autointeresse racional é dada através de uma “redefinição de metodologia”.

Shapiro elabora:

[Objetivistas] dizem que você não está fazendo um sacrifício por sua mulher e filhos [ao ficar com eles]. Você tomou uma decisão, e está mais feliz com sua esposa e filhos – e uma pessoa racional tomaria tal decisão que é melhor estar com sua mulher e filhos. Muitos homens de 40 anos dirigindo Corvettes discordariam. Então, não acho que tal teoria esteja correta...

O presidente já foi casado três vez, sempre com uma modelo mais jovem que a anterior. Então, não tenho tanta fé na natureza humana a ponto de acreditar que a razão pela qual fico com minha esposa e filhos é porque isso sempre me faz feliz. Muitas vezes, quando estou repreendendo meu filho de madrugada, quando o que seria melhor pra mim é deixar a criança de lado e sair para beber.

Duvido que Shapiro creia que está em seu melhor interesse deixar seu bebê em prantos com sua esposa, saindo para beber. Caso seja assim que ele, de fato, pensa, a honestidade demanda que ele passe adiante tal “sabedoria” aos seus filhos. Shapiro faria isso? Bem, ele repreende Sam Harris porque ele sugeriu que os pais deveriam mentir para seus filhos sobre a questão do livre-arbítrio (Harris diz que o livre-arbítrio é uma “ilusão”, mas defende que você diga às crianças que elas, de fato, têm livre-arbítrio). Logo, suspeito que Shapiro não mentiria aos seus filhos sobre se ele acha que a opção pela bebida (na situação supracitada) está no melhor autointeresse da pessoa.

O fato é que Shapiro (como todos os pais e adultos pensantes) sabem muito bem que tal comportamento não está em seu melhor interesse. Por que, então, ele finge pensar que está? Posso só especular aqui. Mas acho que é porque, ironicamente, o criador do slogan “fatos não se importam com seus sentimentos” esteja colocando seus sentimentos acima dos fatos.

O autointeresse racional ou egoísmo racional – como o termo “racional” claramente sugere – é a política de agir de forma consistente à luz do contexto total dos fatos relevantes; é a política de agir em seu melhor julgamento com respeito aos requisitos necessários de longo prazo concernentes à sua vida e felicidade, respeitando o tipo de ser que você, de fato, é; não é uma política de viver de qualquer forma que lhe dá prazer no momento. Tal política, como Shapiro certamente sabe, não é chamada autointeresse racional ou egoísmo racional. Em vez disso, é chamada de hedonismo (hedone é o latim para “prazer”).

Como escrevi em Loving Life: The Morality of Self-Interest and the Facts that Support It, é crucial distinguir egoísmo racional de hedonismo.

O egoísmo racional [...] não estabelece prazer ou sentimentos como padrão de valor. Ele defende que a vida é o padrão de valor – e a felicidade, o propósito moral da vida. Muitas ações prazerosas para uma pessoa ou que a fazem sentir-se bem em um determinado momento, de fato, não promovem sua vida e, portanto, não estão em seu melhor interesse. Por exemplo, um empresário pode decidir dormir mais certa manhã, mas se isso significar a perda de uma reunião ou cliente importante, então, tal decisão não está em seu melhor interesse. Da mesma forma, uma bailarina pode sentir prazer ao comer uma grande fatia de um bolo de chocolate, mas se isso acarretar em aumento de peso, arruinando sua carreira, então, não será bom para sua vida. E um homem casado pode ter vontade de dormir com outra mulher, mas se isso destruirá sua integridade e respeito próprio, arruinando seu casamento, então, fazê-lo o fará feliz. Uma pessoa que é guiada por seus sentimentos não está sendo egoísta racional, mas sim abnegada, desinteressada e, por assim dizer, não egoísta.

Todo adulto pensante sabe que o mero fato de alguém desejar fazer algo não significa, necessariamente, que fazê-lo está em seu melhor interesse. Isso é porque nem o hedonismo, nem o subjetivismo pessoal são egoístas: ambos advogam ação guiada por puro capricho – uma política que, longe de promover a vida, é garantia de sua destruição. Se alguém deseja viver e alcançar a felicidade, deve ser genuinamente egoísta; uma pessoa deve viver de uma forma que promove a vida.

Nós não somos criaturas simples; somos seres complexos de corpo e alma – matéria e espírito – de cujos valores englobam ambos os aspectos desse todo integrado. Tampouco vivemos por um só momento ou dia; a vida humana é um processo contínuo que se estende por muitos anos. Assim, viver apropriadamente (ser moral) consiste em perseguir valores que servem à vida não esporádica ou ocasionalmente, mas regular e consistentemente – como questão de princípio.

Pra fazê-lo, precisamos de uma visão ampla, de longo prazo: orientação para toda vida, permitindo-nos entender as nossas necessidades. Para determinar se uma ação é boa ou ruim, benéfica ou prejudicial para nossa vida, temos de projetar tanto as consequências físicas como as psicológicas – e não só com respeito ao presente, mas também a um futuro mais distante. Nossa ferramenta para tal? Princípios morais - princípios fundados em dois fatos fundamentais: (i) a vida humana é o padrão de valor moral e (ii) a felicidade pessoal é o propósito moral de sua própria vida.

Algumas distinções cruciais não são difíceis de entender para alguém do calibre intelectual de Shapiro – a menos que, é claro, ele considere seus sentimentos mais importantes que os fatos.

Espero que Shapiro reconsidere sua posição, verifique suas premissas e viva de acordo com o princípio de que fatos importam mais que sentimentos. Se o fizer, ele passará a ver a filosofia de Rand não como “lixo”, mas como uma verdadeira benção.

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Publicado originalmente em The Objective Standard.

Traduzido por Matheus Pacini

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