Stephen Hicks e John C. Wright III



Pergunta III - a existência de Deus pode ser provada?


RESPOSTA DE JOHN C. WRIGHT

A resposta não é somente sim, mas sim, obviamente - por meio de argumentos probatórios em vez de provas dedutivas – posto que o modelo teísta corresponde melhor aos fatos da natureza e da natureza humana do que a alternativa.

A prova é suficiente para persuadir o cético? A resposta é não, obviamente. Os argumentos probatórios requerem a sutileza de julgamento, a qual nem todo o homem possui, especialmente, em tópicos em que o orgulho e culpa se combinam para cegá-lo.

A existência de Deus pode ser uma hipótese racional?

A resposta a essa questão é que qualquer coisa pode se tornar uma hipótese racional desde que responda às objeções que ela própria levanta. Todas as hipóteses levantam questões. Hipóteses irracionais baseiam-se em suposições rebuscadas para responder a tais perguntas, e quanto mais forçadas as respostas, menos racional é a hipótese. A hipótese mais racional é aquela que mais elegantemente responde todas as perguntas legítimas. 

Logo, a pergunta que deveríamos estar fazendo é se a existência de Deus é uma hipótese mais racional, e que requer menos explanações rebuscadas ad hoc que a alternativa.

Teoricamente, a existência de Deus pode ser provada de duas formas.

A primeira tem caráter experimental: ser cristão, ser batizado, confessar-se e ir à missa, analisando se as promessas de Cristo sustentam-se ou não. Mas isso requer um comprometimento consistente e sincero, desvinculado do espírito da experimentação. Tornar-se experimentalmente um cristão assemelha-se a se alistar no exército ou a se casar de forma experimental. Aliás, o espírito frio de livre experimento impossibilitaria o espírito de lealdade aos batalhões ou o espírito de romance erótico, que são características essenciais daquelas instituições.

E o que dizer de tal experimento por aproximação? Observar outros que aderiram de fato e ouvir seu testemunho? Infelizmente, e aqui falo somente de minha própria religião, os pecadores, os Fariseus e os Laodicenses excedem em número os santos, então, não sei como qualquer estudo por aproximação poderia ser útil. Se você estudasse o matrimônio por aproximação, mas nunca tivesse experimentado o êxtase da relação sexual com uma mulher totalmente apaixonada por você, e você por ela, os resultados do estudo seriam inconclusivos. Se você estudasse guerreiros, mas nunca tivesse morrido por seu país, você não poderia saber se a sensação é prazerosa e adequada.

A segunda é tem caráter observacional: espere que Deus se reencarne, escute as Suas palavras, descubra se são sábias, escute o que Ele disser, observe os Seus vários feitos que não podem ser reproduzidos por humanos, tais como multiplicar pães e peixes, caminhar sobre as águas, acalmar as tempestades, curar os doentes, ressuscitar os mortos, expulsar demônios e assim por diante. Então O torture até a morte. Se, depois de três dias, Ele voltar novamente dos mortos, comer pão, peixe e favos de mel, e puder explicar as escrituras em detalhe para você enquanto caminha com Ele até Emaús, e entrar em uma casa onde você estiver e cuja porta está fechada, e perdoar você por traí-Lo, então é uma hipótese racional que Ele seja Deus, como Ele afirma.

 

Isso não provaria o caso além da capacidade de um cético imaginativo inventar razões para não acreditar – um embuste ardil poderia, talvez, falsificar essa evidência, ou Elfos ou Marcianos – com sua mágica ou poderes psíquicos – imitar os eventos descritos no Evangelho. A dificuldade aqui é que a hipótese utilizada para explicar os eventos sem a presença de um Deus requer suposições mais elaboradas e rebuscadas do que a hipótese contrária.

Agora, caro leitor, a menos que você tenha uma máquina do tempo disponível e em bom estado, não estamos em condição de realizar tal observação.

Logo, a evidência precisa ser indireta. Não estamos lidando com uma teoria científica, como a Teoria da Relatividade de Einstein, então, não adianta querer ver uma prova física de uma coisa não física. Estamos lidando com uma explanação geral para cobrir eventos históricos, pré-históricos e escatológicos, uma explanação que tenta explicar por meio do que não podemos ver coisas que podemos ver. Em outras palavras, é como a Teoria da Evolução de Darwin. Da mesma forma, a teoria de Darwin é uma coisa não física, tentando explicar eventos da pré-história e de um futuro distante, algo que a prova física pode somente sugerir. É geralmente aceita somente porque as teorias alternativas do lamarckismo ou criação especial têm menor poder explanatório, isto é, levantam objeções mais sérias.

Se Deus existe, as objeções óbvias dividem-se em três partes:

Em primeiro lugar, se Deus existe, e Ele é um criador soberano benevolente e onipotente, por que existe tanta injustiça e sofrimento no mundo? Ou eliminará o mal ou Ele não tem poder para tal. Se Ele gostaria, mas não pode, então não é todo-poderoso; se não é todo-poderoso, logo, não é Deus; ou se ele poderia, mas não vai, Ele não é benevolente e, portanto, é uma forma de Mal, logo, não é Deus.

Da mesma forma, por que existe uma multiplicidade de narrativas sobre deuses de terras pagãs? Pois, certamente, Deus não toleraria que falsidades fossem ditas sobre Ele.

Em segundo lugar, a ordem da natureza conforme examinada pela física nos dá conhecimento suficiente sobre o universo físico a ponto de Deus não ser necessário como explicação.

 

Em terceiro lugar, Deus não pode ser onisciente e onipotente. Um ser onisciente não pode ter livre-arbítrio, já que a presciência perfeita evita a possibilidade de qualquer decisão livre entre os múltiplos cursos de ação possível. Da mesma forma, a onipotência evita a necessidade de ação, posto que todas as coisas instantaneamente adeririam a qualquer que fosse o desejo divino do momento, sem qualquer necessidade de meios, ferramentas, tempo, processos ou qualquer outra ação. Se Deus fosse verdadeiramente onipotente, a luz existiria sem a necessidade de se dizer “faça-se a luz”, e a humanidade estaria salva do pecado sem a necessidade de ouvir “faça-se em mim segundo a Vossa palavra”.

Todos esses são argumentos potentes, e eu espero tratá-los em futuras colunas caso o Sr. Hicks seja tão bom a ponto de propô-las no debate.

Mas eu levanto estas objeções para mostrar que mesmo um modelo coerente do universo deve provocar questões legítimas em uma mente cética. Obviamente, a emoção e a cegueira não responderão a essas questões: elas fugirão delas.

Se Deus não existe, todavia, as questões levantadas são tão grandiosas quanto, ou ainda maiores:

Primeiro - quem ou o que definiu “tempo”? Obviamente, o tempo tem certas propriedades definidas, tais como sua duração, os efeitos da gravidade sobre sua medida e assim por diante. Logo, ele tem uma natureza definida. Não pode haver um processo natural que define o tempo, pois os processos naturais variam no tempo. A semente plantada em maio floresce em agosto por um processo natural. Mas o tempo não pode ter uma semente, uma causa histórica. Se o tempo somente passa a existir durante um “agosto” conhecido como Big Bang, obviamente, não houve um “abril” antes disso, pois não houve um “antes” antes disso.

Como toda a natureza não pode ter sido definida por um processo natural, logo, ela pode somente ter sido definida por um ser sobrenatural.

Da mesma forma, é impossível que uma cadeia natural de eventos não tenha um primeiro evento, pela mesma razão que um vagão puxado por outro vagão em sua frente deve eventualmente ter um motor, uma coisa que não seja um vagão somente, e de que não dependa em sua cinética de puxar o carro da frente. Deve haver um motor, um primeiro carro que não depende de outro, ou nada define a velocidade de todo o trem. Da mesma forma, deve haver uma Primeira Causa sem causa anterior, ou não existiria uma cadeia definida de causa e efeito.

Da mesma forma, novamente, deve haver necessariamente um ser sobre o qual todos os seres contingentes dependem.

Em segundo lugar, se não existe um Deus, não existe uma lei acima da lei fabricada pelo homem. Se for assim, e se existir qualquer base, então em que se baseia o padrão referencial da lei fabricada pelo homem? O que a previne de ser arbitrária? Pois se for arbitrária, por definição, não é uma lei. Isso é verdade tanto para as leis externas feitas por parlamentos e reis, como para leis internas reveladas pela consciência.

Em terceiro lugar, se não existe um Deus, não existe lógica acima da lógica humana. Se assim for, então, por qual base, se é que existe, repousa nossa confiança de que os processos lógicos de nossas mentes são confiáveis? E se não são confiáveis, então nenhum tipo de conclusão é possível, nem mesmo a que vos proponho.

Da mesma forma, não existe base para se acreditar na liberdade de escolha. Se não existe uma ordem sobrenatural, então não existe nada fora da natureza. Se não existe nada fora da natureza, nada além de processos naturais importam na ação. Pensar assim é meramente outro processo natural como qualquer outro, cujo resultado é determinado por vetores prévios da matéria em ação. Se assim for, então nenhuma decisão (nem mesmo a decisão de repudiar a crença no livre-arbítrio) é decidida ou mesmo influenciada por você. Tudo já está definido, uma faixa gravada, e sua consciência é simplesmente a agulha que toca o disco. Você não seleciona seus pensamentos mais que uma agulha seleciona as notas que se seguirão ao tocar a vitrola.

Em quarto lugar, se não existe um Deus, não existe padrão de beleza além da beleza estereotipada. Mas se os padrões de beleza são fabricados pelo homem, então, por que o universo é, em um número impressionante de aspectos, desde a frieza das estrelas até a fúria das tempestades nas profundezas do oceano, tão lindo? Se um indivíduo diz que certo processo evolucionário impõe os padrões de beleza que utilizamos, em nome dos incentivos à sobrevivência e à reprodução, então, com que base essas as coisas que não existiam na Terra quando os homens ainda eram macacos, como as sinfonias, ou o teorema de Pitágoras, ou a vista dos anéis de Saturno, chamaram a nossa atenção por sua beleza?

Em quinto lugar, se não existe um Deus, qual a razão para dizermos que todos os homens são irmãos? Se a evolução produziu nossas naturezas, parece igualmente natural – pelo menos em minha natureza aguerrida – odiar e matar meus inimigos, vê-los ajoelhados em minha frente e escutar as lamúrias de suas mulheres. Geneticamente falando, eu não sou irmão de homens cujos ancestrais vieram de outros continentes. Sem Deus, não deveriam os irlandeses tratar somente os irlandeses como irmãos, e os chineses somente os chineses?

Se fôssemos feitos, como Darwin disse, para matar rivais e copular abundantemente, todo esforço e pensamento dispendido em qualquer coisa além de batalhas e poligamia, se não for desperdício de ação, é pelo menos alheio à natureza humana. Mas nossas naturezas não são assim.

Em sexto lugar, se não existe um Deus, que motivo existe para assumir que os processos indiretos da natureza como estudados pela física e filosofia são consistentes, racionais ou podem ser entendidos pela razão humana? Existe ou não existe um artesão que nos tenha moldado deliberadamente com faculdades adequadas à natureza que ele mesmo moldou? O processo da natureza pode ser mecânico, mas não pode ser proposital, portanto não pode ter sido propósito da natureza tornar-nos capazes de entender a natureza. Se não fomos feitos para raciocinar, fazer ciência, resolver os mistérios da natureza, por que deveríamos pensar que fomos? Por que tentar?

Em sétimo lugar, se não existe um Deus, por que todas as pessoas (exceto alguns poucos homens) acreditam Nele ou pelo menos em algum eco pagão Dele? Se não existe vida após a morte, por que histórias de fantasmas são relatadas em todos os continentes, em todas as épocas e, se os arqueólogos interpretam corretamente, remontam mesmo à pré-história? Se o ateísmo é a verdade, e se a maioria dos homens é racional o bastante para encarar a verdade, então o ateísmo seria normal, não raro. Se não existe um Deus, por que mártires morreriam em nome deste ser imaginário?

Eu mesmo sou um homem que teve uma experiência divina e direta com Deus. Como você me explica isso, se não existe um Deus?

Você poderia chamar isso de loucura, dizendo-me para duvidar dos meus sentidos, mas isso não é diferente do que ocorreria se eu chamasse o ateísmo de loucura e lhe pedisse para duvidar dos seus. Eu poderia alegar que a sua inabilidade de ver Deus é uma alucinação, devido a uma falha inesperada nos seus neurônios, da qual você não é consciente. Convencido? Eu penso que não. Tampouco me convenço quando argumentos tão fracos são jogados contra mim.

Se todas as incontáveis gerações de homens que tiveram tais experiências são mentirosas ou lunáticas, essa é uma hipótese mais extraordinária que a contra-hipótese supostamente óbvia e intuitiva que elas são verdadeiras e sãs, e que eles viram o que dizem que viram.

Em outras palavras, se existe um Deus, é certamente racional acreditar Nele, pois é racional acreditar na verdade, mesmo se a verdade parece extraordinária.

Mas se não existe um Deus, o teísmo não está apenas errado; ele não é apenas irracional; ele é tão irracional que deveria haver algo muito errado com a vasta maioria dos seres humanos, algo severamente errado, tão errado que estão dispostos a lutar Cruzadas e sofrer o Martírio pelo que é basicamente uma crença absurda em algo menos provável que o Papai Noel.

Acreditar que todos os homens menos você e seu pequeno grupo de livres pensadores são total e perigosamente insanos – incluindo alguns heróis e gênios para os quais a história não oferece paralelos, homens como Isaac Newton, que escreveu sobre profecias bíblicas, ou George Washington, um membro do conselho paroquial de sua comunidade – é uma hipótese extraordinária que, em princípio, requer provas extraordinárias. Por que esses homens são insanos unicamente neste tópico de crença e, em outros casos, não meramente sadios mas possuidores de mentes e consistência mental acima do ordinário?

   

Por que, novamente, os homens famosos que defendem o ateísmo são tão conhecidos pelas suas vidas privadas dissolutas e moralmente inferiores, homens como Rousseau com suas muitas amantes, Nietzsche que morreu de sífilis contraída de uma prostituta, Marx que nunca teve um dia de trabalho honesto em sua vida, e Ayn Rand que se jogou no adultério? Se esses são exemplos saudáveis de seres iluminados o suficiente para superar sua insanidade teísta, por que eles são inferiores nas suas faculdades morais em relação ao homem comum? Por que eles não são mais sãos, e não menos?

Seria um mundo muito, muito sombrio, caso todos os homens menos você e seu pequeno grupo de seguidores fossem totalmente loucos, não se podendo confiar em nenhum ser humano. Mesmo ateístas declarados e firmes de muitas décadas podem se converter de repente, ou sem aviso, como eu fiz. Ninguém está protegido da loucura teísta.

E a loucura teísta pode estourar a qualquer momento, fazendo com que as pessoas ajam como Madre Teresa ou São Francisco de Assis. Se a loucura teísta somente fizesse as pessoas se tornarem assassinas isso seria menos perturbador. Ou, pelo menos, seria uma hipótese mais fácil de ser explicada.

Se o mundo real não parece tão sombrio e louco, e se os próprios homens em maior número e por mais tempo acreditaram em Cristo, dos europeus medievais até os modernos, que foram também aqueles que, durante o período de ascendência do cristianismo, realizaram os maiores feitos imagináveis da razão humana, aboliram a escravidão, inventaram a ciência moderna, a matemática moderna, a notação musical, o desenho em perspectiva, e o governo constitucional, por que, então, esse modelo de universo o qual chamam de mundo sombrio e louco não é adequado?

Eu não estou afirmando que homens bons são cristãos e que homens maus são ateístas. Seria uma afirmação falsa, e mesmo se fosse verdadeira, seria irrelevante. Afirmo que o modelo ateísta propõe que a crença teísta é tão fantástica e artificial que seria uma loucura, apoiada por alucinações e fábulas nas quais somente pessoas loucas confiariam. Se o Cristianismo é falso, não é meramente como uma crença política e filosófica falsa. É um loucura total. Mas a teoria de que o Cristianismo é totalmente louco não se encaixa aos fatos do comportamento superior dos cristãos, alegadamente totalmente insanos, versus ateístas, alegadamente as únicas pessoas sãs do planeta.

Eu não estou dizendo que o Cristianismo é verdadeiro porque pessoas boas acreditam nele. Tal alegação é falsa, e mesmo se fosse verdadeira, seria irrelevante. Eu estou dizendo que Nele acredito porque é incongruente, isto é, se fosse falso, seria loucura.

Eu não estou dizendo que não existem boas respostas às questões levantadas por cada lado do debate. Sem dúvida, respostas estão na ponta da língua. Não interprete erroneamente o meu argumento.

Meu ponto é o seguinte: nem o teísmo, nem o ateísmo podem ser provados dedutivamente e acima de qualquer suspeita. É como uma discussão entre aqueles que são contra e a favor da pena de morte. Existem fortes argumentos de ambos os lados, e os nervos ficam à flor da pele, mas a questão não pode ser resolvida como uma prova geométrica. Os argumentos simplesmente falam de quão fácil ou difícil é acreditar na proposição inicial.

Eu concedo que existem três grandes paradoxos ou mistérios que teriam de ser explicado para que a teoria de Deus fosse verdadeira: o problema da dor, o problema da natureza e o problema da onipotência.

 

Contudo, note o contraste. O Cristianismo propõe mistérios: coisas que confundem a mente. Mas esses são mistérios de coisas fora da compreensão humana, condições que se realizam na eternidade, ou acima do sétimo céu, ou perdidos nas profundezas da vontade de um ser eterno dito inescrutável. Eles são, em outras palavras, exatamente o que um indivíduo esperaria, se a hipótese fosse verdadeira, para confundir a mente.

E no sentido oposto, os mistérios ou paradoxos do ateísmo são, primeiramente, mais numerosos e, em segundo lugar, mais ultrajantes. Esses mistérios do ateísmo são os paradoxos do regresso infinito, antinomianismo, irracionalismo, estética, filantropia, física e o paradoxo da persistência do supranaturalismo.

Esses mistérios estão a sua volta, e lhe falam que é algo em que não você pode acreditar, e lhe dão regras pelas quais você não pode viver, defrontando uma morte que não você pode suportar. Elas negam o senso comum. Elas confundem a mente sobre coisas que são claras e óbvias.

Eu não posso provar a existência de Deus além da dúvida racional para um cético de mente aberta; mas eu posso provar que o argumento cético contra Deus é mais fraco que o argumento cético contra o ateísmo.

Vejam vocês, o nosso debate não é uma discussão entre um cético ponderado e um crente crédulo e sonhador. Essa é uma discussão entre um cético que duvida do teísmo, e outro cético, talvez o mais cabeça-dura dos dois, que duvida do ateísmo.

Eu já estive dos dois lados. Os paradoxos e mistérios do Catolicismo são apresentados em um mundo onde é racional existirem mistérios, no céu, na frente de Deus, onde nenhum homem jamais esteve de forma consciente.

Os paradoxos e mistérios do ateísmo, por outro lado, são irracionais. Devo real e verdadeiramente acreditar que vivo em um universo finito, todavia não criado, repleto de movimentos naturais cegos, desarticulados e sem propósito que simplesmente acabaram se unindo naturalmente sob a forma de macacos sem-pêlo tão irracionais que todos – com exceção de poucos – acreditam em fantasmas? Esse processo natural cego teria também produzido coisas inúteis para alimentação e para copulação, coisas como estrelas e oceanos profundos, insuportavelmente belos aos meus olhos? Olhos que acidentalmente são capazes de ver que é errado matar ao meu irmão? Deveria eu, então, decidir que não tenho livre-arbítrio, que todas as formas de ética são arbitrárias, toda a lógica não fidedigna, toda a morte o fim, e todas as injustiças de qualquer bandido ou tirano que morreu em meio a seu sono absolutamente alheias à reparação?

Você vê o meu ponto: cada visão de mundo desperta questões difíceis (mas não impossíveis) de ser respondidas. Todavia, quanto maior e mais incontestáveis paradoxos e pontos-fracos do modelo, mais fraco se tornam as fundações da torre do pensamento, e mais fácil para o ceticismo derrubá-la.

Eu espero que o Sr. Hicks faça essas perguntas indicando onde minha visão de mundo é fraca, já que eu certamente espero lhe responder sobre isso.

RESPOSTA STEPHEN HICKS

Chegamos à terceira parte de nosso debate, e o primeiro grande ponto de desacordo sobre a religião foi identificado: a natureza e a legitimidade da fé.

Minha visão é que a fé é um tipo de subjetivismo – um desejo pessoal de acreditar em algo que vai além ou que conflita com a evidência. Em vez disso, argumento que um indivíduo deveria sempre acreditar objetivamente – isto é, de acordo ao melhor julgamento racional das evidências.

O Sr. Wright protesta que isso deturpa gravemente sua visão e designa uma variedade de motivos insípidos para essa má interpretação (aparentemente, diferença de opinião pode somente advir dos “tímidos”, dos “arrogantes”, e dos “insensatos”).

Primeiro, ao clarificar sua posição, ele diz: “a razão pode levar um indivíduo paulatinamente ao monoteísmo, mas não pode levá-lo até Deus”. Eu concordo parcialmente – a fé começa pelo reconhecimento de que existe uma lacuna entre o que a razão poderia sugerir e em que a pessoa religiosa passa a acreditar.

Segundo, o Sr. Wright então diz: “Mas tais provas são valiosas, já que podem predispor um indivíduo a aceitar a fé”. Novamente, concordo parcialmente: argumentar em prol da existência de Deus serve, na melhor das hipóteses, como um papel de suporte, posto que fé é aceitar um conjunto de crenças além do que o raciocínio suporta.

Em seu último artigo, o Sr. Wright enfatiza um fator adicional – a graça de Deus. Como ele diz, terceiro: “Deus convidou ambos a relevarem-se ao homem, dando-lhe a graça de ser capaz de acolher essa revelação na fé”.

Então o que temos na versão de fé do Sr. Wright são três fatores: (1) raciocínio que parcialmente dá suporte à crença e “predispõe” um indivíduo a algo mais, (2) “aceitação” do resto do pacote de crença, e (3) assistência de Deus na forma de “graça” concedida ao crente. Em outras palavras, a razão é responsável por pavimentar parte do caminho, um salto de fé serve como ponte, e Deus oferece o restante, por assim dizer, com a dispensação da graça.

Isso nos leva imediatamente ao próximo tópico essencial. O Sr. Wright e eu discordamos sobre o segundo fator – independentemente de ser o salto de fé, de fato, legítimo. O terceiro fator – a alegação de graça divina – não pode ser utilizado em apoio da crença religiosa até que alguém mostre que realmente existe um Deus que dispensa sua graça. Muito depende do primeiro fator – determinar quanto provam os argumentos em prol da existência de Deus.

* * *

Permitam-me expor dois pontos iniciais. Um é de natureza jornalística, tratando das grandes mentes na história da filosofia e da teologia e sua análise das provas tradicionais da existência de Deus. A maior (e talvez a mais importante) era deste debate ocorreu ao final dos anos 1700 e no início dos anos 1800. Destacam-se três nomes famosos: David Hume, Immanuel Kant, e Søren Kierkegaard. Eles se destacam não só por sua influência, mas também porque representam uma ampla gama de opiniões sobre religião: Kierkegaard era teísta; Hume era ateísta; e Kant tentou encontrar um meio-termo. Mas todos os três chegaram a uma conclusão crucial: todos os argumentos em prol da existência de Deus são deficientes.

Outro ponto jornalístico: a avaliação negativa tem sido a visão da maioria dos filósofos profissionais, inclusive a minha, desde então. Contudo, de forma alguma acredite em minha palavra ou na deles com respeito à fraqueza das provas. Todo o ser pensante deveria gastar tempo com os argumentos, chegando às suas conclusões de forma independente.

O outro ponto importante é metodológico. No contexto da longa história do debate sobre as provas, o Sr. Wright poderia ter uma nova abordagem na apresentação dos argumentos que venha a esclarecer as coisas. Mas o que vejo, todavia, é que o Sr. Wright escolheu a estratégia da espingarda – isto é, atirar para cima esperando acertar algo. Em seu artigo, eu conto aproximadamente 18 argumentos possíveis mencionados de passagem – mas nenhum deles é efetivamente desenvolvido ou defendido contra as objeções cuidadosas que podem ser levantadas.

Em primeiro lugar, a estratégia do Sr. Wright é listar uma série de elementos do mundo natural: tempo, causalidade, beleza, moralidade, lógica, histórias de fantasmas, fraternidade e assim por diante. Em segundo lugar, ele levanta uma questão hipotética: se não existe um Deus, como poderíamos possivelmente explicar tempo, causalidade, beleza e assim por diante? Não existe um terceiro passo na análise do Sr. Wright – com a possível exceção da alegação de que é óbvio que somente a religião pode responder àquelas questões.

Aquelas são questões justas e importantes, que tem como função ser fonte para o debate, e não motivo para terminá-lo. Os argumentos naturalistas devem ser apresentados e refutados neste momento. Os argumentos religiosos devem ser apresentados e defendidos contra objeções. Infelizmente, o Sr. Wright compartilha conosco somente uma série de alegações e questões retóricas. Jogar ao vento argumentos fracos (ou, pelo menos, não desenvolvidos) e esperar que algum seja aceito – essa não é uma estratégia séria. Um intelectual sério escolherá um ou dois dos argumentos mais convincentes, desenvolvendo-os de forma coerente, para que sejam fortes o bastante para resistir a críticas inteligentes.

Vamos dar agora o próximo passo ao analisar mais detalhadamente o argumento mais importante em prol da existência de Deus. O argumento do design inteligente é o mais utilizado para justificar a existência de Deus, suas forças e fraquezas são representativas de outros argumentos. (Retornaremos a alguns dos outros argumentos – por exemplo, história, moralidade e o sentido da vida – nos próximos artigos da série).

* * *

A ideia central do argumento do design inteligente é que, para explicar a ordem de causa e efeito do mundo natural, devemos apelar a um criador / designer original. A complexidade da realidade não pode ser o produto do acaso, de forma que deve existir uma inteligência poderosa por trás de propor uma ordem à existência, mantendo o universo em funcionamento.

O Sr. Wright incluí esse argumento em sua lista: “Eu mesmo sou um homem que teve uma experiência divina e direta com Deus. Como você me explica isso, se não existe um Deus?” Ele está repetindo o que Santo Agostinho escreveu 1600 anos atrás: “com efeito, de onde poderia vir semelhante criatura, senão de ti, Senhor? Acaso alguém pode ser artífice de si mesmo?”.

Aqui segue uma versão do argumento, passo a passo:

  1. O universo natural é ordenado – a regularidade das estações, a consistência dos processos químicos, o desenvolvimento biológico das capacidades dos organismos e assim por diante.
  2. A ordem complexa não pode ter surgido de dentro do próprio universo.
  3. Assim, a ordem complexa implica a existência de um ordenador externo que impôs ordem sobre o universo.
  4. Para fazê-lo, um ordenador externo deve ser inteligente e poderoso.
  5. Então, um ordenador inteligente e poderoso existe.
  6. Em nome da concisão, vamos chamar esse ordenador poderoso e inteligente de “Deus”
  7. Portanto, Deus existe.

Qualquer pessoa pode ver a razão pela qual o argumento tem força lógica e deve ser levada a sério. Ao mesmo tempo, é corretamente considerado fraco devido às seguintes objeções (e outras).

Sobre o ponto 2: aqui deve ocorrer o debate criacionismo v.s. evolução. O evolucionismo alega que sistemas de ordem complexa podem evoluir de baixo para cima, de sistemas mais simples. Se assim for, então, assumir que a ordem complexa pode somente ocorrer devido a fontes externas, de cima para baixo, é ilegítima.

Sobre o ponto 3: esse passo infere que existe somente uma ordem externa. Mas bem poderia ser que existem vários ordenadores, cada qual com sua própria especialidade. Ou seja, o argumento torna o politeísmo tão racional quanto o monoteísmo.

Sobre o ponto 4: com esse passo, não podemos mostrar que o ordenador é infinitamente inteligente ou poderoso. Na verdade, podemos analisar nosso mundo com todos os seus “problemas” e “inconsistências” – órgãos desnecessários como o apêndice, ou as inundações que destroem as plantações, etc. – e inferir que um deus semicompetente ou um grupo de deuses beligerantes estão por trás de tudo isso.

Sobre o ponto 5: esse ponto assume que o ordenador ainda existe. Mas bem poderia ser que o ordenador tinha uma grande razão metafísica para existir – criar a ordem no universo – e, tendo cumprido seu propósito, desapareceu na não existência.

Sobre o ponto 6: aqui temos que sermos cuidadosos para não importar todo o significado que acompanha o rótulo “Deus”. Considerá-lo como substantivo próprio, com um D maiúsculo, é assumir que ele tem uma personalidade, enquanto que o argumento no máximo suporta uma força ordenadora impessoal. O argumento também não mostra se o ordenador é bom ou mau, envolvido nas questões cotidianas, ou mesmo se se preocupa conosco de forma particular.

Sobre o ponto 7: se concedermos, pelo bem do debate, que Deus existe, então podemos levantar a seguinte questão sobre Deus: ele é um ser complexamente ordenado? Ou ele é, ou não é, e em ambos os casos estamos frente a um dilema. Se dissermos que Deus é um ser simples ou desordenado, então parece difícil ver como tal ser poderia criar um universo complexo e ordenado. Mas se dissermos que Deus é um ser complexamente ordenado, então devemos lembrar-nos do ponto 2 do argumento que diz que a ordem complexa não pode emergir dos próximos seres. Dessa forma, seguindo a lógica do design inteligente, teríamos que inferir que a ordem complexa de Deus foi imposta sobre ele por um Super-Deus, seguindo em uma regressão absurda.

É claro, poderíamos evitar a regressão ao dizer: “Deus não necessita de um poder externo para impor ordem sobre ele. Ele é um ser excepcional e é auto-ordenador”. Mas se começarmos a fazer exceções – então, por que não fazer uma logo de início e assumir que o universo é auto-ordenado?

* * *

Todo o supracitado é somente o ponto inicial de uma investigação mais profunda sobre causalidade, e é somente a análise de um argumento entre muitos que devem ser considerados.

Em minha opinião, o argumento do design inteligente é o melhor de um grupo ruim de argumentos que tentam provar a existência de Deus. Mesmo assim, mostrar que os argumentos em prol da existência de Deus são fracos não significa que os argumentos naturalistas são automaticamente verdadeiros. Esses são projetos em curso nas ciências naturais e nas humanidades, auxiliando os seres humanos a superar seu estágio de infância intelectual.

Nos próximos artigos da série, continuaremos com outras questões difíceis sobre religião versus naturalismo na ética, política, e a marcha da história.

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Publicado originalmente em Every Joe

Traduzido por Matheus Pacini

Revisado por Matheus Bernardino

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