Três observações sobre aceitar os fatos

Recentemente, refleti muito sobre o que significa aceitar os fatos. Vejo isso como um tópico da psicologia, mas que pressupõe um ponto de vista filosófico particular.

Os realistas destacam que, se você deseja viver no mundo que existe, precisa aceitar os fatos. Já os idealistas, que você pode mudar o mundo que existe, contanto que tome as medidas adequadas. Essas duas perspectivas não são necessariamente conflitantes. Elas podem ser integradas se você concordar que precisa aceitar os fatos agora, a fim de identificar o que fazer agora, o que mudará a situação futura para ser mais próximo ao seu ideal. Essa é a minha opinião (que obtive de Ayn Rand).

Sempre me pareceu óbvio que você deveria aceitar os fatos – até me deparar com situações em que parecia que eu não estava fazendo isso. Por exemplo, repetia uma abordagem fracassada para persuadir alguém de minha opinião, esperando um resultado diferente. Ou reconhecia uma falta de habilidade específica, sem mudar minha abordagem para atingir as metas nessa área. Ou me percebia remoendo um fato que gostaria que não fosse verdade.

Agora vejo esses exemplos de não aceitação dos fatos. Tenho muito a refletir sobre isso, mas gostaria de compartilhar três observações.

  1. O que significa aceitar um fato?

Resposta curta: significa que você o leva em consideração em seus pensamentos, expectativas e planejamento.

Por exemplo, aceitei o fato de que fico doente com mais frequência do que a maioria das pessoas e, como resultado, preciso ter mais cuidados com dieta, exercícios e sono.

Por exemplo, sono: frequentemente preciso dormir 8 horas; no mínimo, 7. Se dormir menos de 7 horas, ou apenas 7 horas por vários dias consecutivos, provavelmente ficarei doente. A forma da doença varia. Posso ficar resfriada. Posso ter enxaqueca. Ou posso ter vertigens. Mas a correlação entre uma curta noite de descanso e faltas no trabalho por doença aproxima-se de 100%.

Eu aceitei esse fato. Planejo minha vida para garantir que durmo o bastante. Se eu acordar antes do esperado, fico deitada até completar as 7 horas, mesmo acordada, para garantir que eu tenha o tempo necessário de repouso. Com essa política, melhorei radicalmente minha saúde geral.

Se eu tivesse redigido esse artigo um mês atrás, diria que esta política é absoluta, sem exceções. Mas houve uma exceção no mês passado.

Com a aproximação do furacão Irma, não esperávamos evacuar nossa casa em Naples, Flórida. Mas, à medida que a previsão piorava e certos fatos se tornavam mais claros, concluímos que deveríamos partir. Isso significava colocar os gatos no carro, sair pela garagem às 21h15 e dirigir até Atlanta. Não tínhamos muito tempo. Não podíamos esperar até a manhã seguinte para partir.

Estava claro que eu não teria o sono necessário naquela noite. Sabia que dormiria apenas uma ou duas horas, fazendo pausas para dirigir. No entanto, comecei a viagem de olhos abertos. Achei provável que ficaria doente por alguns dias depois e não conseguiria trabalhar. Esse era o preço que pagaria. O mais importante era chegar a um lugar seguro.

Quando cheguei a Atlanta, dormir era minha prioridade. (Acho que dormi 15 horas). Também relaxei por alguns dias, sem esperar trabalhar, porque sabia que tinha reduzido minhas reservas. Fiquei felizmente surpresa por não ter ficado doente. Mas isso aconteceu porque aceitei totalmente o fato de que facilmente ficava doente – eu incluí essa informação em minhas expectativas e planejamento, sendo capaz de mitigar esse risco.

  • O que significa se recusar a aceitar um fato?

Na superfície, parece estranho pensar em não aceitar um fato. O que isso significa? Fatos são fatos, independentes de você. Eles são verdadeiros, não importa o que você faça ou diga. Eles são fatos, quer você os “aceite” ou não.

Assim se parece o fracasso em aceitar um fato: você fica obcecado sobre como gostaria que o fato não fosse verdadeiro. Não quer que seja verdade e, portanto, pensa em quão isso é ruim ou como gostaria que algo mudasse. Você faz isso em vez de computar essas informações em seu pensamento, expectativas e planejamento.

Isso geralmente ocorre em resposta a fatos indesejáveis ​​sobre outras pessoas. Por exemplo, há mais de uma pessoa em minha vida que gosta de dar conselhos. Vamos chamá-la de João – o aconselhador-padrão. Ele presume que, se estou infeliz ou confuso com alguma coisa, quero um conselho. Essa é a sua resposta para mim, independentemente da minha intenção. Na verdade, às vezes ele fica com raiva ou frustrado, porque presume que eu quero que ele resolva meus problemas (o que eu não quero).

Muitas vezes, só preciso de alguém que me faça algumas perguntas para ajudar a esclarecer meus próprios pensamentos. Posso não ter certeza sobre qual era o verdadeiro problema, ou de o porquê estava me sentido de certa forma. Nessas situações, perguntas de um ponto de vista diferente podem ser úteis. Mas João não entende que esse pode ser o propósito de uma conversa.

Eu costumava ficar frustrada e zangada com os conselhos inoportunos de João, e até me preocupava por que ele parecia não me entender. Queria que ele fosse diferente. É claro que isso é totalmente contraproducente. Outras pessoas não estão sob seu controle.

Finalmente, aceitei o fato de que cada uma das respostas automatizadas do João é dar conselhos, e incluo isso em minhas expectativas e escolhas. Agora, quando quero algo diferente de um conselho, faço um pedido explícito. Quando explico ao João que não estou lhe pedindo para resolver meus problemas, gostaria apenas de usá-lo como um tipo de eco, se ele estiver disposto a assumir esse papel. Como resultado, o que costumava ser uma conversa inútil e mutuamente frustrante, agora se torna mutuamente amigável – e muito útil.

Visto que a vida é muito melhor quando você aceita fatos sobre outras pessoas, o que o impede de aceitá-los desde o início? Acho que, quando você se preocupa com um fato desagradável sobre outrem, desejando que fosse diferente – embora isso esteja obviamente fora de seu controle -, você está evitando o luto.

Eu preferiria contar com confidentes que adivinhassem minhas necessidades emocionais o tempo todo. Seria um apoio maravilhoso para mim, em especial quando estou cansada ou estressada. É quando a energia extra necessária para tornar minhas intenções claras pode parecer um fardo. Nessas situações, gostaria que o João fosse mais observador e sensível. Imaginando como seria se João fosse diferente, fico triste por não ter esse apoio nessas situações específicas. Sinto falta desse valor.

O luto pela falta ou perda de um valor pode ser muito doloroso. Mas esclarece o que é importante para você, reseta o seu emocional e o liberta para achar uma forma diferente de obter ou manter aquele valor que é importante para você. É assim que aceitar os fatos sobre os outros o ajuda a viver melhor.

  • O que significa aceitar a si mesmo? A autoaceitação é um valor?

Essa é difícil – porque embora você não possa mudar as outras pessoas, você pode mudar a si mesmo. Acho que “autoaceitação” significa aceitar seu próprio estado mental – o que não significa que você não mudará de ideia no futuro.

Por exemplo, numa manhã da semana passada em Nova York, chorei por várias horas, intermitentemente. Obviamente, eu estava sofrendo. O choro foi um forte sinal de alerta da perda de algum valor. Tentei várias técnicas de introspecção de emergência. Essas técnicas rápidas geralmente ajudam a esclarecer a situação, ajudando-me a recuperar meu equilíbrio. Neste caso, não adiantaram. Cheguei a uma dúzia ou mais de hipóteses para explicar por que estava angustiada, mas nenhuma delas parecia ser a “razão” que traz clareza e fechamento.

Se eu estivesse em casa, teria largado tudo e feito um dos meus exercícios aprofundados de introspecção para chegar ao fundo do problema. Esses exercícios são incrivelmente eficazes – sempre levam a um insight significativo. No entanto, levam cerca de três horas para serem concluídos. Eu estava participando de um workshop na época, logo não tinha tempo nem privacidade para realizá-lo. Continuei tentando as técnicas rápidas, mas não estava chegando a lugar nenhum.

Em vez disso, fiquei cada vez mais chateada por estar chateada. Eu não queria ficar à beira das lágrimas durante o workshop – fiquei com vergonha de estar tão emotiva. E também sabia que ficar chateada com a forma como estava me sentindo dava origem a um ciclo vicioso totalmente contraproducente.

No intervalo, fiquei um tempo sozinha para tentar me recompor. Nesse momento, desejando desesperadamente organizar minhas emoções, percebi que precisava aceitar meu estado mental.

Seja lá que o estava acontecendo, não era algo que eu pudesse resolver durante o tempo disponível. Concluí que devia estar enfrentando um problema maior e mais profundo do que aparentava ser. Precisava de mais tempo.

Com essa perspectiva, relaxei imediatamente. Eu tinha uma escolha: poderia deixar o workshop e resolver, ou poderia deixar o assunto de lado e voltar a revisá-lo no futuro. Se escolhesse essa segunda opção, precisaria reconhecer que, nesse ínterim, estava emocionalmente vulnerável e deveria ser gentil comigo mesma.

Escolhi a segunda opção. Ao aceitar meu estado emocional, parei de tentar “me acalmar” e comecei a perceber todas as pequenas coisas que estavam me incomodando. Não as levei muito a sério, porque sabia que estava em um estado emocionalmente vulnerável. Presumi que fossem respostas desproporcionais. Então, tudo que fiz foi arquivá-los mentalmente para referência futura.

Ainda não tive a chance de resolver o problema mais profundo, mas tenho um arquivo mental cheio de informações relevantes. Em algum momento, surgirá um problema semelhante, e o que observei nesse caso me ajudará a desvendar os dois incidentes de uma vez.

Nesse caso, aceitar que não poderia mudar meu estado emocional naquele momento me ajudou a parar de tentar alcançar o inalcançável. Eu poderia focar minha atenção no que eu poderia fazer – e isso clareou minha mente e me tornou mais eficaz.

A conclusão dessas três observações: em cada um desses casos, os fatos que aceitei eram fatos sobre a consciência – meus ou de outra pessoa. Não é tão difícil aceitar um fato como “a loja fecha às 11 horas”. É difícil aceitar fatos quando parece que eles envolvem seu poder de escolha – e você pode alterá-los para atender às suas necessidades. No entanto, muitas vezes superestimamos o que está em nosso poder em um determinado momento. Mas isso é assunto para outro texto…

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Publicado originalmente em Thinking Directions.

Revisado por Matheus Pacini.

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