Qual é o problema das racionalizações?

Se todos os grandes problemas do mundo — desde a deterioração da arte, problemas econômicos e políticos, até guerras e grandes conflitos globais — pudessem ser rastreados de volta a um único fenômeno psicológico, este seria a capacidade humana de formar racionalizações: falsas teorias e explicações que distorcem a realidade para preservar uma pseudoautoestima ou um falso senso de bem-estar. 

(Deixo claro aqui que não estou atacando o conceito de racionalidade — ser racional é ser fiel à realidade, uma virtude essencial. Racionalizações, por outro lado, são distorções da razão: escudos psicológicos que criamos contra fatos e sentimentos que desejamos ignorar.)

Esta é uma capacidade natural da mente humana, e todos acabamos descobrindo este recurso logo nos primeiros anos de vida, mesmo sem grandes influências externas – assim como crianças não precisam ser expostas a uma má teoria epistemológica primeiro para depois aprenderem a mentir; basta elas perceberem que podem expandir a área em que aplicam o conceito de “faz de conta”.

O psicólogo Nathaniel Branden, um dos pioneiros nessa área, define o conceito de pseudoautoestima desta forma em seu livro The Psychology of Self-Esteem:

Já que autoestima é a necessidade mais fundamental da consciência humana, e já que ela não pode ser evitada, as pessoas que falham em conquistar autoestima (ou que fracassam num nível considerável) buscam forjá-la – ignoram sua falta e buscam proteção contra o estado de pavor interno atrás de uma barricada de pseudoautoestima.

Pseudoautoestima – uma simulação irracional de valor próprio – é um artifício neurótico para diminuir ansiedade e obter um falso senso de segurança – aliviar a necessidade do homem por uma autoestima autêntica, enquanto permite que as verdadeiras causas de sua falta permaneçam ignoradas.

A pseudo-autoestima de um homem é preservada de duas formas: ignorando e reprimindo ideias e sentimentos que possam afetar negativamente sua autoavaliação – ou então tentando obter um senso de eficácia e valor próprio através de algo que não a racionalidade – de algum valor ou virtude alternativa que lhe pareça menos exigente ou mais facilmente atingível – como “cumprir seu dever”, ser estoico, ser altruísta, ser financeiramente bem-sucedido ou sexualmente atraente.

Na psicologia de um homem com autêntico valor próprio não existe conflito entre sua percepção da realidade e a preservação de sua autoestima – já que ele baseia sua autoestima na percepção da realidade e no fato de que ele não coloca nenhum valor ou consideração acima da realidade. Já para o homem de pseudoautoestima, a realidade se torna uma ameaça, um inimigo. Ele sente que tem que escolher entre a realidade ou sua autoestima, já que a sua falsa autoestima fora conquistada à custa de evasão, de amplas áreas de cegueira e de autocensura cognitiva.

Branden costuma discutir mais as racionalizações ligadas à proteção da pseudoautoestima, mas a autoestima não é a única necessidade emocional do ser humano. Precisamos também de sentimentos positivos relacionados à vida como um todo: algum senso de otimismo e de que o universo é um lugar bom – e as racionalizações criadas para protegê-los podem ser tão problemáticas quanto às ligadas à pseudoautoestima. Da mesma forma que a pessoa que falha em conquistar uma autoestima verdadeira pode tentar forjá-la, uma pessoa que não consegue conquistar um sentimento positivo em relação à vida de forma honesta, observando a realidade como ela é, também poderá tentar forjar este sentimento, distorcendo a realidade e criando racionalizações que reduzam seus medos. Estas distorções podem ser usadas para esconder a verdade dos outros, mas sua principal função é escondê-la da própria pessoa.

Alguns exemplos de medos dos quais tentamos nos proteger:

– O medo de sermos inferiores às outras pessoas, de sermos desprezíveis, ridículos, sem valor pessoal (sentimentos de vergonha e humilhação).

– O medo de descobrirmos que a vida é trágica; que a dor e o fracasso são inescapáveis (sentimentos de horror, desesperança)

– O medo de descobrirmos que somos maus, imorais, de haver alguma motivação perversa por trás de nossos desejos e ações (sentimentos de culpa).

As racionalizações, ou “valores de defesa” mais comuns (usados para nos proteger desses medos) costumam ser variações destes quatro: Subjetivismo, Misticismo, Altruísmo ou Pessimismo.

– Subjetivismo é a racionalização básica que permite o sustento de todas as outras: é quando a pessoa decide que fatos externos não são absolutos, que não existe apenas uma verdade, e que aquilo em que ela decide acreditar e manter em sua imaginação é o que realmente importa e molda a realidade. A própria evasão, ou seja, o simples ato de decidir não olhar para os fatos (como se fechar os olhos fizesse o mundo desaparecer) é uma manifestação de subjetivismo, mesmo quando a pessoa não chega a criar uma lógica falsa para ressignificar um problema. Uma variação popular dele é o subjetivismo social: quando a justificativa para se acreditar em algo é o simples fato de outras pessoas acreditarem naquilo. Esses recursos permitem que pessoas que não tenham razões para se sentirem importantes, orgulhosas ou otimistas possam se comportar a qualquer momento como se as tivessem, independentemente dos fatos da realidade.

– Misticismo é o subjetivismo apresentado não por uma decisão mental direta, mas justificado por uma crença no sobrenatural, na ideia de que a verdadeira realidade está em outra dimensão, de que existe uma ordem alternativa e invisível por trás do mundo que enxergamos, e que a realidade, portanto, não é limitada às leis que conhecemos, tampouco às evidências — que há espaço para milagres, para o contraditório, o não-científico, para o que não se pode ver ou provar. Noções desse tipo criam uma válvula de escape para inúmeras ansiedades: se não nos sentimos importantes no mundo real, podemos imaginar que somos importantes de acordo com as regras da outra dimensão. Se fracassamos em algo, podemos culpar as influências misteriosas desta outra realidade. Se tememos a morte ou a falta de sentido da vida, podemos imaginar que o sentido está na outra dimensão, e que se formos fiéis a certas regras, seremos poupados de alguma forma.

– Altruísmo representa qualquer tipo de engrandecimento dos “fracos” em relação aos “fortes”, qualquer teoria que resulte na crença de que o indivíduo frágil, incapaz, humilde, é de alguma forma mais nobre em caráter e merecedor de recompensas que o homem forte, habilidoso. Isso permite que pessoas sem grandes atributos vivam em paz com suas limitações, e possam ver o homem “forte” como mau e inferior em caráter.

– Pessimismo é a necessidade de crer que a vida é essencialmente trágica, conflituosa, que a felicidade é uma ilusão, que o ser humano é impotente, incapaz, determinado, sem livre-arbítrio, que há um conflito de interesses irreparável entre os homens, que a realidade exige constantes sacrifícios, etc. Isso pode soar contraintuitivo, já que um dos grandes medos da humanidade é justamente o de descobrir que a vida é trágica (aliás, otimismo também pode ser distorcido e usado como racionalização). Mas há um grande “benefício” em ser pessimista (ou, pelo menos, fingir ser quando conveniente), pois essa ideia nos protege de outros medos que podem ser ainda maiores: o de sermos fracos/perversos por nossa própria culpa. Se acreditamos que o universo é um lugar inóspito para o ser humano, então é possível atribuir ao universo nossos fracassos. E se o homem é defeituoso e irracional por natureza, se as relações humanas são inevitavelmente conflituosas, então podemos nos perdoar por nossas mentiras, trapaças, crueldades, podemos justificar o uso de força contra os outros, etc. (Vale lembrar que muitas dessas ideias têm sim alguma base na realidade — o que as tornam racionalizações são as generalizações e as aplicações da ideia em áreas indevidas.)

O fato de algumas dessas racionalizações contradizerem outras é um dos motivos de a humanidade estar em eterno conflito: as pessoas que precisam de um tipo de racionalização irão sempre odiar aquelas que sustentam racionalizações opostas, já que uma implica a destruição da outra.

O conflito entre “direita” e “esquerda” é, em grande parte, um conflito entre grupos que adotam métodos rivais de racionalização (e não quero afirmar que todas as pessoas dentro desse espectro estejam racionalizando). Como discuti no texto Por Que a Esquerda É Mais Intelectual que a Direita, a direita em geral se apega mais ao “combo” Misticismo + Subjetivismo para ignorar problemas e preservar um senso de superioridade; uma visão idealizada e puritana de mundo. A esquerda em geral se apega mais ao “combo” Altruísmo + Pessimismo para se proteger de sentimentos de inferioridade e enaltecer os fracos e oprimidos (embora Altruísmo também seja importante para a direita). Como o Misticismo puritano da direita é incompatível com o Pessimismo/Altruísmo da esquerda, cada lado sente que não poderá viver em paz enquanto as racionalizações do outro lado não forem destruídas. Um grupo, para se sentir bem, precisa negar aquilo que considera o lado frágil e inferior do ser humano. O outro, para se sentir bem, precisa aceitar e celebrar este lado, negando a ideia de que o ser humano possa ser mais que isso. 

O fato é que a eliminação de um grupo ainda não traria paz e felicidade para o outro — afinal, a realidade objetiva continuaria sendo inimiga de suas racionalizações. Ainda assim, tudo isso leva a uma série de desequilíbrios e conflitos não só políticos, mas também sociais e psicológicos.

Uma pessoa que, por exemplo, faz tantas plásticas e desfigura o próprio corpo em busca de um ideal de beleza quase sobrenatural (fenômenos como o do “Ken humano”) muito provavelmente está sob as distorções de algum tipo de racionalização Mística, querendo se proteger de sentimentos negativos ligados ao lado mais frágil e “animal” do ser humano, aproximando-se do “divino”. No outro extremo, uma pessoa que abandona orgulhosamente qualquer senso de vaidade, e propositalmente resolve se enfear, deixar de aparar pelos e usar desodorante, em busca de uma existência quase primitiva, muito provavelmente está adotando racionalizações Altruístas/Pessimistas, querendo se proteger de sentimentos de inferioridade, se rendendo ao lado “animal” de propósito para se convencer de que o virtuoso e o superior são irreais. Ambos desprezam um lado da famosa frase de Francis Bacon, “A natureza, para ser comandada, precisa ser obedecida”: um gostaria de comandá-la sem ter que obedecê-la, e o outro gostaria de obedecê-la sem ter que comandá-la; um age como se a volição humana fosse onipotente; o outro, como se ela fosse inexistente.

O primeiro tipo tenderá mais à direita; o segundo, mais à esquerda. Mas claro que isso não é uma regra absoluta, apenas um padrão comum. O cérebro permite todo tipo de contradição nessa área, e quanto mais fragilizada e ansiosa uma pessoa, mais ela terá que combinar todos os tipos de racionalizações e fazer um malabarismo de estratégias conflitantes.

É importante observar que uma pessoa que forma racionalizações não se torna totalmente irracional ou desconectada da realidade. Ela apenas cria um escudo ao redor de temas e fatos específicos que não quer encarar. Se estes forem pontuais e delimitados, a pessoa poderá agir racionalmente em todas as outras áreas de sua vida, e ser relativamente bem-sucedida. Mas se suas dores forem tantas que exijam escudos cada vez maiores, englobando mais e mais áreas, ela poderá se desconectar da realidade de maneira mais comprometedora e desenvolver até graves problemas cognitivos.

Outro ponto importante é que a pessoa não precisa necessariamente ser consistente e viver de acordo com seus valores de defesa o tempo todo. Racionalizações são como curtos-circuitos que interrompem uma linha de pensamento e a desviam para longe de fatos que provocam ansiedade. Elas podem ser usadas apenas quando forem necessárias, e ignoradas quando a pessoa não estiver mais sob ameaça — mais ou menos como o fenômeno das cócegas: se somos ameaçados com cócegas, subitamente nos tornamos extrassensíveis e nos protegemos de forma até violenta e irracional; mas, se não há ameaça, os sintomas podem sumir completamente. Por exemplo: quando confrontada com fatos incômodos, uma pessoa pode dizer “não existe verdade absoluta, o que é verdade para você não é verdade para mim”, e realmente acreditar nisso por um momento enquanto escapa da conversa. Não quer dizer que ela precise necessariamente viver o tempo todo como se não houvesse verdade absoluta. Ela pode ser bastante objetiva e “absolutista” no seu dia a dia, e ao mesmo tempo manter essas racionalizações na manga como mecanismos de defesa.

Além do atrito entre métodos rivais de racionalização, todos aqueles que se agarram a racionalizações irão eventualmente entrar em conflito e criar um ressentimento contra as pessoas que conseguem viver sem elas: o indivíduo independente, bem-sucedido, cuja felicidade parece estar em harmonia com a realidade objetiva. Esse tipo de pessoa é a maior ameaça para as racionalizações, e grupos inimigos de “racionalizadores” frequentemente unirão forças contra ela.

Como as racionalizações têm um valor de sobrevivência, e sem elas muitos acreditam que a vida seria intolerável, algumas pessoas se agarram a essas crenças com a força que se agarrariam à beira de um penhasco. Afinal, é preferível viver com certas áreas de cegueira do que ser condenado a uma vida de horror e desesperança. E como esses valores de sobrevivência geralmente são mais fortes que a razão, é quase sempre inútil tentar refutá-los diretamente, através da argumentação lógica.

Quanto mais consciência a pessoa tem de seus processos de racionalização, mais ela é capaz de superá-los, e menos danos ela tende a causar aos outros. Os grandes problemas do mundo são causados por pessoas que não têm consciência de suas racionalizações, e que são psicologicamente incapazes de aceitar suas fragilidades e limitações. Essas pessoas não se contentarão em manter suas racionalizações apenas dentro de suas mentes. Conforme interagem com o mundo e vivem em sociedade, as diferenças entre os fatos da realidade e suas racionalizações se tornam cada vez mais gritantes e intoleráveis; essa dissonância será tão incômoda, que fará com que deem um passo fatal: comecem a agir para ajustar o mundo às suas distorções, tentando moldar a realidade externa e a das outras pessoas, para que todos vivam sob suas racionalizações, transformando-as em verdades metafísicas. Esta é a semente de muitas das tiranias, dos grandes crimes e injustiças cometidos contra a humanidade.

A pessoa que resolve implementar suas racionalizações no mundo externo precisará não só destruir as pessoas cujas racionalizações são incompatíveis com as suas, como também destruir o homem virtuoso, livre de racionalizações, cuja mera existência é uma ameaça à sua, mesmo que ele não esteja agindo para lhe causar nenhum dano.

A cultura e o governo são duas formas de implementar racionalizações em grande escala e distorcer a realidade de forma a atingir a sociedade como um todo.

A cultura (educação, jornalismo, arte, entretenimento, etc.) serve como forma de tornar as ideias dos racionalizadores parte do senso comum; persuadir a população através de novas teorias, conceitos e narrativas que distorçam os fatos em seu favor. Mas esta é uma forma limitada de influência, pois não transforma a realidade concreta de forma instantânea, garantida, nem na velocidade que o racionalizador deseja. É aí que entra o governo, que tem o poder de usar força física contra os homens, e cuja principal função no mundo atual é a de materializar racionalizações, realizar as fantasias impraticáveis da humanidade.

Como Ayn Rand discute no livro For the New Intellectual, esta é a parceria clássica entre o Witch Doctor (o “Curandeiro”, o homem de espírito) e Átila (o homem de músculo). O que ambos têm em comum é uma aversão à realidade objetiva, na qual eles se sentem ineficazes. Para sobreviver, eles formam uma divisão de trabalho: o “Curandeiro” elabora as ideias e oferece justificativa moral para as ações do Átila, o selvagem que usará força física para implementá-las. No mundo moderno, o papel do Curandeiro é exercido pelos intelectuais, e o de Átila, por políticos e pelo governo. O alvo de ambos — aquele que eles trabalham para escravizar — é a figura do Produtor: o homem independente, capaz de lidar com a realidade e gerar as riquezas que todos desejam.

O governo, em vez de agir apenas como um agente de proteção de direitos, usa seu poder para tentar proteger os homens da realidade em si e colocar em prática suas racionalizações: penalizar os bem-sucedidos, recompensar os malsucedidos (sob noções de Altruísmo), impor certas religiões, decidir o que crianças aprenderão na escola, proibir comportamentos que julga imorais e que violam sua noção de sociedade ordenada (sob noções de Misticismo), etc.

Mas, talvez, o mais importante de tudo seja a névoa que o governo despeja sobre a realidade objetiva, tornando ambígua e misteriosa a relação entre causas e efeitos, entre dinheiro e valor. Sob um governo que interfere massivamente na vida de todos, qualquer fracasso ou sucesso pode ser explicado agora como uma possível injustiça do “sistema”. De certa forma, o governo passou a ter a mesma função do Misticismo para os homens: livrar a população do absolutismo impetuoso da realidade.

O Produtor não tem nada a ganhar de um governo que viole as liberdades das pessoas e distorça a realidade, afinal ele é capaz de ser bem-sucedido por seus próprios méritos. Já os que não são capazes (e não querem admitir isso) é que são os mais interessados em aumentar o papel do governo e seu poder sobre a população: esta é a única forma de eles viverem às custas do Produtor, e, ao mesmo tempo, terem suas pseudoautoestimas protegidas pela “névoa” do sistema.

É por causa disso tudo que acredito que, se alguém quiser abraçar a missão de melhorar o mundo, será mais importante promover saúde psicológica/emocional (fazer as pessoas se sentirem mais em paz com suas fragilidades, com os fatos da realidade, e desenvolverem mais autoestima e responsabilidade própria) do que forçar mudanças políticas para as quais a população pode não estar preparada. Viver numa sociedade justa, livre, sem grandes distorções provocadas pelo governo, significa estar mais exposto ao absolutismo da realidade; ter que se apresentar ao mundo como você é e aceitar as consequências. Pessoas com graves feridas psicológicas não vão querer se livrar de seus “escudos” (seus valores de defesa) e também não deixarão que ninguém os arranque à força. Os escudos só poderão ser abandonados por elas próprias, voluntariamente, e elas só farão isso quando suas feridas não forem tão grandes — só se agarrarão com menos força à beira do penhasco quando a queda não parecer mais fatal.

Uma evolução na arte e na cultura também só poderá ocorrer com uma melhora no estado psicológico da população em geral. Quanto mais fragilizada e ansiosa uma sociedade, mais ela se voltará contra projeções de virtude e felicidade na arte — reparem que quase todos os grandes “vilões” do entretenimento que descrevo no meu livro Idealismo são formas de implementar alguma das racionalizações discutidas aqui.

Esse conceito de racionalização está na base de muitas das minhas ideias (e de conceitos objetivistas) e é quase uma teoria unificadora, que mostra a conexão entre diversos problemas do mundo que superficialmente não parecem relacionados. Ela explica inclusive por que uma filosofia como o Objetivismo, que se propõe a escancarar as racionalizações da humanidade, dificilmente se tornará mainstream: embora eu ache que algumas pessoas sejam capazes de se livrar de suas racionalizações, me parece que apenas uma pequena minoria é capaz de viver sem o auxílio de nenhuma das quatro principais descritas ao longo do texto. 

A maioria dos movimentos que conseguiu levar a humanidade na direção de valores mais saudáveis e racionais, pelo menos até hoje, fizeram isso de maneira indireta, sutil, sem exigir que as pessoas abandonassem seus valores de defesa — como uma mãe que precisa fazer todo tipo de jogo mental para convencer seu filho a ir ao dentista ou tomar um remédio.

Você pode estar se perguntando: e quanto a mim (eu que estou escrevendo o texto), sou uma pessoa livre de racionalizações? Certamente, não. Já cometi e ainda cometo muitos erros nesta área. Mas, se eu tenho uma qualidade que reduz as chances de eu causar danos aos outros por causa de possíveis racionalizações, é o fato de eu conseguir contemplar, com certa serenidade, a possibilidade de eu estar racionalizando diversas questões da minha vida. Um teste que todos podemos fazer para checarmos a rigidez de nossos “escudos”, é refletirmos sobre situações dolorosas do passado, e checar o que sentimos ao considerarmos explicações menos agradáveis para cada situação. Pense sobre as rejeições amorosas mais dolorosas que você teve. Rejeições sociais que te marcaram. Os fracassos profissionais. As principais dificuldades de sua vida. E, caso você tenha uma explicação confortadora para elas, tente por um momento considerar que a verdade possa ser um pouco mais dura do que você gostaria: que você foi rejeitado por de fato não ser tão interessante quanto gostaria. Por não ter certas competências. Por ser inferior em algum aspecto. Você consegue refletir sobre isso sem ter grandes crises de ansiedade? Você considera hipóteses assim no seu dia a dia? Ou esse é um exercício totalmente fora dos seus padrões de pensamento? Racionalizadores perigosos raramente se aproximam desses lugares da mente.

Não quero sugerir que o humano deveria ser capaz de ser racional 100% do tempo, se livrar completamente de todas as racionalizações, nunca ignorar a realidade em nenhum aspecto. Isso seria apenas uma manifestação de Misticismo. Mas isso também não quer dizer que toda racionalização seja natural e perdoável, em qualquer escala. Existe um ponto a partir do qual as racionalizações se tornam de fato condenáveis, e causam danos não só ao racionalizador como também aos outros. Traçando um paralelo com mentiras, existem mentiras que as pessoas contam no dia a dia que são difíceis de evitar, mas são relativamente inofensivas: se seu marido/esposa, com quem você marcou de se encontrar, telefona e pergunta se você já saiu de casa, e você diz “estou no elevador”, mas na realidade você ainda está trancando a porta de casa e indo chamar o elevador, essa mentira provavelmente não causará grandes danos a você nem a ninguém. O mundo seria um lugar tranquilo se as desonestidades predominantes fossem dessa natureza. Minha crítica aqui é principalmente às pessoas que, numa situação similar, respondem “estou no elevador”, quando na verdade estão se despedindo da amante, ou se desfazendo de um cadáver que acabaram de produzir. Racionalizações são mentiras que nós contamos a nós mesmos, e em termos de gravidade, elas podem estar em qualquer ponto entre esses extremos. O exemplo da desova do cadáver pode parecer exagerado, mas apenas racionalizações se aproximando desse nível de gravidade podem explicar certos absurdos que vemos diariamente nos noticiários e na cultura atual.

Há um debate sobre o que move a história: se são ideias (filosofia) ou se é a psicologia. Obviamente existe uma interação complexa entre as duas coisas: pessoas podem ser influenciadas por ideias, mas ao mesmo tempo, filosofias precisam sempre “servir” a necessidades psicológicas pré-existentes no ser humano para se tornarem influentes (por isso os assuntos com os quais a filosofia lida são sempre os mesmos: os problemas entre os “fortes” e os “fracos”, entre o mundo real e o mundo “invisível”, etc.). Não sei dizer o que é mais fundamental, mas se a psicologia for um dos caminhos para “salvar o mundo”, o fenômeno discutido aqui seria meu palpite de por onde começar.

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Revisado por Roberta Contin.

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