Roberto Rachewsky



Qual é o papel de Gramsci na hegemonia marxista no Brasil?


Em primeiro lugar, nunca houve uma guerra cultural no Brasil. Aqui, a hegemonia da esquerda se deu por aclamação.

Os Cadernos do cárcere sequer haviam sido redigidos quando, em 1922, a Semana de Arte Moderna lançou as bases do niilismo pós-moderno que tomou conta da cultura nacional.

Ninguém conhecia Gramsci do lado de cá do Oceano Atlântico quando, em 1932, intelectuais de peso assinavam o Manifesto dos pioneiros da Escola Nova criando as bases pedagógicas para a educação estatal, obrigatória, universal e gratuita institucionalizada na Constituição de 1934, promulgada por Getúlio Vargas.

O coletivismo estatista defendido por Gramsci atingiu o Brasil tardiamente. Aqui, o catolicismo, o positivismo, o pós-modernismo, o fascismo, o trabalhismo e o pragmatismo já haviam pavimentado o caminho.

Os intelectuais de esquerda da segunda metade do século XX e do início do século XXI, com o lulopetismo, desde Chico Buarque até Paulo Freire, têm vínculos com a ideologia de seus antepassados compatriotas muito maiores do que com os ditos ensinamentos gramscianos.

O Brasil é sui generis, somos coletivistas-estatistas por formação voluntária, e não por doutrinação forçada. Para mudar a mentalidade hegemônica reinante foi preciso que liberais declarassem a guerra cultural da qual os conservadores tanto falam.

Todos os liberais que se prezam devem estar preparados, pois a guerra cultural mal começou: ataques pelos flancos à direita e à esquerda virão. Não se enganem, a defesa da liberdade nunca foi fácil e Gramsci nunca foi o verdadeiro inimigo. Pelo contrário, pode até servir de “inspiração” para que comecemos a tomar o poder devagarinho.

Como dizia Brizola, sopa quente se toma pelas beiradas.

Escrevi um texto pedindo que parem de falar em Gramsci porque o italiano não foi o responsável intelectual pelo coletivismo estatista que conforma a mentalidade hegemônica brasileira.

Gramsci e seus seguidores brasileiros são apenas a parte mais óbvia e evidente do coletivismo estatista brasileiro. Minha provocação para que deixemos Gramsci de fora das análises políticas e críticas inevitáveis tem a intenção de motivar liberais verdadeiros e conservadores não reacionários a se empenharem mais na identificação das verdadeiras origens do nosso apego às ideologias avessas ao individualismo, ao livre mercado, ao verdadeiro estado de direito, que nos mantêm no atraso ideológico e na penúria socioeconômica.

Sim, Gramsci teve alguma influência no final da década de 1960 e no início da década de 70 entre os marxistas brasileiros menos intelectualizados e mais pragmáticos. No entanto, o controle dos mais importantes instrumentos de dominação política de uma sociedade, a linguagem e a educação, já haviam sido conquistados pelos coletivistas estatistas, socialistas, democratas, comunistas, fascistas e integralistas ainda nas décadas de 1920 e de 1930.

Há aqueles que estudam a história e o contexto social limitando-se ao passado recente, como se as coisas tivessem começado ontem, repentinamente. Isso é um erro, porque muitas vezes confundimos consequências com suas causas e atacamos aquelas em vez de tratarmos dessas para resolvermos nossos problemas.

Gramsci, Marcuse, Foucault, Derrida ou Sartre são apenas membros da retaguarda de um exército de intelectuais que se utiliza há tempos da linguagem, da educação, das artes e da política para minar o processo cognitivo das mentes livres e independentes que poderiam lhes fazer oposição.

Esse processo de deturpação conceitual é contra o devido uso da razão, contra a ciência, contra a lógica, contra a ética individualista, e tudo isso por uma razão: o desejo niilista de por fim a tudo aquilo que representou a modernidade da forma como o Iluminismo anglo-saxão concebeu.

Não basta atacar Paulo Freire ou Antonio Gramsci, o furo é mais embaixo e se não observarmos tal ponto, não seremos capazes de reverter o processo que está em curso.

Todo um edifício ideológico foi construído muito antes desses novos promotores do caos social, da luta de classes, do estado autoritário, do relativismo subjetivo, das sociedades coletivizadas de indivíduos tratados como gado.

Sem saber a fonte primária do que nos aflige podemos amenizar os problemas com paliativos, porém jamais removeremos o câncer por inteiro.

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Revisado por Matheus Pacini.

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