Mariane Beatriz



Qual é a influência atual de Kant?


Estou assistindo às interessantes palestras de Jordan Peterson, cuja série é intitulada O significado psicológico das histórias bíblicas. Quase cinco milhões de pessoas já assistiram a elas online, o que evidencia o interesse de muitos por filosofia, pois é disso que Peterson está tratando.

Neste texto, Peterson recebe minha admiração, mas também meu contraponto. Em minha opinião, sua principal influência é Immanuel Kant. A influência desse filósofo alemão sobre o pensamento ocidental pode ser comparada à de Platão e à de Aristóteles. Em poucas palavras, Kant aproveitou a metafísica do Cristianismo e a secularizou. Assim como Kant, Peterson tenta explicar sua visão religiosa de mundo através da razão.

Antes de Kant, os filósofos estabeleciam que uma proposição era verdadeira, ou pela lógica ou pela experiência. Se uma proposição fosse estabelecida pela lógica, seria uma verdade a priori ou necessária. Se fosse estabelecida pela experiência, e não pela análise lógica, seria uma verdade a posteriori ou contingente.

Os racionalistas acreditavam que o homem nascia com ideias inatas, com um conhecimento a priori, chegando às verdades necessárias pela intuição ou pela dedução. Os empiristas achavam que todo conhecimento vinha da experiência, e que o homem chegava às verdades por meio da indução.

Kant se propôs a resolver a questão levantada pelo cético David Hume sobre como alcançar o conhecimento de verdades necessárias sem a experiência.

Segundo Hume, a Existência é o Caos, e não podemos prever o futuro, pois não existe causalidade e muito menos certeza de nada.

Hume argumentou que todo conhecimento emana das experiências dos nossos sentidos, mas essas nos fornecem apenas ideias particulares e contingentes. Não há justificativa para o estabelecimento de verdades a posteriori, contingentes (que descrevem o que foi observado) para verdades a priori ou necessárias.

Para resolver essa questão, Kant adicionou outra distinção entre as proposições: analíticas ou sintéticas. Em uma proposição analítica, o predicado está oculto no sujeito; por exemplo: "rosas são flores.” Que rosas são flores é parte da definição de rosas. O princípio da não contradição garante este juízo, pois seria uma contradição afirmar que uma rosa não é uma flor. Em uma proposição sintética, o predicado está fora do conceito do sujeito, embora esteja em conexão com o mesmo. Por exemplo: “Algumas rosas são vermelhas.” A cor “vermelho” não é parte da definição de uma rosa.

A garantia de um juízo sintético a posteriori é a experiência. A proposição “essa rosa é vermelha” é confirmada pela experiência visual. Mas que garantia temos para um juízo sintético a priori? Por exemplo: “todo evento tem uma causa.” Se não é a experiência ou o princípio da não contradição, que princípio pode ser usado para prová-lo? Hume achava que esse princípio não existia. Para Kant, esse era o “problema geral da razão pura.”

Na hipótese de Kant, esses juízos eram garantidos não pela experiência ou pelo princípio da não contradição, mas por um princípio organizador nas nossas mentes.

Kant, então, discordou dos racionalistas ao afirmar que a mente não tinha um conteúdo inato, mas sim uma estrutura inata. Essa estrutura inata da mente sintetizava a experiência em 12 atividades como tempo, quantidade, espaço, causalidade, etc... Na famosa dedução transcendental das categorias, Kant tenta provar que certos conceitos devem ser intrínsecos na estrutura da nossa mente, tornando possíveis as percepções. Em sua obra, Crítica da Razão Pura, Kant especifica quais categorias são necessárias para se adquirir conhecimento de qualquer coisa. Além disso, sustenta que, sem conceitos na estrutura da nossa mente, não poderíamos sintetizar nossas percepções. Por exemplo, conceitos que nos permitem perceber o tempo e o espaço são conceitos necessários, já que tempo e espaço são absolutos necessários. Mas a experiência do tempo e espaço requer um ato de síntese de nossa parte? Segundo Kant, uma categoria é uma regra a priori, construída em nossa mente, instruindo-a como sintetizar e possibilitando nossa percepção do mundo espacial temporal.

Na metafísica, Kant dividiu o mundo entre numênico e fenomênico. O mundo numênico seria a realidade verdadeira, enquanto o outro seria o que aparece para nós, o mundo das experiências que processamos.

O acesso ao mundo numênico, não seria através da razão pois esta estaria limitada apenas ao mundo fenomênico; para tal, precisaríamos da Ética. Assim como no Cristianismo, somente os “puros” alcançarão o Reino de Deus. Para Kant, se o homem obedecesse a certos imperativos categóricos, poderia ter acesso ao mundo numênico. Esses imperativos categóricos seriam valores absolutos universais, aplicáveis para todos os humanos. Seriam obrigações que devemos seguir, sem levar em conta nossos desejos ou objetivos. Uma ética do dever e do sacrifício, onde autointeresse e moralidade estão em oposição direta.

Ainda no âmbito da metafísica e da epistemologia, Kant defendia a primazia da consciência, isto é, que a consciência humana é o que cria a realidade do mundo fenomênico, e não do numênico. Antes de Kant, tanto racionalistas como empiristas acreditavam que o conhecimento é o reconhecimento da existência. Kant achava que o conhecimento se tratava não de uma atividade para descobrir e reconhecer as leis da natureza, mas sim para criá-las.

No mundo numênico estariam Deus e a imortalidade, fora do âmbito da experiência e inalcançáveis aos seres humanos: restávamos crer nisso por fé. Deus e a imortalidade estariam separados e livres da razão, dos céticos e dos ateístas, que pertenciam ao mundo fenomênico.

Em seu livro A History of Western Philosophy, W. T. Jones mostra a dimensão do legado de Kant: apesar de um número de contramovimentos como Materialismo, Positivismo, Pragmatismo e Existencialismo, a filosofia do século XIX se moveu dentro de uma estrutura kantiana. Quase toda filosofia do século XX pode ser vista como uma série de tentativas de quebrar o que se pode chamar de paradigma kantiano.

Entre elas está o Objetivismo, a filosofia de Ayn Rand, conhecida superficialmente no Brasil. Ayn Rand rejeitou a teoria de Kant e afirmou a primazia da existência, na qual a consciência não é a faculdade que cria a realidade, mas apenas que a observa e compreende. Rand dispensou a dicotomia analítica-sintética, propondo sua teoria objetivista dos conceitos. Defendeu uma ética do autointeresse, em que valor é o que sustenta a vida do homem neste mundo. Criticou a ética baseada no altruísmo, cujo critério de valor moral é o beneficiário, ou seja, os outros. Mesmo sendo atéia, Rand não era materialista. Ela rejeitou também a visão mecanicista do homem, pois defendeu que ele possui livre-arbítrio e uma consciência.

Para entender a filosofia de nosso tempo, é fundamental entender o modelo da qual ela tenta escapar, ou como no caso de Jordan Peterson, retroceder.

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Revisado por Matheus Pacini.

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