Rajshree Agarwhal



Dignidade humana e o “princípio do comerciante”


Todo mês de julho, recebo inspiração de alguns dos melhores e mais brilhantes alunos de ensino médio. Chegam com grandes sonhos ao programa Snider Enterprise & Leadership Fellows (SELF), sediado na Universidade de Maryland.

A um passo da vida adulta, chegam munidos de ideias sobre como tornar o mundo melhor pela resolução de problemas que julgam ser importantes. Quentin, da Universidade de Amherst, Massachusetts, adora matemática e pretende seguir a carreira de analista de dados. Emem, da Universidade de Beltsville, Maryland, prefere design. Recentemente, ela mudou seu plano de cursar Medicina, preferindo Marketing pois se alinhava melhor com suas habilidades. Priya, da Universidade de Laurel, Maryland, gosta de ciências: sonha em ser pediatra, garantindo a felicidade e a saúde das crianças.

Já os antigos executivos da France Télécom, antiga estatal francesa que opera hoje como Orange no setor privado, têm objetivos mais modestos. Enquanto aguardam o veredicto de seu julgamento, sonham apenas em se livrar da cadeia.

Há um abismo entre os alunos em Maryland e os executivos de Paris. Mesmo assim, os dois eventos fornecem lições importantes sobre a dignidade humana e o princípio do comerciante.

Introduzimos o “princípio do comerciante” aos alunos do programa SELF através de uma atividade envolvendo Kit Kats, Hershey's Kisses e outras delícias. Os doces são distribuídos de forma aleatória; então, todos tentam melhorar sua situação por meio de trocas, primeiro com membros de seu grupo, depois com qualquer pessoa na sala. Após cada rodada, algo maravilhoso acontece. O valor agregado aumenta, embora a quantidade e a variedade de doces na sala permaneçam iguais.

Trocas voluntárias permitem aos participantes trocar itens menos desejados por outros mais adequados ao seu gosto. Como “planejadora benevolente”, faltariam informações sobre suas preferências pessoais, portanto, permito que eles resolvam tudo entre si. Eles entendem não só a relação entre escolha e satisfação, mas também que a vida não se resume a doces.

Elevo o nível da discussão ao pedir que imaginem um sistema onde planejadores centrais “benevolentes” distribuem empregos (ao invés de doces), porém impedem a liberdade de escolher, experimentar e mudar de carreira. Sinto que todos desanimam frente à perspectiva de um mundo tão distópico. Quentin, com sua mente analítica, treme ao pensar em ficar limitado à carreira de vendas. Emem, com seu talento artístico, sofre ao se imaginar editando planilhas pelo resto da vida. E Priya, com sua paixão pela ciência, quase cai da cadeira com a ideia de não conseguir cuidar da saúde das crianças.

Todos percebem rapidamente que a produtividade cairia em todos os níveis — individual, organizacional e social — graças à falta de alinhamento com aspirações e habilidades individuais. Talvez conseguissem suportar esses empregos no curto prazo, mas se sentiriam sufocados caso a sociedade os obrigasse a viver o sonho de terceiros em jornadas de 40 horas por semana, 48 semanas por ano, pelos próximos 50 anos.

Como seres humanos, a dignidade está atrelada à liberdade de escolher onde trabalhar, com quem e como. Isso vale tanto para funcionários quanto empregadores. "Um comerciante não trata outros como senhores ou escravos, mas como semelhantes independentes", escreve Ayn Rand. "Lida com homens por meio de uma troca livre e voluntária - uma troca que beneficia ambas as partes por suas próprias decisões independentes".

Após a atividade, saí da sala de aula motivada pela energia e atenção de todos os 35 alunos. No dia seguinte, li sobre o caso francês. O artigo retratou a mesma situação distópica que descrevi para meus alunos, e tive a mesma reação que eles.

Os antigos executivos da Orange foram julgados por "assédio moral", acusados de deliberadamente transformar a vida dos funcionários num inferno, tudo isso para gerar demissões e reduzir custos trabalhistas. Sentindo-se presos nesse ambiente hostil, 35 funcionários cometeram suicídio.

Não tolero as ações deles. Como alguém que estuda empresas e mercados, no entanto, minha reação decorre de um fato que não está sendo julgado na França: um sistema subjacente que barra a mobilidade.

Em vez de permitir que as pessoas mudem por conta própria, a França trata seus funcionários como se fossem vitalícios. A ideia é proteger os trabalhadores do desemprego, preservando sua dignidade. Infelizmente, esse esforço para garantir estabilidade no emprego têm pontos bons e ruins. Regras contra demissão também significam menos contratações, já que vagas raramente são abertas.

Minha pesquisa com Evan Starr, em Maryland, e Justin Frake, em Michigan, mostra que, em mercados de trabalho com maior “estabilidade”, mesmo quem não tem estabilidade recebe menos ofertas de emprego, está menos propenso a mudar de emprego e tem salário mais baixo. As pessoas se agarram a seus cargos, gostem ou não, porque não têm para onde ir.

Executivos com poder limitado para reestruturar suas empresas também têm problemas. À medida que as condições do mercado mudam, precisam ser capazes de contratar, demitir e realocar trabalhadores para atender as exigências sempre mutáveis dos clientes. No caso da Orange, leis contra demissões geraram US$ 50 bi em dívidas devido a vendas atrasadas. Eles se desesperaram e hoje estão sendo acusados de assassinato corporativo.

Os alunos do programa SELF aprenderam a se tornar CEOs da empresa mais importante: a dos seus sonhos. Definiram seu objetivo, estabeleceram um plano de carreira e estão donos de si próprios. Mas sem o comércio, não terão sucesso. A economia vai estagnar, a mobilidade cessará e os sonhos morrerão. Por fim, a proibição de mudança elimina a humanidade dos humanos. Os franceses merecem algo melhor, assim como Quentin, Emem e Priya.

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Publicado originalmente em Forbes.

Traduzido por Gabriel Poersch.

Revisado por Matheus Pacini.

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