Tom Bowden



Ayn Rand sobre as bases morais do Muro de Berlim


Quando o Muro de Berlin foi construído em agosto de 1961 para impedir a fuga de refugiados da Alemanha Oriental para a Alemanha Ocidental, Ayn Rand estava bem posicionada para revelar seu verdadeiro significado para o mundo.

Nascida na Rússia, Rand tinha 12 anos quando ouviu pela primeira vez o slogan comunista de que o homem deve viver pelo Estado – e imediatamente o condenou como maligno, mesmo enquanto a Revolução Russa tomava a nação à força. Seu primeiro romance, We the Living, publicado dez anos após ela ter escapado para os Estados Unidos, conta a história semi-biográfica de jovens apaixonados cujas vidas e esperanças são destroçadas pelo Estado soviético[1]. Nos anos 1940, Rand foi uma crítica ferrenha da propaganda russa em filmes, bem como da infiltração russa no governo dos Estados Unidos.

No início dos anos 1960, seguindo o sucesso editorial de sua obra-prima, A revolta de Atlas, Rand era requisitada em campi de faculdades, eventos e entrevistas de rádio e televisão como uma intérprete da cultura e eventos da época. Quando o Los Angeles Times a convidou para escrever uma coluna mensal iniciando em junho de 1962, sua primeira contribuição introduziu o Objetivismo - que defende o egoísmo racional e condena o altruísmo – essa doutrina “de que o homem não tem direito a existir para si próprio, que o serviço aos outros é a única justificativa moral de sua existência, e que o autossacrifício é seu dever moral mais elevado.” Utilizando o Muro de Berlin e outros horrores recentes como exemplos, Rand desafiou seus leitores a ver a ligação entre a moralidade altruísta e o estado assustador do mundo:

Você pode observar os resultados práticos do altruísmo e do estatismo ao nosso redor – nos campos de trabalho escravo da Rússia soviética, onde 21 milhões de prisioneiros políticos trabalham na construção de projetos governamentais e morrem de malnutrição planejada, pois a vida é mais barata que a comida; nas câmaras de gás e no extermínio em massa na Alemanha nazista; no terror e na fome da China comunista; na histeria de Cuba, onde o governo oferece homens à venda; ou no muro da Alemanha Oriental, onde os seres humanos pulam telhados ou rastejam em esgotos para escapar, enquanto guardas atiram em crianças em fuga.

Mas Rand só estava aquecendo. Em 17 de agosto de 1962, Peter Fechter, um jovem pedreiro da Alemanha Oriental, pulou da janela de um prédio próximo ao muro para o “corredor da morte”, patrulhado por guardas de fronteira fortemente armados. Fechter correu por ele até o muro principal, com mais de dois metros de altura e era fechado com arrame farpado, e começou a escalá-lo. Mas muito antes de chegar ao topo, os guardas o alvejaram na pelve. Ele caiu, e permaneceu no chão, gritando e sangrando até morrer sem nenhum auxílio do lado oriental, e inacessível para a multidão de observadores e jornalistas do lado ocidental. Uma hora depois, faleceu. No mês seguinte, Rand publicou o artigo “The Dying Victim of Berlin,” em que usou o exemplo da política externa dos Estados Unidos para descrever “o processo pelo qual a moralidade do altruísmo está destruindo o mundo.”

A nação, argumentou neste ensaio, está sugando sua economia para financiar uma cruzada contra o comunismo enquanto “condena, denuncia e se desculpa” por sua única alternativa: o capitalismo. Como, perguntava ela, a URSS pode sair impune de atrocidades como a detonação da maior bomba nuclear e a “construção de um campo de concentração em Berlim”? É porque a Rússia está “segura na certeza de que o comunismo é a materialização política mais consistente do altruísmo – do autossacrifício geral” e, portanto, está moralmente capacitada para enviar uma mensagem “de que o mundo está sob o jugo soviético.”

Esse é o motivo para atirar em um jovem de 18 anos que tentava escapar da Alemanha Oriental, permitindo que sangrasse até morrer ao pé do muro, à vista do povo ocidental.

A Alemanha Ocidental é a economia mais livre e capitalista na Europa. O contraste entre as duas Alemanhas é a evidência mais clara e irrefutável da superioridade do capitalismo sobre o comunismo. A Rússia não pretende refutá-la, dedicando-se unicamente ao conflito ideológico. Ela está cuspindo em nossa cara, declarando o direito do mais forte, a predominância da brutalidade sobre todos os nossos princípios, promessas, ideias e incomparável riqueza material.

Esse é o conflito silencioso do mundo atual: os arranha-céus de aço, as janelas reluzentes das lojas, os carros luxuosos, as luzes da Alemanha Ocidental – a realização do capitalismo e da essência do capitalismo: de homens livres, independentes – e, à sua frente, na total escuridão, o corpo ensanguentado de um simples indivíduo que queria ser livre.

Nas décadas seguintes, Rand nunca parou de lembrar o mundo do mal da URSS e de que sua origem era a moralidade do altruísmo. Durante a sua última manifestação pública em 1981, a sessão de Q&A trouxe essa troca:

Entrevistador: ... A Rússia é a grande ameaça atual?

Ayn Rand: A Rússia em si nunca foi uma ameaça para ninguém. Mesmo a pequena Finlândia derrotou duas vezes a Rússia durante a II Guerra Mundial. A Rússia é o país mais fraco e impotente da Terra. Se estivéssemos em guerra, a maioria dos russos desertaria. No entanto, ela possui uma arma perigosa, que é a moralidade do altruísmo. Enquanto as pessoas acreditarem que a Rússia representa um ideal moral, perderemos todos os conflitos. É por isso que devemos abandonar o altruísmo de forma consciente e plena, julgando-o pelo grande mal que é.

Quando o Muro de Berlin caiu em 9 de novembro de 1989, Ayn Rand já tinha falecido há 7 anos. Mas sabemos por seus muitos escritos na questão que ela teria se unido ao mundo civilizado em celebrar a queda dessa monstruosidade[2]. Contudo, ela sem dúvida teria nos lembrado de que, enquanto o altruísmo reinar sem questionamento, esses males – e outros piores – são inevitáveis no futuro.

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Publicado originalmente em New Ideal.

Traduzido por Matheus Pacini.

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[1] Em suas cartas pessoais, Rand descreveu a importância de seu romance: “Já houve milhares de romances lidando com a Rússia moderna, mas foram escritos ou por emigrantes que deixaram a Rússia logo após a Revolução (que não tinham como conhecer as novas condições), ou por autores soviéticos sob forte censura (que não podiam expor toda a verdade). Até onde sei, meu livro é o primeiro de uma pessoa que conhece os fatos e pode contá-los.” (23 de março de 1934). “A principal reação daqueles que leram o livro é de total surpresa frente à revelação da vida na URSS. ‘Pode ser verdade? Não tinha ideia do que estava acontecendo. Por que nunca nos contaram?’ ouvi isso repetidamente. Essas são coisas que queria ouvir. Pois as condições que descrevi são reais. Eu vivi. Ninguém saiu vivo da URSS para contar a história. Essa foi a minha missão.” (27 de outubro de 1934). Berliner, Michael S., ed., Letters of Ayn Rand. New York: Dutton, 1995. p. 18.

[2] Essa lista da Wikipedia documenta as mortes dos indivíduos que tentaram fugir pelo Muro de Berlim.