The Undercurrent



Você desistiria da internet por US$ 1 milhão de dólares?


Você desistiria da internet por US$ 1 milhão de dólares? Essa foi a questão proposta num vídeo recente no YouTube distribuído pelo Fund for American Studies. Não é de admirar que muitos entrevistados disseram “não”. Quanto eles aceitariam para desistir dela? “De US$ 15 a US$ 20 milhões de dólares,” disse um. “Bilhões”, disse outro. “Não tem dinheiro no mundo que me faria desistir dela.” A última resposta parece ser a mais plausível.

É compreensível que as pessoas estejam dispostas a pagar um preço tão alto por uma tecnologia tão valiosa como a internet. Contudo, nos Estados Unidos, e ainda mais no mundo subdesenvolvido, o custo de acesso tem caído continuamente. Com efeito, muitos serviços populares de internet como Google e Facebook são gratuitos. Muitas outras formas de tecnologia se tornaram baratas e amplamente acessíveis. Smartphones multifuncionais são, raramente, uma novidade. Há poucas décadas, todavia, computadores pessoais eram grandes, lentos e caros. Tratamos como necessidades básicas da vida civilizada conveniências como ar condicionado, carros, viagens e eletricidade. Mas todos esses bens disponíveis atualmente às pessoas com rendas módicas eram ou de luxo ou indisponíveis até para os mais ricos no século passado.

Então, por que poucos de nós nos consideramos ricos? Obviamente, nesse período econômico conturbado, nem todo mundo está seguro do ponto de vista financeiro. Contudo, há pouco que os mais ricos possam comprar com seus milhões que não esteja disponível de alguma forma aos mais pobres. Sim, mais dinheiro sempre comprará comida de melhor qualidade, tecnologia mais sofisticada ou férias mais caras, mas esses luxos são melhorias relativamente incrementais na qualidade de vida. Considere a perspectiva histórica mais ampla: comparado com a vida média na Europa Medieval ou na Somália atual, mesmo o padrão de vida do americano mais pobre está muito mais próximo do “luxo” que a pobreza real experimentada naqueles lugares e épocas distantes.

Mesmo assim, muitos tomam nossa riqueza relativa como dada, como se a prosperidade fosse uma lei da natureza. Se a economia está em crise, supõem que as nuvens escuras sempre se dissiparão, e os raios de sol retornarão. É verdade que a economia de uma nação é um sistema complexo com certo grau de flutuação natural. Não obstante, no contexto da história, nosso nível atual de conforto é qualquer coisa menos “natural”. Ele é historicamente sem precedentes: por milhares de anos, houve crescimento econômico essencialmente zero e pouco (se algum) progresso tecnológico. O que o tornou possível, e o que o sustenta? A causa da prosperidade e do progresso é condicional e, até mesmo, delicada. Não é uma força da natureza cuja característica é impessoal, praticamente inexaurível como o Sol.

Considere os celulares baratos que mesmo os americanos mais pobres têm adquirido por anos, e que hoje estão permitindo que milhões abram empresas nos países subdesenvolvidos. O que tornou tal tecnologia possível? Foram as instituições de caridade, preocupadas com a desigualdade que assinaram uma petição para instar as empresas telefônicas a reduzir seus preços? Foram os governos que subsidiaram a indústria de celulares, coagindo-as a vender mais celulares com prejuízo?

Não. Um fator bem-entendido é descrito pela economia básica, e é creditado aos mesmos indivíduos cuja indulgência no luxo é, às vezes, atacada pelos críticos da “desigualdade”. Como o economista Michael Cox nos recorda em um vídeo, aqueles que conseguem ser os primeiros a adotar uma tecnologia pagam um prêmio por novos produtos. Com os lucros obtidos, inovadores recuperam os custos de desenvolvimento e aprendem como produzir e vender o produto a um preço que pode ser pago pelo público em geral. Além disso, aqueles com riqueza acumulada têm os meios para investir em negócios que criam tal inovação em primeiro lugar.

Então, uma causa importante da popularização da tecnologia, e das oportunidades que ela cria, é simplesmente a busca do lucro. Contudo, o gasto e o investimento pessoais não são automáticos – e, tampouco, o desejo de lucrar. A primeira vítima de tributos altos defendidos pelos críticos da desigualdade de riqueza é a compra de tecnologias de luxo e o investimento de capital excedente. Tributos e regulações na indústria têm um efeito similar. Mesmo se julgarmos pretensiosamente que algumas pessoas podem pagar mais tributos que outras, o resto pode perder o investimento daquelas? E o que acontece se aqueles que são tributados decidirem que trabalhar cada vez mais duro em troca de retornos financeiros cada vez menores não faz sentido?

Felizmente, a importância econômica dos incentivos é bem-entendida, mas existe um fator ainda mais importante para a grande melhora na qualidade de vida nos últimos 200 anos. Para entender a causa mais profunda dessa anomalia histórica, é preciso ir além da economia. A economia se preocupa com uma prática distintivamente humana: a produção e o comércio de bens em uma sociedade com divisão de trabalho. Por essa razão, nosso entendimento do que é particular na natureza humana pode afetar se apreciamos ou não os fatos da economia.

A relação entre nossa atitude frente ao progresso econômico e a nossa visão da natureza humana é fundamental tanto na teoria econômica como na sabedoria convencional – particularmente, na discussão sobre o capitalismo. Os críticos do capitalismo a retratam sob a ótima de “darwinismo social”, afirmando que ela só permite “a sobrevivência do mais apto”. Nessa visão, capitalistas ricos podem prosperar apenas “nas costas dos pobres”, ao explorar trabalhadores e “trapacear” consumidores.

Pensar que o sucesso do capitalista vem à custa do resto da sociedade, que a vida no livre mercado é meramente “cão come cão”, reflete a suposição de que a sobrevivência humana não é diferente da sobrevivência de qualquer outro animal. Um animal vive com recursos limitados em um ambiente ao qual só lhe resta se adaptar usando seus instintos limitados. Uma ovelha pastando muito pode privar o veado de sua janta. Lobos de uma matilha são uma ameaça aos lobos doutra: eles podem apenas lutar pela mesma ovelha.

Mas os seres humanos não são nem lobos, nem ovelhas, nem predadores, nem presas. Não florescemos apenas pela nossa adequação a recursos limitados: também o fazemos alterando nosso ambiente para expandir o pool de recursos disponíveis. Nossa “arma” de sobrevivência não é a força bruta, mas a “força” de nossas mentes. Animais vivem no momento, aprendem através de padrões repetidos impulsionados por estímulos e respostas, e se engajam em comportamento condicionado por um nicho limitado e confortável. Diferentemente deles, nós, humanos, utilizamos nossas mentes para conceptualizar relações de causa e efeito que nos permitem plantar sementes a serem colhidas no futuro, construir casas onde viveremos por anos. Construímos fábricas, remédios e rodovias, etc. Planejamos e vivemos no futuro, e não no presente.

Os primeiros homens viveram sem uma única roda, tacape ou pele de urso para chamar de sua. A pobreza não é algum tipo de “praga” que aflige uma determinada sociedade; é a condição natural do homem. Não é a pobreza – mas sim, a riqueza - que é a novidade que requer explicação. A primeira riqueza não foi roubada de outros homens da caverna: eles não tinham nada a ser roubado. A primeira riqueza – uma ferramenta de corte ou um abrigo improvisado – teve de ser criada. Assim, nossa espécie não saiu da caverna para os arranha-céus através do roubo. Em certos momentos da história, alguns homens se aproveitaram da produção dos outros; a servidão feudal e a escravidão no regime de plantation vêm à mente. Mas os arranha-céus, a internet e tudo do que dependemos é produto de indivíduos livres que estabeleceram conexões lógicas através do esforço do pensamento racional.

Longe de o capitalismo envolver a “sobrevivência do mais apto” em que os mais ricos pisam nos mais pobres, aqueles que têm habilidades modestas são os que mais se beneficiam (comparado com o que, doutra forma, poderiam fazer por conta própria). Quando um ser humano vive com sucesso – como cientista, inventor ou empresário – o resultado não é só a “sobrevivência do mais apto”, mas também o florescimento e a prosperidade de todos.

“Todo homem é livre para subir tanto quanto puder ou quiser, porém ele só sobe na medida em que utilizar sua mente. O trabalho braçal em si não vai além do momento. O homem que só realiza trabalho braçal consome o valor material equivalente ao da própria contribuição ao processo de produção e não gera mais nenhum valor, nem para si próprio nem para os outros. Mas o que produz uma ideia em qualquer campo no domínio da razão – o homem que descobre novos conhecimentos – será para sempre um benfeitor da humanidade. Os produtos materiais não podem ser compartilhados, pois pertencem sempre àqueles que os consomem. É apenas o valor de uma ideia que pode ser compartilhado com um número ilimitado de homens, fazendo com que todos se tornem mais ricos sem que ninguém seja sacrificado ou leve prejuízo, elevando a capacidade produtiva do trabalho de todo cidadão, não importa quem ele seja.”[1]

O desenvolvimento de novas ideias não beneficia apenas aqueles que aprendem dessas ideias. De forma impressionante, novos ideias beneficiam mesmo aqueles que não as entendem, via sua implementação em novos produtos e serviços. Considere uma camiseta. Na época anterior à produção de têxteis em massa, alguém seria privilegiado se tivesse mais que um par de roupas. Vestir a mesma roupa todos os dias lhe deixava vulnerável à transmissão de doenças que hoje, tranquilamente, evitamos. Um trabalhador nos primeiros teares de algodão pode não ter recebido muito pelos padrões atuais. Mas o dinheiro que levou para casa da fábrica (a qual ele não poderia ter construído sozinho), poderia comprar roubas baratas, substituíveis e, até mesmo, na moda, bem como outros bens que melhoravam sua vida Ele não entendia a mecânica newtoniana, muito menos os motores a vapor que faziam as fábricas funcionarem, mas todos nós temos uma dívida para com Newton, Watt e todos os cientistas e industrialistas – os pensadores – que transformaram essas ideias em abundância real para a humanidade.

A tecnologia e a prosperidade que muitos tomam como dada – até mesmo as suas camisetas – depende ainda mais fundamentalmente do exercício da valiosa inteligência humana. E o exercício da inteligência humana, ao contrário da produção constante de energia do sol, depende de condições sociais delicadas. Em particular, e mais importante que o incentivo financeiro: os criadores de riqueza precisam de liberdade. A mente humana – a fonte última de riqueza – não pode descobrir conexões causais, formular equações matemáticas, ou lançar inovações empresariais sob o medo e a coerção. O inovador é motivado pelo amor ao seu trabalho e à verdade, e por sua visão do valor de sua criação. Ele só pode funcionar por sua escolha voluntária, e não pela coerção alheia.

E, ainda assim, os críticos do capitalismo defendem regular atividades produtivas e restringir não apenas a liberdade econômica, mas também intelectual, dos inovadores. As companhias farmacêuticas estão sujeitas a anos de escrutínio e custos da regulação do FDA antes que possam lançar novas drogas no mercado. As companhias petrolíferas são sobrecarregadas por custosos processos de revisão, frequentemente prejudicando o desenvolvimento de novas fontes de extração de energia nas profundezas da Terra. Financistas são impedidos de criar novos instrumentos financeiros capazes de prover capital crucial para jovens empreendedores. E empresas como Google e Microsoft são ameaçadas com regulação antitruste, forçando-as a direcionar recursos para lobby que poderiam estar ajudando a criar a Web 3.0, afinal, estão cometendo o crime de serem exitosas!

Se os americanos esperam ter uma oferta regular de remédios, de energia limpa e barata, de capital e informação, mas simultaneamente defender o ataque aos inovadores, eles não estão apenas tomando o progresso como dado – mas estão ajudando a preveni-lo.

Devemos repensar nossa complacência com respeito à tecnologia e à prosperidade. Os criadores e inovadores do mundo de quem nosso conforto e vidas dependem não é um recurso natural ilimitado. Sua energia não flui indefinidamente como o da água, do vento e do sol; em vez disso, requerem condições específicas para continuar a prover sua contribuição intelectual e material. Eles precisam de liberdade para experimentar e produzir, com as devidas recompensas financeiras. E mais que qualquer outra coisa, precisam o reconhecimento de que essas recompensas são merecidas, o reconhecimento de seu direito à vida e, portanto, ao sucesso.

Você desistiria da internet por US$ 1 milhão de dólares? Você desistiria da vida em civilização por US$ 1 bilhão de dólares? A resposta deveria ser óbvia, mas, com muita frequência, as implicações não são. Quando muitos de nós recebem tanto valor por comparativamente pouco em retorno, deveríamos aceitar que a nossa dívida mais urgente não é a dívida pública, mas nossa dívida débito moral aos séculos de inovadores criativos.

__________________________________________

Traduzido por Matheus Pacini.

Publicado originalmente por The Undercurrent.

Curta a nossa página no Facebook.

Inscreva-se em nosso canal no YouTube.

__________________________________________

[1] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. V III, p. 390.