Bill Pedroso



Objetivismo versus Positivismo Clássico


Ao longo do trabalho de divulgação do Objetivismo nessa página, fomos questionados sobre as semelhanças e as diferenças entre Objetivismo e Positivismo. Afinal de contas, ambos são movimentos filosóficos com foco na razão, na rejeição do sobrenatural e no conhecimento baseado na percepção humana. Nesse artigo, (i) veremos as semelhanças e diferenças dos postulados fundamentais dessas duas filosofias em seus ramos básicos: metafísica, epistemologia, ética, política e estética, bem como (ii) trataremos de algo mais importante ainda: se as diferenças são superficiais, sendo o Objetivismo e o Positivismo variações do mesmo tema, ou se elas são essenciais, sendo as duas filosofias antagônicas.

Primeiro, é necessário definir o Positivismo, apesar de não haver consenso sobre o termo. O primeiro a usar o termo foi o filósofo francês August Comte (1798 – 1857), que acreditava que a metafísica e o pensamento sobrenatural eram ambos resquícios irracionais da evolução cultural da sociedade, e que a única forma de conhecimento válida era a científica, sujeita à verificação empírica. Comte – que influenciou diversos autores como Émile Durkheim, J.S. Mill, C.S. Pierce e Karl Marx – acreditava que a sociedade, assim como a Física e a Química, operava de acordo com leis absolutas que podiam ser descobertas por investigação empírica, logo possibilitando a formulação de uma sociedade perfeita por meio da engenharia social.

Apesar de ter exercido, e ainda exercer, forte influência na Sociologia e nas Ciências Sociais como um todo, o positivismo sofreu duras críticas de sociólogos como Max Weber (1864 – 1920) e Georg Simmel (1858 – 1918), perdendo sua hegemonia. No início do século XX, as ideias positivistas ressurgiram sob a égide do Círculo de Viena e do Círculo de Berlin, formados por grupos de intelectuais que rejeitavam abstrações sem uma base empírica sólida, como as que permeavam a metafísica hegeliana dominante na época. Por utilizar os conceitos kantianos de lógica pura e dicotomia analítico-sintética em seus trabalhos, esse movimento se tornou conhecido como Positivismo Lógico.

Posteriormente, as bases do Positivismo Lógico foram atacadas por intelectuais como Karl Popper (1902 – 1994) e Thomas Kuhn (1922 – 1996), que propunham uma visão mais pragmática da ciência. Estes partilhavam da rejeição às abstrações flutuantes e dos elementos kantianos de seus antecessores, mas enxergavam a verdade como um instrumento para a ação, não como uma forma efetiva de conhecer a realidade. Esse último movimento, por ter criticado o Positivismo (mesmo mantendo muitos aspectos positivistas), ficou conhecido como Pós-Positivismo.

Essas três escolas têm muito em comum, embora o Positivismo Clássico tenha tido menor influência da filosofia kantiana, não adotando sua metafísica e epistemologia de forma direta. Elas exercem uma forte influência na sociedade brasileira, tanto no pensamento popular quanto, em maior escala, na academia. Por conta dessas diferenças, trataremos das duas escolas positivistas mais novas em um artigo posterior, reservando este para uma análise mais profunda das semelhanças e diferenças entre o Objetivismo de Ayn Rand e o Positivismo de Comte, que deu origem ao lema “Ordem e Progresso” da nossa bandeira nacional[1].

Metafísica

Apesar do foco na razão e na percepção da realidade adotado tanto pelo Objetivismo como pelo Positivismo, é possível perceber uma diferença fundamental entre ambas já no âmbito da Metafísica. Apesar de ambas rejeitarem as abstrações sem base perceptual utilizadas por muitos filósofos anteriores, Rand defende que a metafísica é necessariamente o ponto de partida da investigação filosófica, enquanto Comte a considera um campo de estudo inválido.

Em seu Curso de Filosofia Positiva, Comte desenvolve a “Lei dos Três Estados” segundo a qual as ciências, assim como as sociedades como um todo, passam por três estados de conhecimento. O primeiro estado, segundo essa lei, é o teológico, em que as pessoas atribuem os fenômenos naturais a causas sobrenaturais (como deuses e forças espirituais). Com o desenvolvimento do pensamento religioso, Comte acreditava que a crença em diferentes divindades - e, portanto, diferentes causas sobrenaturais para os fenômenos – evoluía para o monoteísmo[2], que implica não só na crença em um único deus, mas na crença em uma só causa que unifica todos os fenômenos naturais.

O segundo estado previsto pela lei dos três estados é o metafísico, que seria um estado intermediário entre a crença religiosa em um único princípio unificador e o estado positivo. O estado positivo é aquele em que a sociedade e suas ciências cessariam a busca por causas e se concentrariam na observação de relações empíricas entre os fenômenos naturais. Para Comte, a razão por que o estado metafísico existe é a incapacidade da mente humana de passar diretamente da crença no sobrenatural para uma visão inteiramente positiva da realidade, pulando a fase em que o Deus concreto é substituído por princípios abstratos naturais, mas sem conexão real com a realidade.

            O Objetivismo também identifica o problema das abstrações sem base na realidade, chamadas de “abstrações flutuantes”[3]. Diferentemente do Positivismo, todavia, o Objetivismo propõe como solução não uma rejeição do campo da metafísica, mas uma metafísica validável, concisa e integrada. Ayn Rand começa sua análise filosófica com três axiomas autoevidentes e validáveis a qualquer momento de forma ostensiva: os axiomas da Existência, da Consciência e da Identidade.

O primeiro axioma objetivista é a proposição de que a “existência existe”, ou seja, que algo existe, em contraste às ideias místicas e subjetivistas de que a realidade é uma ilusão e que nada realmente existe. Nesse contexto, “existência” é o conceito mais amplo possível, que inclui a integração de todos os existentes da realidade, e nada mais que isso. O segundo axioma é a proposição de que a “consciência existe e é a faculdade de perceber aquilo que existe” e é validado pela própria descoberta do primeiro axioma pelo indivíduo – afinal de contas, se você consegue perceber que a realidade existe, então existe algo que é capaz de perceber a realidade. O terceiro e último axioma é a proposição de que um “existente é ele mesmo”, também chamado de Lei da Identidade. A Lei da Identidade é a percepção de que aquilo que existe tem uma forma específica, ou seja, que uma entidade existe da forma como ela existe.

Na contramão das críticas positivistas à metafísica, Rand postula uma metafísica com abstrações baseadas na observação da realidade, completamente diferente dos resquícios do pensamento teológico criticados pelo Positivismo. A diferença entre uma metafísica simples como a objetivista, e a rejeição da metafísica positivista, parece uma diferença superficial, mas veremos mais adiante que ela tem consequências importantes no desenvolvimento subsequente dos outros ramos da filosofia.

Epistemologia           

A epistemologia positivista e a objetivista parecem muito semelhantes à primeira vista - ambas propõem que a verdade é apenas aquilo que se pode inferir com base em observações da realidade e, ademais, rejeitam abstrações flutuantes. Apesar do que as críticas superficiais ao Positivismo levam a crer, ele compartilha com o Objetivismo a rejeição ao materialismo e ao reducionismo de todo o comportamento humano a uma série de processos físicos e químicos previsíveis[4]. Porém, as semelhanças acabam aí.

A rejeição da metafísica por parte dos positivistas impõe uma questão fundamental à epistemologia: se não há verdades fundamentais em que o ser humano pode se basear, o que exatamente constitui conhecimento e qual a sua base? O Positivismo propõe o abandono das questões abstratas características do pensamento teológico e metafísico para tratar apenas da identificação de relações absolutas mais concretas entre os fenômenos naturais, ali incluídos os fenômenos sociais e psicológicos.

Para Comte, o método científico consistia no uso da imaginação subjetiva para a formulação de hipóteses que devem ser, posteriormente, validadas por meio de observação. Os critérios de observação, todavia, variam em complexidade entre as diferentes ciências, da mais simples observação da estrutura lógica para a matemática, para a mais complexa observação empírica e histórica para a Sociologia (ou Física Social) e a Moral, passando respectivamente pela Astrologia, a Física, a Química e a Biologia. Essa estrutura de complexidade também funciona, segundo o Positivismo, como uma estrutura hierárquica entre as ciências – os fenômenos da Química, por exemplo, estão sujeitos às leis da Física, mas o inverso não é verdadeiro.

O Objetivismo sustenta que é impossível formular uma teoria do conhecimento sem uma base metafísica, pois as verdades autoevidentes constituem o ponto de partida necessário da análise filosófica. É por essa razão que, apesar de negar explicitamente a metafísica, todas as versões do positivismo a adotaram alguma forma. O positivismo clássico adota uma metafísica de caráter aristotélico, segundo a qual existe apenas um mundo natural e o ser humano é capaz de percebê-lo através da razão. O fato de essa metafísica ser apenas implícita, porém, tornou a filosofia positivista vulnerável a uma transição em direção à metafísica kantiana, da qual trataremos em um texto posterior.

A epistemologia objetivista tem uma base aristotélica semelhante à do Positivismo Clássico[5], mas não compactua de sua rejeição às abstrações complexas – rejeição que possibilita a adoção de critérios arbitrários para assuntos como a política e a estética. Para Rand, o primeiro passo para a produção do conhecimento é a capacidade de focar, que ela chama de volição. A volição pressupõe tanto a escolha inicial individual de entrar em foco, quanto as diversas escolhas subsequentes sobre em que focar.

Para o Positivismo, a volição existe e a consciência humana não funciona apenas de maneira causal, reagindo aos estímulos externos, mas de forma metódica e voluntária. A consciência, porém, funciona segundo regras específicas previsíveis, o que significa que a volição, apesar de existir, não leva ao livre-arbítrio. O Objetivismo, por outro lado, percebe que acreditar na capacidade de escolha necessariamente implica em acreditar no livre arbítrio, visto que as escolhas humanas necessariamente implicam em uma variedade de possíveis resultados para a ação humana, que não são previsíveis antes da escolha em questão ser tomada. Assim, o Objetivismo bate de frente com o determinismo mecanicista do Positivismo.

Ao focar, o indivíduo é capaz de agrupar as entidades cuja existência ele percebe através de seus sentidos (perceptos) em conceitos via um processo de abstração e integração. Esse processo consiste na identificação de uma ou mais qualidades comuns entre os perceptos, na omissão das quantidades específicas dessas qualidades e na posterior criação de uma unidade mental que subsome todas as instâncias de existentes com essas qualidades. Por exemplo, uma criança é capaz de identificar que vários perceptos tem uma base e uma superfície plana em seu topo, e servem para apoiar objetos. Dessa forma, é capaz de formular o conceito de “mesa”, que inclui todos os objetos com essas características que ela conhece e ainda pode vir a conhecer.

Quando um indivíduo tem conceitos suficientes em sua mente, ele pode repetir o mesmo processo com conceitos ao invés de perceptos, identificando características essenciais em comum e omitindo suas medidas específicas. Dessa forma, ele pode criar abstrações cada vez mais complexas a partir de outras abstrações sem perder a conexão entre as abstrações e a realidade. Dessa forma, uma pessoa que tenha os conceitos de “mesa”, “cadeira”, “sofá” e “abajur” pode integrá-los no conceito de “móvel”, que junto com o conceito de “automóvel”, “moeda” e “imóvel” pode ser integrado no conceito de “bem material” e assim por diante.

As diferenças essenciais entre as duas epistemologias são duas: o escopo do conhecimento e a hierarquia das diferentes ciências. Enquanto para Comte o conhecimento válido consiste apenas em observações de regularidades na natureza, Rand considera não só possível, mas necessário, integrar todas as observações perceptuais por meio da razão. Apesar da rejeição explícita do reducionismo materialista por parte de Comte, para os padrões objetivistas, a sua filosofia ainda padece do defeito do materialismo, visto que ignora o livre-arbítrio humano e o total potencial de sua capacidade racional.

A hierarquia das diferentes ciências de Comte também é radicalmente diferente da adotada no Objetivismo. Para o positivista, as ciências mais complexas, como a Biologia e a Sociologia, dependiam necessariamente dos instrumentos de análise e estavam sujeitas às leis das ciências menos complexas como a Matemática e a Astronomia. Apesar de haver uma lógica interna, é fácil perceber como essa hierarquia é arbitrária. O Objetivismo, com sua visão integrada da produção de conhecimento, enxerga todas as ciências como integráveis, hierarquicamente semelhantes, sujeitas à epistemologia e, consequentemente, à metafísica.

Ética e Política

Se as diferenças entre o Positivismo e o Objetivismo na metafísica e na epistemologia são significativas, quando passamos para os ramos da Ética, Política e Estética, as duas filosofias se tornam praticamente opostas. Enquanto a ética objetivista propõe o egoísmo racional, a moral positivista é altruísta e coletivista. Enquanto a política objetivista é uma expansão da teoria moral para o âmbito social, o Positivismo segue o caminho inverso, baseando a moral individual na teoria política. Por conta disso, trataremos desses dois ramos da filosofia em uma só seção.

Comte é especialmente conhecido atualmente por sua teoria política, sendo considerado por muitos o pai da Sociologia. Para o autor, a Sociologia deveria ser uma ciência separada do estudo da Filosofia e do Direito, por exemplo, tendo como base a Biologia e seu próprio método de investigação empírica e histórica. Dessa forma, ele acreditava ser possível identificar leis absolutas que relacionam os fenômenos sociais – tais quais as leis da Física – e, a partir do estudo dessas relações, construir uma sociedade ideal.

Apesar de acreditar na sociedade perfeita como algo alcançável através do estudo e implementação da Sociologia, Comte cria que o comportamento individual e suas peculiaridades poderiam constituir um empecilho para essa busca. Foi com base nisso que ele estabeleceu a moral como a sétima ciência positiva, que consiste do estudo da psicologia inata humana para possibilitar o melhor funcionamento da sociedade. Para o positivismo, portanto, a moral consiste em “fazer prevalecer os instintos simpáticos sobre os impulsos egoístas”[6].

A visão política e ética do Positivismo, que veio a influenciar movimentos como o Utilitarismo de J.S. Mill e o Pragmatismo de C.S. Pierce, assemelha-se à sua visão metafísica na medida em que, rejeitando explicitamente o âmbito normativo de análise, adota axiomas normativos de forma implícita. No caso da política e da ética, ao propor não uma análise filosófica normativa, mas um estudo positivo da Sociologia e posteriormente da Moral para se alcançar a “melhor sociedade possível”, Comte acaba por aceitar sem análise mais profunda a visão coletivista na relação entre o homem e a sociedade, e o altruísmo como atitude moralmente correta.

A sociedade ideal positivista, refletida no trabalho de Émile Durkheim, se assemelha a um organismo integrado, do qual o indivíduo é parte, e cujo funcionamento adequado – não patológico, nos termos durkheimianos – é um fim em si mesmo. A moral, subsidiária à Sociologia, consiste no enquadramento da psique do indivíduo para que este se adapte à sociedade de forma altruísta – em outras palavras, para que o indivíduo esteja apto a se sacrificar pelo coletivo. Nada poderia estar mais distante da visão objetivista.

Ayn Rand propõe a Ética não como um desenvolvimento da Política, mas como a ciência que define quais são as ações corretas que um indivíduo deveria tomar, tendo a vida e a felicidade dele próprio como objetivo. Em sua análise, Rand começa identificando o Homem como um ser vivo, que, como todo ser vivo, precisa agir de uma certa forma, definida por sua natureza, para se manter vivo. A autora então identifica a natureza específica do Homem que, diferentemente dos outros animais, é racional e volicional. Por ser um animal racional, o Homem tem a capacidade de formular conceitos pelos quais entende o mundo e, por ser volicional, precisa constantemente escolher seu plano de ação, ao contrário de animais que dependem apenas de seus instintos.

Por ser racional e volicional, o Homem precisa formular conceitos para entender sua própria natureza, a natureza do mundo que o cerca, e a forma como ele se integra com o mundo, formulando assim os seus valores – i.e. aquilo que ele busca alcançar por meio de suas ações. Não apenas isso, mas, devido à grande complexidade da vida, ele precisa abstrair e integrar o que há de comum entre todas as ações que resultam na aquisição de valor para formular virtudes, que são princípios comuns a todas as ações boas.

O Objetivismo considera a vida do indivíduo como a raiz de todos os valores, a felicidade como o estado emocional que resulta de se viver plenamente como um ser racional, e a racionalidade, ou seja, o uso volicional da faculdade racional, como a raiz de todas as virtudes. Dessa forma, roubar não é errado por causar danos a terceiros, mas pelo fato de que causa danos de longo prazo a quem rouba. Um ladrão escolhe abrir mão de sua independência ao escolher viver por meio da produção de outra pessoa, quando poderia produzir por seu próprio esforço de forma mais segura e autossuficiente. Isso é o que Rand chama de “egoísmo racional”.

Na contramão do Positivismo, o Objetivismo toma a moral racional como base para sua teoria política. Ao invés de tentar adaptar a psique humana a um modelo de sociedade, Ayn Rand adapta a ética individual a um contexto social, analisando sob qual forma um indivíduo pode ter a sua faculdade racional minada. A resposta a que chega é que somente a violência física ou a sua ameaça por parte de terceiros pode minar definitivamente a capacidade racional de uma pessoa. Com base nisso, ela chega no seu conceito de direito.

Direitos, para o Objetivismo, são sanções morais em um contexto social, ou seja, aquilo que um indivíduo deve poder fazer, não apenas enquanto indivíduo isolado, mas enquanto membro de uma sociedade. O direito fundamental do indivíduo é o direito à própria vida, que significa não o direito aos valores necessários para manter a própria vida – muitas vezes fruto do trabalho e da vida de terceiros – mas o direito a não ter sua vida ameaçada por violência física. Desse direito emanam os direitos de liberdade, propriedade e busca da felicidade, que consistem em instâncias do direito à vida – respectivamente, no direito de não ter suas ações restritas por violência física, não ter o resultado de suas ações extorquido por violência física, e não ter o uso do fruto de suas ações restrito por violência física.

As diferenças metafísicas e epistemológicas entre o Positivismo de Comte e o Objetivismo de Rand ficam claras com uma análise mais aprofundada de ambos, mas em nenhum desses ramos as diferenças são tão gritantes como na ética e na política. O Positivismo se propõe a derivar leis sociais naturais da biologia e da análise histórica empírica para, a partir dessa teoria política, estabelecer a moral como uma forma de adaptar o indivíduo à sociedade. O Objetivismo parte da natureza fundamental do ser humano enquanto animal autônomo e racional para propor princípios gerais de ação que promovam a vida e a felicidade do indivíduo e, a partir desse contexto, formula uma teoria política visando uma sociedade na qual o indivíduo possa exercer todo o seu potencial.

Resta ainda a questão da Estética. As diferenças estéticas entre o Objetivismo e o Positivismo são tão gritantes quanto as que vimos até agora? Ou mais amenas?

Estética

Não há um tratado explícito sobre estética positivista visto que, assim como a Metafísica, a Estética é um campo de estudo considerado inválido pelos positivistas - um resquício do estado metafísico da evolução do conhecimento e como um repositório de opiniões subjetivas e abstrações sem conexão com a realidade. Porém, tal qual com a metafísica, o Positivismo também adota visões estéticas implicitamente.

Para entender a estética positivista, é necessário abandonar o Curso de Filosofia Positivista e focar em uma de suas criações no Sistema de Política Positivista: a “Religião da Humanidade”. Comte acreditava que, mesmo se humanidade tivesse superado os estados teológico e metafísico, ainda haveria a necessidade de se estabelecer bases intelectuais para a espiritualidade humana de forma positiva, sem apelos ao sobrenatural ou ao metafísico. Rand também considerava a dimensão espiritual[7] do Homem como essencial à sua existência, e dedica grande parte de sua teoria estética a ela. As semelhanças, porém, acabam por aí.

É possível analisar de forma simples a estética positivista através de dois aspectos específicos da Religião da Humanidade: a trindade positivista e a manutenção e reciclagem da estética clássica. A trindade positivista consiste em adoração, não de divindades, mas de três aspectos da existência: o planeta Terra e os elementos naturais que o compõem; o espaço, seus astros e sua organização; e a humanidade, definida como o conjunto de todos os seres humanos e suas produções no passado, todos os seres humanos vivos e o potencial de todos os seres humanos que existirão no futuro. Dessa forma, a estética positivista se caracteriza pela elevação do mundo natural e do aspecto coletivo da humanidade, enquanto algo maior que o homem, à fonte da espiritualidade humana.

Além da trindade, é possível identificar a manutenção da estética clássica tanto na teoria, na exaltação da manutenção e constante aperfeiçoamento da Ordem, quanto na prática, ao observar as construções dos templos positivistas no Brasil e na França. Os templos, em consonância com os princípios positivistas, mantem diversas características arquitetônicas clássicas, como pilares - já desnecessários à sustentação do edifício - pórticos triangulares e o predomínio do branco, ainda que na ausência de mármore.

Para o Objetivismo, a arte é uma recriação seletiva da realidade que retrata os julgamentos do artista sobre os fatos primordiais da realidade, como a natureza da existência e do ser humano, e a forma como o ser humano se insere na existência. Por tratar de recriações seletivas, a Estética é o ramo da filosofia que lida não com o que é correto ou verdadeiro, funções da Ética e da Epistemologia, respectivamente, mas com o que é importante – com aquilo que é digno de ser reproduzido.

Rand definia sua própria arte como “Realismo Romântico”, pois se propunha a retratar a existência tal como ela é, escolhendo como importante os atos heroicos de indivíduos racionais e egoístas. Com isso em mente, é fácil perceber como a adoração ao coletivo da Religião da Humanidade é completamente incompatível com a estética do Objetivismo – a adoração da natureza, por outro lado, é um assunto um pouco mais complexo. Tanto o Objetivismo quanto o Positivismo percebem o belo na natureza, mas o Objetivismo o faz em um contexto antropocêntrico em que, apesar de forte, a natureza pode ser subjugada pelo homem racional em um ato heroico. A estética positivista, por outro lado, coloca a natureza como algo superior ao Homem – ainda que não à Humanidade, que é parte da mesma trindade natural – e digno de adoração; uma versão secular da estética medieval criticada por Rand.

A reciclagem do estilo clássico de construção nas construções positivistas evidencia de forma ainda mais clara o abismo que separa as duas filosofias. A obra literária A Nascente, de Rand, tem como protagonista um jovem arquiteto chamado Howard Roark, que abandona a universidade e posteriormente encontra obstáculos na vida profissional justamente por abominar a reutilização de estilos de forma anacrônica nas construções. Para Roark, que incorpora perfeitamente os valores estéticos objetivistas, cada obra é única e deve levar em conta todos os fatores relevantes à utilização da construção, como o local no qual ela será feita e o material a ser utilizado[8]. Não faz sentido, dessa forma, copiar os pórticos e pilares gregos para construções modernas que utilizem materiais como o concreto e o aço.

É surpreendente como dois sistemas filosóficos que se propõem a fazer a mesma coisa – proporcionar uma visão racional do mundo e do homem – podem ser tão opostos. Um propõe uma negação da metafísica enquanto o outro a eleva a ponto de partida inescapável da filosofia. Um advoga o abandono de integrações mais abstratas em troca de conhecimentos pragmáticos enquanto o outro mostra que o pragmatismo só é possível com a integração do conhecimento. Um coloca a sociedade em primeiro lugar e especula sobre como adaptar o indivíduo ao coletivo enquanto o outro reconhece a dignidade do indivíduo como ponto de partida para a criação de uma sociedade justa e livre. Um recicla a estética antiga e representa o homem como pequeno frente um universo misterioso enquanto o outro realça a capacidade humana de dominar este mesmo universo. Fica a cargo do leitor escolher, depois dessa exposição, qual filosofia é realmente racional.

É importante também ressaltar a influência que o Positivismo ainda exerce no Brasil, tanto nas massas, que buscam autoridades seculares que possam trazer “Ordem e Progresso”, quanto na elite, que ainda insiste em estudar autores como Comte, Durkheim e J.S. Mills nas salas de aula das universidades. Quem sabe a cura para um Brasil tão positivista não seja uma boa dose de Objetivismo?

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Revisado por Matheus Pacini.

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[1] PEREIRA SOARES, Mozart. O Positivismo no Brasil: 200 anos de Augusto Comte.

[2] Também em seu Curso de Filosofia Positiva, Comte subdivide o estado teológico em três períodos. O primeiro é “animismo”, estágio em que os homens atribuiriam vontade própria às entidades naturais. O animismo evoluiria naturalmente para um estado onde se acredita em diversos deuses, cujas ações explicam todos os fenômenos, denominado “politeísmo”. Por último, o ser humano evoluiria para o período do “monoteísmo”, no qual as ações de todos os diversos deuses passam a ser atribuídas a um único Deus.

[3] Leonard Peikoff define abstrações flutuantes como conceitos desconectados de existentes reais, que um indivíduo pode utilizar sem conseguir definir ou apontar os particulares subsumidos pelo conceito de forma consistente. Exemplos de abstrações flutuantes modernas incluem “Justiça Social”, “Bem Comum” e “Desenvolvimento Nacional”.

[4] August Comte, em seu Curso de Filosofia Positivista, tece uma crítica à crença de que os processos da consciência podem ser reduzidos a simples fenômenos físicos e químicos, afirmando que a Psicologia humana possui regularidades próprias que devem ser descobertas e validadas de forma empírica.

[5] O caráter aristotélico da filosofia objetivista, assim como da positivista, não inclui a existência metafísica de essências que podem ser percebidas de forma passiva pela consciência – aspecto intimamente ligado ao que Rand chama de “Intrinsicismo”.

[6] ROUX A. La pensée d'Auguste Comte. Paris: Chiron, 1920. p. 254.

[7] “Espiritual” nesse contexto é completamente desprovido de conotação religiosa ou sobrenatural, referindo-se apenas aos aspectos emocionais e interiores da vida humana.

[8] “Estas são as minhas regras: o que pode ser feito com uma substância jamais deve ser feito com outra. Dois materiais nunca são iguais. Dois sítios nunca são iguais. Dois edifícios nunca tem o mesmo propósito. O propósito, o sítio e o material determinam a forma. Nada pode ser razoável ou belo a não ser que seja feito com uma ideia central como base, e essa ideia define todos os detalhes. Um edifício é algo vivo, como um homem. Sua integridade segue de sua própria veracidade, de seu tema singular, e para servir seu próprio propósito, também singular. Um homem não empresta partes de seu corpo. Um edifício não empresta pedaços da sua alma. Seu criador o dá a alma e cada parede, janela e escada para expressa-la.” – Howard Roark em “A Nascente”, p.18 – Tradução Livre.