Edward Younkins

Professor de Economia e Negócios da Wheeling Jesuit University. 

Escreveu diversos livros e artigos sobre os grandes pensadores liberais, a relação entre Ayn Rand e a Escola Austríaca e o impacto da ficção na divulgação das ideias capitalistas.

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MISES, FRIEDMAN E RAND: UMA COMPARAÇÃO METODOLÓGICA


Três dos mais respeitados e influentes pensadores de livre mercado do século XX são Ludwig Von Mises (1881-1973), Milton Friedman (1912-2006) e Ayn Rand (1905). O propósito desse ensaio é comparar e avaliar as respectivas abordagens metodológicas de cada um desses teóricos que, com suas ideias, influenciaram o curso da história. Veremos como e por quê o realismo de Rand é superior tanto ao racionalismo de Mises como ao empirismo de Friedman.

A praxeologia de Mises

Para Mises, conceitos nunca podem ser encontrados na realidade. Frente a isso, buscou construir um sistema dedutivo puro, cuja fundação teórica não pudesse ser questionada. Ele desejava encontrar o conhecimento emanando da necessidade lógica, fugindo do empirismo baseado em eventos concretos do historicismo. Sua missão tornou-se “olhar para dentro” de modo a deduzir um sistema logicamente irrepreensível. Mises desejava encontrar leis que só pudessem ser verificadas ou refutadas por meio de raciocínio discursivo.

O axioma da ação de Mises, o fato universal introspectivamente conhecido, que os homens agem, foi a fundação sobre a qual Mises construiu seu sistema dedutivo. A ação, segundo Mises, é o que há de real. Mises afirmou que a ação era uma categoria da mente, num sentido kantiano, exigida para experimentar a realidade fenomênica (isto é, a realidade como percebida por nós). A unidade encontrada nos teoremas econômicos de Mises é baseada no conceito de ação humana. A ciência econômica de Mises é dedutiva, baseada nas leis de ação humana, as quais ele defende serem tão reais quanto as leis da natureza. Suas leis praxeológicas não têm restrições espaciais, temporais ou culturais. Elas são universais e dizem respeito a pessoas de todos os lugares, em qualquer momento, em todas as culturas.

Ações humanas são engajadas para alcançar objetivos que são parte do mundo externo. Contudo, o entendimento de uma pessoa das consequências lógicas da ação humana não advém de detalhes específicos desses objetivos, ou dos meios empregados para realizá-los. O entendimento dessas leis não depende do conhecimento específico do indivíduo com respeito às características do mundo externo que são relevantes aos objetivos ou métodos utilizados na realização dessas objetivos. A cognição na Praxeologia é totalmente geral e formal, sem referência ao conteúdo material ou às características particulares de um caso real. Teoremas praxeológicos são anteriores a testes empíricos, posto que são logicamente deduzidos do axioma central da ação. Pelo entendimento da lógica do processo de raciocínio, a pessoa pode entender os aspectos essenciais das ações humanas. Mises afirma que toda a praxeologia pode ser construída sob a base das premissas que envolvem um único conceito não lógico – o conceito da ação humana. Desse conceito, todas as proposições praxeológicas podem ser derivadas.

Mises defende que o axioma da ação é sabido verdadeiro por introspecção. Seguindo a tradição de Kant, Mises argumenta que a categoria da ação é parte da estrutura da mente humana. Segue-se, então, que as leis da ação podem ser estudadas por introspecção devido à intersubjetividade apriorística dos seres humanos. Não sendo derivadas da experiência, as proposições da Praxeologia não estão sujeitas à falsificação ou verificação com base na experiência. Em vez disso, essas proposições são temporal e logicamente anteriores aos fatos históricos.

Para Mises, o comportamento econômico é simplesmente um caso especial de ação humana. Para ele, é através da análise da ideia de ação que os princípios da economia podem ser deduzidos. Teoremas econômicos, portanto, estão conectados à fundação dos propósitos humanos reais. A economia é baseada em axiomas verdadeiros e autoevidentes, extraídos por introspecção da essência da ação humana. Desses axiomas, Mises deriva implicações lógicas ou verdades da economia. A metodologia de Mises não requer, portanto, experimentos controlados porque trata a economia como uma ciência da ação humana. Por sua natureza, atos econômicos são atos sociais. A economia é uma ciência formal cujos teoremas e proposições não derivam sua validade de observações empíricas. A economia é um ramo da Praxeologia que estuda a troca de mercado, bem como sistemas alternativos de trocas de mercado.

A abordagem preditiva de Friedman

Milton Friedman considera o apriorismo de Mises [e, por tabela, o raciocínio apriorístico] como um método subjetivo para considerar as introspecções da mente de uma pessoa. Buscando objetividade e verificabilidade, Friedman prefere o método empírico que usa dados públicos e socialmente disponíveis. Como empirista, ele considera uma teoria útil se, e somente se, permitir aos indivíduos preverem ocorrências de um fenômeno. Tal abordagem está em oposição direta a Mises (e outros austríacos) que consideram que o mundo se torna compreensível através da explicação dos fenômenos econômicos à luz do axioma da ação humana que guia a busca de valores e objetivos.

Em seu artigo de 1953, A Metodologia da Economia Positiva, Friedman defendeu que o realismo e o irrealismo das premissas da teoria econômica não eram indicadores de sua utilidade. Ele rejeitava tanto a introspecção quanto a plausibilidade do realismo das premissas como forma de avaliar uma teoria. Ele destacava que essas premissas não tinham influência no poder preditivo de uma teoria ou hipótese com respeito a suas aplicações posteriores. O que importa para Friedman é se as previsões de uma teoria correspondem à evidência empírica. Para Friedman, um instrumentalista, as hipóteses são provisoriamente escolhidas por que tiveram êxito em produzir predições verdadeiras.

Friedman defendeu que uma hipótese pode ser testada somente em conformidade com suas previsões ou implicações sobre os fenômenos observáveis, e não pela comparação de suas premissas com a realidade. Ele tomou as ideias desenvolvidas por Karl Popper nas ciências naturais, aplicando-as no campo da economia. Friedman argumentou que, como nas ciências naturais, as teorias deveriam ser aceitas provisionalmente ou rejeitadas totalmente só com base no nível de correspondência das previsões de uma teoria com a evidência factual obtida. Friedman destacava que um simples contraexemplo empírico às previsões de uma teoria falseariam essa teoria. Sua ideia sobre o papel dos experimentos envolve, então, indução via eliminação ou rejeição. A abordagem de Friedman se assemelha ao Pragmatismo de John Dewey.

Para Friedman, a importância de uma teoria não advém de ser o resultado direto do realismo descritivo de suas hipóteses. Na verdade, ele exalta as virtudes das hipóteses descritivamente falsas. De acordo com Friedman, “hipóteses verdadeiramente importantes e significativas têm pressuposições que são representações totalmente inacuradas da realidade e, em geral, quanto mais significativa a teoria, mais irrealista são suas suposições.” Friedman explicou que uma pessoa não pode dizer que as premissas de uma teoria são verdadeiras porque qualquer uma de suas conclusões são verdadeiras, mas que uma pessoa poderia dizer que deve haver, pelo menos, uma premissa que é falsa sempre e quando alguma conclusão específica é falsa.

Friedman destacou que, para uma teoria ser útil, ela deve ser uma simplificação da realidade e, portanto, uma falsa imagem da realidade. Ele prossegue dizendo que, dependendo da teoria e seus usos, algumas dessas falsas imagens, junto com suas suposições, podem ser mais apropriadas (ou seja, mais exatas do ponto de vista preditivo) que outras. Para Friedman, a abstração envolve uma teoria em que muitas características verdadeiras da realidade são designadas como ausentes da teoria. Dada essa perspectiva, todo o avanço no conhecimento, novas descobertas ou inclusão de atributos adicionais destruiriam, invalidariam ou falseariam a teoria anterior. Friedman considera qualquer teoria deficiente e descritivamente falsa quando falha em especificar todas as características da realidade, incluindo todas as características divergentes, não explanatórias e irrelevantes. Segue que, para Friedman, todos os modelos e teorias são imperfeitos ou incompletos porque não levam em conta todos os aspectos da economia. Não surpreende que ele tenha focado sua atenção mais na previsão que na explanação.

É difícil reconciliar a prática de Friedman com seus princípios metodológicos. Na prática, ele argumentou frequentemente com base da plausibilidade ou realismo das hipóteses de um modelo. Depois de comparar previsões com resultados, ele revisa hipóteses e suposições com intenção de torná-las mais realistas. À luz dos resultados dos testes, economistas (incluindo Friedman) modificam suas hipóteses e suposições em um processo contínuo e iterativo de observação e teoria. É claro, Friedman deveria se preocupar com o realismo das suposições. Como ele poderia saber o que tentar depois quando suas previsões falharam na explicação dos fatos? Se um economista não analisasse o realismo de suas suposições, o processo de modificação da teoria seria ineficiente, fútil e baseado em adivinhação e especulação. Fica aparente que Friedman não é um grande construtor de sistemas teóricos, e ainda mais inconsistente com respeito à conformação de sua teoria à sua prática.

O Objetivismo de Ayn Rand

A teoria da formação de conceitos transcende tanto o apriorismo de Mises quanto o empirismo de Friedman. Rand explica que a aquisição de conhecimento requer tanto indução como dedução. O que é conhecido é diferente de, e independente de quem conhece. O conhecimento é, portanto, adquirido por vários processos de diferenciação e integração de dados perceptuais. Conhecimento empírico é adquirido por meio da experiência observacional da realidade externa. Por exemplo, as pessoas observam ações direcionadas a objetivos de fora e abstraem um entendimento da causalidade e outras categorias de ação ao observar as ações de outros em busca de seus objetivos. Indivíduos também aprendem a causalidade através de sua própria ação e observação dos resultados. Introspecção é uma fonte confiável, porém secundária, de evidência e conhecimento com respeito ao que significa ser um ser humano racional, proposital, volitivo e agente.

Para Rand, as características essenciais de um conceito são epistemológicas, e não metafísicas. Conceitos são epistemologicamente objetivos na medida em que são produzidos pela consciência humana de acordo com os fatos da realidade. Conceitos são integrações mentais de dados factuais. Rand explica que a formação de conceitos envolve o processo de omissão de medições. Um conceito é uma integração mental de unidades que possuem as mesmas características diferenciadoras, com suas medições particulares omitidas.

Mises explicou que o conhecimento introspectivo do homem de que ele é consciente e age é um fato da realidade e é independente da experiência externa. Mises deduziu os princípios da economia, bem como a estrutura completa da teoria econômica totalmente por meio da análise da ideia a priori, introspectivamente derivada, da ação humana. Embora seja importante entender e reconhecer o papel relevante da introspecção na vida humana, também é necessário perceber que seu papel é limitado e secundário ao da observação empírica e análise lógica da realidade empírica. Teria sido melhor se Mises tivesse dito que a observação externa e a introspecção combinam-se para revelar o fato da ação humana, e do emprego de meios para a realização de fins. A introspecção suplementa a observação externa e a indução na revelação ao homem do objetivo fundamental da ação humana.

A epistemologia objetivista reconhece que o axioma da ação de Mises poderia ser indutivamente derivado do dado perceptual. As ações humanas seriam então vistas como executadas por entidades que agem de acordo com seus atributos naturais de racionalidade e livre-arbítrio. Todos os princípios essenciais e leis da economia poderiam então ser deduzidos do axioma da ação.

A visão objetivista é que a melhor forma de julgar um modelo ou teoria é examinar a plausibilidade de suas suposições. Como a própria Ayn Rand disse “verifique as suas premissas”. As coisas das quais as suposições abstraem deveriam permanecer importantes ao  tratarmos o problema sob análise. Uma hipótese, completa com suas suposições, é tanto explanatória quanto preditiva se ela abstrai os elementos cruciais e comuns da massa de condições detalhadas e complexas em torno do fenômeno a ser explicado. Ela aprofunda e refina as previsões válidas daquele fenômeno. A visão objetivista é a de que as teorias econômicas e outras precisam omitir muitos detalhes. O realismo objetivista não requer que todos os detalhes particulares e exteriores não explanatórios sejam especificados.

O conceito objetivista de abstração atenta para alguns aspectos ou atributos de um fenômeno e exclui outros. Dessa perspectiva, algumas características atuais são simplesmente ausentes de especificação ou medição. Isso é muito diferente, e muito superior à visão de Friedman que algumas características atuais são especificadas como não existentes ou ausentes. Da perspectiva objetivista, novo conhecimento pode expandir ou refinar a teoria, o conceito ou o modelo, mas não necessariamente leva a contradizê-lo ou invalidá-lo. Em outras palavras, e contrário à visão de Friedman, a teoria não tem que ser descritivamente falsa.

A abordagem metodológica de Rand supera as falsas alternativas do racionalismo e do empirismo ao explicar como conhecimento abstrato da realidade pode ser logicamente derivado de experiência perceptual válida. Seu método para superar essas dicotomias inclui um número de processos como diferenciação, indução, integração, dedução, redução, omissão de medições e tantas outras.

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Traduzido por Matheus Pacini

Publicado originalmente em Le Québécois Libre.

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