Tom Bowden



Howard Roark riu: humor em A Nascente


Questão: algumas pessoas dizem que Ayn Rand e seus romances são desprovidos de humor. Isso é verdade quanto ao romance A Nascente?

Resposta: “Como Ayn Rand enfatizou, o humor não desempenha um papel importante em seus romances, nem na vida dos heróis deles”, escreve Robert Mayhew em Humor em A Nascente[1]. Embora A Nascente não seja, de forma alguma, um romance cômico, ele é cheio de sátira e demonstra que Rand sabia onde empregar o humor para gerar os efeitos que buscava em sua obra.

Além disso, como romancista que também era filósofa, Rand escreveu com uma compreensão bem clara do que é o humor. Em sua visão, o humor funciona ao negar importância àquilo que contradiz uma apreciação básica de um indivíduo pela realidade e sua relação com ela. O riso, diz Mayhew ao resumir a abordagem de Rand, “advém (pelo menos, em parte) da consciência daquilo que não se encaixa com sua visão de realidade; é a resposta que acompanha o reconhecimento da insignificância de algo e a rejeição consequente disso.[2]

A pesquisa de Mayhew em A Nascente inclui exemplos de três categorias:

  • Observações satíricas direcionadas a arquitetos, escritores e alpinistas sociais desprezíveis;
  • Humor malicioso empregado pelo arquivilão do romance como uma arma para destruir e prejudicar o bem;
  • Riso dos protagonistas frente aos obstáculos que enfrentam.

Sátira

A Nascente é rica em comentário satírico, tanto na voz do autor e como na de Dominique Francon, a protagonista feminina, que escreve uma coluna em um jornal. O herói do romance, Howard Roark, é um arquiteto independente que desafia a conformidade rígida da profissão aos estilos tradicionais de construção. Isso dá a Rand uma oportunidade de alfinetar a prática servil de imitar designs de eras antigas, como nesse exemplo:

O Instituto de Tecnologia de Stanton ficava em uma colina. Suas muralhas altas e ornadas com ameias formavam uma coroa sobre a cidade que se estendia abaixo. Assemelhava-se a uma fortaleza medieval, com uma catedral gótica encravada em seu interior. A fortaleza era notavelmente adequada ao seu propósito, com paredes resistentes feitas de tijolos, algumas aberturas largas o suficiente para abrigar sentinelas, baluartes atrás dos quais poderiam esconder-se arqueiros defensores, e torres nos cantos, das quais óleo fervente poderia ser derramado sobre quem tentasse atacá-la – caso tal emergência surgisse em uma academia de ensino.[3]

Em outra passagem, Rand descreve com humor um grupo de pseudointelectuais que formam o Conselho dos Escritores Americanos, cujos membros:

Incluíam uma mulher que nunca usava letras maiúsculas em seus livros e um homem que nunca usava vírgulas; um jovem que escrevera um romance de mil páginas sem uma única letra “o”, e outro que escrevia poemas que não tinham rima nem métrica; um homem de barba, que era sofisticado e provava isso usando todos os palavrões que não se pode publicar, a cada dez páginas de seu manuscrito…[4]

Noutra parte, Dominique Francon comenta sarcasticamente o design ostentoso de uma residência privada:

“Você entra em um saguão magnífico de mármore dourado e pensa que é a Prefeitura, ou o Correio Central, mas não é. No entanto, tem tudo: o mezanino com a série de colunas e a escadaria com as protuberâncias e as cártulas na forma de cintos de couro enrolados. Só que não é couro, é mármore. A sala de jantar tem um portão de bronze esplêndido, colocado por engano no teto, na forma de uma treliça entrelaçada de uvas frescas de bronze. Há patos e coelhos mortos pendurados nas paredes, dentro de buquês de cenouras, petúnias e vagens. Não acho que teriam sido muito atraentes se fossem reais, mas, uma vez que são imitações malfeitas de gesso, tudo bem [...] As janelas da frente são grandes o suficiente para deixar entrar bastante luz, bem como os pés dos cupidos de mármore que estão empoleirados do lado de fora.[5]

De acordo com Mayhew, Rand foi provavelmente influenciada durante esse período por Sinclair Lewis, cujos comentários ríspidos em romances como Elmer Gantry mostraram o poder da sátira social.[6]

Malícia

Mayhew contrasta tal sátira (que é dirigida ao desprezível) com o humor malicioso de Ellsworth Toohey, o arquivilão do romance (que é dirigida ao mal) a través de uma passagem de outro romance de Rand, A Revolta de Atlas:

Francisco riu, um sorriso de deboche radiante. Ao vê-los, Dagny pensou de repente na diferença entre Francisco e seu irmão Jim. Ambos sorriam debochados. Mas Francisco parecia rir das coisas por ver algo muito maior. Jim ria como se não quisesse que nada fosse grande.[7]

Enquanto Rand e sua personagem Dominique riem das coisas porque veem algo muito maior, Toohey usa seu humor “para minar o senso de identidade de toda pessoa”, escreve Mayhew. Aqui citamos como Toohey goza de um jovem que confessa seu amor pela sobrinha de Toohey:

O amor jovem. Primavera, amanhecer, paraíso e chocolates de banca de jornal por 1,25 dólar a caixa. A prerrogativa dos deuses e dos filmes [...] E aprovo. Eu sou realista. O homem sempre insistiu em se fazer de idiota. Ah, vamos, nunca devemos perder nosso senso de humor.[8]

Como um personagem que incorpora “o ódio por todos os valores”, escreve Mayhew, Toohey usa conscientemente o humor para destruir. Aqui segue parte do monólogo de Toohey descrevendo seus métodos de alcançar poder sobre os outros:

Mate através do riso. Ele é um instrumento de alegria humana. Aprenda a usá-lo como uma arma destruidora. Transforme-o em um riso de menosprezo. É simples. Diga-lhes para rirem de tudo. Diga-lhes que o senso de humor é uma virtude ilimitada. Não deixe que nada permaneça sagrado na alma de um homem, e a sua própria alma não será sagrada para ele. Mate a veneração e você terá matado o herói no homem. Não se venera com risadinhas. Ele obedecerá e não imporá nenhum limite à sua obediência: vale tudo, nada é sério demais.[9]

Riso

Mayhew também descreve o humor quieto e reflexivo experimentado pelo herói do romance, Howard Roark. Por exemplo, o romance começa com a linha: “Howard Roark riu” – mas ele não está rindo de ninguém. Como Mayhew explica, ele está rindo por ter sido expulso da escola de arquitetura e de todas as dificuldades que se seguiriam, rindo porque, para ele, esses obstáculos parecem pequenos e inconsequentes frente às perspectivas de realização e felicidade que ele sabe estarem abertas para ele.[10]

Então, embora o humor não tenha um papel essencial em A Nascente, ele tem um papel secundário importante, em grande parte na forma de sátira direcionada, nas palavras de Mayhew, “ao não original, ao feio, ao não heroico, ao maligno”.[11]

*   *   *

O primeiro best-seller de Ayn Rand, A Nascente, foi publicado em 7 de maio de 1943. Para comemorar o aniversário de 75 anos de sua publicação, estamos destacando temas do Essays on Ayn Rand’s “The Fountainhead,uma coleção editada pelo filósofo Robert Mayhew da Seton Hall University. Existem muitos mal-entendidos e miscaracterizações na cultura com respeito ao romance A Nascente (e todo o resto que ela escreveu), e contínua perplexidade em alguns círculos com respeito à sua popularidade crescente, em especial, entre os jovens”, diz Mayhew. “Esses ensaios contêm respostas para muitas perguntas que as pessoas fazem – ou deveriam fazer – sobre esse grande romance.[12]

 Além disso, em minha palestra na OCON 2018, trato de muitas das questões aqui descritas, mas em grande detalhe, e com um foco no significado contemporâneo da concepção de humor de Rand.

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Publicado originalmente em New Ideal.

Traduzido por Matheus Pacini.

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[1]  MAYHEW, Robert. Humor in The Fountainhead, in Robert Mayhew (ed.), Essays on Ayn Rand’s “The Fountainhead” Lanham, MD: Lexington Books, 2007.

[2] MAYHEW, Robert. Humor in The Fountainhead, in Robert Mayhew (ed.), Essays on Ayn Rand’s “The Fountainhead” Lanham, MD: Lexington Books, 2007. p. 210

[3] RAND, Ayn. A Nascente. São Paulo: Arqueiro, 2013. Vol I, p. 22.

[4] RAND, Ayn. A Nascente. São Paulo: Arqueiro, 2013. Vol I, p. 336-337

[5] RAND, Ayn. A Nascente. São Paulo: Arqueiro, 2013. Vol I, p. 122

[6] MAYHEW, Robert. Humor in The Fountainhead, in Robert Mayhew (ed.), Essays on Ayn Rand’s “The Fountainhead” (Lanham, MD: Lexington Books, 2007). p. 219-222.

[7] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. V I, p. 104-105.

[8] RAND, Ayn. A Nascente. São Paulo: Arqueiro, 2013. Vol I, p. 255.

[9] RAND, Ayn. “The Soul of a Collectivist,” For the New Intellectual. New York: Signet, 1964 Centennial edition.

[10] MAYHEW, Robert. Humor in The Fountainhead, in Robert Mayhew (ed.), Essays on Ayn Rand’s “The Fountainhead” Lanham, MD: Lexington Books, 2007. p. 211-212.

[11] MAYHEW, Robert. Humor in The Fountainhead, in Robert Mayhew (ed.), Essays on Ayn Rand’s “The Fountainhead” Lanham, MD: Lexington Books, 2007. p. 210.

[12] MAYHEW, Robert. Humor in The Fountainhead, in Robert Mayhew (ed.), Essays on Ayn Rand’s “The Fountainhead” Lanham, MD: Lexington Books, 2007.