Stephen Hicks

Professor de Filosofia na Rockford University.

Escreveu diversos livros e artigos sobre temas como Objetivismo, empreendedorismo, ética, pós-modernismo.

Há vários artigos traduzidos ao português disponíveis na página do autor.



A “direita alternativa” fará a extrema-esquerda abraçar o Iluminismo?


Um terremoto está afetando as bases da esquerda? Na revista de extrema-esquerda, Jacobin, dois jovens filósofos lamentam sua descoberta de que as estratégias pós-modernas foram capturadas pela odiosa Alt-Right (tradução livre, direita alternativa) – e, em reação a isso, eles propõem que os socialistas aceitem a filosofia do Iluminismo[1].

O presidente Donald Trump e seu estrategista-chefe, Steve Bannon, são uma força politicamente disruptiva; agora, os seus companheiros de “direita alternativa” – o provocador Milo Yiannopoulos e o filósofo Jason Reza Jorjani – são uma força intelectualmente disruptiva no mundo?

Os autores do Jacobin, Landon Frim e Harrison Fluss, situam seus medos ao notar um fator-chave sobre o mundo acadêmico contemporâneo:

“Criticar o pensamento iluminista está na moda em todo o espectro político. Nas últimas décadas, mais e mais acadêmicos colocaram a razão em xeque, em especial, o tipo de visão racionalista que emergiu nos séculos XVII e XVIII. Isso se aplica, especialmente, aos pensadores de esquerda, pós-modernos e pós-estruturalistas”.

Mas um golpe terrível atingiu a esquerda – e não é só a persona Donald Trump:

“uma das principais táticas da ‘direita alternativa’ é a sua apropriação da política de identidade por um tipo machista de política de identidade branca, e o sucesso dela nesse intento prova a viabilidade da estratégia”.

Isso significa que agora tanto a esquerda quanto a “direita alternativa” estão usando o pós-modernismo como sua estrutura filosófica e retórica. Dormindo com o inimigo?

Talvez. Alguns de nós têm argumentado por muito tempo que, há mais de 200 anos, não houve nenhuma diferença fundamental entre a esquerda contra-iluminista (por exemplo, Jean-Jacques Rousseau) e a direita contra-iluminista (por exemplo, Friedrich Nietzsche)[2]. Ambas foram e são fundamentalmente antirracionais e antiliberais – então, era só uma questão de tempo antes que a lógica interna de suas filosofias se manifestassem como autoritarismo e irracionalismo pós-moderno. A esquerda só chegou lá uma geração antes.

Mas Frim e Fluss não concordam com o fato de a extrema-esquerda estar de caso filosófico com a direita alternativa, de modo que eles conclamam a esquerda a relegar o pós-modernismo à direita alternativa:

“Se a esquerda deseja resistir ao poder crescente da direita alternativa, ela precisa retornar às raízes da racionalidade do Iluminismo”.

Já era hora. Tal proposta de Frim e Fluss deveria ser motivo de surpresa e de esperança.

A surpresa vem de notar que a esquerda agora é claramente a visão reacionária do mundo, como segue:

  1. O Iluminismo acontece (no final da década de 1600): razão, individualismo, liberalismo e livre mercado prevalecem em grande parte.
  2. Mas um Contra-iluminismo emerge (em torno de 1750), tomando a forma de direita reacionária e de várias outras formas de esquerda[3].
  3. As formas de esquerda passam por várias mutações – rousseauniana, marxista, etc (1800) – e, frustradas, entregam-se ao pós-modernismo (metade do século XX);
  4. Agora a direita, em sua forma “alternativa”, também abraça a retórica e estratégia pós-modernas. (início dos anos 2000);
  5. Em reação ao fato de estar na cama com a “direita alternativa”, a esquerda diz “que coisa, temos de dar outra chance para o Iluminismo.”

A esperança advém de tomar o artigo da Jacobin como um sinal de que a esquerda considera o esquerdismo pós-moderno um fracasso[4], já que a “direita alternativa” pode empregar as estratégias pós-modernas na inevitável batalha pelas ideias. Praticamente nenhum tipo de fracasso do socialismo fará com que eles abandonem o esquerdismo: o compromisso com a ideologia de extrema-esquerda sempre foi a fé semirreligiosa dos jovens rebeldes, e com o fracasso repetido da teoria e da prática esquerdistas, em todas as variações tentadas, a resposta entre os esquerdistas sempre foi ajustar as táticas, mas manter o compromisso com a estratégia central.

Mas e se – como Frim, Fluss esperam – a esquerda passar a adotar o compromisso iluminista à racionalidade, poderemos ter debates produtivos que apelam aos fatos e à lógica. Que bela mudança seria...

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Tradução e revisão por Matheus Pacini.

Publicado originalmente na página do autor.

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[1] FRIM, Landon and FLUSS, Harrison, "Aliens, Antisemitism, and Academia," Jacobin, March 11, 2017. Grato ao professor R. Kevin Hill pelo link.

[2] HICKS, Stephen. Explicando o pós-modernismo: ceticismo e socialismo de Rousseau a Foucault. São Paulo: Callis, 2011. Ler capítulo 4.

[3] HICKS, Stephen. Explicando o pós-modernismo: ceticismo e socialismo de Rousseau a Foucault. São Paulo: Callis, 2011. O capítulo 5 discute a crise do pensamento socialista no século XX e como isso levou os socialistas ao pós-modernismo.

[4] Uma curiosa reivindicação história é feita no artigo da Jacobin: "desde sua concepção, o Contra-Iluminismo foi de direita, normalmente a romântica e antissemítica direita". Contudo, Rousseau é claramente um pensador contra-iluminista e um homem de esquerda, quem inspirou uma corrente esquerdista que já tem 260 anos.