Quem resolverá nossos problemas?

No meu ano de formação no ensino médio, o tema da redação do Enem foi “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”. Em outras ocasiões, houve temas como publicidade infantil, o estigma associado às doenças mentais e, em 2025, “Perspectivas acerca do envelhecimento populacional do Brasil”. Visto que uma das competências ensinadas e testadas nos alunos é uma proposta de intervenção, um debate sobre a redação do Enem geralmente tende para “quais propostas tu defenderias?”.

Desconsiderando o juízo de valor já contido no próprio exercício, afinal, não intervir não é uma alternativa válida para o aluno que busca uma boa nota, me peguei pensando de que outras maneiras esse exercício pode induzir os alunos a determinadas conclusões. Recordei-me então da cartilha de conceitos que me foi aplicada no ensino médio e que continua a ser ensinada a todos os brasileiros em idade escolar. Especificamente acerca da proposta de solução, é necessário apresentar uma resposta que tenha cinco elementos estruturantes: um agente específico, sua ação, o meio, a finalidade e o detalhamento. Isso se parece perigosamente com o quê? Planejamento central.

Desde a escolha das situações propostas na redação, a maneira como elas são comunicadas e o padrão por meio do qual os textos dos alunos são julgados (por exemplo, a obrigatoriedade de se estruturar uma intervenção), fica claro que está sendo ensinado e testado um raciocínio implicitamente coletivista. Existe, então, certa impossibilidade, de maneira alguma acidental, de o aluno enxergar em si – como indivíduo – uma solução, ou, que seja, uma mitigação a essas constatações, muitas vezes amplas e genéricas, que lhe são postas como problemas.

Lembremo-nos de que os alunos mais dedicados, nossas mentes mais brilhantes, chegam a fazer dezenas dessas redações enquanto treinam para o Enem – que para muitos é uma porta de entrada para uma vida e uma carreira melhor –, passando, portanto, por praticamente qualquer tema que tenha a mínima relevância cívica. E o que, exatamente, estamos lhes ensinando com isso? Estamos ensinando que, para toda possível intempérie da vida social, há de se ter uma resolução coletiva, e não precisamos olhar mais longe que alguma secretaria, ministério, ONG ou entidade pública (os suspeitos usuais para os estudiosos de plantão) que a execute. Estamos ensinando que a solução não está no indivíduo, e sim, no coletivo.

Esse modelo mental é precisamente o oposto daquilo que se identifica na tradição liberal como o princípio moral fundador de uma sociedade livre, a responsabilidade individual. O que o Enem faz é uma perigosa e, acredito, deliberada inversão: transforma o indivíduo em espectador de sua vida cívica, e o Estado, por consequência, em protagonista universal. É uma inversão moral grave, pois descarrila o jovem justamente no momento em que ele está despertando a consciência de sua agência como membro da sociedade.

A pedagogia da intervenção – esse pequeno ritual de planejamento central – funciona como uma vacina invertida: inocula nos jovens doses homeopáticas de coletivismo até que eles não só se acostumem com ele, mas também passem a considerá-lo incontestável e natural. O aluno aprende que é moral “cobrar políticas públicas” e inefetivo e imoral propor ações que dependam da própria iniciativa dos agentes, como se autonomia e responsabilidade fossem sinônimo de insensibilidade.

O resultado prático é a formação de uma cidadania atrofiada e uma mentalidade impositiva e centralizadora, para as quais os problemas do país são sempre grandes demais para indivíduos, empresas, associações civis ou comunidades locais. Somente o Estado, um ente abstrato, indefinido e, para fins de retórica, onipotente permanece como o único adulto na sala e agente de transformação. E, convenhamos, quando um povo acredita que liberdade é o direito de exigir que outro resolva seus problemas, já não temos cidadania.

A moral liberal, e mais ainda a objetivista, oferece um antídoto a essa psicologia social da abdicação. Ela recorda que nenhum país melhora via decreto, nenhuma vida floresce via portaria e nenhum valor nasce de um coletivo que não seja composto voluntariamente de indivíduos que pensam e agem de maneira independente.

A verdadeira resposta para qualquer situação – do envelhecimento populacional à educação de surdos – começa nas escolhas que fazemos, na responsabilidade pelos próprios atos, na criação concreta de valores no mundo. Educar uma geração para isso, ironicamente, não exige ministérios, secretarias ou até mesmo escolas formais, apenas coragem filosófica – coragem de lhes entregar por completo a responsabilidade da autoria de suas próprias histórias e, somente por consequência, a da nossa sociedade como um todo.

Talvez o momento seja propício para darmos o primeiro e mais difícil passo. Nesse novo ano, em vez de nos perguntarmos “quem resolverá nossos problemas?”, quem sabe nos voltemos para a única pergunta digna de uma sociedade realmente livre – “como resolverei os meus problemas?”.

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