Stephen Hicks

Professor de Filosofia na Rockford University.

Escreveu diversos livros e artigos sobre temas como Objetivismo, empreendedorismo, ética, pós-modernismo.

Há vários artigos traduzidos ao português disponíveis na página do autor.



Vivemos em um mundo de recursos escassos? Não.


Você provavelmente já ouviu as más notícias: supostamente, os recursos naturais estão acabando. Como resultado, surge a questão: você continuará a utilizar recursos de forma egoísta – ou você está disposto a se sacrificar? Possivelmente, você (como individuo) é uma pessoa abnegada, contudo, qual é a probabilidade de que a maioria das outras pessoas desista de seu estilo de vida consumista pelo bem da humanidade? Novamente, você é questionado: não deveríamos dar mais poderes aos governos para que tomem as decisões difíceis em nome das gerações futuras?

A boa notícia, todavia, é que as más notícias são quase sempre falsas – e uma relíquia do pensamento pré-moderno. Mas a crença de que vivemos em um mundo de recursos escassos é ainda muito comum e perigosa, já que nos prepara para medidas desesperadas. Nós devemos, alguns sugerem, recorrer à ética do bote salva-vidas ou:

  1. Reduzir a população ou
  2. impor regulação do controle de natalidade ou,
  3. extinção humana voluntária ou
  4. necessitamos racionar o acesso a recursos com pouca oferta, de forma que somente o essencial seja produzido e somente os mais merecedores os possam consumir.

Estamos divididos entre os pessimistas (que estão convencidos de que o fim está próximo) e os otimistas (que veem um presente e um futuro de abundância).

Uma forma de tratar a alegação de recursos escassos é por meio da análise específica de recursos-chave: alimento, água, área habitável, madeira, ferro, petróleo, gás natural, bauxita e assim por diante. Eles são escassos?

Comece pela sua própria casa. Provavelmente, possui água corrente e refrigerador abastecido. Caso falte comida, há uma mercearia próxima. Mesmo se você vive em uma cidade moderna construída no meio do deserto – como Phoenix, Arizona – alimento e água são abundantes. (Quando foi a última vez que uma mercearia de Phoenix deixou de fornecer pão, carne, vegetais, água – deixando os arizonenses com fome e sede?) Mesmo nas vizinhanças pobres, altura e peso médios estão aumentando, um sinal de melhor nutrição e disponibilidade de alimento. A produção aumentou dramaticamente, e alimento é agora tão abundante que temos as pessoas mais gordinhas da história.

E não somente nos países ricos. A produção de alimentos ao redor do mundo cresceu, em parte, graças a gigantes como Norman Borlaug, e as taxas de pobreza ao redor do mundo caíram vertiginosamente.

Petróleo e gás? As reservas de petróleo estimadas são suficientes para séculos, e as reservas de gás natural podem ser ainda maiores. Se os preços subirem, outras reservas se tornarão economicamente viáveis; e com o refinamento das tecnologias, mais petróleo e gás podem ser explorados, e mais substitutos sintéticos podem ser desenvolvidos.

O que dizer de minerais e metais? Aqui seguem alguns números que primeiramente ouvi do economista George Reisman: o centro da Terra está a 6.371km da superfície, enquanto a mina mais profunda do mundo está a 3.9km. Considere também que mais de 99% de todas as minas da história humana têm sido em terra, mas 71% da Terra é coberta por água.

Ou considere energia em grande escala. Três séculos atrás, os recursos energéticos totais disponíveis relacionavam-se à força muscular, madeira, vento e água que poderíamos obter. Mas os avanços científicos e tecnológicos nos anos 1700 nos permitiram explorar o poder do carvão. Então, o estoque de energia disponível aumentou – todos os músculos, madeira, vento e água estavam ainda disponíveis, mais todo o carvão do mundo. Nos anos 1800, mais avanços nos permitiriam extrair energia do petróleo. A quantidade de energia disponível aumentou novamente – todos os músculos, madeira, carvão, etc., mais todo o petróleo do mundo. Adicione o gás natural dos anos 1900, junto aos materiais radioativos como o urânio. E, é claro, o Sol emite grandes quantidades de energia em nosso sistema diariamente, e continuamos a desenvolver tecnologias de ponta que nos ajudarão a aproveitá-la.  

O ponto é que o estoque líquido de recursos enérgicos em grande escala está aumentando, e esse aumento é potencialmente infinito.

Os recursos da Terra são limitados, mas esses limites são os limites da Terra e os limites de nossas habilidades. E não existem limites conhecidos às nossas habilidades – humanos não são meros coletores de uma oferta fixa de recursos; somos descobridores e criadores de uma oferta potencialmente ilimitada de recursos. Esse foi o argumento ainda pouco apreciado do economista Julian Simon sobre o recurso derradeiro: a inteligência.

Nós somos espertos, e nossa reflexão sobre recursos deve levar em conta o poder transformador das revoluções científica e industrial – e as revoluções política e econômica que concederam a milhões a liberdade de pensamento, descoberta e ação pelo uso do conhecimento, rendendo inovações. A escassez de recursos não é um problema para as nações modernas livres e racionais.

Apesar de um grande número de estatísticas positivas, o pensamento de escassez é profundamente enraizado na mente de muitos. Diz Frederick Taylor, o pai da gestão científica: “podemos ver nossas florestas desaparecerem, nosso potencial hídrico ser desperdiçado, e nosso solo sendo carregado pelas enchentes até o mar; e o fim do nosso carvão e do nosso ferro está à vista”. Essa passagem é do livro The Principles of Scientific Management, publicado em 1911. Um século depois, quantos pessimistas atuais ainda têm coragem de defender tais absurdos proclamados por Taylor?

Então, considere outro recurso para efeito de argumentação: madeira. Dependendo de onde você mora, os recursos florestais são abundantes ou potencialmente escassos. Europeus têm cortado árvores por milênios, mas o continente possui quantidades significativamente maiores de árvores hoje que no século passado. Na América do Norte, a produção de madeira aumentou muito enquanto as taxas de reflorestamento permaneceram constantes no século passado, tanto no Canadá como nos Estados Unidos.

Por outro lado, o desmatamento pode ser um problema nas nações em desenvolvimento, onde metade do desmatamento é causado pela agricultura de subsistência. A agricultura de subsistência é um fenômeno dos países mais pobres do mundo, em que as pessoas fazem o que podem para tirar seu sustento da terra. Dessa forma, o desmatamento nos países pobres poderia ser um problema se a história não mostrasse que, à medida que as nações prosperam, melhoram seus hábitos como os europeus e os americanos comprovam: eles passam a focar no longo prazo; eles poupam e reinvestem mais; e desenvolvem formas mais criativas para solução de problemas.

Então, as nações desenvolvidas podem continuar a evoluir? Obviamente, essa é uma questão em aberto, e a resposta depende da política. Nações relativamente livres tornam-se prósperas, e nações relativamente não livres seguem o mesmo caminho ou permanecem pobres. Isso quer dizer, a escassez de recursos não é um problema natural, mas uma função de políticas ruins. (Note, por exemplo, que muitos lugares que são naturalmente bem dotados de recursos naturais – como a Romênia, Nigéria e Venezuela – regularmente experimentam escassez de recursos)

Nós somos a primeira de poucas gerações na história a experimentar a abundância. O pessimismo tem uma longa história, e sem dúvida muitos permanecerão presos ao pensamento de soma-zero.

Mas o otimismo é o novo realismo – baseado na capacidade de seres humanos livres desenvolverem a ciência, a tecnologia e a riqueza para resolver os problemas de escassez. Nós não estamos nem perto de alcançarmos o limite de nosso potencial.

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Publicado originalmente em EveryJoe.

Traduzido por Matheus Pacini.

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