Stephen Hicks

Professor de Filosofia na Rockford University.

Escreveu diversos livros e artigos sobre temas como Objetivismo, empreendedorismo, ética, pós-modernismo.

Há vários artigos traduzidos ao português disponíveis na página do autor.



Reflexões sobre a ética do egoísmo racional


O que é egoísmo racional

O título provocador da obra A Virtude do Egoísmo de Ayn Rand coincide com sua tese igualmente provocadora sobre ética. A ética tradicional sempre suspeitou do autointeresse, prezando atos que são abnegados (altruístas) em intenção, acusando de amoral ou imoral qualquer ato motivado pelo autointeresse. Na visão tradicional, uma pessoa autointeressada não levará em conta os interesses dos outros e, pior, atacá-los-á – se necessário – na busca do seu próprio interesse.

A visão de Rand é que o exato oposto é verdadeiro: o autointeresse, corretamente entendido, é o padrão de moralidade; e o altruísmo, a imoralidade mais profunda.

De acordo com Rand, o autointeresse significa que o indivíduo deve se considerar um fim em si mesmo, tendo sua vida e sua felicidade como valores mais elevados: isto é, tal indivíduo não pode existir como servo ou escravo dos interesses dos outros e, tampouco, esses existem como servos ou escravos dos interesses dele. A vida e a felicidade de cada indivíduo são seus objetivos últimos. O autointeresse também implica autorresponsabilidade: a vida do indivíduo é dele, isto é, é responsabilidade dele mantê-la e maximizá-la. Depende de cada um de nós determinar quais valores requeridos por nossa vida – e como melhor alcançá-los – bem como agir para realizá-los.

A ética do autointeresse racional (egoísmo racional) de Rand é integral para a sua defesa do liberalismo clássico. O liberalismo clássico, normalmente chamado libertarianismo no século XX, é a visão de que os indivíduos deveriam ser livres para perseguir seus próprios interesses. Do ponto de vista político, isso implica que os governos deveriam ser limitados à proteção da liberdade de cada indivíduo para tal. Em outras palavras, a legitimidade moral do autointeresse implica que os indivíduos têm direito à vida, à liberdade, à propriedade e à busca da felicidade, e que o propósito de governo é justamente proteger tais direitos. Do ponto de vista econômico, deixar indivíduos livres para perseguir seus próprios interesses implica que apenas um sistema capitalista de livre mercado é moral: indivíduos livres disporão de seu tempo, dinheiro e propriedades como julgarem melhor, interagindo voluntariamente com os outros para benefício mútuo.

Razão e ética

De modo fundamental, a razão é a única meio de que dispõem os seres humanos. Nossa capacidade de razão (raciocínio) é o que nos permite sobreviver e prosperar. Não nascemos sabendo o que é bom para nós: isso é aprendido. Não nascemos sabendo como alcançar o que é bom para nós: isso também é aprendido. É por meio da razão que, por exemplo, (i) diferenciamos comida e veneno, (ii) entendemos quais animais são úteis ou perigosos, (iii) produzimos ferramentas, (iv) julgamos quais formas de organização social são válidas, e assim por diante.

Assim, Rand defende o autointeresse racional: o interesse do indivíduo não é qualquer coisa que ele acha que seja; pelo contrário, é através da razão (e não da emoção) que um indivíduo identifica o que está ou não está, de fato, em seu interesse. Pelo uso da razão, um indivíduo leva em conta todos os fatores que pode identificar, projeta as consequências dos cursos potenciais de ação, e age de acordo com princípios claros e objetivos.

Os princípios que uma pessoa deveria adotar são chamados de virtudes. Uma virtude é um atributo de caráter adquirido que resulta da identificação racional de um princípio como bom, e de sua aplicação consistente na prática.

Uma dessas virtudes é a racionalidade: tendo identificado o uso da razão como fundamentalmente bom, a virtude da racionalidade diz respeito a estar comprometido a agir de acordo com a razão. Outra virtude é a produtividade: dado que os valores necessários para sobreviver devem ser produzidos, a virtude da produtividade diz respeito a estar comprometido com a produção desses valores. Outra é a honestidade: dado que os fatos são fatos (A=A), e que a vida de um indivíduo depende de conhecer e agir de acordo com os fatos, a virtude da honestidade diz respeito a estar comprometido com a identificação dos fatos.

Independência e integridade são também virtudes centrais da definição de autointeresse de Ayn Rand. Posto que um indivíduo deve pensar e agir por seus próprios esforços, estar comprometido com uma política de ação independente é uma virtude. E dado que o indivíduo tanto identificar o que está em seu interesse e agir para alcançá-lo, a virtude da integridade diz respeito a estar comprometido a agir com base em suas próprias crenças. A política oposta de acreditar numa coisa e fazer outra é, obviamente, o vício da hipocrisia; e a hipocrisia é a política de autodestruição, na visão de Rand.

Justiça é a outra virtude central do autointeresse: justiça, na interpretação de Rand, significa a política de julgar pessoas, incluindo a si próprio, de acordo com seus valores – agindo de acordo. A política oposta – de dar aos outros mais ou menos do que merecem – é a injustiça. A virtude final na lista de Rand é o orgulho, a política de “ambição moral”, nas palavras de Rand. Isso significa estar comprometido em se tornar a melhor versão de si mesmo, de moldar o seu caráter da forma mais elevada possível.

Na interpretação de Rand, uma pessoa moral é alguém que age e está comprometido a agir em seu autointeresse. É vivendo a moralidade do autointeresse que alguém sobrevive, progride e conquista a felicidade.

Críticas à ética de Ayn Rand

Todos os aspectos da filosofia de Rand estão sujeitos à crítica e debate, contudo, o alvo mais comum de ataque são suas visões normativas.

Da direita conservadora, as principais críticas são (a) que o naturalismo metafísico de Rand envolve um ateísmo que destrói a metafísica religiosa, (b) que sua forte ênfase em dados empíricos e razão destrói epistemologias baseadas na fé e na tradição, e (c) que seu individualismo normativo destrói os mandamentos do dever, obrigação e altruísmo necessários para a realização de valores sociais. Da esquerda progressista, as principais críticas são (a) que o individualismo de Rand isola atomisticamente cada um de nós do convívio social genuíno, (b) que sua defesa do livre mercado permite a exploração dos fracos pelos fortes e (c) na crítica pós-moderna, que seus fundamentos filosóficos a prendem a um fundacionismo e absolutismo inalcançáveis.

Nesse ensaio, focaremos apenas nos argumentos contrários ao autointeresse racional de Rand. É um ponto de ataque comum tanto à esquerda como à direita.

A visão contrária de autointeresse normalmente o coloca contra a moralidade, defendendo que o indivíduo é moral na medida em que sacrifica o seu autointeresse em prol dos outros ou na medida em que age, primeiramente, com os interesses dos outros em mente. Por exemplo, propostas padrão de moralidade defenderá que um indivíduo é moral na medida em que deixa de lado os próprios interesses para servir a Deus, aos fracos e oprimidos ou à sociedade. Nessas interpretações, os interesses de Deus, dos pobres ou da sociedade são dotados de significância moral mais elevada do que os seus, logo, o indivíduo deveria se sacrificar quando necessário. Essas éticas de sacrifício defendem que um indivíduo deveria ser ele próprio um servo, para servir os interesses dos outros, não o seu próprio. “Serviço altruísta” ou “sacrifício altruísta” são frases de efeito que dão suporte a visão de mundo.

Uma diferença central entre a visão de autointeresse de Rand e a altruísta pode ser entendida na razão por que a maioria dos defensores do altruísmo pensam que o autointeresse é perigoso: conflitos de interesse.

Conflitos de interesse

As teorias éticas mais tradicionais consideram os conflitos de interesse como regra da condição humana, buscando na ética a sua solução: os princípios éticos básicos devem nos dizer quais interesses deveriam ser sacrificados para resolver os conflitos em questão. Se existe, por exemplo, um conflito fundamental entre o que Deus quer e o que os humanos naturalmente querem, então, a ética religiosa tornará regra o princípio de que os desejos humanos deveriam ser sacrificados pelos desejos de Deus. Se existe um conflito fundamental entre a necessidade da sociedade, e o que o indivíduo deseja, então, algumas versões da ética secular tornarão regra o princípio de que os desejos individuais deveriam ser sacrificados pelas necessidades da sociedade.

A ação de tomar os conflitos de interesse como fundamentais quase sempre se origina de uma de duas crenças: que a natureza humana é fundamentalmente destrutiva ou que os recursos econômicos são escassos. Se a natureza humana é fundamentalmente destrutiva, então, os humanos estão sempre em conflito. Muitas filosofias éticas partem dessa premissa – por exemplo, o mito de Giges de Platão, descrições judaicas e cristãs do pecado original, e o id de Freud. Se, por natureza, o que os indivíduos querem fazer é estuprar, roubar e matar, então, para se ter uma sociedade, esses desejos individuais precisam ser sacrificados. Consequentemente, o princípio básico da ética seria instruir os indivíduos a suprimir seus desejos naturais de modo que a sociedade possa existir. Em outras palavras, o autointeresse é o inimigo - e deve ser sacrificado pelos outros.

Se recursos econômicos são escassos, então, não há o suficiente para todos. Logo, essa escassez coloca os seres humanos em conflito fundamental uns com os outros: pois, para que a necessidade de um indivíduo seja satisfeita, a de outro deve ser sacrificada. Muitas filosofias éticas partem de tal premissa. Por exemplo, a teoria malthusiana de que o crescimento populacional supera o crescimento na oferta de alimentos se enquadra nessa categoria. A descrição da sociedade capitalista por Karl Marx é que a concorrência brutal leva à exploração de alguns por outros. O famoso uso de Garrett Hardin da analogia do bote salva-vidas nos pede para imaginar que a sociedade é como um bote salva- vidas com mais pessoas que seus recursos podem atender. Então, para resolver o problema da concorrência destrutiva a qual a escassez de recursos nos leva, um princípio básico de ética será instar os indivíduos a sacrificar os seus interesses de obter mais ou, pelo menos, um pouco para que os outros possam obter mais ou algo, e a sociedade pode existir pacificamente. Em outras palavras, numa situação de escassez, o autointeresse é o inimigo e deve ser sacrificado pelos outros.

Rand rejeita tanto a premissa dos recursos escassos como a da natureza humana destrutiva. Seres humanos não nascem em pecado ou com desejos destrutivos; tampouco os adquirem no processo de amadurecimento. Em vez disso, você nasce moralmente tabula rasa e molda seu caráter e hábitos através de suas escolhas e ações. Como Rand fraseou, “homem é um ser de alma que se faz sozinha.” Ter desejos crônicos de roubar, estuprar ou matar os outros é o resultado de desenvolvimento problemático e aquisição de hábitos ruins, assim como o são a preguiça crônica ou o hábito de comer muitas guloseimas. E assim como ninguém nasce preguiçoso, mas pode, por suas próprias escolhas, se tornar uma pessoa vigorosa ou morosa, um indivíduo não nasce antissocial e pode, por suas escolhas, desenvolver-se como uma pessoa cooperativa ou conflituosa.

De acordo com Rand, por natureza, recursos não são escassos. Pelo uso da razão, humanos podem descobrir novos recursos e como usar recursos existentes de forma mais eficiente, incluindo reciclar quando apropriado ou adotar processos produtivos mais eficientes. Os humanos têm, por exemplo, descoberto e desenvolvido novos recursos energéticos, de animais a madeira, de carvão a petróleo, de fissão nuclear a painéis solares; e não há fim à vista nesse processo. Em qualquer momento, os recursos disponíveis é uma quantidade fixa, mas, ao longo do tempo, o estoque de recursos é, e tem sido constantemente expandido.

Por serem racionais, os seres humanos podem produzir um número cada vez maior de bens, logo, os interesses humanos não estão em conflito fundamental. Em vez disso, Rand defende que o exato oposto se aplica: como humanos podem e deveriam ser produtivos, os interesses humanos estão profundamente em harmonia entre si. Por exemplo, eu ser produtor de milho está em harmonia com você ser produtor de ervilhas, pois ambos estão sendo produtivos e comercializando entre si, melhorando a situação geral. É do seu interesse que eu tenha êxito na produção de mais milho, assim como é de meu interesse que você tenha sucesso na produção de ervilhas.

Sim, conflitos de interesse existem em um contexto mais estreito. Por exemplo, no presente imediato, os recursos disponíveis são mais estáveis e existe concorrência que produz vencedores e perdedores. A concorrência econômica, todavia, é uma forma mais ampla de cooperação, uma forma social para alocar recursos sem recorrer à força física e violência. Por meio da concorrência, recursos são alocados eficiente e pacificamente; no longo prazo, mais recursos serão produzidos. Assim, um sistema econômico competitivo é do interesse de todos nós.

Dessa forma, Rand argumenta que sua ética de autointeresse é a base da felicidade pessoal e de uma sociedade livre e próspera.

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Publicado originalmente em Internet Encyclopedia of Philosophy.

Traduzido por Matheus Pacini

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