Adelina Fendrina



Ragnar Danneskjöld e o amor pelo trabalho produtivo


A revolta de Atlas marca o ápice criativo de Ayn Rand. No romance, ela consegue aplicar sua filosofia objetivista a um cenário fictício que reflete, em certa medida, a época em que escreveu a obra. Sua obra-prima é uma tentativa de demonstrar como a implementação de suas ideias influenciaria os eventos do mundo, e como a sociedade seria afetada caso alguns de seus membros aceitassem a filosofia do Objetivismo.

O romance apresenta a vida como uma luta pelo reconhecimento do talento e, consequentemente, estabelece a qualidade do trabalho (produtividade) como o único valor objetivo a determinar o caráter das pessoas. Mas, como a habilidade é tão malvista na sociedade, A revolta de Atlas é visto como uma homenagem aos grandes negócios e um tributo à aptidão humana.

Esse conflito entre os capazes e a indisposição a aceitá-los na sociedade é um tema recorrente nos escritos de Ayn Rand. No romance distópico Cântico, a autora examina especificamente o conflito entre os criadores de valor e os pilares da atual estado de coisas. Em um sentido mais amplo, a habilidade humana é normalmente considerada uma ameaça a um status quo, o que a torna mais vilipendiada por aqueles no poder: e isso que se observa em Cântico. Quando Igualdade 7-2521 redescobre a eletricidade, ele sobrevive por pouco à tortura de seus captores, mas ele não conta seu segredo porque está completamente certo do bem que sua descoberta trará aos outros. Mas quando ele a apresenta ao Conselho Mundial dos Eruditos, ele é vítima da ira produzida pelo medo da mudança. Ele é amaldiçoado por sua descoberta, porque ela abalaria o status quo indefinidamente. Ele é sentenciado à morte. Seu crime? O uso de suas habilidades.

Nem a história, nem a sociedade têm sido gentis com indivíduos como ele – ao longo de milênios, foram vitimados, segregados e maldiçoados – os primeiros mártires da mente humana. A transferência da culpa para os membros capazes da sociedade têm tomado diversas formas ao longo do tempo – sua expressão varia de acordo com o estágio de desenvolvimento da sociedade: do barbarismo às execuções públicas, passando pelas tentativas mais recentes de difamação e calúnia, focadas em desacreditar o conceito de capacidade.

Quando falamos da ideia de capacidade e seu papel, o que normalmente se desconsidera é que a atitude com respeito à habilidade humana e os indivíduos que a possuem é de suma importância para um entendimento claro das ideias filosóficas dominantes numa sociedade. Toda a história da humanidade pode ser analisada por essas lentes – eventos, séculos, épocas podem ser julgadas por se acariciaram ou cuspiram na cara da aptidão. Sob tal prisma, épocas como a Idade das Trevas seriam qualificadas como amorais, à luz dos crimes cometidos contra o progresso e a habilidade humana. Todo indivíduo vilipendiado, queimado na fogueira ou apedrejado até à morte devido à sua habilidade estava se rebelando contra um sistema falido, que tentava restringir a capacidade de pensar – a condição básica da existência da humanidade. Nesse sentido, o romance distópico Cântico ilustra brilhantemente a jornada do criador de valor, lutando contra toda restrição à sua mente e, por fim, quebrando os grilhões de deuses, reis, nascimento, parentesco ou raça “pois esse é o direito do homem, e não existe na Terra um direito acima desse.”

Tais realizações possibilitaram a existência de épocas fundamentalmente diferentes – como a Antiguidade e o Renascimento e, em especial, a Revolução Industrial, que seriam consideradas morais – uma manifestação da criatividade da mente humana funcionando desobstruída em todo o seu esplendor. As consequências desses eventos não apenas transformam vidas, mas também determinam o curso futuro da história. Infelizmente, as crises atuais exigem que tratemos a época em que vivemos como análoga ao primeiro grupo, da mesma forma que Rand, em sua época. Ela entendeu os processos do sistema corrupto que estava sufocando os Estados Unidos e buscou apresentar os resultados desses sob a forma de ficção, travando a queda de um sistema inevitavelmente podre. Em A revolta de Atlas, ela mostra um mundo que repudia o conceito de trabalho produtivo; que abandona a sua moralidade; que pertence a homens de segunda mão. Nessa realidade, dominada pela “aristocracia do pistolão”, conexões são virtudes, enquanto que integridade, trabalho duro e habilidade – pecados.

Uma expressão que captura a visão dominante de tal mundo é “de cada um conforme sua habilidade, a cada um conforme sua necessidade” – o conceito central por trás do Manifesto Comunista e todas as ideologias totalitárias. Esse slogan incorpora os princípios de uma sociedade coletivista onde a riqueza, obtida pelos capazes, talentosos e industrialistas, é redistribuída de tal sorte que permite que o conceito indefinido de “necessidade” seja uma desculpa suficiente para o roubo e a pilhagem da propriedade alheia.

Considerando essa prática obviamente comum, um dos oponentes mais sérios à expansão do Comunismo na Europa – a ex-primeira ministra da Inglaterra, Margaret Thatcher, lembrou que “o problema do socialismo é que só dura até acabar o dinheiro dos outros.” Essa citação incorpora corretamente a amoralidade político-filosófica que está na essência das ideologias comunista e socialista A existência de homens de segunda mão depende totalmente do trabalho daqueles por eles condenados, da mesma forma que o parasita depende do seu hospedeiro, mesmo matando-o lentamente.

Como resultado, ao dizer que ele ama o que raramente tem sido amado, isto é, a habilidade humana, Danneskjöld oferece aos leitores toda a sua filosofia de vida – sua veneração pela conquista, criatividade, trabalho duro, perseverança e integridade, bem como sua dor frente à constatação de que ele e suas ideias são uma minoria e sempre foram. De certa forma, sua declaração e seu profundo amor pela capacidade humana também representam as últimas investidas dos capazes para preservar o mundo como o conhecemos. Como um homem de habilidade, ele sente que o código moral do criador de valor está sendo substituído pelas ideias destrutivas do saqueador. Ele e outros membros do Vale de Galt testemunham a terrível transição da realização para um sistema formado pela competição entre os saqueadores. Ainda assim, eles têm alguma culpa pela situação.

Como Winston Churchill afirmou, “o preço da grandeza é a responsabilidade”. Mas se os indivíduos competentes, que são o sistema vital de nossa espécie, renunciaram ao direito de moldar o código moral dominante da sociedade, eles pagaram o preço por sua indiferença. De certa forma, eles são vítimas de sua própria habilidade, a qual os têm alienado do resto do mundo e colocado um alvo em suas costas, permitindo que os saqueadores os transformassem em bodes expiatórios da sociedade. Esse processo é a razão que força os titãs da indústria em A revolta de Atlas a agirem contra a sua natureza de modo que possam restabelecer sua posição na sociedade ao desafiar a humanidade a sobreviver sem os feitos e as realizações dos criadores que ela tanto condena. Essa é a única forma de abrir os olhos do mundo para o seu papel na manutenção da existência humana.

Ao longo da história, indivíduos suspeitos de serem melhores que seus pares foram bodes expiatórios de suas sociedades, a serem vilipendiados por suas habilidades - de cientistas a industrialistas, passando por empresários. É um fato indisputável, portanto, que eles nunca foram amados ou adorados, nem mesmo reconhecidos. Por todas essas razões, concordo com a visão de Danneskjöld com respeito à atitude para com indivíduos capazes, focados e industrialistas, e seu papel normalmente errôneo ou subestimado. Eu, como muitos outros, tem a má sorte de fazer parte do sistema atual que recompensa o comportamento destrutivo e o menosprezo pela moralidade, enquanto encoraja uma filosofia de vida que nos leva a crises repetitivas na economia, na política, etc. A moralidade atual dos saqueadores é baseada numa forma sub-humana de viver que oferece prospectos preocupantes para o futuro. Ela cria um livre de ambições, do impulso para o sucesso e do desejo de progresso e desenvolvimento.

Sessenta anos atrás, Ayn Rand escreveu um romance que apresentava uma forma de evitar tais crises, mas também delineou um futuro sombrio caso não fosse seguida. Uma representação ficcional de suas ideias filosóficas, A revolta de Atlas é um estudo aprofundado dos impulsos, das ambições e das perspectivas de um tipo diferente de protagonista que conhece o seu valor e não aceita barganhas ou pactos.

Por fim, eu compartilho o apelo por mudança de Danneskjöld, bem como o estabelecimento de um sistema justo que trate os indivíduos de acordo com suas habilidades, um sistema que recompense a capacidade, o trabalho duro e a perseverança, além de encorajar o sucesso. Eu compartilho o amor dele pelo raramente amado, pelo percebido como ameaça, porque compartilho uma visão de mundo e sociedade onde as pessoas amem e reconheçam o progresso e a realização.

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Traduzido por Matheus Pacini.

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