Roberto Rachewsky



Que país merecemos?


Andrew Bernstein é um dos defensores mais eloquentes dos direitos individuais. Em sua última manifestação, que diz respeito à invasão de privacidade promovida pela Agência Nacional de Segurança, disse: “nós somos americanos, orgulhosos cidadãos da nação mais livre, com direitos inalienáveis garantidos pela Constituição dos Estados Unidos, e não uma população intimidada de uma ditadura do terceiro mundo. Bradaremos – em voz alta, e com orgulho – protegendo nossos direitos, sabendo, que se não o fizermos, não apenas devemos, mas merecemos, perdê-los.”

Se na “terra dos livres e lar dos bravos” chegaram a esse ponto, o que sobra para nós?

Somos brasileiros, cidadãos de segunda classe, habitantes de um país de terceiro mundo acostumados a viver, desde os primórdios da República, sob o jugo de ditaduras de níveis variados, governados por pessoas que se apoderam da nação como verdadeiros reis de um olho só, sobressaindo-se numa terra de cegos.

Cegos pelo desejo de serem alimentados na boca, de vencer na vida sem estudo nem trabalho, de enriquecer sem mérito, sem nada dar em troca à sociedade e, se possível, sem correr riscos, nem mesmo os necessários.

Temos assistido, perplexos, à proliferação de uma cultura caracterizada por padrões morais e éticos contraditórios.

Nas passeatas, vemos multidões clamarem, com aparente pacifismo, por benesses só possíveis através do poder de coerção, obviamente, violento do Estado. Elas manifestam insatisfação e, paradoxalmente, esboçam orgulho ao ouvir a própria voz protestar, pasmem, por mais do mesmo.

Em coro, podemos ouvir: “precisamos”, “necessitamos”, “merecemos”, “o governo tem que dar”, “que tire dos outros e garanta o meu bem-estar”.

Preocupar-se só com a própria satisfação sem esforço (com prodigalidade ou hedonismo), sem pensar nos meios para tal fim (sem respeitar quem cria, produz e distribui), evitando saber como são obtidos os recursos que saciarão essas necessidades, é consequência de uma visão de mundo desapegada da realidade e dos valores morais e princípios éticos inerentes e indispensáveis à ação humana, a qual tem na vida profícua e nas relações consentidas, o caminho duradouro para a civilidade.

Por quanto seremos uma sociedade de hipócritas?

  • Políticos denunciam a corrupção só quando não estão inseridos no rol das propinas, ou quando essas minguam inexplicavelmente.
  • Empresários e sindicatos reclamam do corporativismo quando ficam fora de algum conchavo, ou quando este é nocivo para seus interesses. Reclamam do protecionismo dos mercados [enquanto compradores], mas exigem mercados reservados [enquanto vendedores].
  • Jornalistas defendem a liberdade de expressão, mas se calam servilmente perante os afagos do poder. Comunicam obviedades entre anúncios publicitários do governo ou de agências ou empresas estatais, sempre monopolistas e incompetentes.
  • Jovens pregam a defesa da propriedade privada, mas pirateiam obras para pouparem centavos. E há os que fazem isso alegando estar defendendo o direito à propriedade, mesmo sonegando pagamento ao autor daquilo que apreciam, como se o produto da mente do criador surgisse do nada e seu esforço intelectual não devesse ser remunerado.
  • Estudantes, anciãos e outros que se acham privilegiados querem pagar apenas a metade de tudo que consomem, quando não, escandalosamente, não querem pagar nada. Pouco se importam se, nessa ação, estão onerando alguém que necessariamente arcará com a diferença, sob coerção.

Todos querem obter algo à custa dos outros, fugindo desesperadamente da contrapartida justa e necessária; aproveitam, individualmente, os ganhos, porém, dissipam, socialmente, os custos, de forma ilegítima e inaceitável. Todos reclamam quando o Estado bate à sua porta para angariar, sob a mira de uma arma, os recursos necessários para suprir o que a própria sociedade demanda.

É contraditório reclamarmos que o governo taxa e, ao mesmo tempo, o condenarmos por não prestar os serviços que precisamos.

Todos demandam direitos inexistentes à saúde, à educação, à moradia, à segurança e, ao mesmo tempo, pedem que sejam reduzidos os impostos e garantidos o direito à liberdade, à propriedade e à vida.

Já dizia Ayn Rand: “a civilização é o avanço de uma sociedade em direção à privacidade. O selvagem tem uma vida pública, regida pelas leis de sua tribo. Civilização é o processo de libertar o homem dos outros homens.”

O que me parece urgente é a necessidade de mudarmos nossa cultura. Antes de mais nada, devemos criar as condições para vivermos uma individualidade plena, com nossos próprios meios, com o fruto do nosso próprio esforço, remunerando diretamente o trabalho dos outros, quando o utilizamos para nossa satisfação.

Cada desejo, mesmo não confessado, de usurpar os direitos dos demais em proveito próprio, transforma-nos um pouco mais em selvagens, empurrando-nos cada vez mais para a marginalidade e a triste qualificação de escória no universo das nações.

A cada um de nós cabe criar o ambiente em que o governo vai se tornando desnecessário, fruto de nossa capacidade de obter o que precisamos, sem a sua nefasta intermediação.

Se não nos conscientizarmos que o governo somente se retrairá perante homens com valor moral, sustentados por sua própria capacidade produtiva, com independência, racionalidade, coragem e determinação, jamais seremos a terra dos livres, porque não haverá bravos em nosso lar.

Não perderemos a liberdade porque nunca a tivemos, e nunca a tivemos porque nunca a merecemos.

Liberdade não existe para quem come da mão de seu senhor.

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Revisado por Matheus Pacini.

Publicado originalmente em Instituto Millenium.

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