Stephen Hicks

Professor de Filosofia na Rockford University.

Escreveu diversos livros e artigos sobre temas como Objetivismo, empreendedorismo, ética, pós-modernismo.

Há vários artigos traduzidos ao português disponíveis na página do autor.



Os primeiros encontros de Roark e Keating


Sou filósofo, e em minhas aulas gosto de ler e analisar obras literárias como “premissas com pernas”. Apesar desse “risco ocupacional”, fico fascinado com a habilidade dos grandes escritores de ficção de integrar perfeitamente temas filosóficos abstratos com retratos literários concretos.

Ao lecionar sobre A Nascente de Ayn Rand, foco na parte filosófica, porém gosto de destacar o modo como seus métodos de escrita (ficcionais) concretizam, dramatizam e prenunciam seus temas abstratos.

Seguindo a premissa de que primeiros encontros são inesquecíveis tanto na vida quanto na literatura, vejamos o exemplo dos primeiros encontros com Howard Roark e Peter Keating.

No início do capítulo I, conhecemos Roark:

“Ele estava nu, parado à beira do penhasco. [...] Seu corpo apoiava-se contra o céu. Possuía linhas longas e ângulos retos, mas com curvas delineadas em uma série de planos. Ele estava em pé, rígido, as mãos soltas ao lado do corpo, as palmas voltadas para a frente. Sentia seus ombros estendidos para trás, a curva de seu pescoço e o peso do sangue em suas mãos. [...] Estava olhando para o granito. [...] Parou de rir quando seus olhos se fixaram e perceberam a terra ao seu redor.”

No início do capítulo II, conhecemos Keating. Ele está se formando como o melhor de sua turma, e o ilustre arquiteto Guy Francon é o orador:

“O recinto estava lotado de corpos e rostos, tão comprimidos uns contra os outros que não se podia distinguir, de relance, que rostos pertenciam a que corpos. Era como uma geleia mole e trêmula, feita de uma mistura de braços, ombros, peitos e barrigas. Uma das cabeças, pálida, bonita e de cabelo escuro, pertencia a Peter Keating.

Ele estava sentado bem na frente e tentava manter os olhos no palco porque sabia que muitas pessoas o fitavam e continuariam o observando mais tarde. Não se virava para trás, mas a consciência daqueles olhares centrados nele nunca o abandonava.”

Contrastes apresentados até aqui:

  • Roark está sozinho e seu corpo é descrito em termos singulares. Keating é indistinguível no meio de uma multidão.
  • O foco de Roark está na natureza. Keating está focado nas pessoas que o observam.
  • Roark está nu. Keating está trajado com vestes tradicionais de cerimônias de formatura.

Então, desde o início, somos apresentados ao individualismo de Roark e sua percepção da realidade; somos apresentados à coletividade de Keating e sua metafísica social; assim, Rand nos convida a contrastar os dois de maneira direta.

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Publicado originalmente em Stephen Hicks.

Traduzido por Gabriel Poersch.

Revisado por Matheus Pacini.

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