Stephen Hicks

Professor de Filosofia na Rockford University.

Escreveu diversos livros e artigos sobre temas como Objetivismo, empreendedorismo, ética, pós-modernismo.

Há vários artigos traduzidos ao português disponíveis na página do autor.



Onde está Ebenezer Scrooge, o heroi do Natal?


Todos nós sabemos da história de Ebenezer Scrooge, certo?

A obra Um Conto de Natal de Charles Dickens gerou uma variedade espantosa de interpretações, e como a maioria dos contos, as interpretações frequentemente nos dizem muito sobre o intérprete como a história original.

A lenda de Robin Hood é um bom exemplo. O fora-da-lei da floresta de Sherwood roubava dos ricos e dava aos pobres? Nessa interpretação, os ricos são maus e indignos e os pobres são bons e dignos, então os esforços redistributivos compulsórios de Robin Hood o transformam em um tipo de socialista cristão. Ou Robin Hood estava, na verdade, recuperando o dinheiro que tinha sido confiscado por um governo opressor de aristocratas e seus camaradas — devolvendo-o para aqueles que tinham gerado tal riqueza em primeiro momento? Isso o torna um defensor protocapitalista dos direitos de propriedade, governo limitado e impostos justos. Nós não conhecemos o verdadeiro Robin Hood, pois as origens da lenda estão perdidas nas brumas dos tempos medievais.

Nós temos acesso a um texto que trata do Sr. Scrooge de Dickens. Mas isso não impediu uma enxurrada de interpretações alternativas desse complicado personagem.

Nós temos Scrooge vilão de acordo com o socialismo: pense no pobre Bob Cratchit. Scrooge poderia muito bem sacrificar parte dos seus lucros, pagando um salário a Cratchit, mas o sistema cruel de oferta e demanda concede o poder ao chefe de reduzir os salários, o que deixa os funcionários explorados sem opção a não ser aceitar aquela renda magra. Bob Cratchit é assim o garoto-propaganda dos funcionários explorados em todo o mundo.

Ou temos o Scrooge anticristãoPor simples caridade, Scrooge deveria se sentir motivado a ajudar os menos afortunados que ele — os muitos mendigos na rua, Cratchit e sua grande família, com muitas bocas a alimentar, e especialmente Tiny Tim, cuja deficiência física toca nossos corações. Caridade e perdão deveriam ser seu negócio, clamou o fantasma de Jacob Marley a Ebenezer Scrooge.

E temos o Scrooge, o homo economicus e astuto investidorEbenezer é um amigo da economia por ser um administrador eficiente que reduz custos. Ele não permite quaisquer gastos desnecessários tanto no escritório, como em casa — e todo o centavo que poupa é reinvestido em novos negócios. Scrooge é muito habilidoso na escolha de investimentos que serão lucrativos, alocando recursos de forma eficiente, gerando empregos, fazendo a economia crescer.

Temos também o Scrooge herói ambientalista. Scrooge dificilmente usa velas ou carvão, seja para cozinhar ou para aquecer sua casa ou seu escritório — ele mantinha “uma pequena fogueira”, Dickens comenta — e usa suas roupas até estarem totalmente gastas. Assim, Scrooge sacrifica os confortos pessoais e, ao fazê-lo, preserva os recursos da Terra. Normalmente, consideramos egoístas aqueles que se locupletam à custa dos outros. Ao contrário, Scrooge nega a si mesmo, deixando aqueles recursos para o uso dos outros. Que altruísta! Deveríamos agradecê-lo por fazer sua parte no combate ao aquecimento global e na preservação do meio ambiente.

Intimamente relacionados estão Scrooge malthusiano combatendo o flagelo da superpopulação. Scrooge nos diz que já está presta apoio aos asilos e à lei dos Pobres, que atende os menos favorecidos. Além disso, entretanto, ele traça uma linha, apontando que a população da nação já está além de sua capacidade e a boa política publica deveria “reduzir a população excedente”.

E temos também Ebenezer Scrooge, herói da turma anticomercialização do Natal. Tente reduzir o número de presentes comprados para crianças e outros — e você verá quanta revolta e chantagens você sofrerá. Mas Billy está ganhando um novo Gamebox! E Roberto está comprando um carro para sua esposa!Os anunciantes e os vizinhos esperam que você mantenha o nível. De forma admirável, Scrooge tem estômago para superar tais pressões. Todos nós precisamos de mais quem se importa! nas nossas almas para resistir à tentação do comercialismo.

Todas as interpretações têm algo de verdade, embora todas tenham o defeito de tratar de uma característica de Scrooge e, isolando-a do resto, levam-na ao extremo.

Permitam-me escolher entre as características supracitadas, adicionando algumas outras para que eu lhes apresente uma nova transformação de Ebenezer: eu apresento o Scrooge aristotélico.

Antes de sua mudança, Scrooge não é um homem feliz. Avarento e miserável tem muitas semelhanças. Sem dúvida, ele sente prazer quando toma boas decisões de negócios e vê o resultado positivo da contabilidade. Mas, mais do que isso, nos outros aspectos de sua vida ele é pobre, física e psicologicamente. Ele não disfruta da companhia de Bob Cratchit, a pessoa com quem ele convive mais tempo. Ele está afastado de sua família e não tem amigos. Ele não desfruta de viagens e das artes. Ele não desfruta de comidas ou bebidas saborosas, e no inverno, ele passa frio.

Ou seja: Scrooge se absteve da grande maioria das coisas que fazem valer a pena a vida humana. Ele permitiu que um valor genuíno — fazer dinheiro — se tornasse uma obsessão. Seu erro não é somente se dedicar àquela, em detrimento de outras buscas humana; é que ele não se permite desfrutar das recompensas que a riqueza adquirida pode oferecer.

E é isso que ele passa a perceber quando os fantasmas permitem-lhe ver os verdadeiros custos de oportunidade das escolhas que fez, está fazendo ou mesmo fará.

Depois da abordagem do último fantasma, Scrooge acorda e se torna um filósofo. Ele percebe que está vivo e que vale a pena viver na sua plenitude.

Ele deveria se orgulhar de suas conquistas nos negócios e as recompensas que trazem. Ele deveria desfrutar da amizade daqueles com quem convive no trabalho, e perceber que o sucesso de ambos é profundamente inter-relacionado. Ele deveria saber que os laços familiares podem nos enriquecer, recompensando-nos com um amor sincero. Ele deveria saber que a vida é uma questão de investimento e reinvestimento em todas as áreas — negócios, amizades, família, alimentação, bebida e cultura — e que as maiores satisfações vêm para aqueles que mais investem em si mesmos. Ele deveria saber que pelo fato de que milhões de outros seres humanos estão nesse mesmo projeto de vida, e que é magnífico ter um dia especial para celebrar tal fato.

Falar como o orgulho, a amizade, a generosidade, e sabedoria global contribuem para uma vida verdadeiramente completa. Tudo isso faz com que o Scrooge de Dickens pareça uma releitura da era vitoriana da Ética a Nicômaco de Aristóteles. O status de clássico desfrutado pela obra Um Conto de Natal pode ser atribuído à combinação da brilhante narrativa de Charles Dickens com as verdades eternas expressadas pelo mais sábio de todos os gregos.

Podemos ir mais longe. Ao final de Um Conto de Natal, Scrooge percebe que sua mudança de vida foi profunda — e que muitas pessoas o ridicularizaram por isso. Mas Scrooge coloca o escárnio dos outros em seu próprio contexto: nunca é tarde para mudar para melhor. É sempre tempo de se buscar o que é verdadeiramente o melhor da vida. E ter a coragem para fazê-lo — isso é o que torna possível a mais forte autossatisfação. “Seu próprio coração riu: e isso foi o suficiente para ele”.

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Publicado originalmente em EveryJoe.

Traduzido por Matheus Pacini.

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