Roberto Rachewsky



O que esperar do segundo turno?


O primeiro turno é o turno da razão, das convicções ideológicas e das conveniências fisiológicas. É o turno das propostas verdadeiras e até das proposições utópicas. É o turno da política lúdica. Não interessa o candidato, apenas a ética pura. Não importa dinheiro ou carisma, importa ver o mundo por outro prisma. É o turno dos princípios ontológicos, dos valores morais, das ideias impossíveis e dos ideais inevitáveis.

O segundo turno é outra coisa. Tudo muda repentinamente. É a hora da força bruta, do confronto do puxa-puxa, do empurra-empurra, do embate frente a frente. É o turno do vai ou racha. O segundo turno é o turno da emoção, do vale-tudo, do dedo no olho, porque é mata-mata, não tem ferrolho.

No primeiro turno, você defende o partido que lhe representa até o último minuto, não importa se ele tem 1%, 30% ou 50%.

No segundo turno, esquece tudo. Será conversa de surdo-mudo, xiitas versus sunitas, colorados versus gremistas, conservadores, liberais e moderados versus marxistas.

No Brasil, infelizmente, colocam a carroça na frente dos bois - ou dos burros - no primeiro turno criaram cizânia onde deveria haver temperança. Disseram, “quem se importa estúpido, tem que votar no mito”, quando deveriam dizer “gostei-não-gostei da tua proposta, mas no segundo turno estaremos juntos”.

O que esperar de quem vive num país que já teve sete constituições e três golpes de estado? O que esperar de quem vive num país que prefere o Estado ao mercado, que prefere privilégios a direitos, que escolhe deliberadamente estagnar no tempo?

O Brasil honra o seu destino: somos politicamente trogloditas, não sabemos o que foi a revolução iluminista, que teve duas vertentes: a aristotélica e a platônica, a newtoniana e a kantiana, a lockeana e a rousseauniana, a burkeana e a robespierreana; achamos que “revolução industrial” é financiar fábricas obsoletas com o dinheiro do BNDES, espremer a população com impostos para instituir empresas estatais estratégicas e proteger a população da concorrência dos estrangeiros porque produtos mais baratos e de melhor qualidade acostumam mal os brasileiros.

Vivemos ideologicamente num passado remoto, na Idade das Trevas, onde o mercantilismo nacionalista se juntou ao misticismo religioso, por isso se fala em pátria acima de tudo e Deus acima de todos.

Obviamente, tirando os psicopatas da esquerda e os analfabetos funcionais de todos os espectros, ninguém quer os petistas no governo.

Mas não se faz um país próspero voltando no tempo. Não fizemos nossa revolução gloriosa, não declaramos nossa independência da coroa, não implantamos uma república constitucional verdadeira. Vivemos numa democracia tosca, onde ser, produzir e ter é pecado, a não ser se for por concessão do Estado.

Jamais seremos o país do futuro ao aplicar pensamentos retrógrados.

Considerando o nível dos debates políticos e os argumentos apresentados, assentados sobre mentiras e descortesias, falta de tato, falácias estatísticas e matemáticas e aberrações cognitivas continuaremos a ser o eterno país do futuro que nunca chega.

Os liberais precisam se convencer de que o espectro político é um triângulo, existem pontos de encontro com a esquerda, com os conservadores e desses com aqueles.

Os conservadores e os esquerdistas se acham muito espertos querendo nos taxar como aqueles com os quais discordamos em essência para nos terem como aliados como prova de que estariam errados.

Na realidade, lá no fundo, os conservadores não querem nos convencer de que devemos votar contra o projeto da esquerda de poder, mas sim que abandonemos a defesa das ideias liberais porque eles são o que são, conservadores.

Na realidade, lá no fundo, os esquerdistas não querem nos convencer de que devemos lutar contra os fascistas da direita, mas sim que abandonemos nossos princípios, valores e ideais liberais.

É por isso que trouxeram o segundo turno para o primeiro. A política como conhecemos é uma guerra de trogloditas de Facebook, de WhatsApp, de Twitter. Parece a inquisição, onde ou se é cristão, ou se é judeu, ou se é sarraceno.

Querem ver como eu tenho razão? Leiam os comentários que se seguirão.

Vejo vocês no segundo turno, ou não.

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Publicado originalmente em Instituto Liberal.

Revisado por Matheus Pacini.

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