Tara Smith

Professora de Filosofia na Universidade do Texas, em Austin.

Escreveu diversos livros e artigos sobre temas como Objetivismo, teoria política, ética e moral.



Nenhum tributo a Cesar - O Bem e o Mal na Revolta de Atlas


A Revolta de Atlas nos ajuda a entender as consequências de vida e morte da racionalidade e da irracionalidade. Correlativamente, ela ilustra a inevitabilidade das escolhas de valores. Ao demonstrar como o princípio do terceiro excluído funciona no campo da ação humana, Ayn Rand dramatiza vividamente como toda a escolha que uma homem faz é boa ou ruim na medida em que gera repercussões em sua existência. Somente com uma compreensão consistente desse fato é que podemos entender totalmente o enredo do romance. Esse fundamental “isso ou aquilo” também explica o caráter absolutista da filosofia moral de Rand.

Para nos ajudar a assimilar a importância do insight de Rand, este ensaio examinará a escolha entre o bem e o mal. Em particular, o foco do artigo será a natureza mutuamente exclusiva e conjuntamente exaustiva dessas alternativas, com o objetivo de elucidar suas consequências de vida ou morte. E isto será feito em quatro etapas. Primeiro, para indicar as raízes da moralidade na questão de vida ou morte, esboçaremos a visão de Rand sobre a natureza básica do valor. Em seguida, traçaremos os elementos centrais ao processo crescente de compreensão que os protagonistas da novela A Revolta de Atlas têm sobre as características de suas alternativas de escolha ao longo da história. Depois, observaremos como o crescimento do conhecimento altera o seu curso de ação. Finalmente, e de forma mais breve, mostraremos como o “isso ou aquilo” e a natureza mutuamente exclusiva dessa alternativa ditam o caráter absolutista do código moral de Rand. Tudo isso, acredito, ajudará o leitor a entender o tema de A Revolta de Atlas – o papel da razão na existência humana – de forma mais completa[1].

A NATUREZA E AS FUNDAÇÕES DO VALOR

Para entender as consequências de vida ou morte da autoridade moral e a inevitabilidade das escolhas de valores, devemos primeiro entender a visão de Rand sobre o que é moralidade. Embora este seja um tema amplo e que merece por si só uma extensa explanação, um resumo básico deve ser suficiente aqui[2].

Em A Revolta de Atlas (RA)[3], Rand ilustra como a moralidade e a racionalidade são indissociáveis. “A razão humana é sua faculdade moral”[4], observa John Galt – o protagonista da novela –, e “pensar é a única virtude básica do homem”[5]. O racional é o moral. Rand chegou a essa conclusão ao investigar as raízes da moralidade[6].

“Moralidade é um código de valores para orientar as escolhas e as ações do homem – as escolhas e ações que determinam o propósito e o trajeto de sua vida[7]. Contudo, Rand questiona, por que um indivíduo deveria ser moral? Por quais razões faz sentido considerar algumas coisas boas ou valorosas? E o que ela encontra como resposta é que algo pode ser bom ou ruim somente com respeito a organismos vivos. Para objetos inanimados, não existe o conceito de valor. Nada pode ser bom ou ruim para um banco, um relógio ou uma pedra na medida em que essas entidades não têm nada a ganhar ou perder como resultado dos efeitos “de qualquer coisa” sobre eles. “Ganhos” e “perdas” são possíveis somente com respeito a algum fim. Realmente, essa é a maneira pela qual medimos ganhos e perdas: pelo impacto das coisas sobre a realização (ou a manutenção) de uma meta. Como Rand explica,

“Valor” é algo pelo qual uma pessoa age para obter e/ou manter. O conceito de “valor” não é uma primária; isso pressupõe uma resposta para a questão: valor para quem e para quê? Isso pressupõe uma entidade capaz de agir para alcançar um objetivo diante de uma alternativa. Onde não há alternativa, nenhum objetivo ou valor são possíveis[8].

Os valores surgem, em outras palavras, somente com respeito às entidades que perseguem um fim cuja realização pode ser positiva ou negativamente afetada pelas ações daquelas entidades.

Como a vida é literalmente um processo de geração e manutenção de ação, os seres vivos efetivamente buscam um fim: sua existência contínua[9]. Ser uma entidade viva é estar engajado no processo de ação contínua (quando uma entidade não está engajada em tal ação, ela não está funcionando como um organismo vivo). Com relação a esse fim (sua existência), várias coisas podem ser benéficas ou prejudiciais. Isso não implica que todos os seres humanos necessariamente buscam aquele fim ou consideram sua existência como um objetivo consciente. O indivíduo é livre para rejeitar sua vida e sofrer as consequências. A questão, antes disso, é que os fins tornam os benefícios possíveis. Separado de sua relação com um fim, o conceito de “benefícios” não teria sentido.  

No entanto, os organismos vivos não são recipientes passivos e impotentes dos impactos de eventos externos. Suas ações afetam sua sobrevivência. Portanto, é importante entender que isso, mais especificamente, é o que dá origem ao fenômeno dos valores. É o que nos permite identificar certos elementos na ação dos organismos como objetivamente bons para eles.

Todos os organismos vivos precisam agir de forma a sustentar sua existência. Por conseguinte, algo construtivo para a existência de um organismo é bom para ele; algo que é destrutivo, ruim. Para uma planta, absorver raios solares ou água pode ser um valor; para um determinado animal, pode ser a aquisição de nozes ou pequenos frutos ou até mesmo um local seguro onde hibernar. Para um ser humano, alimento, dinheiro, conhecimento ou amizades seriam normalmente considerados valores. Obviamente, há particularidades de espécie para espécie[10]. Mas a base comum de todos esses valores, todavia, é o fato de que a existência dos organismos depende de sua ação com foco na manutenção de sua existência.

Não obstante as similaridades dos seres humanos com outros organismos, a forma distinta segundo a qual os seres humanos enfrentam a alternativa da existência ou da não existência gera uma necessidade única por moralidade. Dado que os seres humanos selecionam voluntariamente suas ações, devemos avaliar racionalmente nossas opções, identificando o provável impacto das coisas sobre nossas vidas de forma a buscar aquelas coisas que oferecem uma contribuição positiva e evitar aquelas coisas potencialmente prejudiciais. Somente as primeiras são valores objetivos. Um homem deveria procurar obter e manter certas coisas, em outras palavras – ela necessita da orientação de um código moral que identifique valores objetivos – somente se e porque ela busca sua existência. O que subscreve a autoridade da moralidade é a causalidade: se um indivíduo busca certo fim, ele deve respeitar as condições necessárias e estabelecer os meios requeridos por meio da realização dos valores adequados. Um código moral racional é proposto para ajudá-lo a fazer isso. Sem o desejo de viver, a exigência de algum tipo de moralidade dissolve-se; nenhuma “obrigação” moral é então garantida[11]. Isso explica a afirmação de Galt de que um “mandamento moral” é uma contradição em termos[12].

O que Rand identifica, então, é o fato de que, para os seres humanos, “o padrão de valor... – o padrão pelo qual um indivíduo julga o que é bom ou mau – é a vida humana, ou: aquilo que é requerido para a sobrevivência do homem como homem”[13]. E a própria vida do homem é o seu justo propósito. Rand destaca que a “vida” não se refere somente à subsistência física, mas ao ajuste geral e à condição saudável para um organismo que está destinado a prosperar no futuro. Dado que os seres humanos são seres mentais assim como seres materiais e as condições psicológicas e físicas de um homem afetam-se mutuamente, o padrão de vida classifica a condição da psique humana (suas crenças, valores, disposição emocional, métodos cognitivos e assim por diante)[14]. O que é importante para nossos propósitos é que esse padrão fornece a base para a identificação dos valores objetivos, isto é, a base de distinção entre aquelas coisas que são verdadeiramente do interesse de um indivíduo e aquelas coisas que são tratadas assim por indivíduos particulares, mas que não são de seu interesse. Embora sua dimensão possa variar consideravelmente, todos os valores objetivos oferecem algum tipo de contribuição positiva ao bem-estar do indivíduo[15]. (Doravante, minhas referências a “valores” serão restritas aos valores para os seres humanos, a menos que o contexto indique claramente o contrário).

Como a autoridade da moralidade é dependente do compromisso de um indivíduo com sua vida – seu desejo por existência contínua – é importante ter um entendimento correto do que isso significa. A “escolha pela vida” não consiste em uma preferência puramente intelectual por um estado clínico-médico manifestado em uma ocasião isolada. Em vez disso, é um comprometimento total e sincero traduzido em diversas ações que um indivíduo toma diariamente. Um homem escolhe viver ao conduzir seus dias com uma atitude pró-vida, ao buscar o melhor possível para sua vida, ao perseguir de forma ativa e contínua os objetivos que ajudarão a melhorá-la. O homem que verdadeiramente abraça sua vida trata seu florescimento como a razão maior para tudo o que faz[16]. Essa postura é clara nos heróis d’A Revolta de Atlas. E é notavelmente ausente entre os vilões.

Note que certos fins dos vilões, que normalmente funcionariam como valores na vida de um indivíduo, não o são para eles. O dinheiro de Jim é, por exemplo, estéril: nada gera de produtivo para a sua vida. Sua riqueza não resulta de suas próprias ações em prol de sua vida e não é usado por ele para alcançar seu bem-estar objetivo. Isso não significa que ele não desfrute do seu dinheiro; ao fingir que o dinheiro prova algo sobre seu mérito relativo em relação aos outros, Jim ocasionalmente obtém uma reafirmação passageira. Mas sua riqueza não representa a realização de valores objetivos e, verdadeiramente, não contribui para promover a sua vida.

Da mesma forma, o casamento de Lillian não representa um valor genuíno para ela. O desejo de exercer um sentido perverso de superioridade moral sobre Hank, e sua antecipação de prazer em pegar seu marido com sua amante, revelam que seus fins pessoais são qualquer coisa menos saudáveis. Seu casamento com Hank não reflete a celebração de seu valor objetivo para ela, nem do fato de que ela é um valor para ele; em vez disso, este casamento reflete o desejo fútil de Lilian em obter valor por meio da destruição da virtude de outro homem. Ela despreza o bracelete feito de metal Rearden (o qual é um valor para Dagny e Hank) e dorme com Jim somente como um testamento do desejo que ambos têm de obliterar valores.

Um caso diferente a ser considerado é a Taggart Transcontinental. Dagny trata a ferrovia como um valor durante grande parte do livro, até que ela finalmente se une à greve. Ainda assim, o fato de Dagny considerá-la como um empreendimento que servia à vida não a torna forçosamente isso. A atitude não determina os efeitos positivos e/ou negativos que as coisas representam para a existência humana. Embora a rodovia tivesse grande valor para muitos, no início da história, seu valor não é intrínseco. Sua habilidade de servir à vida de qualquer pessoa não pode resistir aos abusos impostos por seus saqueadores. Ao ser corrompida por demandas altruístas e restrições coercivas, o triste fato com o qual Dagny finalmente se depara é que sua amada ferrovia, e o seu trabalho na administração, não são mais fatores construtivos para sua vida[17].

Esses são somente alguns exemplos de como as personagens de RA abraçam ou não suas vidas. Quando se trata de propor um código de moralidade para guiar um indivíduo que realmente deseja viver, Rand identifica como princípio central a racionalidade, pois esse é o principal requerimento de nossa existência. Seres humanos devem deliberadamente utilizar seus poderes de raciocínio conceitual para gerar valores que satisfazem suas necessidades. “A mente do homem é sua ferramenta básica de sobrevivência”, Galt observa:

Para permanecer vivo, ele tem de agir, e, para que possa agir, tem de conhecer a natureza e o propósito de sua ação. Ele não pode se alimentar sem conhecer qual é seu alimento e como tem de agir para obtê-lo. Não pode cavar um buraco, nem construir um cíclotron, sem conhecer seu objetivo e os meios de atingi-lo. Para permanecer vivo, ele tem de pensar[18].

Como Rand elabora em outra parte,

Para um animal, a questão de sobrevivência é primariamente física; para o homem, primariamente epistemológica. A única recompensa do homem, todavia, é que enquanto os animais sobrevivem ao se ajustarem ao seu ambiente, o homem sobrevive ao ajustar seu ambiente às suas necessidades. Se ocorrer uma seca, os animais morrem – o homem constrói canais de irrigação; se ocorrer uma enchente, os animais perecem – o homem constrói represas; se uma matilha de lobos atacar, os animais morrem – o homem escreve a Constituição dos Estados Unidos. Mas ninguém obtém alimento, segurança ou liberdade – por instinto.[19]

Tudo isso deveria nos ajudar a entender o vínculo entre razão e moralidade expresso na declaração de Galt: “esta, a qualquer momento, em qualquer questão, é a sua escolha moral básica: pensar ou não pensar, existência ou não existência, A ou não A, entidade ou zero”[20]. Dado que os valores são baseados na escolha entre existência e não existência, toda a decisão que busca acrescentar ou subtrair da existência de um homem é uma questão de moralidade. Correspondentemente, a escolha entre o bem e o mal com a qual um homem se defronta em quaisquer de suas ações é, em sua raiz, a escolha entre vida e morte. As seguintes questões: “Eu deveria ser moral ou imoral?” ou “Eu deveria seguir um princípio racional ou trapacear?” resumem-se a: “Eu deveria agir para viver ou para morrer?

ENTENDENDO AS ALTERNATIVAS

Tendo esboçado de forma básica a definição de bem e mal para Rand, nós podemos agora considerar a forma pela qual as personagens centrais na RA vivenciam tais conceitos.

No início do livro, os grevistas entendem o que “escolher a vida”, como um ser humano, requer. Hank e Dagny, não. Suspensos em um tipo de limbo, Hank e Dagny não abraçam conscientemente os ideais dos saqueadores, ainda que suas ações sejam condescendentes com partes substanciais deles. A razão para tal é a falta de conhecimento de sua parte e, à medida que a narrativa se desenrola, nós testemunhamos o crescimento constante de seu entendimento. Quando Dagny se retira para a cabana na floresta, por exemplo, ela interpreta incorretamente seu conflito entre desistir da vida ao abandonar tudo, como muitos outros fizeram, ou continuar trabalhando, nos termos dos saqueadores[21]. Gradualmente, ela e Hank verificam que os grevistas não desistiram. Eles simplesmente “escolheram suas vidas”, em uma completa compreensão de quais são os termos da vida humana.

Essencialmente, o que Hank e Dagny eventualmente percebem é que o mundo é movido por duas premissas básicas – da vida e da morte – e que a escolha entre elas é mutuamente exclusiva. Seus oponentes não buscam a vida, eles aprendem, e consequentemente, nenhum valor pode ser obtido dessas pessoas. Concessões às exigências da morte não podem fazer progredir a vida. São essas constatações que convencem Hank e Dagny a retirar sua sanção a padrões irracionais como a única forma de conquistar sua própria felicidade. É pelo reconhecimento do caráter autodestrutivo de suas concessões aos saqueadores que eles finalmente renunciam àqueles fardos e se unem à greve.

A premissa da morte

O mal que os heróis de RA combatem não é uma força autônoma no universo; não é uma presença anônima e inevitável. Embora o conceito de mal tenha adquirido todos os tipos de conotações sombrias e amplamente místicas com o passar dos anos, na verdade, o “mal” refere-se àquelas ações, ideias, objetos, políticas e pessoas cuja natureza é essencialmente antagônica às condições do florescimento humano. Assim como o “bem” é o que promove a vida humana, o mal é o que trabalha contra ela[22]. A descoberta mais simples e decisiva feita por Hank e Dagny é que seus adversários não valorizam suas vidas. Eles se dedicam, em vez disso, ao que Galt chama de moralidade da morte[23]. Independentemente de reconhecerem tal fato em termos tão explícitos, a morte é o objetivo e o critério de seu programa.

Em boa parte da trama, Hank e Dagny concedem o benefício da dúvida aos seus adversários, mesmo quando eles impõem exigências cada vez mais onerosas, penalizam o sucesso dos produtores ou procuram impor culpa e sofrimento. “Certamente eles buscam a mesma coisa que nós”, Hank e Dagny assumem, “certamente eles querem viver.” “Eu posso suportar Jim (a rodovia, a família);” “Eu posso aturar a manutenção dos compromissos sociais vazios com Lillian”; “Eu posso tolerar suas irracionalidades”. Quando as políticas públicas dos saqueadores saem pela culatra e a consequente retração econômica se intensifica, Hank e Dagny esperam que, naturalmente, os outros reconhecerão os erros de seu curso de ação. Na verdade, porém, o que os heróis percebem é que não existe erro nenhum no curso de ação dos saqueadores. Tendo aceitado a premissa da morte, a destruição que sua filosofia impõe é o que eles realmente estão buscando[24].

Note que a suposição benevolente de Hank e Dagny – de que todas as pessoas estão “do mesmo lado” - é exatamente o que é contestado em diversos de seus encontros com os grevistas. Quando Francisco visita Rearden em sua siderúrgica, Francisco acusa Hank de ter colocado sua “virtude a serviço do mal”[25]. Desnecessário dizer, é Rearden dificilmente vê seu curso de ação desta forma. Francisco explica:

O senhor é culpado de um grande pecado, Sr. Rearden, muito mais culpado do que eles dizem, só que não do jeito que dizem. A pior culpa é aceitar uma culpa imerecida, e é isso o que vem fazendo a vida toda. O senhor vem pagando uma chantagem não pelos seus vícios, mas pelas suas virtudes. O senhor se dispõe a arcar com o fardo de um castigo imerecido e o deixa ficar cada vez mais pesado quanto mais pratica suas virtudes. Mas as suas virtudes são aquelas que mantêm os homens vivos. O seu código moral, o que o senhor vem seguindo, mas que jamais afirmou, nem reconheceu nem defendeu, é o que preserva a existência do homem. Se o senhor foi punido por tê-lo observado, qual a natureza daqueles que o puniram? O seu código era o da vida. Então qual é o deles?[26]

No Vale, depois de Dagny explicar sua razão para retornar ao mundo “real”, a resposta de Akston expõe um fato que ela ainda não tinha identificado. Ela se pronuncia:

“Se querem saber qual é a única razão que me obriga a voltar, eu lhes digo: não consigo abandonar à ruína toda a grandeza do mundo, tudo aquilo que era meu e de vocês, que foi feito por nós e ainda é nosso por direito – porque não consigo acreditar que os homens sejam capazes de se recusar a ver, de permanecer cegos e surdos para sempre, quando a verdade é nossa e suas vidas dependem de eles a aceitarem. Eles ainda amam a vida – e é isso o que ainda resta de suas mentes e que não foi corrompido. Enquanto os homens desejarem viver, não posso perder essa batalha”.

“E eles ainda desejam viver? – perguntou Akston em voz baixa. – Não, não me responda agora. Apenas leve esta pergunta consigo. É a última premissa que você ainda terá de verificar”[27].

Considere uma discussão anterior, na qual Dagny explica sua perseverança a Francisco:

Ela olhou para a cidade. “A vida de um homem capaz que poderia ter morrido naquela catástrofe, mas que vai escapar da próxima, que eu vou impedir que aconteça. Um homem de mente intransigente e ambição ilimitada, que ama a sua própria vida... tipo de homem que é como nós éramos no começo, você e eu. Você desistiu dele. Eu não”.

Francisco fechou os olhos por um instante, e o leve apertar de seus lábios era um sorriso, um sorriso que substituía um gemido de compreensão, ironia e dor. Perguntou, com voz suave: “Você acha que ainda pode servir a esse homem administrando a rede ferroviária?”

“Sim.”

“Está bem, Dagny. Não vou tentar detê-la. Enquanto você pensar assim, nada poderá detê-la. Ainda bem. Você vai parar no dia em que descobrir que seu trabalho está a serviço não da vida daquele homem, e sim de sua destruição.[28]

Um pouco depois, ela continua:

“Conseguir manter a Taggart Transcontinental em funcionamento é o único lucro que quero. Que me importa se eles me obrigarem a pagar resgates? Eles podem ficar com o que quiserem. A ferrovia é minha...”

Você acha isso? Acha que, como precisam de você, isso quer dizer que está protegida? Você acha que pode lhes dar o que eles querem? Não, você não vai parar enquanto não vir com seus próprios olhos e entender o que eles realmente querem. Sabe, Dagny, nos ensinaram que algumas coisas são de Deus e outras de César. Talvez o Deus deles permitisse isso. Mas o homem que você diz que estamos servindo não permite isso. Ele não permite que se sirva a dois senhores, não admite uma guerra entre a mente e o corpo, um fosso entre os valores e as ações, nenhum tributo pago a César. Ele não admite nenhum César[29].

De certa maneira, Francisco está negando qualquer conflito inerente entre as demandas da mente e do corpo de um indivíduo. Estes não são dois senhores em guerra contra os quais o homem está fadado a lutar incessantemente. (Hank, em particular, é atormentado por um conflito entre servir padrões racionais no campo material e padrões irracionais dos outros no campo espiritual. Isso é mais dolorosamente evidenciado em sua atitude na relação com Dagny[30]. Eventualmente, ele entende a dinâmica de sua relação). Mais fundamentalmente, todavia, Francisco está observando que o homem não reconhece nenhum soberano, a não ser a realidade. Se um homem deseja existir – se ele busca alcançar sua própria felicidade – então ele deve respeitar as demandas impostas pela natureza da realidade. Ele deve respeitar o fato de que A é A – em suas crenças, desejos e ações. Esse é o preço que sua vida exige. Como a realidade não é um mestre a tempo parcial, todavia, e como sua soberania não é dividida com outros mestres, as condições causais necessárias para a própria felicidade de um homem são o seu único Deus. A realidade não permite deferência a rivais. À medida que um homem paga tributo a outro soberano (alternativo), ele afronta os requerimentos de sua própria felicidade.

A alegação de que os personagens nefastos de RA agem com base na premissa da morte pode inicialmente parecer muito pessimista, eu acho, pois isto é difícil de aceitar, como Akston comenta a Dagny (citada acima). Para apreciar a verdade desse fato e seu significado para o enredo, precisamos compreender mais precisamente o que é a premissa da morte e como ela se manifesta nestes personagens.

Essencialmente, a aceitação da premissa da morte significa que uma pessoa não valoriza a sua vida. A alternativa entre A e não A, quando o A em questão é a vida, é a alternativa entre vida e morte. À medida que as ações de uma pessoa não são movidas pela ambição de avançar em sua vida, elas se tornam, assim, antivida.

Assim como abraçar a sua vida não é simplesmente uma atitude vivenciada em uma única ocasião, a premissa da morte não é necessariamente uma declaração consciente feita em um único momento. As pessoas que seguem a premissa da morte não precisam explicitamente decidir: “Eu odeio a vida. Eu me comprometo a retardar a vida sempre e quando possível”. Sua premissa vigente é manifestada, em vez disso, na forma como elas vivem seus dias. Mais especificamente, ela consiste em menosprezar (e frequentemente se opor ativamente) à busca de valores objetivos.

Indivíduos que seguem a premissa da vida são fundamentalmente pensadores e valorizadores. Eles reconhecem que a sobrevivência humana depende do exercício da razão. E eles aceitam a responsabilidade correlata de usar a racionalidade como meio para adquirir conhecimento, realizar fins e obter valores. Nós observamos isso durante toda a obra na orientação básica dos heróis. Todos são personagens admiráveis, de Dagny e Galt até Eddie Willers e Gwen Ives; repetidamente respondem os problemas com pensamento lógico e execução de ações práticas. Eles assumem o comando de suas mentes e de suas ações.

Aqueles que seguem a premissa da morte, pelo contrário, são, em seu nível menos destrutivo, passivos. Eles não exercem suas faculdades racionais. Ao invés de focarem e pensarem com o objetivo de alcançar quaisquer fins, eles distintivamente “chamam o sapo” (como Rand apelida Jim Taggart). Eles se esquivam e contam que os outros atenderão às suas necessidades e satisfarão os seus desejos. Jim, por exemplo, espera que Dagny faça com que a rodovia funcione e que Cherryl – ou alguém – demonstre um afeto que ele não merece (e dessa forma, mesmo desafiando a causalidade, ele espera obter méritos). A catástrofe do túnel é a combustão lógica das numerosas evasões cumulativas (dos indivíduos)[31].

James Taggart

Mais tarde na história, quando um mendigo fica entediado ao receber uma esmola de U$ 100 de Jim, Jim fica perturbado ao reconhecer indistintamente que a indiferença do mendigo aos valores espelha a sua própria. Independentemente de qual seja a posição social, o cargo ou a riqueza de Jim, aquele mendigo esfarrapado personifica o caráter básico de Jim. Contudo, nós também passamos a conhecer melhor a profunda e viciosa devoção de Jim à premissa da morte. Ele revela agressivamente o ódio contra os valores objetivos em si e contra as pessoas que os conquistam[32]. Desde a infância, Jim sente ciúmes, inveja e desprezo por Francisco e Dagny. Ele pega carona enquanto ridiculariza as conquistas deles como não verdadeiramente notáveis ou como somente produtos da sorte. Sua atitude com relação aos homens hábeis está claramente evidenciada na animosidade que direciona a Hank, em uma conversa com Lillian: “Eu queria vê-lo levar uma surra – disse Taggart. – Queria ouvi-lo gritar de dor, só uma vez.[33]

Depois de uma relação casual de sexo com Betty Pope (emblemática do vazio profundo de valores em suas vidas), sua triste manhã seguinte de letárgica, irritante e indignada acusação contra a vida em geral resplandece repentinamente quando ele foca sua atenção em “dar uma rasteira” na sua irmã na reunião de diretoria que ocorrerá posteriormente naquele dia[34]. Jim e Betty unem seus ressentimentos pelo sucesso de Dagny e se focam nos planos de Jim de “botá-la em seu devido lugar[35]”. Somente a perspectiva de uma queda de produção reacende alguma aparência de desejo no casal. “Talvez eu termine levando você hoje à noite ao restaurante armênio”, Jim fala à Betty, depois de contemplar sua armadilha à Dagny[36].

Em uma conversa reveladora com Cherryl, Jim confessa sua atitude com respeito a todos os empreendedores: “Tudo o que eles sejam capazes de fazer, eu posso desfazer. Eles que construam uma ferrovia: se eu quiser, eu a quebro, assim! – estalou os dedos –, como quem quebra uma espinha!”[37]. Quando Cherryl sussurra um significado para sua declaração, Jim recua, na maneira típica de um fujão:

“Você quer quebrar espinhas? – sussurrou ela, trêmula”.

“Eu não disse isso! – gritou ele. – O que há com você? Eu não disse isso!”[38]

A resposta de Jim presume que se ele recusar a admitir sua natureza, ela não será o que é. 

Lillian Rearden

Lillian ilustra outra variação da premissa da morte. Ela não parece tão diretamente comprometida quanto Jim com a destruição como tal, mas está mais disposta a derivar certo senso de superioridade sobre Hank, em particular. Ela age, Hank gradualmente compreende, como se acreditasse que ao atacar a força dele lhe será concedida algum valor. Ela procura destruí-lo precisamente por suas virtudes, “como o símbolo da força viva do homem”.

Note, por exemplo, que ao descobrir que Hank está tendo um caso, Lillian não reconhece o que isto significa na vida de Hank. Ela não lamenta o desgaste de seu casamento como outra pessoa o faria – como se para ela isto fosse um valor genuíno. Em vez disso, ela está alegre pelo que considera o “colapso” do “vangloriado sentimento de honra” de Hank, além de se mostrar animada pela perspectiva de ele ser condenado a viver como um “hipócrita”. Ao permanecer sua esposa, Lillian espera ser um lembrete impiedoso da “depravação” de Hank[39].

Em resposta ao comentário de Jim de que ele gostaria de ver Hank quebrado (notar acima), Lillian reflete: “Não sei construir as siderúrgicas dele, mas posso destruí-las. Não posso produzir o metal dele, mas posso tirá-lo dele. Não posso fazer os homens se ajoelharem de admiração à minha frente, mas posso fazê-los cair de joelhos”[40]. Quando Lillian e Jim transam (outro par bem-casado de companheiros de cama), o que motiva a ambos é o ódio contra o bem. A sua intenção é denegrir o caráter de Hank (iludindo a si próprios que têm o poder de fazê-lo). Da mesma forma, quando Lillian diz a Dagny que tinha sido ela quem havia revelado o caso de Hank aos burocratas que, então, o usaram para extorquir sua assinatura nos “certificados de doação”, Dagny detecta um quê de prazer na confissão de Lillian. Foi ela quem havia tirado o metal Rearden dele, Lillian se vangloria[41]. Perversa, se não pateticamente, ela implica que isso é algo do que se orgulhar. Lilian continua, na conversa com Dagny:

A senhorita não pode fazer nada. Não pode me impedir nem com todo esse dinheiro que é capaz de ganhar e eu não sou. Não há lucro que possa me oferecer; eu não tenho ganância. Não estou sendo paga pelos burocratas para fazer isso. Estou agindo sem pensar em lucro. Sem lucro. A senhorita me compreende?[42]

A maldade de sua atitude – sua atitude com respeito a todos os valores – é exatamente o que Dagny, Hank e o leitor passam a entender sobre Lillian. O que Lillian escolhe não entender é o que esse “orgulho” revela sobre ela mesma. Pois não buscar valores é não buscar a vida.

Robert Stadler

Rand reconhece que a maioria das pessoas não odeia conscientemente o bem[43]. Outras formas de mal podem ser tão virulentas quanto, todavia. Stadler, por exemplo, representa ainda outra variação diferente do mal. Stadler é o paradigma do pragmatismo. Como tal, ele é um assistente do mal que abre o caminho para as pessoas mais deliberadamente más serem efetivas[44].

Na superfície, Stadler parece defender um fim nobre: o progresso da ciência. Ele diz a si mesmo que deve fazer concessões aos oponentes da razão (burocratas do governo, demandas da sociedade) de forma a avançar tal fim. Sacrifícios são inevitáveis, segundo ele. Ainda assim, ao longo da história, nós vemos que seus compromissos pragmáticos não são motivados por julgamentos táticos inocentemente mal orientados. Nos bastidores, Stadler venera a arbitrariedade. Como ele alega a Galt,

Não sou um traidor, John! Não sou! Eu estava servindo à causa da inteligência! O que eu via à frente, o que eu queria, o que eu sentia não podia ser contado em miseráveis dólares! Eu queria um laboratório! Eu precisava de um laboratório! A mim pouco me importava de onde ele viesse ou como seria obtido! Eu poderia fazer tanta coisa! Podia subir tanto! Você não tem pena? … Eu queria![45]

A atitude de Stadler é: ele quer o que ele quer; obter o que ele quer é tudo o que interessa. Para torná-la realidade, ele desconsidera as repercussões de longo prazo dos meios que adota, e as precondições para que os resultados sejam objetivamente valiosos. Ele oferece diversas racionalizações para seus compromissos, tentando persuadir a si próprio que um indivíduo deve usar a fraude e a força, que “os homens não estão preparados para ouvir a verdade ou a voz da razão”[46], que ele “não tinha escolha” e “não há como viver se não se aceitam as condições deles, não há!”[47]. Stadler não é, em princípio, diferente de quem age por capricho, elevando seus desejos acima dos fatos da realidade. Seu crime é de certa forma pior que o de Jim, já que Stadler dispunha da razão para fazer um melhor julgamento. Através do programa pragmático que adota, seu prodigioso intelecto é direcionado não para a criação de conhecimento valioso, mas para o Instituto Científico Nacional e sua meta de desqualificar o metal Rearden e para o Projeto X, per se um exercício de aniquilação. Ao final, Stadler não pode mais fugir da essência destruidora de vida do seu pragmatismo quando, em sua extensa confissão (quase apologia) a Galt, ele se depara declarando: “Você é o homem que tem de ser destruído!”[48]. A alternativa “isto ou aquilo” entre o caminho da razão e da vida e o caminho da irracionalidade e da morte é inevitável.

Embora as ações de Lillian e Stadler certamente reflitam ódio pelo bem como tal, Jim é o mais completa e descaradamente comprometido com isso. Lillian, seja qual for sua forma pervertida, acredita que obtém algum valor ao permanecer em uma relação com alguém como Hank. Stadler convence-se de que o fim nobre da ciência justifica seus meios agressivos. Jim, todavia, busca a destruição como tal. Sua campanha contra os valores é total e muito mais irrestrita que a dos outros. Isso fica evidente na sua relação com Cherryl, a quem ele repetidamente coloca em situações humilhantes. Jim saboreia seu esquema para exterminar a ambição e sufocar os mais sinceros esforços dela para se tornar a melhor pessoa que ela pode ser. Quando ela finalmente desfruta de uma tarde prazerosa em um evento social, ele a admoesta por tê-lo envergonhado em público.

Em Jim, Cherryl confronta o “mal pelo mal” e a constatação arrepiante é que ele é: “um assassino… pelo prazer de matar”[49]. Seu caráter sanguinário fica ainda mais claro quando, durante a tortura de Galt, ele não fica satisfeito com nada menos que a morte de Galt. Considere sua conversa com Ferris:

– Não! – gritou Taggart.

– Jim, você não acha que já foi suficiente? Não esqueça, temos que ter cuidado.

– Não! Não foi o bastante! Ele ainda nem gritou!

– Jim! – berrou Mouch de repente, apavorado com algo que viu no rosto de Taggart. – Não podemos matá-lo! Você sabe!

– Não me importo! Quero derrotá-lo! Quero ouvi-lo gritar! Quero…

E então foi Taggart que gritou. Foi um grito prolongado, súbito e lancinante, como se tivesse visto algo subitamente, embora não estivesse olhando para nada e seus olhos parecessem cegos. O que ele estava vendo era algo dentro de si próprio. As paredes protetoras da emoção, do fingimento, de pensamentos incompletos e palavras falsas, construídas por ele ao longo de toda a sua vida, haviam desabado num único momento – o instante em que ele compreendeu que queria que Galt morresse, apesar de ter plena consciência de que ele próprio morreria em seguida[50].

A terrível verdade com a qual Jim se defronta é que ele tinha buscado a destruição pela destruição. Seu motivo “era a volúpia de destruir tudo o que era vivo, em benefício do que não era[51]”.

Essa é a premissa da morte.

Frente ao que o bem é e faz, o ódio ao bem é o ódio à vida. Os caminhos dos vilões de RA nos ajudam a entender a análise de Galt daqueles vivendo sob a premissa da morte:

Eles não querem possuir a sua fortuna: querem que vocês a percam. Não querem ter sucesso, e sim que vocês fracassem. Não querem viver, e sim que vocês morram. Não desejam nada, só odeiam a existência e vivem correndo, tentando não descobrir que o ódio que sentem é inspirado pelas próprias pessoas[52]

O culto à morte é de longe a coisa mais difícil que Hank e Dagny precisam entender sobre seu inimigo antes que possam libertar-se a si próprios das garras do mal. Após uma paulatina acumulação de dicas e insights, todavia, ambos finalmente reconhecem a dura verdade. Em uma conversa final com sua família, que está em pânico pelo fato de Hank ter cortado suas pensões e que busca novas táticas psicológicas para ganhar a renovação de seu apoio, ele percebe que o apelo desesperado de sua mãe, “nós queremos viver”, não é verdadeiro.

Ah, isso não – disse ele com uma expressão de espanto que terminou virando horror, à medida que foi entendendo o pleno significado daquilo. – Não querem, não. Se quisessem, teriam sabido dar valor a mim[53].

Ao terem meramente zombado e tratado com desdém tudo aquilo que os mantém vivos – o trabalho de Hank e suas conquistas – revela-se a imagem vexatória de suas vidas. Eles não sabem como tratar valores porque eles sequer sabem o que um valor realmente é. Por que eles nunca encontram ou descobrem o que um valor realmente é? Porque eles não valorizam suas vidas.

Dagny tem uma epifania solene similar quando, explicando a Jim e a Cuffy Meigs os inevitáveis resultados desastrosos que se seguiriam à rota proposta por eles para a rodovia, ocorre-lhe que ambos já sabem de tudo que ela poderia vir a dizer sobre sua futilidade. Isto simplesmente não importa para eles. Ela percebe que, de forma mais abrangente, aquela “indiferença inanimada era o estado permanente das pessoas ao seu redor”[54]. Outros encontros com saqueadores, sobre condições cada vez mais difíceis, provocam o espanto recorrente acerca dessa espécie estranha, “Aqueles que optavam por esse estado, pensou ela, queriam viver?[55]

A impotência do mal

Embora o reconhecimento de que seus inimigos abraçam a premissa da morte seja crítico para a recusa final de Hank e Dagny a qualquer tipo de cooperação que ainda pudesse ocorrer, um fato secundário, porém adjacente, com o qual devem lidar é a impotência do mal e, correlativamente, sua dependência intrínseca do bem. Dada a natureza essencial do mal – “o irracional, o cego, o antirreal” –, ele não contribui em nada para o progresso da vida humana. Aqueles que buscam viver não tem nada a ganhar com a evasão, irracionalidade ou qualquer uma de seus produtos. Como Galt observa, um homem não tem benefício algum em buscar os vícios humanos”[56].

As demandas que o mal impõe sobre o bem não são meramente neutras ou benignas, todavia. Elas são um tipo de veneno. Um homem só tem a perder ao cooperar com o mal. Os “resgates” que os heróis pagam para subornar seus adversários não geram nada, porque são pagos em troca de nenhum valor positivo. Mesmo o Ama de Leite eventualmente percebe isso, algo evidenciado em sua explicação do fato de ter defendido a siderúrgica de Rearden da apropriação governamental. Quando Rearden observa, surpreso, que o Ama de Leite se expôs, ele responde: 

Mas eu não tinha outra saída! … Eu não podia ajudá-los a destruir a siderúrgica, podia? … Quanto tempo eu ia aguentar ficar evitando me expor? Até eles pegarem o senhor? … E o que eu faria se me poupasse a esse preço?… O senhor… me entende, não é, Sr. Rearden?)[57]

O Ama de Leite finalmente entendeu, em outras palavras, que se o ato de viver requer que se corra um grande risco pelo bem de seus valores, esse é o preço que ele pagará. Pois, depois de um longo período de confusa ambivalência, ele decidiu que isso é o que ele quer: viver. E ele nada ganha ao tomar ações baseadas em um código antitético de morte (o contraste com Stadler é marcante).

Como o mal em si é incapaz de sustentar a vida, sua existência depende totalmente do apoio que recebe do bem. O poder do irracional resulta do poder que o racional concede-lhe. Ainda no início, quando se encontrou com o oficial descrito como o “guarda de trânsito”, Hank detecta que seus adversários necessitam de algo dele, embora ele ainda não esteja certo do que se trata[58].

Posteriormente, no jantar do Dia de Ação de Graças, Hank percebe que a culpa que Lilian busca lhe imputar depende de ele aceitar os seus padrões[59], e ele percebe o mesmo na discussão com o Dr. Ferris sobre a chantagem baseada em seu caso com Dagny[60]. Muito depois, quando Jim assegura sua confiança de que “ele fará algo” para manter a produção mesmo sob restrições sufocantes, Hank reconhece plenamente que ele tinha tornado possível a exploração dos saqueadores. Eles dependem completamente de nós, ele percebe; temos alimentado nosso próprios predadores. (Note que quando Hank começa a dar menos atenção aos desejos de sua família, recusando muitas das demandas que tinha atendido no passado, até mesmo eles têm problema em continuar negando sua abjeta dependência dele). Em outra cena com Philip, Hank reconhece que Philip está fazendo Valer sua fraqueza e ausência de valores como fonte principal de sua influência sobre ele[61] (esse é um exemplo do que Galt chama de culto ao zero).

Na verdade, Francisco explica sua dependência à Dagny, embora ela ainda não a compreenda totalmente. Francisco expõe:

“Produzimos a riqueza do mundo, mas deixamos que nossos inimigos elaborassem seu código moral.

– Mas nunca aceitamos o código deles. Vivemos segundo nossos próprios padrões.

– Sim… e pagamos resgates por isso! Resgates materiais e espirituais, sob a forma do dinheiro que nossos inimigos recebiam sem merecê-lo e da honra que nós é que merecíamos, mas não recebíamos. Foi esta a nossa culpa: o fato de estarmos dispostos a pagar. Nós mantivemos a humanidade viva e, no entanto, permitimos que os homens nos desprezassem e venerassem nossos destruidores. Permitimos que eles reverenciassem a incompetência e a brutalidade, os que recebiam o que não mereciam e davam o imerecido. Ao aceitar o castigo não por nossas faltas, mas por nossas virtudes, traímos nosso código e tornamos o deles possível...”[62]

Eventualmente, Dagny passa a ver a validade da acusação de Francisco de que, ao sustentar os saqueadores, ela age como uma destruidora. Dagny e Hank tinham ambos sido inconscientemente cúmplices de seu próprio estrangulamento e do assalto a tudo o que é bom. O que eles finalmente constatam é que, como Galt coloca: “o mal é impotente e só dispõe do poder que lhe permitimos arrancar de nós. Morram, porque aprendemos que um zero não pode hipotecar a vida.”[63]

A Necessidade de se Afastar

Crucial à aceitação de Hank e Dagny de que é necessário abandonar a sociedade dos saqueadores é seu reconhecimento eventual de que não existe refúgio à alternativa entre vida e morte; nenhuma solução “intermediária” pode ser sustentada. Tudo é ditado pela lei do terceiro excluído, incluindo suas próprias ações. Eles próprios, portanto, ou buscam sua felicidade ou são contra ela; ou eles apoiam suas vidas ou apoiam suas mortes. “Não existe suicídio temporário,” como observa Hank[64]. Dagny acredita por muito tempo que as concessões aos seus inimigos não prejudicarão seus próprios valores (fato evidente em sua disposição a pagar resgates desde que pudesse manter a rodovia). Contudo, dado o inextinguível e polar antagonismo entre vida e morte, qualquer concessão ao mal é nociva para o indivíduo.

Stadler é um retrato deprimente disso. Como um pragmático, Stadler tenta contornar a alternativa fundamental, segmentando-a. Ele denuncia Dagny e Galt como “idealistas utópicos” [65], implicando que o ideal e o prático vivem em domínios distintos. As pessoas são o problema, ele insiste, e sugerindo que as pessoas suplantam a realidade, Stadler finge que pode de alguma forma escapar do caráter inevitável da existência humana – e que ele pode sobreviver sem respeitar a lei do terceiro excluído, o que significa: sem respeitar a natureza básica da realidade, o fato que A é A. (A ironia dele ser a mente mais respeitada da ciência é marcante). Como resultado dessas evasões, nós vemos Stadler descer aos mais profundos níveis de destruição, culminando em seu pedido de execução de Galt. Ainda assim, naquela cena, nós também testemunhamos a autodestruição de Stadler. Ele começa a reunião com Galt suplicando por sua inocência (contra seu reconhecimento interno de culpa) e acaba em agonia:

Ah, você vai ser morto, sim! Não vai vencer! Não podem deixar que vença! Você é o homem que tem de ser destruído!

A interjeição que o Dr. Stadler soltou foi um grito sufocado, como se a imobilidade do vulto à janela tivesse servido como um refletor silencioso e, de repente, lhe fizesse ver o significado integral das próprias palavras.

– Não! – gemeu o Dr. Stadler, sacudindo a cabeça, para escapar daqueles olhos verdes imóveis. – Não!… Não!… Não!

A voz de Galt tinha a mesma austeridade inflexível de seu olhar:

– O senhor disse tudo o que eu queria lhe dizer.

O Dr. Stadler esmurrou a porta. Quando ela foi aberta, ele saiu correndo.

A sanção imposta pelo bem protege o mal e oculta a sua dependência intrínseca do bem. O sustento provido por essas sanções torna mais difícil para entender que a alternativa é entre uma coisa ou outra. Mas é o reconhecimento da alternativa mutuamente exclusiva e conjuntamente exaustiva entre o padrão de vida e o padrão de morte que permite que os heróis eventualmente vejam quem são seus aliados e seus inimigos, e o caminho atual necessário para sua felicidade. Quando pela primeira vez Francisco diz a Dagny que ela é o inimigo a quem ele deve derrotar, em vez de Jim ou Mouch, ela não acredita. Muito depois, no Vale de Galt, Galt similarmente observa que o plano dela é aquele do inimigo. É somente quando ela e Hank entendem a verdade disso – que eles têm ajudado os inimigos de Galt ao lutarem contra os desertores, e que eles têm lutado contra eles próprios – é que aceitam o imperativo da greve.

Como notamos anteriormente, enquanto Hank e Dagny tentam coexistir com os saqueadores, eles o fazem sob uma premissa enganosa: pois, à medida que os resgates são seu único meio de alcançar seus valores, é sua integridade na devoção àqueles valores que os leva a continuar sua luta. O reconhecimento eventual da premissa da morte de seus oponentes e a completa dependência do mal do seu apoio mostra-lhes a conveniência de retirar tal apoio. Contrária à suposição inicial de Dagny, abandonar o mundo dos saqueadores não significa “desistir”. É, em vez disso, um testemunho do seu amor pela sua vida – tal qual entendido no juramento obrigatório para a entrada no Vale de Galt:

Juro por minha vida… e por meu amor à vida… que jamais viverei por outro homem… nem pedirei a outro homem… que viva… por mim[66].

Isso reflete o conhecimento e aceitação das condições necessárias à vida. Um homem não pode viver sob a premissa da morte. É no final, quando Hank e Dagny reconhecem tal fato – a aliança de seus inimigos com a morte e a profunda impotência do mal - que eles se juntam àqueles que a haviam visto antes deles[67].

CONHECIMENTO DO “ISSO OU AQUILO” EM AÇÃO

O crescente entendimento de Hank e Dagny sobre a natureza de seus inimigos claramente guia suas ações. De fato, um leitor só pode entender satisfatoriamente o romance se compreender, como eles o fizeram, a oposição mortal entre o bem e o mal. Sem isso, certos aspectos da história podem parecer injustificados. Examinemos a seguir, então, como o entendimento correto da natureza do bem e do mal esclarece o que poderiam ser, de outra forma, aspectos problemáticos do romance.

Considere, primeiro, algumas das terminologias do livro. “Destruidores” pode inicialmente parecer um termo muito duro para caracterizar ou aqueles que estão convencendo produtores a abandonar suas atividades ou aqueles da mesma laia de Jim. Chamá-los de “destruidores” parece desproporcional se comparamos os desacordos reais entre esses campos opostos. Ainda assim, na verdade, o termo é precisamente pertinente, pois denomina a essência do que o mal e a irracionalidade fazem: ameaçam a vida. Destruição é destruição, independentemente do seu nível.

O termo “saqueadores”, da mesma forma, pode parecer um epíteto mal adaptado para os adversários dos heróis. Afinal, essas pessoas não estão invadindo lojas e fugindo com as mercadorias. Ainda assim, o termo é inteiramente pertinente, pois esse é o caráter essencial dessas pessoas. Dado que aqueles que são irracionais não criam valores e, logo, não têm nada a oferecer em suas interações com os outros, eles dependem completamente do que os outros produzem. Note que, na tentativa final e mais importante do Sr. Thompson persuadir Galt a cooperar, por exemplo, tudo o que ele pode oferecer é a ameaça de usar a força. Das qualidades e valores que a vida humana depende, todavia, Thompson nada pode prover, como Galt o informa[68].

Nós podemos ter um pouco mais de dificuldade em aceitar o fato de Galt chamar Dagny de sua “inimiga”, responsável pelas condições perigosas das quais ele é vítima no mundo. O que essa dura caracterização reflete, todavia, é o fato de que o mal, por si só, é impotente. Qualquer eficácia da qual desfrute é o resultado do poder que o bem lhe concede ao cooperar com seus padrões. As boas intenções de Dagny não são suficientes. A causalidade dita a ação apropriada, não os desejos, por mais inocentes que sejam. E uma pessoa que está verdadeiramente do lado dos grevistas não deixará as coisas mais fáceis para os que os ameaçam. Indivíduos que aprovam o mal em qualquer forma ou nível são facilitadores do mal, tornando-se, assim, eles mesmos inimigos do bem.

Quando deixamos de lado a linguagem e analisamos as ações dos personagens, a escolha principal que reflete o reconhecimento dos heróis da natureza “isso ou aquilo” de sua alternativa é a decisão de entrar em greve. Não há forma de minimizar o quão profunda é essa ação. Ao lançar a greve, Galt está abandonando seu motor e a felicidade de ver o completo usufruto de todo seu potencial transformador. Todos os grevistas estão deixando suas antigas vidas para trás. Eles estão abandonando seus valores específicos aos quais tinham sido veementemente devotos (sobretudo, seu trabalho). Para Francisco, a greve fere os sentimentos da mulher que lhe é tão cara. Ele deve permitir que Dagny o considere um playboy inútil, além de tornar a vida dela mais difícil através da contratação de outros produtores, continuamente drenando para longe dela o sustento material e espiritual. Desnecessário dizer, também lhe dói abandonar sua relação, vendo-a sofrer tanto.

Ao se recusar a continuar cooperando com aqueles que iriam destruí-los, os grevistas estão deixando para trás muitas pessoas decentes, tais como Eddie Willers e Gwen Ives[69]. Eles não são indiferentes a isso. A consideração dos heróis por outros homens racionais é palpável em diversos episódios. O tratamento compassivo de Hank para com o Ama de Leite, muito antes de ele ter demostrado qualquer coisa semelhante a pessoas com a estatura moral de Eddie e Gwen, já é um indicativo da preocupação genuína de Hank com qualquer pessoa que efetivamente valoriza a vida. Hank tinha detectado alguns traços promissores no Ama de Leite, uma avaliação posteriormente justificada pela sua performance heroica no evento da invasão da Usina. Da mesma forma, a generosidade de Dagny com Cherryl e a prostituta testemunha o seu respeito por aqueles que seguem a premissa da vida. Apesar dessa sincera benevolência, os grevistas reconhecem que eles não são responsáveis pelo bem-estar dos outros. A ideia de que eles deveriam arriscar suas vidas em prol das necessidades dos outros reflete o código de irracionalidade que estão rejeitando. Os grevistas são compelidos a desertar o mundo dos saqueadores, sabendo que algumas pessoas boas sofrerão muito como resultado, e porque nenhum compromisso entre a vida e a morte é sustentável. Se um homem escolhe viver, ele deve aceitar que suas opções são claras. “Vida – e um pouco de morte” não é uma prescrição viável.

            Uma vez que se entende a razão pela qual a greve faz sentido, fica mais fácil dissipar qualquer receio sobre algumas das outras ações dos heróis. O inevitável divórcio de Hank contra a vontade de Lillian, por exemplo, sem “nada de pensão ou partilha de bens”[70], reflete seu reconhecimento definitivo que, depois do tratamento dela para com ele no decorrer dos seus anos de casamento, ele não lhe devia mais nada. Qualquer obrigação que ele possa ter incorrido ao casar-se com ela foi há muito quitada. Ela não ofereceu nenhum valor genuíno a ele e tampouco o faz agora; na verdade, ela busca ativamente destruí-lo. Portanto, ele não tem nenhuma razão para continuar a sustentá-la. Considere ainda a recusa de Galt ao pedido de Francisco para que Dagny ficasse sua última semana no Vale com ele, em sua cabana. Consentir com tal pedido teria traído o sentimento de Galt por Dagny. A verdade é: ele a deseja. Ter feito tal sacrifício por Francisco teria falsificado o valor que ela tem para ele. Sacrifícios falsificam o valor que coisas diferentes têm, para uma pessoa, e falsificam a natureza intrínseca do valor. Qualquer sacrifício dos valores de um homem, o prejudica[71].

Duas das outras escolhas dos heróis parecem mais perturbadoras. Quando Dagny é “prisioneira” no Vale, perdida e supostamente morta para o mundo exterior, Galt não permite que ela notifique a Rearden que está bem[72]. Isso poderia parecer cruel, dado que o leitor sabe que Hank e Dagny são verdadeiramente pessoas boas. Todavia, uma vez que você entende a oposição estrita entre o bem e o mal, o raciocínio adjacente a essa política é muito claro. Qualquer pessoa que não seja um residente leal do Vale é um inimigo, seja por vontade ou por acidente. Isso inclui fura-greves e membros prospectivos, tais como Dagny e Hank. À medida que eles ainda estão cooperando com os destruidores, eles estão tornando a vida dos grevistas mais difícil. Consequentemente, os grevistas não devem lhes dar espaço. Reduzir o peso que carregam de algum jeito adicionaria carga extra às costas dos próprios grevistas, arriscando sua segurança.

Tenham em mente que não existe nada que os saqueadores não fariam para obter a cooperação de Galt. Isso está claro quando os vemos, cada vez mais desesperados, recorrer a armas e tortura[73]. Como os grevistas que ainda estão fora estão involuntariamente ajudando os destruidores (e os destruidores de tudo que abraçam a premissa da vida), qualquer conhecimento que essas pessoas possuem do Vale tornam-nas perigosas, à medida que podem divulgar sua existência (inadvertidamente ou sob coerção), comprometendo, assim, a segurança dos residentes. Em resumo, qualquer cooperação com o mundo dos saqueadores é uma ameaça a todos os grevistas. E por essa razão, os grevistas não podem permití-la. A “necessidade” de informação de Hank sobre o estado de Dagny não obriga os grevistas a oferecerem tal informação, particularmente dado que seu curso de ação continua a opor-se ao deles[74].

Finalmente, considerem o momento em que Dagny atira no guarda durante o resgate de Galt[75]. Ela necessariamente tem que matá-lo?

A incompatibilidade fundamental entre o código da vida e o código da morte torna a resposta clara. A escolha do guarda está entre obedecer às ordens de Ferris ou às de Dagny. Quando ele lamenta não saber o que fazer – como ele pode decidir? – ela responde de forma prática: “é a sua vida”. Isso, Rand mostrou, é o que está em jogo para cada um de nós, em todas as decisões. O guarda tenta fugir da alternativa - a necessidade de escolher entre os dois - buscando esconder-se em algum local neutro. Mas um homem não pode escapar de tal escolha. A única alternativa à vida é a destruição, como a morte do guarda deixa evidente.

Ao defender a prisão de Galt, o guarda está defendendo o coletivismo, o altruísmo, os princípios irracionais que estão consumindo-a viva. Dagny mira no coração do guarda porque ela escolhe a vida. Ao fazê-lo – e sabendo, agora, das condições não negociáveis da vida e da natureza do inimigo – ela não arriscará a missão, deixando ameaças à solta. É a sua vida ou a dele, ela percebe (e, é claro, a vida do guarda ou a de Galt). Em nome do seu amor por suas vidas, os heróis devem matar o que os está matando.

A preocupação de que qualquer uma das ações que acabei de analisar seja cruel ou indevidamente severa, deveríamos reconhecer, revela a crença persistente de que uma pessoa pode permanecer neutra frente a padrões incompatíveis, servindo sem custo aos fins mutuamente contraditórios da vida e da morte. Galt observa a decisão de Dagny de deixar o Vale: se lhe parece difícil, é porque você ainda acha que uma coisa não exclui a outra. Mas a senhorita vai se convencer de que não há outro jeito[76]. Isso é precisamente o que eventualmente aprendem todas as pessoas que aderiram à greve.

O homem não pode evitar a lei da identidade e a lei do terceiro excluído. A vida e a morte são “isso ou aquilo”. A busca pela vida deve ser, correspondentemente, intransigente. Lembre-se de que os heróis passam a perceber que seus oponentes apoiam a premissa da morte. Jim, Lillian e Stadler não são aliados mal orientados que estão em busca da mesma coisa. Se fossem, os heróis poderiam racionalmente pensar, “oh, eles vão se dar conta, eventualmente; eles verão que o nosso caminho é o melhor”. O triste fato é que os saqueadores não buscam o mesmo que os produtores. Da mesma maneira, tudo o que os saqueadores estão fazendo e que se pode esperar que façam no futuro é obstruir a vida dos produtores. A única coisa que resta fazer aos que amam a vida, consequentemente, é retirar o apoio que têm oferecido aos seus destruidores e renunciar ao peso que têm carregado em nome dos seus inimigos. A libertação dos heróis depende de sua total rejeição de todos os padrões irracionais. Seu completo comprometimento para com sua própria felicidade depende do reconhecimento de que qualquer coisa menos que isso é suicídio.

ABSOLUTISMO MORAL

A filosofia moral de Ayn Rand é absolutista. A autoridade dos princípios morais é inequívoca. Quando um princípio moral se aplica corretamente, ele não pode ser violado. Quando um princípio moral devidamente se aplica, ele não pode ser violado. Galt observa: “há dois lados em toda questão: um está certo e o outro, errado, mas o meio é sempre mal” [77]. O absolutismo não significa que todas as respostas morais são fáceis de alcançar, mas que existe uma prova definitiva sobre um tema que, conforme seu valor último, indica o caminho apropriado de ação. A complexidade de certos casos não é uma desculpa para fingir que a lógica mudou. A adesão do homem aos princípios morais racionais, correspondentemente, deve ser intransigente. “No domínio da moralidade, nada menos que a perfeição é aceitável”[78].

O termo “absolutismo” é utilizado às vezes de forma ligeiramente diferente para se referir a uma ampla extensão de um código moral que governa todos (ou quase todos) os tipos de escolhas que um homem encontra. Tal código é absoluto por ser extensivo, não permitindo “exceções” quanto às exigências morais. Embora o escopo da autoridade moral seja estritamente distinto do rigor ou da frouxidão relativa a qualquer um de seus princípios individuais (isto é, a questão de quando é ou não permissível violar um princípio moral particular é independente do número de casos que são governados pelos princípios morais), ambos sentidos de absolutismo são oriundos da mesma fonte, como veremos. No que se segue, usarei “absolutismo” no primeiro sentido, para me referir ao fato de que os princípios morais não permitem violações. Será aparente, todavia, que ambos os sentidos de absolutismo estão frequentemente envolvidos.

De maneira interessante, o absolutismo da filosofia moral de Rand é fonte de muita hostilidade em sua direção. Não é somente a substância de sua teoria moral – sua defesa heterodoxa do egoísmo – que muitas pessoas consideram sujeita a objeções, mas o caráter “extremo” e inadequado daquele código. O ceticismo para com o absolutismo é compreensível, dado que sua afirmação é sempre arbitrária (como um dogma religioso). Além disso, como a doutrina moral reinante do altruísmo requer violações (já que ninguém poderia sobreviver se obedecesse consistentemente a um código de autosacrifício), a maioria das pessoas subconscientemente conclui que qualquer demanda por aderência perfeita é intrinsecamente impraticável. Tal qual, isso alimenta uma falta de seriedade com respeito aos padrões morais[79]. Embora o absolutismo moral seja um tópico muito amplo para ser explorado aqui em detalhes, é útil ver que sua fundação está na alternativa mutuamente exclusiva entre o bem e o mal que temos analisado até o presente momento. Antes de concluir, em seguida, permitam-me indicar rapidamente suas bases.

Rand mostra que o mal é contra a vida. Seja qual for sua manifestação ou grau particular, seja qual for sua motivação ou conscientização de seu impacto por parte do agente em dada ocasião, isto que é mal trabalha para impedir a vida humana. Como o bem é o que faz avançar a vida humana, e como toda a escolha que um homem faz ou alimenta ou envenena sua vida, o “isto ou aquilo” na escolha entre o bem e o mal é tanto inescapável quanto de profunda consequência. Essa natureza “isto ou aquilo” das escolhas humanas prescreve, por conseguinte, o absolutismo em relação tanto ao escopo abrangente da moralidade quanto a sua sumidade, sua recusa em permitir compromisso. Um homem não pode servir à sua vida fingindo que o domínio da moralidade é mais circunscrito do que não é, assim como um homem não pode servir à sua vida fingindo que violações aos princípios racionais serão benéficas para si. Galt indica a razão básica quando diz:

Qualquer transigência entre a comida e o veneno só pode representar uma vitória para a morte. Qualquer transigência entre o bem e o mal só pode ser favorável ao mal. É como na transfusão de sangue que tira do bem para abastecer o mal: aquele que transige faz o papel de tubo de transfusão[80].

O avanço da vida, como visto ao longo da obra, não tem nada a ganhar daquilo que prejudica a vida.

Note que, por mais que a natureza destrutiva do mal seja sombria para uma pessoa, a pessoa pode compreensivelmente ser negligente quanto a ela. Se a moralidade é um jogo, então a bondade é um jogo e a natureza das escolhas individuais parece não ter nenhuma importância real. Uma pessoa deve claramente apreender a relevância dos princípios morais para enxergar o preço de desviar-se deles. Ao compreender o que está em jogo e a incompatibilidade fundamental entre o bem e o mal, Rand demonstra que comprometer um princípio moral válido é prejudicial para si. Tal premissa da ação é, na verdade: “eu não estou realmente comprometido com minha felicidade”, ou “eu quero viver – tipo, um pouco, mas não plenamente”. Como todas as escolhas do homem carregam consequências para sua existência, todavia, o homem que procura viver não pode se permitir vagar entre ações que fazem avançar e que fazem diminuir sua vida. Em vez disso, ele deve identificar cada opção específica que ele contempla como sendo essencialmente uma “ação de vida” ou “ação de morte”, vigilantemente restringindo a si mesmo da última. É a natureza mutuamente exclusiva e conjuntamente exaustiva da alternativa entre a vida e morte e, correspondentemente, entre o bem e o mal, em outras palavras, o que dita o absolutismo da moralidade.

Assim como a obra A Revolta de Atlas mostra que um homem não deveria apoiar a maldade dos outros, o ponto do absolutismo moral é que ele não deveria tolerar nenhum mal em si próprio. Tais concessões ao irracional são igualmente autodestrutivas. Dado que a alternativa fundamental de um homem é entre a vida e a morte, ele não pode fazer o bem a si próprio trapaceando nos princípios racionais fomentadores da vida. A existência não permite tributos a dois Césares.

No final, os “deveres” morais são inflexíveis porque a realidade é inflexível. Tudo é governado pela lei do terceiro excluído, incluindo os efeitos das ações humanas. Um código moral que se propõe a servir a vida humana deve respeitar as condições da vida. Assim como deve qualquer pessoa que busque sua vida.

CONCLUSÃO

No capítulo de abertura de A Revolta de Atlas, Eddie se recorda de uma conversa de infância na qual ele e Dagny afirmaram uma devoção ao que há de “melhor dentro de nós”, por mais que na época ele ainda não estivesse certo sobre o que exatamente isso significava. Não era sobre “negócios ou ganhar a vida” que ele pensava na época, mas consistia em:

“...algo como ganhar batalhas, salvar pessoas de incêndios ou escalar montanhas.” “Para quê?”, perguntou ela. E ele: “No último domingo, o pastor disse que devemos procurar alcançar o melhor de nós. O que você acha que há de melhor em nós?” “Não sei.” E ele concluiu: “Precisamos descobrir.” Ela não disse mais nada. Estava olhando para longe, para a estrada de ferro, que se perdia na distância”[81].

No capítulo final do livro, Eddie identifica essa qualidade de forma mais específica. O que é certo é: “trabalho, modo de ganhar a vida, aquilo que há num homem que torna isso possível – isso é o que há de melhor em nós, era isso que tinha de ser defendido…[82]

O melhor dentro de nós é aquilo que deseja viver – sincera e inequivocamente, e com total compreensão do que a vida humana exige. A Revolta de Atlas ilustra que esse amor pela vida humana incorpora tanto o conhecimento quanto o desejo. O amor à vida não é simplesmente um desejo ardente pela felicidade pessoal ou por sentir uma emoção ou estado de espírito. É um compromisso deliberado e informado. A qualidade dentro de nós que torna todos os valores possível depende do conhecimento dos requisitos causais da felicidade de um indivíduo assim como o compromisso com alcançar a sua felicidade, à luz daquele conhecimento. Amar sua vida – retirando todas as sanções do mal, recusando-se a pagar tributos a falsos deuses ou prestar-lhes juramento – requer um repúdio completo de qualquer coisa que prejudique a vida. Como simbolizado no ato onde Dagny atira no guarda, isto requer a negação de todas abrigo ás premissas e práticas venenosas.

A alternativa entre o bem e o mal - Rand demonstra em A Revolta de Atlas - é fundamentalmente a alternativa entre a vida e a morte de um indivíduo. Conseguir apreciar que não existe um território neutro, que uma pessoa não pode agir sem apoiar algum dos lados, e que as concessões aos padrões irracionais não produzem nenhum valor mas somente alguma forma ou nível de autodestruição, é o que permite aos heróis finalmente perceber que a greve era imperativa. É sua compreensão da natureza inevitável e mutuamente exclusiva da escolha entre vida e morte – e de como a escolha entre o racional e o irracional e entre o bem e o mal refletem isto – que os permite amar plenamente suas vidas em ação. Ela os libera para perseguir, sem apologia, a alegria de sua existência. Permite-lhes experimentar tal alegria[83].

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Revisado por Matheus Pacini.

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[1] Rand comenta a respeito do tema em: BOECKMANN, Tore. The Art of Fiction. New York: Plume, 2000, p. 17–18.

[2] Uma explicação mais ampla pode ser encontrada em: RAND, Ayn. A virtude do egoísmo: o princípio moral da ética objetivista. Porto Alegre: Sulina, 2013; PEIKOFF, Leonard. Objectivism: The Philosophy of Ayn Rand. New York: Dutton, 1991 e SMITH, Tara. Viable Values: A Study of Life as the Root and Reward of Morality. Lanham, Md.: Rowman & Littlefield, 2000.

[3] Em prol da fluência do texto, e tendo em vista que ele trata unicamente da obra A Revolta de Atlas, o tradutor decidiu daqui por diante resumir “A Revolta de Atlas” para “RA”.

[4] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. Vol. II, p. 339

[5] Idem. p. 340

[6] Por “razão”, Rand quer dizer “a faculdade que percebe, identifica e integra os dados fornecidos pelo sentido do homem. (Idem. p. 339)”.  Para mais sobre a natureza da razão, ver: PEIKOFF, Objectivism. p. 152-153;159-163; 220, e sobre a razão como virtude humana primária, p. 220-229. Ainda sobre essa última, veja também: SMITH, Tara. Ayn Rand’s Normative Ethics—The Virtuous Egoist. New York: Cambridge University Press, 2006, p. 48–74.

[7] RAND, Ayn. A virtude do egoísmo: o princípio moral da ética objetivista. Porto Alegre: Sulina, 2013. p. 16

[8] RAND, Ayn. A virtude do egoísmo: o princípio moral da ética objetivista. Porto Alegre: Sulina, 2013. p. 19

[9] No Oxford English Dictionary (1971) a “vida” é definida como “a série de ações e acontecimentos que constituem a vida de um indivíduo (especialmente a de um ser humano) do nascimento até a morte”. Ver também definições da edição online, a qual inclui: “A propriedade que constitui a diferença essencial entre um animal vivo ou uma planta, ou uma porção viva de tecido orgânico e a matéria morta ou inanimada; o conjunto das atividades funcionais pela qual se manifesta a presença desta propriedade...; a continuidade ou prolongamento da existência animada; oposto à morte”. Ver ainda ANGIER, Natalie Angier. The Canon— A Whirligig Tour of the Beautiful Basics of Science. New York: Houghton Mifflin, 2007. p. 172–73 e BINSWANGER. Harry. The Biological Basis of Teleological Concepts. Marina del Rey, Calif.: Ayn Rand Institute Press, 1990. p. 6–7, 63–64.

[10] Particularidades podem também variar de acordo com as espécies, e com as divisas determinadas pela natureza das espécies. Sobre esta discussão, ver:  SMITH. Viable Values. p. 99–101, 127–28, 183 e RAND. Normative Ethics. p. 27, 30.

[11] Para explicações mais detalhadas sobre isto, ver: RAND, Ayn. “Causality vs. Duty,” Philosophy: Who Needs It. New York: Bobbs-Merrill, 1982. p. 118-119; RAND. Objectivist Ethics. p. 17–18; PEIKOFF. Objectivism. p. 241–48; SMITH. Viable Values. p. 84–90, 93–95, 101–3; RAND. Normative Ethics. p. 21–23.

[12] RAND. A Revolta de Atlas. Vol III. p. 340

[13] RAND. Objectivist Ethics. p. 25-27

[14] Para muito mais detalhes sobre a relação íntima entre o florescimento humano e a existência, ver: RAND. Objectivist Ethics. p. 25–27, e SMITH. Viable Values. p. 125–51.

[15] Notar que este é o parâmetro familiar através do qual nós estabelecemos o bem-estar e distinguimos saúde de doença ou deficiência em todos os organismos. Além disso, no campo da ética, diversos filósofos procuraram explicar que o que é bom para os seres humanos está enraizado nas necessidades da natureza humana (algo concisamente expresso por Peter Geach em sua afirmação de que “homens precisam de virtudes como abelhas precisam do ferrão”). Ver: GEACH. Peter. The Virtues. Cambridge: Cambridge University Press, 1977. p. 17; FOOT, Philippa.  Natural Goodness. Oxford: Clarendon Press, 2001; HURSTHOUSE. Rosalind. On Virtue Ethics. New York: Oxford University Press, 1999; GAUT, Berys. “The Structure of Practical Reason,” em Garrett Cullity e Berys Gaut, eds., Ethics and Practical Reason. Oxford: Clarendon Press, 1997; WALLACE, James D. Virtues and Vices. Ithaca, N.Y.: Cornell University Press, 1978; ARISTOTLE, Nicomachean Ethics. Para mais sobre a diferença entre objetivo, subjetivo, e valor intrínseco, ver: SMITH, Tara. The Importance of the Subject in Objective Morality: Distinguishing Objective from Intrinsic Value, Social Philosophy and Policy 25, no. 1 (Winter 2008): p. 126–48; SMITH, Tara. ‘Social’ Objectivity and the Objectivity of Value in Science, Values, and Objectivity, Peter Machamer and Gereon Walters, eds., Science, Values, and Objectivity.  Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 2004). p. 143–71; WRIGHT, Darryl. Evaluative Concepts and Objective Values: Rand on Moral Objectivity,” Social Philosophy and Policy 25, no. 1 (Winter 2008): p. 149-81; e WRIGHT, Darry. Evaluative Concepts and Objective Value, artigo apresentado na Conference on Concepts and Objectivity, Universidade de Pittsburgh, Sept. 22–24, 2006.

[16] Tomo está formulação de Wright.

[17] Meu obrigado a Greg Salmieri pela conversa que me levou a apreciar esse ponto de forma mais atenta.

[18] RAND. A Revolta de Atlas. Vol III. p. 334

[19] RAND, Ayn. For the New Intellectual. New York: Random House, 1961. p. 10. Citação original: For an animal, the question of survival is primarily physical; for man, primarily epistemological. Man’s unique reward, however, is that while animals survive by adjusting them-selves to their background, man survives by adjusting his background to himself. If a drought strikes them, animals perish—man builds irrigation canals; if a flood strikes them, animals perish—man builds dams; if a carnivorous pack attacks them animals perish—man writes the Constitution of the United States. But one does not obtain food, safety or freedom—by instinct.

[20] RAND. A Revolta de Atlas. Vol III. p. 340

[21] Da mesma forma, em uma passagem anterior, ela diz a Danagger que não está pronta a render o mundo aos saqueadores.

[22] Ver: RAND. Objectivist Ethics. p. 25. Na medida em que o mal é um conceito moral, isto se refere ao que deliberadamente trabalha contra a vida humana. Isto é ação humana intencional e seus resultados podem ser maléficos, não acidentais ou processos naturais além do controle humano.

[23] RAND. A Revolta de Atlas. Vol III. p. 347; 350.

[24] Para uma discussão sobre a premissa de morte, ver: RAND. The Age of Envy.  Return of the Primitive: The Anti-Industrial Revolution, Peter Schwartz, ed. New York: Meridian, 1999. p. 130–58.

[25] RAND. A Revolta de Atlas. Vol II. p. 129

[26] RAND. A Revolta de Atlas. Vol II. p. 130

[27] RAND. A Revolta de Atlas. Vol III. p. 119

[28] RAND. A Revolta de Atlas. Vol II. p. 318

[29] RAND. A Revolta de Atlas. Vol II. p. 319

[30] Ver sua autodelação depois da primeira noite juntos.

[31] Para uma excelente discussão sobre a premissa da morte e a premissa da vida, ver: GHATE, Onkar. The Death Premise in We The Living and Atlas Shrugged, em Robert Mayhew, ed., Essays on Ayn Rand’s. RAND, Ayn. We The Living. Lanham, Md.: Lexington Books, 2004. p. 335–56.

[32] Ele exemplifica o ódio contra o bom por ser bom, que Rand identifica como o degrau mais baixo da maldade em The Age of Envy.

[33] RAND. A Revolta de Atlas. Vol III. p. 215

[34] Antes disso, James Taggart olhou para a sala de estar do seu apartamento imaginando que horas seriam. Não tinha vontade de procurar o relógio... Sentou-se numa poltrona, com seu pijama amarrotado, descalço; ia dar muito trabalho procurar os chinelos. A luz do céu cinzento na janela feriu seus olhos ainda pesados de sono. Sentiu, no interior do crânio, o vazio que prenunciava uma dor de cabeça. Perguntou-se por que diabo fora parar ali, na sala. Ah, sim – lembrou-se – para saber das horas. Detesto as manhãs. E Betty chateada, exclamou: “Aí está mais um dia e nada para fazer”. RAND. A Revolta de Atlas. Vol I. p. 78

[35] RAND. A Revolta de Atlas. Vol I. p. 80

[36] Ghate oferece um exemplo vívido na obra Death Premise, p. 344.

[37] RAND. A Revolta de Atlas. Vol III. p. 192

[38] Idem. p. 192

[39] O castigo que ela procura afligir é uma representação que denuncia seu próprio caráter.

[40] RAND. A Revolta de Atlas. Vol III. p. 215

[41] RAND. A Revolta de Atlas. Vol III. p. 163

[42] Idem. p. 163

[43] RAND. The Age of Envy. p. 149. Notar também seu comentário de que os “homens deliberadamente perversos são uma minoria” em Altruism as Appeasement, The Objectivist 5, January 1966. p. 6.

[44] Veja seu diálogo com Dagny. RAND. A Revolta de Atlas. Vol I. p. 197-204

[45] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 445

[46] A Revolta de Atlas. Vol I. p. 204

[47] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 445

[48] Idem. p. 446

[49] Idem. p. 220

[50] Idem. p. 469

[51] Idem. p. 472. Recomendo a leitura do relato completo que Jim faz sobre si mesmo.

[52] Idem. p. 371. O suicídio de Eric Starnes no dia do casamento da garota que ele deseja (um incidente ocorrido no quarto da garota, de maneira a que fosse descoberto na noite de sua lua-de-mel) é outra ilustração grotesca disto. Devo agradecer a Jason Rheins por ter me lembrado deste exemplo. Ver também: RAND, Ayn. The Age of Envy. p. 133–34.

[53] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 293

[54] Idem. p. 437

[55] Idem. p. 437

[56] Idem. p. 345

[57] 887

[58] A Revolta de Atlas. Vol II. p. 49

[59] Idem. p. 69

[60] Idem. p. 109

[61] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 369

[62] A Revolta de Atlas. Vol II. p. 301

[63] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 347

[64] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 306

[65] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 101

[66] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 40

[67] Peikoff oferece uma explicação esclarecedora de como a virtude da integridade, na visão de Rand, exige enxergar as alternativas com precisão, algo mais forte do que o que indica o vocábulo familiar “por força de vontade”, Objectivism, p. 261-62. Isto é claramente exposto em A Revolta de Atlas, como nós testemunhamos quando Hank e Dagny vieram a compreender a verdadeira natureza de seu inimigo e o papel do inconsciente em sua própria destruição. Ver SALMIERI, Gregory. Discovering Atlantis: Atlas Shrugged’s Demonstration of a New Moral Philosophy.

[68]A Revolta de Atlas. Vol III. p. 420-425. Hank oferece uma réplica similar a sugestão de Ferri de que Hank poderia estar melhor caso tivesse aproveitado a oportunidade de se juntar com Ferri em: “mas, se eu houvesse me juntado a vocês – disse Rearden com o mesmo tom impessoal, como se não estivesse falando sobre si próprio –, o que haveria para eu saquear em Orren Boyle?”. A Revolta de Atlas. Vol II. p. 240. Separadamente, enquanto as pessoas que não criam valor material certamente recebem, às vezes, voluntariamente dos outros, isto não é o que é predominantemente tratado em A Revolva de Atlas. Os adversários dos heróis são os saqueadores, a partir do momento que reivindicam aquilo não merecem e a que não têm o direito.

[69] No romance, o destino de Gwen Ives não é mencionado; portanto, como não sabemos se ela alcança o Vale, parece justo se referir a ela como alguém que fica na mesma situação de Eddie.

[70] A Revolta de Atlas. Vol II. p. 252

[71] O sacrifício é a rendição de um valor maior por um valor menor. Isto não deve ser confundido com um investimento, no qual a pessoa abdica de um valor pelo ganho de um valor maior ulteriormente. Ver: Rand, “The Ethics of Emergencies,” Virtue of Selfishness, p. 50–53; Peikoff, Objectivism, p. 232–36; Smith, Ayn Rand’s Normative Ethics, p. 38–40.

[72] Depois de explicar que os residentes do Vale não têm nenhuma permissão de comunicação com o mundo exterior, Galt pergunta se Dagny deseja requerer uma exceção especial. Não fica inteiramente claro se ele iria garantir esta concessão, todavia, ou se ela iria fazer tal requisição.

[73] Confiança na força é o resultado natural de um código de irracionalidade. Uma vez que abandonamos a razão, a força é única alternativa fundamental. Ver: RAND, Ayn. Faith and Force, Philosophy: Who Needs It. p. 70–92.

[74] Tenha em mente, também, a lógica envolvendo esta decisão desde a perspectiva da trama. Naquele estágio da história, Dagny encontrou um amor maior que o amor por Hank. Dito isto, colocar o bem-estar de Hank acima do de Galt poderia colocar em risco um valor maior, Galt, por um valor menor (embora um tremendo valor), Hank. E nós sabemos agora que Dagny maliciosamente não fez qualquer sacrifício. (A escolha de entrar em contato ou não com Hank não é, em última instância, sua, é claro, mas isto ajuda a explicar por que ela não resiste à política implementada e procura ser, ela, uma exceção.) Mais tarde, pelo contrário, quando Hank encontra Galt e envia a Dagny uma nota do Vale – “Eu o encontrei. Eu não lhe culpo” – o contexto significativamente diferente justifica esta ruptura da barreira contra a comunicação entre os dois reinos. Dagny é doravante consciente sobre o Vale e sobre a greve. Hank não está então revelando nenhuma nova e potencialmente ameaçadora informação sobre quando Dagny esteve no Vale, no entanto, Hank não teve sinal de sua existência.

[75] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 475

[76] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 59

[77] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 379

[78] Mantenha em mente que Rand distingue firmemente um erro inocente de uma falha moral, escrevendo que “erros de conhecimento não são rupturas da moralidade”, e que “nenhum código moral adequado pode exigir infalibilidade ou onisciência”. A virtude do egoísmo: o princípio moral da ética objetivista. p. 115. Também é importante apreciar que a aplicação adequada de princípios morais é contextual. Ver: Objectivism. p. 274–276 e Ayn Rand’s Normative Ethics. p. 36 e p. 94–105. Sobre a perfeição moral, ver: “Morality Without the Wink: A Defense of Moral Perfection,” Journal of Philosophical Research 29 (2004): p. 315–31, e a discussão sobre orgulho em: Ayn Rand’s Normative Ethics, cap. 9.

[79] Considerem a observação de Galt: “um código moral impossível de praticar, que exige a imperfeição e a morte, lhes ensinou a dissolver todas as ideias numa neblina, a não permitir definições firmes, a considerar todos os conceitos aproximações e todas as regras de conduta elásticas, a achar exceções a todos os princípios, a transigir em todos os valores, a ficar sempre no meio. Ao obrigá-los, por meio de extorsão, a aceitar absolutos sobrenaturais, esse código os forçou a rejeitar o absoluto da natureza”. A Revolta de Atlas. Vol III. p. 387

[80] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 387. Para uma discussão relatando a maneira pela qual o poder do que é bom depende de sua consistência, ver: Peikoff, Objectivism. p. 264–67

[81] A Revolta de Atlas. Vol I. p. 14

[82] A Revolta de Atlas. Vol III. p. 493

[83] Devo agradecer aos muitos comentários valorosos de participantes aos colóquios patrocinados em conjunto pelo Anthem Fellowship for the Study of Objectivism na Universidade do Texas, em Austin, e pelo Ayn Rand Institute, que ocorreu em Irvine-Califórnia em Janeiro de 2008: Tore Boeckmann, Yaron Brook, Onkar Ghate, Robert Mayhew, Jason Rheins, e Greg Salmieri, e para Debi Ghate, por ter organizado em conjunto este colóquio comigo. A palestra do curso de Gref Salmieri, denominado “Atlas Shrugged as a Work of Philosophy”, dada em Julho de 2007 na OCON, Telluride, foi algo bastante proveitoso para minha maneira de pensar sobre essas questões. Os comentários editoriais de Robert Mayhew acrescentaram bastante a este artigo.