Stephen Hicks

Professor de Filosofia na Rockford University.

Escreveu diversos livros e artigos sobre temas como Objetivismo, empreendedorismo, ética, pós-modernismo.

Há vários artigos traduzidos ao português disponíveis na página do autor.



Marcel Duchamp e Lillian Rearden


O urinol de Marcel Duchamp foi eleito a obra moderna mais influente de todos os tempos, segundo uma votação realizada com 500 críticos de arte. Duchamp o batizou de Fonte.

Sua exibição foi inicialmente rejeitada na exposição da Society of Independent Artists (Sociedade de Artistas Independentes) em 1917, fato que levou os defensores de Duchamp a argumentarem que Fonte tinha grande valor por quatro razões:

“Primeiro, Fonte representa o cotidiano da cultura urbana dos EUA. […] Segundo, ela é uma obra de arte pelo fato de um artista tê-la escolhido, levado a uma galeria e, assim, tendo-nos possibilitado vê-la com outros olhos. […] Terceiro, ela é apropriada para um país cujas maiores formas de arte não são pinturas e esculturas, músicas e literaturas, mas sim “encanamentos e pontes”. […] E, finalmente, — concordando com os amigos norte-americanos de Duchamp — Fonte é bela na pureza de suas superfícies, bem como em sua forma escultural, relembrando vários comentaristas de um tradicional Madonna ou Buda (chegou a ser chamada de “buda dos banheiros”).

A citação é do livro The Great American Thing: Modern Art and National Identity, 1915-1932 (Berkeley: University of California Press, 1999, p. 48-49), de Wanda M. Corn. O livro de Corn é um bom apanhado sobre história da arte com um toque de pós-modernismo.

(Minha interpretação sobre Fonte está ao fim deste artigo aqui)

A propósito, Jerry Saltz, experiente crítico de arte da New York Magazine, estabelece uma forte conexão artística entre Duchamp e a “teoria do sublime” de Immanuel Kant. Escrevendo para o Village Voice em 2006, Saltz disse: “Fonte nos remete a algo primitivo[1] que permanece primitivo, mas que existe em um estado metafísico e filosófico distinto. É a manifestação do sublime de Kant: uma obra de arte que transcende sua forma e ainda assim é compreensível, um objeto que destrói uma ideia e, ao mesmo tempo, permite que ela ressurja mais forte (ou seja, com mais força). Sua existência é magnífica.”

O que nos leva a duas questões históricas desafiadoras: qual é a conexão entre Kant e a arte moderna? e A arte moderna é complicada demais para nós?

Mas aqui faço uma referência indireta à personagem Lillian Rearden, devido à menção a “encanamentos e pontes” no livro de Corn. Quando Lilian aparece pela primeira vez no capítulo II de A Revolta de Atlas, as primeiras palavras que pronuncia quando seu marido Hank Rearden, magnata da metalurgia, chega em casa, são: “... mas é que um homem de cultura fica entediado com as supostas maravilhas de engenhosidade puramente material. [...] Ele simplesmente se recusa a achar graça na arte dos encanamentos.” É claro, Hank Rearden produz muitos dos encanamentos que Lilian menospreza, e é também o designer de uma ponte inovadora sobre um abismo no Colorado.

Então: encanamentos e pontes. Seria uma coincidência que — dos milhares de itens da tecnologia moderna que poderiam ter sido mencionados — Rand tenha escolhido justamente os mesmos escolhidos pelos defensores de Duchamp?

__________________________________________

Publicado originalmente no site do autor.

Traduzido por Gabriel Poersch.

Revisado por Matheus Pacini.

Curta a nossa página no Facebook.

Inscreva-se em nosso canal no YouTube.

__________________________________________

[1] O termo inglês “original” foi traduzido para “primitivo” pois se refere à condição ou estado básico de algo, e não como sendo algo “das cavernas”. O termo original aparece sob o mesmo contexto na obra Observations on the Feeling of the Beautiful and Sublime and Other Writings (Observações sobre o Sentimento do Belo e do Sublime), editado e publicado por Patrick Frierson e Paul Guyer em 2009.