Artur Ceolin



Especialização: o caminho do progresso


No momento em que escrevo este texto, indivíduos do mundo inteiro usam roupas fabricadas na China, computadores desenvolvidos nos EUA e montados no Oriente, consomem tabaco brasileiro e dirigem carros de tecnologia japonesa. O que isso nos mostra? Que a interdependência, no mundo contemporâneo, é algo irreversível: num mundo cada vez mais povoado e com maiores necessidades, a especialização e a divisão do trabalho se tornaram essenciais para que consigamos suprir todas as nossas demandas.

O capitalismo é baseado nas trocas voluntárias entre indivíduos, onde se busca a maximização de seu resultado econômico através do processo de produção e de trocas. Todos objetivam o seu melhor retorno a fim de satisfazer as suas necessidades, não importando qual a origem geográfica do bem que a satisfaça. No mercado, os indivíduos estão focados apenas no resultado dessas trocas: querem comprar mais com menos.

Justamente por isso que as trocas comerciais se mostram tão importantes. Quando em  sociedade, indivíduos se especializam em determinados segmentos de produção e obtêm, a partir da especialização, benefícios como as economias de escala, que geram resultados/produção superiores do que se cada indivíduo fosse produzir a quantidade necessária de cada um dos produtos que demanda. A sociedade ganha, afinal, afinal, a produção será mais eficiente e melhor adaptada às demandas dos indivíduos”.

Já imaginou se todos tivessem que produzir os alimentos, as roupas, as bebidas, os veículos, etc. que necessitam, em busca de autossuficiência? A produtividade na transformação desses bens não seria muito menor? Não é muito mais fácil para todos que cada um se especialize num determinado item (ou em algum insumo dentro de uma cadeia particular) a fim de que, no final das contas, todos tenham acesso mais barato aos produtos demandados?

Se um produtor agrícola é especializado na produção de leite, faz sentido para ele utilizar parte das suas terras na produção de arroz? Não é mais fácil que ele se especialize ao máximo na produção de leite, trocando posteriormente seu leite pelos outros produtos de que necessita pelo uso do dinheiro, que possibilita um maior volume de transações em um mesmo período de tempo? Então, por que quando falamos de "economias nacionais” esses preceitos tão lógicos não são respeitados? É no mínimo curioso como preceitos econômicos aplicados aos indivíduos são desrespeitados e distorcidos quando o assunto são as economias nacionais.

Parece óbvio, mas não o é: não são poucos os defensores do intervencionismo econômico e da proteção de alguns mercados. No Brasil é bastante comum ouvir que o governo deve proteger determinados setores, afinal, caso não o faça estaremos a mercê dos imperialistas! Nada mais estapafúrdio, justamente porque a troca envolve duas partes: os brasileiros não podem ficar sem celulares, assim como as indústrias asiáticas/americanas destes não podem ficar sem vendê-los, caso queiram remunerar o capital dos investidores. Seria possível que os brasileiros não exportassem a soja aqui produzida em nome de uma política econômica nacionalista?  Como ficaria o pagamento de todos os passivos originados no financiamento da produção? Como as famílias produtoras gerariam renda para o seu sustento?

O protecionismo econômico é um mal que aflige principalmente os mais pobres: os mais ricos podem viajar para Miami comprar Ralph Lauren ou iPhones, enquanto aos mais humildes sobram os produtos mal acabados e de baixa qualidade. Assim, os grandes ganhadores das intervenções econômicas são apenas dois grupos: a) os empresários das classes privilegiadas, que obtêm subsídios e barreiras tarifárias e b) os políticos, que tem seu poder aumentado com esse tipo de política e recebem (na maioria dos casos) propinas a fim de salvar alguns setores. Em sua obra Intervencionismo, uma análise econômica, Mises (2010, p. 39) já bem assinalou que

Na realidade, o que se pode afirmar com certeza é que quase toda medida restritiva traz vantagens para um limitado grupo de pessoas, enquanto afeta negativamente todas as outras ou, pelo menos, a grande maioria. A intervenção, portanto, pode ser considerada como um privilégio concedido a alguns grupos em detrimento dos demais.[1]

Uma das causas da baixa produtividade econômica brasileira é justamente o protecionismo: nossos recursos humanos e financeiros estão alocados em indústrias que, em condições normais, são pouco competitivas em relação ao exterior, minimizando os nossos fatores de troca e assim, a satisfação das nossas necessidades. Enquanto o Chile tem ZERO fábricas automobílisticas e um número muito menor de veículos em franca deterioração, os brasileiros estão na mão de um oligopólio de montadoras financiado e incentivado pelo Estado!        

Mises (2010, p. 80) também nos lembra que, no caso de subsídios,

[…] os cidadãos pagam duas vezes - uma vez como contribuintes, que são os que indiretatamente pagam os subsídios e, depois uma vez mais como consumidores, ao ter que pagar preços maiores pelos bens que desejam comprar ou por ter que reduzir seu consumo.[2]

Enquanto o Estado brasileiro atacar o bolso dos indivíduos com medidas protecionistas porque uma fábrica se localiza dentro ou fora de uma determinada fronteira artificial criada através de acordos, os indivíduos serão penalizados e farão muito menos do que podem com os recursos disponíveis. Acabar com o protecionismo econômico não é uma medida só de resultados econômicos, mas principalmente de ética: se eu escolho comprar um carro chinês ou um eletrônico coreano, quem é um burocrata engravato para tentar me impedir? O dinheiro é meu, ora!

É crucial lembrarmos sempre que cabe ao indivíduo fazer as escolhas que julga necessárias, e que é a organização mercadológica dos próprios indivíduos que gera os melhores resultados em relação à aceitação ou ao boicote de um produto, muito superiores que punições ou ameaças estatais. Nesse caso, quando os indivíduos acreditarem que o preço do produto importa menos que a sua origem geográfica, eles mesmo farão a opção por produtos nacionais. O Estado não tem nada a ver com isso!

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Revisado por Matheus Pacini e Bill Pedroso.

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[1] MISES, Ludwig von. Intervencionismo, uma Análise Econômica. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.

[2] MISES, Ludwig von. Intervencionismo, uma Análise Econômica. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.