Annette Nayeon Kim



'É um pecado escrever isto' - qual o significado da frase de abertura do romance 'Cântico' de Ayn Rand?


“É um pecado escrever isto”. Assim começa Cântico. Qual é o significado dessa frase de abertura para a história e o significado do romance? Qual é a visão de moralidade presente na obra? Qual é a avaliação final de Igualdade 7-2521 sobre seu pecado e por quê? Explique.

De forma similar a outros romances distópicos (como 1984, de George Orwell), Cântico ilustra a realidade sombria de uma sociedade coletivista tomada por terror e opressão. No entanto, a visão de Rand está em total oposição à maioria dos retratos de distopias que destacam tecnologia e proeza científica. Em 1984, por exemplo, a tecnologia é sofisticada e usada para impor o controle mental sobre as massas. Essa ordem é oposta à encontrada em Cântico, onde a proibição do livre pensamento gera uma sociedade medieval e tecnologicamente atrasada. Na obra de Rand, pensamento e ações independentes definem as condições para o desenvolvimento científico e tecnológico, revelando a natureza da ciência.

No entanto, os Conselhos fracassam em subjugar a mente e a individualidade de Igualdade, deixando-o livre para mergulhar na exploração científica. No Lar dos Estudantes, apesar das tentativas do estado de roubar sua individualidade (através, por exemplo, da Transgressão de Preferência), Igualdade exibe um forte senso de identidade ao desenvolver um interesse pela ciência das coisas. Sua noção de valores pessoais faz com que ele siga seus interesses ao tentar “fazer muitas perguntas proibidas pelos professores”.  Incapaz de controla-lo, e ameaçado pelo intelecto aguçado de Igualdade, o Conselho de Vocações relega-o à função de varredor de rua para interromper seu desenvolvimento e enfraquecer sua vontade de aprender. No entanto, a mente de Igualdade se recusa a permanecer adormecida. Ele continua a fazer perguntas para a natureza, “para as estrelas, para as árvores e para a Terra durante a noite”, perguntas que se esforça para responder quando, então, descobre um túnel escondido dos tempos não mencionáveis, onde ele pode estudar como bem entender. Ao se tornar livre para continuar seus estudos, Igualdade evolui rapidamente da ignorância para a lucidez. “Nesses dois anos, aprendemos mais do que em dez anos no Lar dos Estudantes”. Esses anos de esforço intelectual geram frutos quando Igualdade redescobre a lâmpada, fato esse um divisor de águas tecnológico em uma sociedade onde a tecnologia é limitada a velas e janelas de vidro. É em virtude de sua indomável liberdade de pensamento que Igualdade é capaz de manter sua curiosidade incondicional e progredir em sua jornada pelo conhecimento.

A condenação social do pensamento independente não é o único fator que acorrenta a mente e inibe o progresso científico -  a vontade individual também. Apesar do poderoso controle mental dos Conselhos, os cidadãos nunca são forçados à submissão. Eles não são barrados, chantageados ou drogados. Eles tampouco ficam de mãos atadas devido à aplicação da lei. Não há sequer guardas patrulhando as ruas, já que “os homens nunca desafiavam os Conselhos a ponto de ser necessário fugir de qualquer lugar que fossem ordenados a estar”. Além disso, os indivíduos ainda podem (embora tenham dificuldade) pensar de modo independente já que é impossível suprimir por completo os pensamentos particulares de alguém. Mesmo assim, o medo da rejeição social os impede de usar suas mentes em pesquisas e inovação: “O medo caminha pela Cidade, medo sem nome e sem forma”. Por serem covardes, tornam-se seres passivos que aceitam cegamente o dogma difundido pelo Conselhos em troca de segurança e estabilidade, permitindo o surgimento de uma sociedade estagnada intelectual e tecnologicamente.

A vontade inesgotável de aprender presente em Igualdade facilita o progresso científico, embora ele corra o risco de ser executado. Quando Igualdade descobre o túnel proibido, ele declara: “esse lugar pertence a nós, Igualdade 7-2521, e a nenhum outro homem na Terra”. A proclamação de propriedade feita por Igualdade é inimaginável em uma sociedade que censura o individualismo. A partir desse ato desafiador, Igualdade conquista um laboratório secreto onde não há grilhões limitando seu intelecto e criatividade. Igualdade continua a contrariar o coletivo roubando suprimentos e ficando “no túnel [estudando] por três horas, todas as noites”. Embora Igualdade reconheça os riscos de suas ações, o medo e a hesitação somem enquanto ele está no túnel, e as “três horas proporcionam força para as horas que passamos acima do solo”. Sua convicção irá capacitá-lo para persistir em sua pesquisa e realizar uma descoberta tecnológica.

A impotência do governo coletivista em agir condena o estado à estagnação tecnológica. Para que novas tecnologias sejam autorizadas, todos os Conselhos devem aprová-la simultaneamente.  Como raramente ocorre um acordo unânime, os Conselhos ficam estagnados. Até mesmo invenções simples como a da vela “(podem levar) cinquenta anos para obter a aprovação de todos os Conselhos”. A lâmpada de Igualdade, apesar do seu potencial, acaba sendo rejeitada pelo Conselho dos Eruditos. Além do mais, uma sociedade que se sente ameaçada pelo pensamento livre e discórdia naturalmente se intimida com a perspectiva de mudança. Uma invenção tão nova e significativa quanto a lâmpada de Igualdade pode provocar debate e até discordância. Assim, quando Igualdade apresenta sua inovação, o que tomou conta dos “homens do conselho foi o terror”. A necessidade de consenso absoluto e a antipatia em relação à mudança tornam o progresso impossível.

Para que uma sociedade evolua em conhecimento científico e tecnológico, os indivíduos devem ser livres para perguntar, refletir e se envolver ativamente na experimentação e na inovação. A sociedade deve também aceitar de imediato a mudança que inevitavelmente surge via avanços tecnológicos. O que podemos então concluir sobre a natureza da ciência? A ciência é o produto de uma criatividade irrestrita e da busca incessante pelo conhecimento, e jamais pode ser reprimida. Os acontecimentos em Cântico deixam claro que não importa o quanto a sociedade tente reter o livre pensamento, pensadores independentes e determinados como Igualdade sempre se levantarão contra a opressão e lutarão pelo avanço científico.

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Publicado originalmente em Anthem Essay Contest.

Traduzido por Gabriel Persch.

Traduzido por Matheus Pacini.

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