Roberta Contin



Afinal, o que é felicidade? Algumas reflexões.


Desconheço quem não deseje ser feliz. A busca pela felicidade é uma constante na vida das pessoas. No entanto, ela sempre parece estar “na parada seguinte”, “na próxima estação”, “no final do arco-íris”. É uma busca incessante e, muitas vezes, frustrante.

As pessoas almejam ser felizes. É uma obstinação legítima, genuína e plenamente realizável. O problema é que elas tendem a achar que merecem ser felizes, como se o simples fato de existirem garantisse a realização desse desejo, como se não precisasse haver esforço, como se o universo tivesse o dever de “conspirar” a favor da felicidade de todos, como se a felicidade fosse uma espécie de direito.

Algumas situações (ex. ir muito a festas e, com isso, comprometer seu rendimento no trabalho) e alguns bens (ex. comprar o carro dos seus sonhos à custa de quebrar seu orçamento e prejudicar o sustento de sua família) trazem alegrias momentâneas, talvez até uma sensação de sucesso: mas isso não é felicidade. Outros, porém, são difíceis, trabalhosos (ex. trabalhar duro para garantir o ensino dos filhos ou a compra da casa própria), e, ainda assim, geram felicidade.

Como se define, então, essa coisa que todos buscam, mas poucos encontram?

Para Rand, “a felicidade é o estado de consciência que resulta da conquista dos valores almejados por um indivíduo.[1] (...) Valores são princípios ou fins que uma pessoa obra para obter e/ou manter”.[2]

Partirei desse conceito para tecer alguns comentários.

Ponto 1:

Só é feliz o homem que emprega sua razão para tomar as incontáveis decisões a que é submetido, tanto na escolha de valores, como na busca de objetivos. Esse tipo de homem, moral e racional, consegue não se deixar sabotar por desejos hedonistas (por caprichos, portanto) que podem ser prazerosos num primeiro momento, mas, logo em seguida, fonte de desencanto e sofrimento – (1) como o uso de drogas por um viciado, para citar um exemplo extremo; ou (2) como Roark e Keating, personagens de A nascente, cujo enredo, na Parte I do livro, parece indicar que Keating é o mais próximo da felicidade; ao final da obra, todavia, fica claro que as virtudes e as escolhas de Roark é que o conduziram a uma vida plena, vitoriosa e feliz, e não Keating e suas evasões.[3]

Já que a felicidade consiste na conquista de valores, aquele que tem convicção de que seus objetivos são corretos, não conflituosos e reais, realiza os valores que o tornam feliz.

Nesse sentido, a felicidade é um procedimento consciente, racional, que requer valores reconhecidos e uma mente atuante. A racionalidade na escolha dos valores não garante o sucesso de forma automática, mas é uma condição necessária para a felicidade.

Conquistar valores é, em suma, o que nos torna felizes. Não adianta alcançar vários propósitos momentâneos e não atentar para os valores mais decisivos da vida.

Ponto 2:

O homem que desenvolve valores filosóficos cruciais – a razão, a finalidade e a autoestima -, que são pré-condição dos valores existenciais, sabe reconhecer a felicidade inclusive em momentos de tristeza, pois, confiante em seus valores, escolhas e ações, é consciente de que tal realização é possível; e, mais do que isso, está apto a conceber a felicidade como a condição normal do homem.

Isso não significa que uma criatura consciente não sinta dor, tenha angústias, frustrações ou ressentimentos. O que ocorre é que ela aceita a ideia de um “universo benevolente”[4]: reconhece a dor, lhe dá o devido tamanho e a considera um estímulo à correção, mas não se afunda em um estado de miséria espiritual.

Ponto 3:

Os valores podem ser materiais ou espirituais. Os valores espirituais são aqueles que dizem respeito à consciência do indivíduo e incluem temas como beleza, conhecimento, emprego, amizades, relacionamentos românticos, autoestima, honra etc.

Felicidade é o estado de contentamento que emerge da realização de valores. Quanto mais difícil a realização de um dado valor, maior tende a ser o prazer[5] correspondente. Comprar a casa própria ou conquistar um diploma tende a satisfazer mais do que comprar um bem consumível ou terminar a leitura de um livro.

Ponto 4:

Diferentemente do que prega o senso comum[6], a conquista de valores espirituais é facilitada pelo dinheiro. A propagação da ideia de que dinheiro não traz felicidade é tão séria e irresponsável que boicota a capacidade de as pessoas serem felizes, gerando sentimentos de amargor, raiva, clemência.

Obviamente, a relação entre dinheiro e felicidade não é direta. Constatamos isso facilmente pela simples observação: nem todos os ricos são felizes; nem todos os pobres são infelizes[7].

O dinheiro per se não fornece as virtudes necessárias para que cada indivíduo construa sua trajetória, por seu próprio esforço, com base em valores: é preciso ter objetivos delimitados, utilizando-se da razão para perseguir seus valores.

Não há como negar: existem necessidades básicas para a vida que somente são contempladas pelo dinheiro (Madre Teresa e São Francisco de Assis também necessitavam de alimentos, remédios, banho e lugar de descanso – alguém pagava por esses bens!). Qualquer manifestação em outro sentido é hipócrita: bens materiais são essenciais para a felicidade.

Mas essa ideia vai além dos valores materiais (sejam eles simples ou extravagantes – já que cada um requer uma determinada quantidade de coisas para viver) e abrange valores que dizem respeito à consciência. Se tempo é dinheiro, o inverso também é verdadeiro: dinheiro é tempo.

Com dinheiro, o indivíduo ganha mais autonomia, pode utilizar seu tempo para dedicar-se não somente às atividades básicas que garantam seu sustento, mas também a quaisquer outras que sejam de seu interesse, mesmo que, na configuração de seus dias, o indivíduo permaneça fazendo mais do que sempre fez (já que o próprio trabalho produtivo pode ser amplamente recompensador; basta, para tanto, observar o número de pessoas que persiste em suas atividades habituais mesmo possuindo riqueza capaz de atender às necessidades de gerações).

O princípio é o mesmo: mais dinheiro garante mais tempo ao indivíduo para que ele se dedique ao que lhe traga bem-estar, aumenta suas possibilidades frente a infortúnios, facilita a realização de muitos valores espirituais, e tudo isso conduz, substancialmente, a mais felicidade. Ou seja, o dinheiro dá sustento à felicidade por auxiliar na efetivação de valores cruciais que a integram. Reconhecer-se como competente e talentoso para realizar esses valores, uma espécie de sentimento de eficácia, também é felicidade.

Assim, para alcançar a felicidade, é fundamental usar a razão e reconhecer a realidade, de modo a enfrentar e resistir aos caprichos, e ser consciente da responsabilidade de escolher racionalmente os valores cuja efetivação nos levará a tão desejada felicidade.

Caso você ainda não tenha concretizado seus valores, você deve rever suas ações e decisões; talvez elas não estejam adequadas aos seus objetivos, e quiçá seus objetivos sejam meros caprichos ou fantasias.

Agora, se você tem sido racional, tem eleito seus valores e os tem conquistado, tem atingido sucesso tanto em relação aos bens materiais como em relação aos bens espirituais, a felicidade, que é a finalidade mais importante na vida, provavelmente é o estado normal da sua vida. Reconheça a sua felicidade!

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Revisão de Matheus Pacini.

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[1] RAND, Ayn. The Virtue of Selfishness. New York: Signet, p. 31  (tradução livre).

[2] RAND, Ayn. The Virtue of Selfishness. New York: Signet, p. 16 (tradução livre).

[3] Lockitch, Keith, The Fountainhead, ARI Campus. https://courses.aynrand.org/campus-courses/the-fountainhead/

[4] “Universo benevolvente” não no sentido de que o universo deve ajudar o homem; porque o universo não tem desejos, ele simplesmente é. A ideia de “universo benevolente” é de que o universo é “auspicioso à vida humana”. In: Peikoff, Leonard. Objetivismo: A Filosofia de Ayn Rand (OPAR). Porto Alegre: Ateneu Objetivista, 2000,, p. 319.