Stephen Hicks

Professor de Filosofia na Rockford University.

Escreveu diversos livros e artigos sobre temas como Objetivismo, empreendedorismo, ética, pós-modernismo.

Há vários artigos traduzidos ao português disponíveis na página do autor.



A ética do bote salva-vidas: como a ideia de escassez nos coloca uns contra os outros


Um cenário muito tratado por eticistas, especialistas em políticas públicas e consultores em geral, pede que você se imagine em um bote salva-vidas.

Esse cenário apresenta suposições poderosas com implicações de vida ou morte, portanto, é interessante estudá-lo para compreendermos melhor do que se trata. Vejamos.

Você estava sobrevoando o Oceano Pacífico, mas o mau tempo afetou os sistemas de comunicação da aeronave. Para evitar a tempestade, o piloto então saiu da rota de voo prevista. Após momentos de pânico, ele perdeu o controle e o avião caiu no oceano. Você e alguns outros sobreviveram, ficando à deriva dentro de um bote salva-vidas.

Você faz um balanço da situação: existem dez pessoas dentro de um bote originalmente de quatro lugares, com comida e água suficientes para dois dias. Ninguém sabe onde você está, você não sabe onde está, e todos os celulares foram perdidos ou destruídos na colisão.

O que você faz?

  1. Você pode avaliar a situação de forma impiedosa, apontando para a água e gritando Tubarão! Quando um dos seus companheiros olhar – você o joga no mar. Um a menos, restam cinco. É claro, os outros percebem o que está acontecendo e tentam fazer o mesmo uns com os outros. Quando a briga termina, os quatro mais fortes e rápidos venceram, enquanto os seis mais fracos e lentos tornaram-se comida de tubarão.
  2. Ou você pode dizer: ninguém se mexa – vamos conversar. Alguém então sugere que, em nome da igualdade, todo mundo deveria compartilhar a comida e a água. O resultado provável? Uma grande onda vira o bote com 10 pessoas e todo mundo morre. Ou, quando uma pessoa fica com muita fome ou sede, ela perde o controle e joga alguém ao mar. A briga começa. Os quatro mais fortes vencem e os outros seis morrem.
  3. Ou alguém sugere que, em nome da justiça, você tire a sorte para decidir quem viverá e quem morrerá. Resultado? A primeira pessoa poderosa (mais forte) a não ter sorte se recusa a aceitar o resultado. Na luta que se segue, os mais fortes vencem e os mais fracos perdem.
  4. Ou você pode sugerir: vamos ver quem tem mais a contribuir e as melhores chances de sobreviver. Acontece que, no bota salva-vidas, estão um homem de 88 anos com as duas pernas quebradas na colisão, um incapaz emotivo e uma mulher com 43kg sem reserva de gorduras – junto com um jovem saudável de 20 anos, uma mulher das Forças Especiais do Exército, um homem de meia-idade que está 10kg acima do peso, e muitos outros. Então, como grupo, você identifica os 4 mais fortes e, infelizmente, sacrifica os seis mais fracos.

Outras opções são possíveis. Mas note que todos elas parecem convergir para um resultado comum: o bote salva-vidas é uma situação de fortes vs fracos, onde os fortes sacrificarão os fracos.

O quão realista é esse cenário hipotético? A razão para usar botes salva-vidas é nos ajudar a refletir sobre as grandes questões de vida ou morte, provendo um modelo simplificado dos fatores que devem ser considerados.

Os fatores principais são econômicos: a oferta de espaço, comida e água é muito menor que a demanda. Isso quer dizer, os recursos escassos são a realidade dominante.

Se o cenário do bota salva-vidas é utilizado como um microcosmo pelo qual podemos extrair grandes conclusões, como muitos eticistas e outros especialistas desejam, então as premissas são que (i) vivemos em um mundo de recursos escassos e (ii) nossas decisões de políticas públicas deveriam ser baseadas na premissa (i).

Um programa de TV seguiu uma manada de renas em sua migração anual do sul para o norte do Alasca onde irão pastar durante o verão. Uma alcateia de lobos também seguiu as renas, abatendo as mais velhas, fracas e machucadas. O narrador do programa disse: “e isso é bom para as renas”, explicando que a oferta de pastagens no norte do Alasca não era suficiente para alimentar toda a manada.

Antropólogos nos dizem que, quando um inverno rigoroso se aproximava e a comida era escassa, muitas tribos nativas da América do Norte tinham uma política de esperar que seus anciões partissem para as montanhas, florestas ou desertos para deixar a natureza seguir seu curso. O raciocínio era que os mais velhos eram os mais fracos, e que os recursos alimentares vitais deveriam somente ir para os mais fortes.

Em um ensaio amplamente divulgado, o bioeticista Garrett Hardin estendeu a ética do bote salva-vidas à população humana em geral, argumentando que a escassez de recursos da Terra exige que nós, nações ricas e poderosas, parem de transferir recursos para nações pobres e fracas. Tal caridade, ele argumentou, mina as chances de sobrevivência dos fortes e significa unicamente que mais pobres sobreviverão e se reproduzirão, piorando o problema para as próximas gerações.

O contra-argumento a Hardin é a frase também amplamente conhecida de Mahatma Gandhi: “Temos que viver de forma simples para que outros possam simplesmente viver”. Quem tem mais está privando quem tem menos. Por isso os ricos devem renegar o seu estilo de vida para que os miseráveis possam viver.

E não deveríamos esquecer um cenário muito realista do bota salva-vidas – o naufrágio do Titatic em 1912. Eram poucos botes salva-vidas e muitas pessoas, então uma situação de escassez extrema era real. Naquele caso, o princípio operante era “Mulheres e crianças primeiro”. De acordo com a ética vitoriana e eduardiana, homens mais fortes tinham a nobre obrigação de proteger e, se necessário, sacrificar-se em prol de mulheres e crianças mais fracas.

Então, qual política é a mais moral: deveríamos sacrificar os fracos em prol dos fortes – ou os fortes em prol dos fracos?

Por exemplo, quando revisamos a política tributária, deveríamos favorecer os ricos ou os pobres? Se o orçamento governamental do sistema de saúde está estourado, deveríamos primeiro negar cirurgias que salvam vidas aos mais velhos? Ou deveríamos nós, habitantes das nações prósperas, sentir-nos culpados pelo nosso estilo de vida, enviando mais bilhões de dólares em ajuda externa às nações em dificuldades?

Note que todos esses argumentos assumem que vivemos em um mundo de soma-zero que coloca os fortes contra os fracos. Supõe-se então que devemos escolher: favorecer os fortes ou os fracos. E note, especialmente, que subjacente a todos esses argumentos é a suposição dos recursos escassos.

A afirmação de que recursos são escassos está por todos os lados – no debate político, no ambientalismo, em grande parte da ciência econômica e na teoria da decisão moral. Mas ela é verdadeira?

Na minha próxima coluna, argumentarei que é falsa. (Palavras disponíveis são agora escassas, já que meu editor cruelmente impôs limites ao seu número). Nós vivemos em um mundo repleto de recursos escassos, tanto reais como potenciais. E naqueles lugares onde as pessoas tristemente continuam a lutar contra a escassez geração após geração, o problema sempre é uma cultura disfuncional ou uma política disfuncional – ou uma combinação duplamente disfuncional das duas.

Pensamentos maus e acidentes ocasionais podem nos levar a conflitos de escassez, mas a escassez em si não é um fato fundamental ou inevitável da condição humana.

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Publicado originalmente em EveryJoe.

Revisado por Matheus Pacini.

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