“A nascente”, de Ayn Rand

A obra “A Nascente” foi escrita por Aynd Rand e publicada pela primeira vez em 1943. O livro narra a história de Howard Roark, um arquiteto que se destaca por sua “rebeldia” contra o sistema vigente da arquitetura americana, muito mais voltada para a cópia dos clássicos, a mera reprodução de obras já feitas. Roark é um arquiteto moderno, cujas obras não pagam tributo ao passado e focam na funcionalidade para seus clientes.

A história gira em torno de como Roark consegue sobreviver e trabalhar em um mundo dominado pelo pensamento coletivista, e como esse mundo coletivista se arma para trabalhar contra os ideais individuais dele. O personagem principal passa por enormes desafios, é combatido pela imprensa e pelos colegas de profissão, é rechaçado pela elite financeira, todos estes embebidos em uma visão coletivista e de massa.

A obra é uma exposição romântica da filosofia objetivista da autora. Por toda a obra percebemos as “pílulas” da sua filosofia objetivista, culminando ao fim do livro com um discurso de Roark (técnica de escrita bastante utilizada pela autora também em “A Revolta de Atlas”), sobre um dos julgamentos pelos quais ele é submetido, em que discursa firmemente a favor do individualismo: “O egoísta, no sentido absoluto do termo, não é o homem que sacrifica os outros. Ele é o homem que põe-se acima da necessidade de usar os outros de toda e qualquer forma. Ele não opera por meio dos outros. Não se preocupa com os outros em nenhuma questão essencial. Não em seus objetivos, não em suas motivações, não em sua racionalidade, não em seus desejos, não na fonte de suas energias. Ele não existe para nenhum outro homem. E não pede que nenhum outro homem exista por ele“.

Ao ler “A Nascente”, é impossível não fazer relação com o outro grande romance de Ayn Rand (“A Revolta de Atlas”). Guardadas as proporções, Roark se assemelha a Hank Rearden (empresário decidido, individualista, focado no trabalho, sem se importar com a opinião dos outros); Dominique se assemelha a Dagny (mulher forte, individualista, enfadada com a sociedade); Toohey assemelha-se ao Dr. Pritchett (intelectual que propaga as ideias absurdas do coletivismo).

Porém, “A Nascente” foi escrita antes de “A Revolta de Atlas”, o que me fez refletir sobre a intenção da autora ao escrever o segundo livro. A conclusão que chego é de que não são continuidades nem aprimoramentos, e sim duas abordagens sobre o mesmo tema: conflito entre individualismo e coletivismo. A grande diferença entre as duas obras é que “A Revolta de Atlas” aborda as consequências da dicotomia individualismo/coletivismo em uma visão macro/social – os efeitos da renúncia das mentes individuais em continuar trabalhando para os coletivistas. Já em “A Nascente”, a autora faz uma análise focada na psique de seus personagens – as consequências que a dicotomia exerce sobre o seu caráter.

Essa abordagem, individual, focada mais na psique das personagens e menos no que acontece com a sociedade em geral (não que isso não seja abordado, é, mas a meu ver em um segundo plano), fica nítida até mesmo na divisão do livro, que é feita em quatro grandes partes cujos objetos são justamente personagens: Peter Keating (parte I), Ellsworth Toohey (parte II), Gail Wynand (parte III) e Howard Roark (parte IV).

Em cada um desses capítulos, a autora foca nas características, contribuições e agruras dos personagens ao longo da história, dando um enfoque pessoal para o desenrolar da trama. O primeiro capítulo é dedicado a Peter Keating, também arquiteto, colega de faculdade do Roark, que passou boa parte da vida “rivalizando” com ele, sendo símbolo dessa sociedade coletivista, vivendo às custas dos outros, sendo um veículo para ideias que não eram dele. Em verdade, Peter sempre teve inveja da independência do Roark, mas nunca conseguiu ter a coragem de viver a própria vida.

O segundo capítulo é dedicado a Ellsworth Toohey, um pensador, articulista, espécie de filósofo, que publicava livros, jornais e fazia palestras em defesa do coletivismo e contra a individualidade. Ele é a representação da intelectualidade de esquerda, do propagandista, alguém capaz de movimentar as massas em prol do pensamento coletivista, ressalvando que essa é uma leitura contemporânea minha — Rand descreve o coletivismo como um fenômeno filosófico mais amplo, não restrito a divisões partidárias modernas, embora o paralelismo com certas correntes da esquerda atual seja evidente e útil para o leitor brasileiro. É uma espécie de intelectual que poderia muito bem ter sido abordado no livro “Tolos, Fraudes e Militantes”, de Roger Scruton, pois é uma mescla de conceitos e teorias da esquerda. Toohey se encarrega de, por meio da cultura, minar o individualismo e mediocrizar grandes feitos.

O terceiro capítulo é dedicado a Gail Wynand, um empreendedor bem-sucedido na parte financeira, com muito sucesso na imprensa, conduzindo os jornais Wynand. Ele fez fortuna escrevendo e fomentando “besteiras”, permitindo a cultura ser dominada pela esquerda e pelo coletivismo, ainda que, na estrutura moral da obra, Wynand represente sobretudo o homem que trai a própria alma ao buscar poder sobre as mentes — o coletivismo cultural moderno apenas ilumina esse mesmo mecanismo em nosso contexto. Eu comparo Wynand com muitos empresários brasileiros, que fecham os olhos para as ideologias que cercam a sociedade, achando que fazer um bom trabalho basta – sendo que as ideologias estão a menos de dois passos de impactar o seu negócio. Há casos ainda mais semelhantes e nocivos, tal qual o Wynand, como de empresários que nem se preocupam em que suas empresas estão colocando verbas publicitárias, e acabam fomentando uma agenda woke.

O quarto e último capítulo é dedicado ao personagem principal, Roark, que é a figura em que Aynd Rand centraliza as virtudes do egoísmo. É um homem determinado, com os valores do individualismo, ético, que não se quebra mesmo diante de um meio que faz de tudo para corrompê-lo, pois sua integridade nasce de uma independência que é antes de tudo mental — Roark não aceita nenhuma autoridade acima da própria razão e não permite que opiniões, tradições ou pressões sociais substituam seu julgamento. Também é por meio de Roark que chegamos à conclusão e à grande mensagem do livro, que é o conceito de “pessoa de segunda mão”, aquele indivíduo que renuncia às virtudes do egoísmo, assim resumida por Roark: “E não é essa a raiz dos atos desprezíveis? Não o egoísmo, mas exatamente a ausência de um ego. Olhe só para eles. O homem que trai e que mente, mas preserva uma fachada respeitável. Ele tem consciência de ser desonesto, mas os outros o consideram honestos, e é disso que deriva o respeito que tem por si mesmo, de segunda mão. (…) Um homem verdadeiramente egoísta não pode ser afetado pela aprovação das outras pessoas. Não tem necessidade dela. (…) Não têm interesse por fatos, idéias, trabalho. Tudo o que lhes interessa são as pessoas. Não perguntam: isso aqui é verdade? Em vez disso, perguntam: os outros acham que isso é verdade? Não julgar, e sim repetir. Não fazer, mas passar a impressão de fazer. Não a criação, mas a exibição. Não a capacidade, mas a amizade. Não o mérito, mas o poder da influência. O que aconteceria com o mundo na ausência daqueles que fazem, pensam trabalham, produzem? (…) A pessoa de segunda mão age, mas a fonte das suas ações está difusa em todas as outras pessoas vivas”.

Percebe-se, neste trecho, no qual a autora trabalha o conceito de pessoas de segunda mão, que esse fenômeno não é apenas moral, mas também epistemológico: o indivíduo que abdica do próprio julgamento passa a depender das percepções, valores e validações alheias para formar suas convicções, a origem de “A Revolta de Atlas”, a partir da seguinte reflexão do personagem principal: “O que aconteceria com o mundo na ausência daqueles que fazem, pensam, trabalham, produzem”.

Enfim, a obra é realmente admirável, possui um conteúdo filosófico profundo, traduz muito da filosofia objetivista e dos impactos que ela pode proporcionar a um indivíduo e aos que estão em torno dele. Certamente é uma leitura obrigatória para todos os que se interessam por essa filosofia.

 

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