George Reisman



Quais são as razões para os erros prevalentes sobre economia? Economia versus observações pessoais não científicas.


Existem diversas razões para os erros prevalentes sobre economia e capitalismo.

Primeiro, embora estejamos no início do século XXI, não é exagero dizer que, no campo da economia, o pensamento da maioria das pessoas continua a portar as características essenciais da mentalidade da Idade Média, ou de povos primitivos em geral. O meu ponto é que, antes da formação da visão científica do Renascimento, era comum que as pessoas interpretassem os fenômenos naturais como resultado da ação de espíritos benignos ou malignos. Logo, se uma enchente destruísse seus casebres ou alguma doença matasse seus animais, os povos primitivos politeístas pensavam que a explicação residia na ira de um “deus” do rio ou alguma outra divindade. Da mesma forma, os europeus pretensamente monoteístas da Idade Média acreditavam que a explicação estava na maldição de alguma bruxa ou espírito maligno. Ambos acreditavam que a proteção contra tal mal estava em assegurar o auxílio de um espírito benevolente mais poderoso, fosse uma divindade, um anjo ou, simplesmente, Deus: o essencial era que acreditassem que o prejuízo resultava do exercício do poder arbitrário de forças malignas, e que sua segurança dependia da obtenção da ajuda de um poder arbitrário maior e mais forte que agiria em seu nome.

Infelizmente, essa é a visão de mundo que as pessoas insistem em adotar no campo da economia. Dia após dia, entendem que sua dificuldade econômica é causada pela má vontade de um poder arbitrário – principalmente, “os grandes negócios”. E acreditam que sua proteção depende da boa vontade de um poder arbitrário maior e mais forte – a saber, o governo - que agirá em seu nome. Se, por exemplo, o nível salarial, a taxa de inflação ou a qualidade/quantidade de moradia, saúde, educação ou outra coisa não for da satisfação do povo, a responsabilidade é – elas creem – dos malvados capitalistas. A solução – acreditam - é que o governo, que é mais poderoso que os empresários, use seu grande poder em nome do cidadão comum.

Em contraste, a visão de mundo transmitida pela ciência econômica é tão distante daquela mentalidade primitiva quanto o é a visão do mundo físico transmitida pelas ciências da Física e da Química. A visão de mundo transmitida pela economia, como a da Física e da Química, opera de acordo com leis naturais que podem ser compreendidas pela inteligência humana. O domínio das leis naturais da economia se dá, obviamente, quando as ações racionais autointeressadas de indivíduos são tomadas sob liberdade e centradas na produção de riqueza em um ambiente de divisão do trabalho.

Essa visão científica dos fenômenos econômicos, já presente desde o final do século XVIII nos escritos dos Fisiocratas, bem como dos primeiros economistas clássicos ingleses, tem sido impedida de substituir a visão primitiva. Ela foi bloqueada pela operação conjunta de fatores explicados no restante dessa seção.

Economia versus observações pessoais não científicas

Todo mundo é participante da atividade econômica e, como tal, propõe e aceita opiniões sobre a vida econômica que parecem consistentes com suas observações. Ainda assim, essas opiniões estão frequentemente erradas por se basearem numa gama pequena de experiências, tornando-as inconsistentes com outros aspectos da experiência do mesmo tema. Exemplos desse fenômeno no mundo cotidiano da realidade física são crenças tão ingênuas como a que gravetos se curvam na água, que a Terra é plana, e que o Sol gira em torno da Terra. Em resposta a tal ingenuidade, um processo cientifico de pensamento busca desenvolver uma teoria sobre um tema baseada na consistência lógica com todas as observações válidas sobre ele. Assim, a aparência visual do graveto curvado na água é reconciliada com o fato de que continua a estar reto/firme quando sujeitado ao toque; a reconciliação se dá pelo conhecimento da refração da luz causada pela água. A aparência plana da Terra é reconciliada com observações dos mastros dos navios primeiro se tornando visíveis no horizonte pelo conhecimento da curvatura gradual da Terra. A aparência da revolução do Sol ao redor da Terra é reconciliada com o conhecimento da relação do Sol com outros corpos celestes via conhecimento da rotação da Terra ao redor do seu eixo.

A economia sofre de um conflito aparente entre observação pessoal e verdade científica talvez em maior grau do que qualquer outra ciência. Isso se dá devido à própria natureza do sistema de divisão do trabalho e troca monetária. Todo participante do sistema econômico é um especialista, ciente do efeito das coisas sobre sua área de atuação. Via de regra, ele não se dedica a considerar os efeitos dela sobre outras especializações; tampouco, ele considera qual será o efeito de longo prazo sobre ele caso trocasse de área. Como resultado, as pessoas passaram a acreditar que coisas como melhorias de produção que podem, com efeito, levar à redução ou desaparecimento total do emprego em qualquer ramo particular da divisão do trabalho, são potencialmente danosas. Pelo mesmo raciocínio, passaram a acreditar que atos de destruição que podem, de fato, resultar numa expansão do emprego em áreas particulares da divisão do trabalho, são economicamente benéficos.

Intimamente ligado ao fracasso de ver além de sua própria especialização está a confusão generalizada entre dinheiro e riqueza. Numa economia de divisão do trabalho, todo mundo está naturalmente interessado em ganhar dinheiro, e passa a medir seu bem-estar econômico pela quantidade de dinheiro que recebe. Logo, é extremamente fácil para as pessoas concluir que qualquer coisa que permite ao cidadão comum receber mais dinheiro é desejável, enquanto qualquer coisa que resulta no cidadão comum recebendo menos dinheiro é indesejável.

É necessária uma análise científica para mostrar que, embora cada indivíduo sempre esteja economicamente melhor recebendo mais dinheiro possível em um regime de liberdade de concorrência, as pessoas não ficam em melhor condição econômica se a renda média aumentar como resultado de políticas monetárias inflacionistas ou de violação da liberdade de concorrência. Com efeito, a economia mostra que ganhos monetários menores (sem o uso de impressão de moeda ou violações da liberdade de concorrência) representam um padrão de vida superior aos ganhos monetários recebidos através dessas medidas enganosas. Na mesma linha, existem casos importantes em que, mesmo na ausência da criação de moeda, uma “renda nacional” ou “PIB” menor implica em um aumento superior na produção de riqueza e melhoria do bem-estar humano do que uma “renda nacional” ou “PIB” maiores.

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Publicado originalmente em Capitalism: A Treatise in Economics.

Traduzido por Matheus Pacini.

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