Ben Bayer



Ensinando filosofia com A revolta de Atlas: Aristóteles e Francisco D´Anconia sobre fins últimos


Tendo ensinado filosofia desde 2002, essa é a primeira vez que me propus a ministrar um curso sobre Objetivismo, chamado Temas filosóficos em Ayn Rand. O texto principal do curso é A revolta de Atlas, mas também selecionei uma série de leituras adicionais dos filósofos clássicos cujas ideias podem ser comparadas ou contrastadas às de Rand. O propósito do curso é dar vida às ideias filosóficas através da leitura de um drama filosófico, além de inserir Rand no diálogo da tradição filosófica ocidental.

Não sou o primeiro a ministrar um curso assim: Allan Gotthelf, Tara Smith e Greg Salmieri já o fizeram no passado. Agradeço muito a Greg. Eu adaptei muitas leituras do seu programa de estudos. Você pode ver minha adaptação (que ainda está sob construção), e pode ser lido aqui.

Após algumas semanas, penso que tanto os estudantes como eu estão gostando da experiência. Decidi escrever alguns artigos sobre essa experiência, enfatizando os pontos de contato entre Rand e outros filósofos que instei os alunos a examinar. Nessa semana, falarei de uma das primeiras grandes comparações que pedi aos alunos, entre o Livro I, cap. 5 de A revolta de Atlas, e alguns excertos da Ética a Nicômaco de Aristóteles. (Atenção, spoilers).

No capítulo 5 de A revolta de Atlas, o leitor conhece um pouco do passado de dois protagonistas do romance: Dagny Taggart, vice-presidente de operações da ferrovia Taggart Transcontinental, e Francisco d´Anconia, presidente da Cobre D´Anconia. Descobrimos que Dagny e Francisco passavam seus verões juntos em sua infância, e que Dagny venerava Francisco por sua grande habilidade de cumprir qualquer tarefa a que ele se propunha. A sua mãe sugere, certa vez, que o lema de sua família deveria ser “para quê?”, porque Francisco faz essa pergunta sempre que alguém lhe propõe alguma atividade. E aprendemos que ele leva isso a sério: todo assunto que ele estuda na escola, bem como toda atividade “extracurricular” (por exemplo, emprego em uma fornalha de cobre em Cleveland aos 16 anos) é focado em um objetivo: merecer o direito de herdar e controlar o negócio da família. Essa determinação é ridicularizada por James Taggart em um diálogo memorável:

– O que é que você quer?

– Dinheiro.

– Você já não tem bastante?

– Todos os meus ancestrais elevaram a produção industrial da Cobre D’Anconia cerca de 10 por cento cada um. Eu pretendo multiplicar por 100.

Para quê? – perguntou Jim, imitando a voz de Francisco com sarcasmo.

– Quando eu morrer, espero entrar no céu – seja lá o que for o céu – e quero poder pagar o preço do ingresso.

– O preço do ingresso é a virtude – disse Jim, altivo.

− É isso mesmo que quero dizer, James. Quero estar preparado para afirmar possuir a maior virtude

de todas: dizer que fui um homem que ganhou dinheiro.[1]

Aqui digo aos alunos que esse diálogo é muito mais relevante do que parece. Primeiro, todavia, pergunto a eles: que outra pergunta você faria a Francisco? Eles entendem que é sensato refazer a mesma pergunta a Francisco: para que você quer ganhar dinheiro? E se ele desse uma razão, chamamo-la de X, poderíamos ainda perguntar: para que você quer X?

Nesse ponto, insiro o Livro I de Ética a Nicômaco. Aristóteles sugeriu famosamente que deve haver um fim último, pois, doutra forma, escolheríamos tudo em nome de outra coisa, gerando uma regressão infinita de “para quês”. Esse fim último seria algo que desejamos por seu próprio valor, não por causa de outra coisa. Aristóteles também sugere que o fim último pode ser alguma atividade, e não necessariamente um produto separado da atividade.

Então, pergunto aos alunos se existe algo dito por Aristóteles sobre a natureza do fim último que é de relevância ao diálogo de James e Francisco. Eles notam que o filósofo grego argumenta que uma vida de “fazer dinheiro” não poderia ser o fim último. Além de argumentar contra uma vida de prazer e de honra, Aristóteles argumenta que dinheiro é valioso apenas como meio para um fim, e não como um fim em si mesmo. Mas, então, pergunto: Francisco teria algo a dizer contra Aristóteles? Sim, existe, pois não citamos o diálogo por completo:

− É isso mesmo que quero dizer, James. Quero estar preparado para afirmar possuir a maior virtude de todas: dizer que fui um homem que ganhou dinheiro.

– Qualquer corrupto ganha dinheiro.

– James, algum dia você vai ter que descobrir que as palavras possuem significados exatos.[2]

Pergunto aos alunos o que Francisco quer dizer nessa última frase. Que tipo de “significado” ele deseja que entendamos? Eles sugerem que ele crê que o dinheiro seja consequência ou recompensa de algo. Eu complemento que “fazer dinheiro” não é necessariamente o mesmo que “obter dinheiro”, e lhes relembro de que o próprio Aristóteles afirmou que o fim último pode consistir em alguma atividade que é desejada por seu próprio valor. Que atividade Francisco poderia ter em mente? Alguns alunos sugerem fazer algo de valor, para que o dinheiro seria a recompensa. Posteriormente, quando Jim sai de cena, Francisco nos dá uma ideia de qual atividade ele tem em mente:

Ela o ouviu rir baixinho, e depois de algum tempo ele disse:

– Dagny, não há nada de importante na vida, exceto a sua competência no seu trabalho. Nada. Só isso. Tudo o mais que você for vem disso. É a única medida do valor humano. Todos os códigos de ética que vão tentar enfiar na sua cabeça não passam de dinheiro falso impresso por vigaristas para despojar as pessoas de suas virtudes. O código da competência é o único sistema moral baseado no padrão-ouro. Quando você crescer, vai entender o que estou dizendo.[3]

Aqui ele deixa claro que não está obtendo dinheiro (que poderia advir da corrupção, por exemplo), mas fazendo dinheiro através de trabalho produtivo que importa. Sua caracterização do código da competência como o “único sistema moral baseado no padrão-ouro" (outra alusão monetária) não é acidental. Poder-se-ia pensar que alguém cujo lema é “para quê?” sempre agiria em prol de algum objetivo futuro. Mas, no mesmo parágrafo onde aprendemos sobre tal lema, encontramos "vamos descobrir", "vamos fazer acontecer" e outros lemas que descrevem “suas únicas formas de diversão.” Para Francisco, existe um sentimento de tanto aprendizado como construção não são apenas meios para um fim, mas atividades desfrutadas por seu próprio valor.

Mas, então, pergunto aos alunos, em que isso se difere do que Aristóteles considera o fim último? Sua resposta, como destacam, é um compromisso de um ser racional com pura contemplação. Ele a considera o bem último bom por ser desejado apenas por seu próprio valor, e não em prol de outra coisa – distinguindo-o da engenharia tecnológica e do “fazer dinheiro” com que Francisco se preocupa. Então, qual é a diferença aqui? Por que Francisco, cujo estudo de Aristóteles na faculdade é informado no capítulo, discorda de Aristóteles? E por que Aristóteles tem pouca consideração pela atividade prática? Eu destaco que a atitude dele não é diferente daquela do velho professor de literatura que, nesse capitulo, repreende Francisco quando o vê desmanchando um carro no ferro-velho:

– Um jovem na sua posição devia passar o tempo nas bibliotecas, absorvendo a cultura do mundo.

– E o que o senhor pensa que estou fazendo? – perguntou Francisco.[4]

Por fim: se nos focássemos na pergunta “para quê?” de Francisco da forma incorreta, e supuséssemos que ele estava sempre mirando o futuro, é provável que não só negligenciaríamos a forma como ele vê o trabalho como um fim em si mesmo, mas também consideraríamos sua abordagem ridícula (só trabalho, sem diversão). Ele gosta de brincar com carros desmanchados, e perde uma partida de tênis com Dagny. Mas a vida não é só isso, certo? O capitulo é bem claro sobre o que mais existe. Estou falando, é claro, da cena de sexo entre Francisco e Dagny. Aqui é o excerto mais relevante, com algumas passagens destacadas em negrito:

Dagny não ficou surpresa e não encarou com desânimo a perspectiva de caminhar oito quilômetros. Parecia-lhe perfeitamente natural, perfeitamente de acordo com aquele momento de realidade e claridade intensas, momento desligado de tudo o que é imediato, isolado como uma ilha ensolarada cercada por uma muralha de neblina, igual à realidade acentuada e inquestionável que se vive quando se está bêbado.

A estrada passava pelo bosque. Afastaram-se dela e tomaram um velho atalho que serpenteava por entre as árvores. Não havia sinal de vida humana. Velhas marcas de pneus, já cobertas de mato, contribuíam para criar a ilusão de que a presença humana estava ainda mais distante, acrescentando à distância espacial o afastamento no tempo. A claridade velada do amanhecer ainda pairava sobre o chão, mas folhas de um verde brilhante que se amontoavam entre as árvores pareciam iluminar a mata. As folhas estavam imóveis. Dagny e Francisco caminhavam, os únicos seres dotados de movimento naquele mundo estático.[...]

Dagny permaneceu imóvel no chão – como objeto passivo, ainda que palpitante, de um ato que ele realizou com simplicidade, sem hesitação, como se aquilo fosse seu direito, o direito concedido pelo prazer inimaginável que o ato lhes proporcionava.[…] Ela relaxou, olhando para o céu, não sentindo nenhum desejo de se mexer nem de pensar que havia qualquer outro tempo que não fosse aquele momento. [...]

A última coisa em que pensou foi o tempo em que ela quisera exprimir, sem o conseguir, o conhecimento momentâneo de um sentimento maior do que a felicidade, o sentimento de abençoar toda a Terra, de estar apaixonada pelo fato de existir neste mundo. Pensou então que o ato que aprendera era a maneira de exprimir esse sentimento.[5]

Existe ainda mais dessa linguagem sobre o “mundo estático” no contexto mais amplo da cena, quando Dagny está à espera de Francisco na estação Rockdale. Nessa releitura, despertou a minha atenção o quanto essa cena retrata o ato sexual desligado de todos os pensamentos do futuro, como se o tempo tivesse parado. Isso chama a atenção para o status do amor ou sexo como um fim em si mesmo. E, é claro, levanta claramente a questão de se o prazer sexual do melhor tipo é animalesco da forma como Aristóteles afirmou, não sendo parte de uma vida boa.

Fiquei surpreso com a integração firme desse capitulo no retrato da ação proposital como meio para um fim último, e sua ênfase na natureza espiritual de dois grandes componentes de tal fim: trabalho e sexo. Mesmo o título do capitulo, percebi, não faz referência apenas ao fato de Francisco ter sido descrito como “o apogeu dos D´Anconia”, uma referência à sua habilidade suprema. Relembre a definição de “apogeu”: “o ponto mais importante, intenso e empolgante de algo; auge.”

A ênfase na ação proposital de Francisco em direção a seus objetivos aprofunda o suspense, não apenas por que Francisco discordaria de Aristóteles, mas também porque ele, de todas as pessoas, investiu no desastre das minas de São Sebastião: ele perdeu milhões, e foi revelado que nunca ouve evidências de que as minas eram viáveis em primeiro lugar. Ao final do capítulo, temos o seguinte diálogo:

– Francisco… – sussurrou ela – você fez isso de propósito?

Ele levantou a cabeça. Dagny ficou surpresa de constatar que em seu rosto havia uma expressão de profundo cansaço.

– Se fiz de propósito, por desleixo, ou por burrice… será que você não entende que não faz a menor diferença? O mesmo elemento estava faltando.[6]

Que elemento seria esse? Existe alguma relação com a visão de virtude de Francisco? Existe alguma conexão com Aristóteles? O leitor terá que descobrir! Que fantástico mistério filosófico.

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Publicado originalmente em Ayn Rand Society.

Traduzido por Matheus Pacini.

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[1] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. V I, p. 105.

[2] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. V I, p. 105.

[3] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. V I, p. 109.

[4] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. V I, p. 104.

[5] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. V I, p. 116-118.

[6] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. V I, p. 134.