O “eu” como ato de rebeldia

Você abriria mão do seu nome para que a sociedade funcionasse melhor? Da sua voz? Dos seus desejos e sonhos individuais? A maioria das pessoas responderia “não” sem pensar. Ayn Rand foi mais a fundo: navegou sobre uma realidade quando essas escolhas não são suas, quando o “eu” simplesmente deixa de existir como palavra, como conceito, como direito, em uma sociedade onde o coletivo imperava em todos os níveis, anulando completamente o indivíduo. 

Em “O Cântico”, a palavra “eu” é crime. As pessoas se referem a si mesmas como “nós”, pensam em “nós”, sonham em “nós”. E o mais perturbador não é a opressão em si, mas a naturalidade com que ela opera. No romance, ninguém se rebela porque ninguém consegue mais formular o pensamento de que há algo para se rebelar. A estrutura cognitiva da rebelião foi eliminada, o indivíduo enquanto sujeito consciente não existe. Ao converter o pensamento em um mecanismo estritamente coletivo, o sistema nega ao indivíduo o seu estatuto de unidade moral. Não há revolta porque não resta uma mente individual capaz de validar a realidade fora dos dogmas do grupo. 

Ao ler a obra, o sentimento é semelhante ao de assistir a uma daquelas séries distópicas, de ambiente fictício, onde os valores e normas parecem muito distantes daquilo a que estamos acostumados. Por isso é importante uma leitura crítica, se distanciar para entender de que de fato se trata de uma ficção, porém perto o suficiente para perceber que essa ficção está ainda muito presente em comportamentos políticos e econômicos, sociais e familiares, e modelos de poder. 

Na obra de Rand, o protagonista nasceu e viveu sob designações do Estado, que catequizava indivíduos perante crenças e visões coletivistas, impondo medo e punições a desobedientes. Em determinado momento, o personagem entra em contato com elementos de uma sociedade anterior, onde as pessoas eram livres para pensar e decidir por si mesmas. Esse é um momento chave. Há uma ruptura. Esse é o momento em que ele não apenas “se encontra”, mas recupera a capacidade de existir como consciência individual. O ‘eu’ não é uma descoberta emocional, mas uma restauração de que existe alguém que percebe e atribui sentido à realidade. Ele compreende que foi minimizado e desperta de um sono induzido, como saindo da Matrix. 

Ayn escreve esse movimento com intencionalidade clara, tendo vivido em tempos de Rússia soviética, em um contexto de repressão, coletivização forçada e eliminação das liberdades individuais. Portanto, sua obra carrega não apenas um pensamento teórico, mas uma reação concreta ao que presenciou. Sua crítica busca resgatar com toda intensidade possível o outro extremo: o “eu”, o indivíduo, o ego. 

Seu posicionamento é enfático, e muito racional dado seu contexto histórico e extremamente radical vivido. Rand acerta ao afirmar que é no indivíduo que reside o gatilho para a evolução. Que por de trás de qualquer ideologia ou identidade coletiva, há uma pessoa concreta, com nome, com desejos, com a capacidade de pensar diferente do grupo. E sistemas que tratam pessoas como meios para fins coletivos produzem nada mais do que uma profunda desumanização. Onde o sistema elimina a legitimidade do indivíduo como um fim em si mesmo.

Para um leitor acostumado com as redes de interdependência moldadas pelo Estado, a defesa intransigente de Rand pode parecer um extremo intolerante. No entanto, ela nos força a lembrar que toda construção conjunta da humanidade, desde a ciência, a tecnologia, o mercado, enfim, só foi possível porque mentes individuais, operando de forma livre e voluntária, puderam divergir e criar. 

Um sistema que elimina o indivíduo não apenas extingue liberdades, ele elimina variabilidade. E sem variabilidade, não há aprendizado, adaptação ou evolução. É o equivalente a um modelo fechado, incapaz de testar hipóteses ou corrigir erros. Ao impedir que indivíduos pensem e ajam de forma independente, o sistema abdica da única fonte possível de inovação: a divergência. Nesse sentido, o coletivismo radical não falha apenas moralmente, ele falha operacionalmente. 

Portanto, o grande ensinamento da obra de Rand está na sua entrelinha: as resistências institucionais à inovação são a fonte de suas autodestruição. Não porque as instituições sejam maliciosas, mas porque toda instituição tem, como função primária não declarada, a própria sobrevivência. Uma descoberta que questiona os fundamentos do próprio sistema não é avaliada pelos seus méritos. É avaliada pela ameaça que a representa. 

Essa resistência à inovação encontra paralelos nítidos no Brasil contemporâneo: a articulação política por regular o debate e as famosas “fake news”. Quando uma Instituição do Estado tenta ditar, sob a roupagem de proteção à democracia, o que pode ou não ser dito no ambiente virtual, vemos a materialização do “Conselho de Sábios” de “O Cântico”, onde um pequeno grupo determinava o que é verdade e o que é mentira à mercê de seus próprios interesses. E a justificativa é sempre a proteção do coletivo, o “nós”. Mas o efeito colateral prático é a manipulação e controle, e uma objeção ferrenha às transformações consequentes da modernização da forma como a sociedade se comunica e expressa sua liberdade. 

Outro exemplo é enquadrar motoristas de aplicativos na legislação CLT. Diante de uma inovação tecnológica que permitiu a milhões de indivíduos exercerem seu livre arbítrio, 6 em cada 10 motoristas alegam não querer interferência da legislação em seus próprios horários de trabalho, metas e rotinas. A resposta do establishment: precisamos proteger o “coletivo”. Burocratas e sindicatos tentam forçar um modelo de subordinação criado no século passado. Ignoram as pesquisas que mostram que a grande maioria desses trabalhadores rejeita a rigidez estatal justamente por valorizarem o seu “eu”, sua flexibilidade e sua independência. É a instituição, sentindo-se ameaçada e perdendo arrecadação, articulação, resistindo à inovação para justificar sua própria existência. 

Esses cenários demonstram que a obra de Rand não é um delírio distante, mas uma fotografia precisa de como o poder reage à autonomia humana. O intervencionismo, seja na liberdade de expressão ou na economia básica, cria uma dependência crônica. Ao invés de o Estado servir como garantidor da liberdade para que o indivíduo prospere, ele atua como um freio, exigindo pedágios, controles e concessões. O resultado é uma sociedade que gasta mais energia tentando contornar as amarras do sistema do que de fato criando valor. 

A pergunta que permanece não é sobre qual modelo ou sistema é superior, mas qual é o limite que não pode ser cruzado?

E Rand deixa claro, é o “eu”.

Gostou do artigo? Compartilhe este conteúdo!

publicações recentes