Ayn Rand foi uma filósofa de origem russa que emigrou para os Estados Unidos em 1926. Rand viveu anos de sua juventude sob o jugo soviético e sua filosofia objetivista faz grande oposição moral e intelectual aos ideais propagados pelos comunistas e socialistas. Testemunha direta da Revolução Russa de 1917, Rand via o coletivismo não apenas como um erro político, mas como negação da natureza racional do homem, defendendo em obras como A Nascente e A Revolta de Atlas o egoísmo racional como virtude suprema.
Para Rand somente a faculdade da razão é capaz de proporcionar ao homem uma vida no seu pleno potencial. A palavra ego vem diretamente do latim e significa ‘eu’, podemos expandir este sentido do ‘eu’ como o homem que faz pleno uso da faculdade da razão, o ego, portanto, é o que faz do indivíduo um homem e o fator mais evidente que o distingue dos demais seres humanos. O núcleo da filosofia objetivista reside no egoísmo, isto é, cada indivíduo precisa estar comprometido apenas com seus próprios interesses racionais e com a realização de sua felicidade, pois como indicou Rand o indivíduo é um fim em si mesmo.
O Cântico é uma distopia na qual o mundo como conhecemos hoje deixou de existir e o elemento principal deste acontecimento foi o abandono da ideia de indivíduo para adoção de princípios coletivistas. O ‘eu’ foi substituído pelo ‘nós’ no mais íntimo do pensamento humano e qualquer atributo físico ou intelectual que possa vir a diferenciar um indivíduo dos demais é visto como imoral. Neste contexto, nomes próprios que poderiam vir a exaltar o retorno do ‘eu’ foram substituídos por alcunhas genéricas da doutrina coletivista, como igualdade, fraternidade.
A obra de Rand é bastante peculiar, pois o mundo regressou para uma ‘idade das trevas’ tecnológica em decorrência do completo abandono da razão. Nas distopias descritas por Orwell e Huxley o Estado se apoia em tecnologia sofisticada para que possa exercer seu controle sobre os indivíduos, enquanto na obra de Rand este controle não se faz mais necessário devido aos grilhões do coletivismo que sufocaram a plena realização da faculdade da razão e em consequência o ‘eu’ criador.
Em O Cântico, a redescoberta do ‘eu’ é o fator decisivo para escapar da opressão intelectual e fundar as bases de uma nova civilização, guiada pela razão e centrada no indivíduo. Quando o protagonista consegue fugir para uma floresta e encontra uma casa antiga com livros, ‘Igualdade 7-2521’ pronuncia: ‘Eu sou. Eu penso. Eu quero.’ Essa afirmação do ‘eu’ não só quebra as correntes linguísticas e coletivistas, mas leva o protagonista a rebatizar a si mesmo como Prometeu e sua companheira como Gaia, tal como a história dos titãs, iniciando uma linhagem que perpetuará o individualismo racional.
Uma mente livre e criativa é um desafio constante aos interesses de uma ordem ditatorial, sendo este o motivo pelo qual a liberdade de discurso e pensamento é imediatamente cerceada em governos totalitários. Como Orwell nos mostrou em 1984, o controle da linguagem implica no controle do pensamento, isto é, aqueles que pensam unicamente com as palavras autorizadas pelo governo, pensam exatamente como o governo deseja. Toda ordem política totalitária almeja perverter a linguagem a fim de pavimentar sua manutenção no poder.
Rand nos alerta de que é a covardia moral dos indivíduos para lutar contra ideais coletivistas que possibilita a implantação de regimes ditatoriais e permite o avanço das ideias coletivistas, pois, como é comumente atribuído a Dante: ‘os lugares mais sombrios do inferno estão reservados para aqueles que se mantiveram neutros em tempos de crise moral’.