Cântico, de Ayn Rand, é um livro curto, mas que provoca reflexões profundas sobre liberdade, individualidade e o papel do ser humano dentro da sociedade. A história se passa em um futuro distópico no qual o conceito de “eu” foi completamente eliminado. Não existem indivíduos, apenas o “nós”. Pensar sozinho é crime, se destacar é pecado, e qualquer forma de ambição pessoal é vista como uma ameaça à ordem coletiva. O protagonista, chamado Igualdade 7-2521, já nasce destoando desse sistema. Ele é curioso, inteligente e inquieto, características que deveriam ser virtudes, mas que, naquele mundo, se tornam motivo de culpa. Ao longo do livro, fica evidente como a sociedade conseguiu inverter valores básicos: obedecer sem questionar é considerado moralmente correto, enquanto pensar de forma independente é tratado como algo perigoso. Esse conflito interno do personagem é um dos pontos que mais chamam atenção, porque mostra como a opressão mais eficiente não é a física, mas a psicológica. Um dos momentos centrais da obra é a descoberta da eletricidade por Igualdade 7-2521. A eletricidade simboliza o progresso, a inovação e o potencial humano. No entanto, ao tentar apresentar sua descoberta ao Conselho, ele é rejeitado. Não porque a invenção seja inútil, mas justamente porque ela foi criada por um indivíduo, fora das regras impostas pelo coletivo. Esse trecho deixa claro o argumento de Ayn Rand: quando o coletivo se sobrepõe completamente ao indivíduo, o progresso deixa de existir. A humanidade para de avançar não por falta de capacidade, mas por medo da diferença. Pra mim é estranho perceber como tantos anos depois da publicação de Cântico, ainda vemos tantos regimes ditatoriais pelo mundo. Países como Venezuela, Irã, e Cuba mostram que a lógica apresentada no livro não ficou presa à ficção. Estamos em 2026, em um mundo com acesso quase ilimitado à informação, e ainda assim é impressionante como discursos coletivistas continuam seduzindo tantas pessoas. A promessa de segurança, igualdade absoluta e ausência de conflito soa confortável, mas o livro mostra o preço disso: a anulação do indivíduo. Cântico deixa claro que quando todos pensam igual, ninguém realmente pensa. O livro também me fez lembrar da atual série Pluribus, na qual os seres humanos acabam perdendo sua individualidade ao se conectarem a uma mente coletiva. Na série, assim como no livro, a ideia inicial parece positiva: menos conflitos, menos dor, mais harmonia. No entanto, com o tempo, fica evidente que essa “harmonia” só existe porque o indivíduo deixa de existir como sujeito. Não há mais escolha, responsabilidade ou identidade própria. Tudo passa a ser decidido por uma consciência coletiva abstrata, que não sente, não cria e não assume consequências. No livro, a virada acontece quando o protagonista foge para a floresta e, longe da sociedade, começa a se redescobrir. O momento mais simbólico é quando ele encontra a palavra “eu” e entende seu significado. Esse trecho não soa como uma defesa de egoísmo raso, mas como uma afirmação poderosa: o indivíduo é a base de qualquer sociedade saudável. Sem indivíduos livres, não há inovação, liderança ou verdadeiro progresso. Cântico traz uma mensagem direta e desconfortável: liderar começa pela capacidade de pensar por conta própria. Um líder que apenas repete ideias aceitas pelo grupo não lidera, apenas segue. Ao mesmo tempo, o livro provoca uma reflexão pessoal importante: quantas vezes deixamos de sustentar nossas próprias convicções para evitar desconforto, rejeição ou conflito? No fim, Cântico funciona quase como um alerta. Ele mostra que abrir mão da individualidade em nome de uma falsa harmonia coletiva pode parecer tentador, mas leva à estagnação e à perda de sentido. Ayn Rand constrói uma narrativa simples, mas extremamente atual, que reforça a importância do indivíduo como motor da história. É um livro que incomoda, provoca e convida o leitor a assumir a própria identidade — não como um ato de rebeldia vazia, mas como um compromisso consciente com a própria vida e com a liberdade de pensar.