A ótica randiana sobre o egoísmo
Mariana Ziebell Ramos, cirurgiã-dentista e associada do instituto de Estudos Empresariais (IEE)
“O ego no homem é a nascente do progresso – a fonte de todas as suas realizações e conquistas” é a frase que justifica a titulação da segunda obra mais famosa de Ayn Rand: “A Nascente”.
Conhecida como “porta-voz do individualismo”, Ayn Rand é uma mulher russa, de origem judaica, que migrou para os Estados Unidos – país que ela considerava o modelo de nação de homens livres. Foi responsável pela publicação de “A Revolta de Atlas”, que, depois da Bíblia, foi considerado o livro mais influente do país. Antes dele, escreveu “A Nascente”. Ambas as obras seguem a assinatura de Rand, que é a de defender sua filosofia (o objetivismo) por meio da ficção e da construção de personagens complexos. Em “A Virtude do Egoísmo”, por outro lado, Rand cria uma coletânea de ensaios que explicam o que é o objetivismo e a ética egoísta, fundamentando filosoficamente o comportamento e os discursos de alguns de seus famosos personagens, como John Galt.
Falar sobre egoísmo é um tabu tão grande que o leitor se sente desconfortável ao segurar um livro com um título tão intrigante – “A Virtude do Egoísmo” – em um local público. Mas é evidente que Rand não anseia expor seu pensamento e que espera o mesmo do leitor. Com uma abordagem clara, incisiva, lógica e persuasiva, a autora nos cativa a refletir a respeito de nossa individualidade e questionar uma série de preceitos estabelecidos socialmente.
Em linhas gerais, Rand busca desconstruir o que conhecemos como “ética altruísta”, propondo a leitura da sociedade por meio da “ética egoísta”. Popularmente falando, a palavra “egoísmo” tem um tom pejorativo, sendo sinônimo de maldade ou, como cita Rand:
A imagem que invoca é a de um brutamonte homicida que pisoteia pilhas de cadáveres para atingir seus objetivos, que não se preocupa com nenhum ser vivo e que busca, apenas, a satisfação imediata de caprichos insensatos.
Entretanto, ela entende que o “egoísmo” se trata de uma teoria moral baseada na vida humana como padrão de valor e na razão como meio de sobrevivência. Não é unicamente a preocupação com seus próprios interesses, mas a defesa de interesses racionalmente identificados segundo os requisitos da vida humana.
A imagem do “brutamontes homicida”, por sua vez, é produto do que leva o nome de ética do altruísmo. Essa ética entende que qualquer preocupação com seus próprios interesses é maligna, não importando quais sejam esses interesses e, assim, ordena que o homem renuncie pelo bem dos outros. O pensamento de Rand se aparta totalmente dessa ideologia. Ela entende que o autossacrifício demandado pela ética altruísta é o preceito de que o homem precisa servir os outros para justificar sua existência. Assim, passa a defender a ética egoísta, que sustenta que o agente deve sempre ser o beneficiário de sua ação e que deve agir por seu autointeresse racional.
Diferentemente do que muitos pensam, o egoísmo não é uma licença para “fazer o que quiser” e não é aplicável à imagem altruísta de um brutamonte, mas, sim, a uma preocupação com seus próprios interesses, utilizando esse conceito em seu sentido mais puro e, consequentemente, podendo trazer benefícios sociais. A crítica randiana não é dirigida à benevolência, à generosidade ou à ajuda voluntária, mas à doutrina moral que transforma o sacrifício em virtude e a necessidade alheia em reivindicação moral sobre a vida de terceiros. Considerando a crença de Rand de que “seu mais elevado propósito moral é a realização de sua própria felicidade”, o indivíduo deve buscar seus próprios interesses racionais e ser responsável por sua própria felicidade, sem violar os direitos dos outros. O que não significa que caridade e filantropia não venham a ser realizadas. Elas são realizadas, mas entendendo que a iniciativa decorre dos valores e vontades do próprio indivíduo, não de uma obrigação social de autossacrifício – o benefício social é uma consequência dos interesses individuais, e não sua justificativa moral. Sendo assim, não é uma lógica monetária, ou que visa lucro de alguma forma, mas sim um exercício do egoísmo. Esse pensamento vai ao encontro da frase de Adam Smith em “A Riqueza das Nações”:
Não é da benevolência do açougueiro, do padeiro ou do cervejeiro que nós esperamos o nosso jantar, mas sim da consideração que eles têm pelos próprios interesses.
Muitos se opõem erroneamente ao Objetivismo justamente por não compreenderem que ser objetivista não é ser aquele egoísta pejorativo, incapaz de ajudar alguém ou atuar no terceiro setor. Infelizmente, a cultura estatista e coletivista criou uma sociedade tutelar, que acredita que tudo pode ter à custa dos outros. A ausência de um pensamento mais objetivista em nosso país tem uma responsabilidade grande pelo cenário no qual nos encontramos. Na apresentação à edição brasileira de “A Virtude do Egoísmo”, Dennys Garcia Xavier cita:
Precisamos mais da filosofia de Rand do que ela de nós, filhos de longa tradição coletivista/estatista que submeteu toda uma nação de pluridimensional potência realizadora a resultados medíocres, cultivados durante décadas ininterruptas de políticas governamentais autoritárias, indignas de um país que se pretenda viável.
Rand defende um governo que permita a liberdade individual, não coerção e mínima intervenção, com um sistema de livre mercado que preconiza as trocas voluntárias e a busca do interesse próprio como norteadores da economia. Assim, sugere que a ética egoísta é capaz de impulsionar sociedades à prosperidade.