Amanda Cornélio Abbud, associada do Instituto de Estudos Empresariais (IEE) E se felicidade fosse menos um estado emocional a ser perseguido diretamente (“quero ser feliz”) e mais um indicador (“o quão feliz estou com isso”)? Um tipo de sinal vital da vida psíquica, que se estabiliza quando valores, escolhas e ações caminham na mesma direção. Ou melhor: um termômetro que registra coerência e, quando o que faço reflete o que valorizo, a sensação de bem-estar aparece mais constante. Eu tratava a felicidade como um fim em si. Um objetivo emocional (“quero ser feliz”) geralmente associado à redução de desconfortos, à comparação social ou à busca por validação. Até ter a oportunidade de aprender um pouco sobre como o Objetivismo enxerga a felicidade. O Objetivismo propõe deixarmos de ver a felicidade como um prêmio concedido pelo mundo, um acaso químico ou uma recompensa. Quando seguimos assim, chegar à felicidade é uma experiência emocional em que ficamos vulneráveis às oscilações dos ciclos de euforia e frustração, acompanhados dos conhecidos pensamentos: “ainda não cheguei lá”, “estou ficando para trás” ou “os outros estão melhores”. Quando compreendemos a felicidade como consequência de viver de acordo com valores reais, damos outra forma à vida. É a presença contínua de propósito contribuindo para a realização do homem, não significa mais a ausência de dor – esta torna-se um útil sinal de desalinhamento entre princípios e prática cotidiana. 1. Novas lentes Ayn Rand define felicidade como “aquele estado de consciência que procede da realização dos próprios valores” (RAND, 1964). A partir daí, precisamos entender duas implicações: A primeira é que felicidade inclui o prazer momentâneo, mas não é. Ela envolve uma avaliação interna: a sensação de que o que estou fazendo faz sentido, de que as escolhas que faço são realmente minhas e de que estou construindo algo que considero bom. Isso afasta a noção de felicidade como um “clima emocional”, dependente do ambiente, e aproxima a ideia de uma estabilidade produzida pela coerência entre princípios, metas e ações. A segunda implicação diz respeito ao próprio conceito de valor. No Objetivismo, valores não são adjetivos soltos, como “honestidade” ou “bondade”, nem um catálogo social do que se deveria querer. Valor é aquilo que agimos para obter ou manter porque reconhecemos como necessário na nossa vida, é a direção real que organiza a ação. 2. Hábitos Hábitos são votos dados à pessoa que queremos nos tornar. São a forma cotidiana pela qual valores deixam de ser abstração e passam a se tornar realidade, ou seja, a forma de praticar o que é mais valorizado. Viver racionalmente, no sentido objetivista, é viver com intenção. E a intenção, para se sustentar ao longo do tempo, precisa de meios concretos: rotinas, ambientes e escolhas que protegem o que é importante. O hábito, nesse sentido, funciona como uma tecnologia moral, economizando energia psíquica e reduzindo o atrito entre o que se sabe e o que se faz. Quando repetimos uma escolha alinhada a um valor racionalmente escolhido, formamos um padrão interno. Aos poucos, a culpa e o atraso dão espaço a pensamentos com efeito positivo: “missão cumprida”, “estou melhor nisto”, “há propósito no que faço”. Felicidade anda lado a lado com a construção da autoestima baseada em evidência e, quanto mais esse ciclo se repete, mais fortes os hábitos ficam, mais concretos os valores são e mais felicidade se vive. É por isso que temos dificuldade em gerar mudanças de hábitos quando são tratadas como punição (“preciso sofrer para merecer”) ou como tentativa de pertencimento (“quero ser como os outros”). Rotinas se tornam mais robustas quando estão conectadas a uma visão racional de valor e propósito, capaz de sustentar escolhas mesmo quando o entusiasmo inicial desaparece. Um exemplo simples: fazer exercício físico Um caso comum: saber que precisa intensificar o exercício físico. A dificuldade de estabelecer o novo hábito, mesmo ciente de sua necessidade, é verdadeira e exigente, com grandes chances de não se manter no longo prazo. E se alguém nesse cenário passa a realizar junto com alguém que ama e transforma em um hobby conjunto? O comportamento deixa de ser “tarefa” e passa a ser expressão de valores: a priorização da saúde como condição de vida plena e de tempo aproveitado com a família. A tendência é que, com o tempo, a transição aconteça: mesmo quando o parceiro não estiver presente, a pessoa continua realizando seu exercício porque, agora, aquela ação faz sentido por si mesma. O hábito foi integrado à identidade, e a identidade está ligada a valores. A consequência aparece em cadeia: melhora física, escolhas alimentares mais deliberadas, mais autonomia, menos compulsão. E o efeito emocional mais profundo: a ansiedade difusa (“será que estou perdendo algo lá fora?”) diminui, porque a vida ganhou um centro. As decisões ficam mais claras porque os pesos estão claros, é mais fácil não balançar. Em termos objetivistas, isso é crucial: quando valores se tornam claros, o tempo deixa de ser um campo de culpa, a mente pode descansar. 3. Coerência e confiança Se agimos para concretizar nossos valores, um valor que não se traduz em ação tende a se tornar uma erva daninha da autoestima. Quando valores são declarados, mas não praticados, nossa mente paga um preço. É aí que surge um tipo de dissonância moral que se manifesta como ansiedade, irritação, autodepreciação ou a sensação constante de estarmos atrasados em relação à nossa própria vida. O desconforto, que muitas vezes parece apenas falta de método, tem sua causa na ausência de uma hierarquia clara de valores que oriente as ações. Você, assim como eu, pode reconhecer a culpa por deveres misturados com expectativas externas: “não fui produtiva o suficiente”, “não fiz tudo”, “não acompanhei o que todo mundo acompanha”. Quanta culpa nascida de um “eu deveria” herdado de expectativas sociais, ideais vagos e padrões inalcançáveis que já carreguei. O Objetivismo oferece uma distinção útil: culpa deve existir apenas quando há uma violação real de um padrão que sustenta a vida e a integridade do indivíduo. Por exemplo: “pela falta de clareza dos meus valores, perdi tempo lidando com os ruídos da culpa enquanto poderia tê-los utilizado como informações, precisando apenas de correção prática e não autoagressão.” As emoções negativas, quando surgem, são mais assertivas para investigação: “qual parte do meu sistema não está coerente com o valor que eu escolhi?”. Assim, substitui-se o julgamento moral (“por que eu falhei de novo?”) por uma capacidade de transformação de acordo com condições e valores individuais. 4. Liberdade Pode até parecer que quero transformar hábitos em moralismo ou transformar o Objetivismo em autoajuda, embora a intenção esteja longe disto. A crença no potencial do encaixe conceitual pode falar mais alto: hábitos são a mecânica e valores a direção. Quando a mecânica e a direção se alinharam, felicidade virou evidência diária da coerência do que valorizo, espero e faço, não como prêmio de uma conquista efêmera. Essa é uma visão exigente porque retira desculpas rasas: se a vida está em desalinhamento, se há desconforto com o que estou fazendo, a necessidade é de uma revisão racional de prioridades, incentivos, ambiente e escolhas. E é uma lente profundamente otimista porque devolvemos a nós mesmos, indivíduos, a dignidade de vivermos como agentes capazes de compreender, decidir e construir. Colocamos o desenvolvimento pessoal em bases menos moralistas e mais racionais, com a disciplina sendo um método de proteção do que amamos e a autoeficácia um produto de experiência acumulada de escolha e execução. O resultado é um tipo de liberdade silenciosa: a de escolher sem ressentimento. Eu não estou “perdendo o mundo lá fora”, estou ganhando a vida aqui dentro, no sentido mais literal, enquanto construo, com suas minhas ações, aquilo que reconheço como bom.