“Sapiens” e o mundo fictício de Harari

Ideias que contrariam evidências do benefício do progresso humano são propagadas constantemente pela imprensa e possuem o selo do establishment acadêmico. Sapiens – Uma breve historia da humanidade (2011), do professor de Oxford, o israelense Yuval Harari, está na lista dos livros mais vendidos no Brasil e no mundo; sua leitura foi recomendada  por Mark Zuckerberg e Bill Gates. O jornal Financial Times observou: “Este livro fascinante não pode ser resumido: você simplesmente terá que lê-lo.” De fato, esse livro traz uma grande quantidade de fatos históricos interessantes e tenta responder questões filosóficas importantes. Mesmo com tantas informações, pode-se observar algumas ideias fundamentais do autor que permeiam os fatos históricos narrados no livro.

Já no primeiro capitulo, Harari questiona como o Homo Sapiens passou de uma posição insignificante para um protagonismo na conquista do mundo, se comparado com os outros animais e espécies humanas: “qual é o segredo do sucesso do Sapiens? Como conseguimos nos instalar tão rapidamente em tantos hábitats distantes e diversos em termos ecológicos?” A resposta, segundo o autor, foi uma Revolução Cognitiva. “O que a causou? Não sabemos ao certo.” Então, ele especula que variações genéticas no nosso DNA talvez sejam a causa. Para ele, essa revolução cognitiva nos permitiu colaborar coletivamente e em grandes números. Harari não percebe que não é o tamanho do grupo que torna o Sapiens superior aos outros animais, porém, sua habilidade de usar sua mente, raciocinar e adaptar o meio às suas necessidades.

Além da capacidade de colaborar em grande quantidade, Harari cita a característica humana de possuir uma linguagem versátil como uma das causas da nossa superioridade. Segundo o autor, essa linguagem permitiu ao Sapiens cooperar de maneira extremamente flexível com um número incontável de estranhos e isto só é possível quando esses estranhos acreditam nos mesmos mitos. Aqui a tese dele é que “toda cooperação humana em grande escala – seja um Estado Moderno, uma igreja medieval, uma cidade antiga ou uma tribo arcaica se baseia em mitos partilhados que só existem na imaginação coletiva das pessoas.” E vai além, sustentando que “todos os sistemas de cooperação humana em larga escala – incluindo religiões, estruturas políticas, mercados e instituições legais – são, em última instância, ficção.” Para o autor uma “realidade imaginada é algo em que todo mundo acredita, e tudo se resume a contar histórias e convencer as pessoas a acreditarem nelas. Desde a Revolução Cognitiva, os Sapiens vivem em uma realidade dual. Por um lado, a realidade objetiva dos rios, das árvores e dos leões, por outro a realidade imaginada de deuses, nações e corporações.”

Aqui fica evidente e incapacidade de Harari de diferenciar uma abstração baseada na realidade e uma abstração imaginária. Por exemplo, o conceito “móvel” é uma abstração baseada na realidade de que existem entidades percebíveis como mesa, cadeira, etc. assim como o conceito “nação” é baseado em perceptos reais como delimitações geográficas, língua, população, etnias, tipo de moeda etc. Portanto, ambos os conceitos não são ficções.

Já o conceito “magia” é uma abstração baseada na nossa imaginação de existirem bruxas, gatos pretos com poderes, etc. Harari define todas as abstrações como imaginárias e fictícias, considerando apenas o mundo dos concretos. Por exemplo, ele faz uma comparação entre uma Empresa e uma Igreja. Afirma que ambas as organizações são ficções que nos permitem progredir imaginando coisas coletivamente, capacitando a cooperação. É uma suposição filosófica que não consegue derivar a existência real e concreta de conceitos na consciência. Em grande parte da filosofia moderna, qualquer coisa que passe pelo “filtro” da mente é automaticamente invalidada como realidade,, e considerada imaginária. Exatamente o que nos diferencia dos animais, a nossa capacidade conceitual de raciocínio, é definida pelo autor como imaginária.

Ayn Rand explicou que um conceito “não é um produto de escolha arbitrária, quer pessoal ou social; ele tem base na realidade. Mas essa base não é uma entidade sobrenatural que transcende os concretos, nem um ingrediente secreto que se encontra dentro deles.”

Rand define conceito como “uma integração mental de duas ou mais unidades, que possuem as mesmas características distintivas com suas medidas particulares omitidas.”

Este princípio direciona o processo de formação de conceitos das entidades – por exemplo, o conceito “mesa”. A mente da criança isola duas ou mais mesas de outros objetos, concentrando-se em sua característica distintiva: sua forma. Observa que suas formas variam, porém, têm uma característica em comum: uma superfície plana nivelada e suporte. Forma o conceito “mesa” retendo essa característica e omitindo todas as medidas particulares, não apenas as medidas de forma, mas de todas as outras características das mesas (muitas das quais ela tinha conhecimento na época).

Quando um indivíduo tem conceitos suficientes em sua mente, pode repetir o mesmo processo com conceitos ao invés de perceptos, identificando características essenciais e omitindo suas medidas específicas. Dessa forma, pode criar abstrações cada vez mais complexas a partir de outras abstrações sem perder a conexão entre as abstrações e a realidade.

A outra ideia do livro, que também é fundamental e equivocada, vem logo depois que Harari faz um elogio à afirmação de Adam Smith de que “o desejo humano egoísta de aumentar o lucro privado é a base para a riqueza coletiva” é uma das ideias mais revolucionárias na história humana – revolucionária não só desde uma perspectiva econômica, como também de uma perspectiva moral e política.” Harari logo afirma que a humanidade, no processo de desenvolver a ideia de progresso, acreditou que a riqueza não é um “ bolo a ser repartido” mas sim “um bolo que o mundo inteiro pode fazer crescer.”

Infelizmente, o autor conclui que o progresso não passa de uma bolha e que “a crença capitalista no crescimento econômico perpétuo desafia quase tudo que conhecemos sobre o universo. Uma sociedade de lobos seria extremamente tola em acreditar que a oferta de ovelhas continuaria crescendo por tempo indefinido.” Nesse caso, ele subestima a capacidade do Sapiens de criar riqueza, em vez de só servir-se dela. Um exemplo da capacidade humana de progresso é vermos cada vez mais as energias de combustíveis fósseis sendo substituídas por energia limpa.

As ideias de Harari são consequências da filosofia moderna e seu corolário, o marxismo, que faz diversas vítimas entre os jovens. Aceitar estas ideias é colocar o homem de volta nas cavernas. Com tantas premissas equivocadas, Harari não poderia deixar de fazer uma pergunta final sombria sobre o Sapiens: “Existe algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?”

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Revisado por Matheus Pacini.

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