Resenha do romance “A nascente”, de Ayn Rand

Contém SPOILERS!

A obra publicada por Ayn Rand em 1943 se passa nos Estados Unidos, principalmente na cidade de Nova York, entre as décadas de 1920 e 1930, focando nos esforços do personagem principal, Howard Roark, para alcançar o sucesso pautado em seus próprios valores.

Apesar de ser um romance, Rand desenvolveu, por meio de sua filosofia objetivista, primeiro os valores e, posteriormente, os personagens que os representariam na história.

O romance tem início com o jovem Roark – o homem ideal de acordo com a autora – sendo expulso do Stanton Institute of Technology por ação insubordinada junto ao corpo administrativo da instituição, que desejava que seus projetos arquitetônicos fossem feitos em estilo clássico, o que o protagonista se recusava a fazer, por contrariar seus ideais. Enquanto isso, seu colega de turma, Peter Keating, entregava aos professores exatamente o que eles desejavam, formando-se com honrarias na universidade.

Roark é um modelo de independência. Ele tem como força-motriz sua verdadeira paixão pela arquitetura e está disposto a encarar as críticas ao ser fiel ao que acredita. Por essa razão, passa a trabalhar para Henry Cameron, um arquiteto que já não goza de sucesso comercial, mas que defende ideias revolucionárias para a época.

Com valores opostos aos do protagonista, Keating passa a trabalhar para Guy Francon, o arquiteto de maior sucesso e prestígio do país. Representando o padrão social desejável – pelo menos superficialmente – Keating cresce de forma rápida na empresa, passando por cima de colegas de trabalho, copiando designs do passado e disposto a destruir o que for necessário para alcançar seus objetivos. Aos olhos da autora, Keating personifica a ideia vulgar do egoísta.

Em determinado momento, Keating precisa da ajuda do brilhante Roark – que já não mais trabalhava com Cameron – a quem contrata para um projeto. Contudo, Francon fica insatisfeito com a recusa do personagem principal em projetar um edifício no estilo clássico e o demite.

Uma personagem de destaque na obra é Dominique, filha de Francon. A jovem expressa vontade própria e é franca ao ponto de criticar as construções do próprio genitor. Apesar de escrever sobre design e decoração para o jornal The Banner, Dominique é uma idealista desiludida por um mundo dominado pelos corruptos.

Algum tempo depois, Roark abre seu próprio escritório e enfrenta dificuldades para encontrar clientes ao manter-se fiel ao seu estilo, optando por fechá-lo. Ele consegue um emprego em uma pedreira de Francon, vizinha de uma propriedade da família em que Dominique se hospedava.

Apesar da atração entre Roark e Dominique culminar em um encontro sexual memorável, ele recebe uma proposta de trabalho e volta a Nova York, sendo atacado em público por Dominique quando esta descobre sua profissão, o que não impede que os dois tenham novos encontros sexuais.

Os projetos de Roark começam a ter destaque e atraem a atenção do escritor Ellsworth Toohey, que se sente ameaçado por sua inflexível independência de espírito.

Vale dizer, Ellsworth Toohey é outro personagem de destaque. Ele, que pode ser considerado o maior vilão da obra, é um crítico de arquitetura que, por total falta de decência e talento, usa das ferramentas disponíveis para manipular as pessoas por meio da exaltação daquilo que é medíocre. Abraça o coletivismo para algemar as mentes pensantes por temer a independência que o indivíduo livre representa.

Toohey decide destruir Roark por meio de uma campanha de difamação. Para isso, ele influencia Hopton Stoddard a contratar Roark para construir um templo religioso. Antecipando que o projeto de Roark será incrivelmente original – o que acontece inclusive pela escultura inspirada no corpo nu de Dominique -, Toohey articula para rotulá-lo como um herege e um verdadeiro inimigo da religião. O esquema de Toohey funciona, e Stoddard decide processar Roark. O Templo Stoddard é demolido e Roark é condenado.

Dominique, mesmo acreditando no herói personificado por Roark, decide casar-se com Keating, na certeza de que, na sociedade, não há lugar para o triunfo dos virtuosos.

Com a manipulação de Toohey, Dominique é apresentada a Gail Wynand, para cujo jornal Dominique trabalhou anteriormente como colunista.

Gail Wynand guarda certas características comuns com as de Roark, como a independência e a busca pelos próprios objetivos. Entretanto, com o desenrolar da história, fica cada vez mais claro que Wynand ilustra a ideia do altruísta, esvaindo-se das próprias convicções na busca pela satisfação alheia.

Wynand, encantado por Dominique, oferece dinheiro e o projeto do conjunto habitacional Stoneridge Homes a Keating para que ele se divorcie da esposa, para que então o próprio Wynand a proponha em casamento, o que, no turbilhão de pensamentos da personagem, a faz aceitar.               

Pretendendo construir uma casa para ele e sua nova esposa, Wynand descobre que Roark projetou todos os prédios que ele admira e, então, o contrata. Roark e Wynand tornam-se amigos, não obstante o segundo desconhecer o relacionamento passado de Roark com Dominique e os sentimentos que ela ainda nutria pelo protagonista.

O clímax de A nascente começa quando Keating, cuja carreira está em declínio, implora a Roark para projetar o projeto habitacional Cortlandt Homes. Pautado por suas ideias originais, e sabendo que se seu nome estiver diretamente vinculado ao projeto, Toohey fará de tudo para atrapalhá-lo, Roark permite que Keating receba os créditos do projeto, com a condição de que os edifícios fossem erguidos exatamente como ele os projetasse.

Ainda assim, o projeto é alterado sob as ordens de Toohey, enquanto Roark viajava. Quando Roark retorna, ele dinamita a deturpada obra-prima para que sua visão não fosse subvertida.

Wynand se esforça para ajudar Roark, defendendo-o publicamente no jornal The Banner. Entretanto, o jornal é boicotado pelos leitores, situação ainda mais agravada pelas manobras de Toohey, que organiza uma greve do sindicado dos profissionais do setor após Wynand demitir funcionários que se opuseram a defender Roark. Para salvar o jornal, Wynand trai a própria convicção e reverte sua posição sobre a dinamitação de Cortlandt.

O julgamento de Roark é um momento marcante. O protagonista defende o direito do criador ao produto de seu esforço, ressaltando que o único preço cobrado por seu trabalho – o projeto de arquitetura -, isto é, o respeito à sua visão, não foi pago. Ele argumenta que um indivíduo não é um escravo da sociedade e que esta tem direito à obra de um criador apenas sob seus próprios termos. O júri absolve Roark, que é contratado para projetar o Cortlandt Homes e o Wynan Building, o maior arranha-céu da cidade.

Ao final da obra, Roark alcança o sucesso fundado pela fidelidade à sua própria visão. Dominique finalmente está pronta para ficar com Roark, após perceber que alguém realmente virtuoso como ele tem seu lugar no mundo. Wynand é moralmente assolado pela percepção de que o sucesso não exigia que ele vendesse sua alma para as massas. Toohey sai vitorioso da greve, crendo que assumirá o The Banner, mas após Wynand decidir fechá-lo, seus planos são frustrados. Keating é exposto publicamente como uma fraude no julgamento de Roark, em razão de ter copiado o trabalho do protagonista e vê encerrada sua carreira na arquitetura.

O herói de Ayn Rand é aquele cujo fim repousa em si mesmo, em uma ode à grandeza e à racionalidade humanas. Roark se opõe ao que a autora chama de “homens de segunda mão”, isto é, aqueles que prestigiam o conformismo – típico dos coletivistas e presente nos altruístas – em detrimento das virtudes da independência e da integridade.

Os homens de primeira mão são as mentes criativas capazes de gerar o progresso humano. Roark exemplifica, precisamente, o conceito de independência de Rand como a responsabilidade de formar seus próprios julgamentos e de viver pelo trabalho de sua própria mente.

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Revisado por Matheus Pacini.

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