Qual é a relação entre Prometeu e Igualdade 7-2521?

Desde os tempos mais antigos, poucos indivíduos, movidos exclusivamente por seus valores e desejos, escolheram, agiram e sofreram as consequências por buscarem seus ideais. O ponto em comum deles é o ego, aquela busca incansável pelo autointeresse racional.

O primeiro, aventureiro, independente e inovador, diante de sua nova e bela criação, muitas vezes foi considerado pecador ou intransigente por seus semelhantes, apesar de nunca ter a pretensão de servir a ninguém, senão a seus próprios interesses.

Na Mitologia Grega não poderia ser diferente. Os irmãos titãs Prometeu e Epitemeu tinham conquistado o apreço de Zeus, um dos Doze Deuses do Olímpio e o maior de todas as divindades. Após o fim da grande batalha entre os titãs e os Deuses do Olímpio, finalmente a paz reinava na Terra e a vida estava pujante e em pleno desenvolvimento.

Tempos antes de existir a humanidade, Zeus encarregou Prometeus e Epitemeu de criarem os seres que habitariam o Planeta Terra. Epimeteu era muito inteligente e ágil. Conforme eram criados, Epimeteu concedia as melhores qualidades e habilidades aos animais: força, velocidade, venenos mortais e mandíbulas poderosas. Após Prometeu criar o homem, a partir do barro e lhe conceder o dom da vida, percebeu que não havia nenhuma outra qualidade ou habilidade para atribuir à sua recente criação.

Os homens enxergavam e ouviam, mas não percebiam ou compreendiam nada a seu redor. Não havia razão e inteligência. Os animais reinavam sobre a Terra e os humanos eram figuras coadjuvantes. Na tragédia “Prometeu Acorretado”, o dramaturgo grego Ésquilo explorou a visão de Prometeu sobre a precária condição humana naqueles tempos:

“(…) e as dores existentes entre os morais ouvi: como eles eram tolos antes de eu torna-los inteligentes e senhores dos seus desejos. Digo isso sem ter nenhuma reprovação aos homens, mas para explicar a bondade do que lhes doei; os que antes o viam, viam em vão, ouvindo, não ouviam, mas como formas de sonhos, durante sua longa vida combinavam tudo ao acaso, não havia casa de tijolos cozidos ao sol, nem madeira trabalhada; habitavam embaixo da terra, como ágeis formigas, nos fundos das cavernas sem sol. (…)
Além disso, o número: extraordinária invenção, inventei para eles, a composição das letras, a memória de tudo, a artífice mão das Musas.”

Além de ser o mais sábio dos Titãs, Prometeu também foi o mais visionário. Insatisfeito com a condição humana, decidiu inovar. Concedeu aos mortais uma dádiva que até então pertencia exclusivamente aos deuses, seres imortais: roubou o fogo dos deuses e presenteou a humanidade. O fogo é o princípio do conhecimento e da conquista da natureza.

Prometeu, o aventureiro, aquele que seguiu por novos caminhos, diante de sua bela criação, foi considerado pecador pelos seus semelhantes e Zeus. Como castigo por sua temeridade, Prometeu foi acorrentado em um inóspito rochedo e todo dia uma águia bicava o abdômen do titã para comer o seu fígado, que é regenerado (por ser um imortal) e o ritual recomeçava no dia seguinte.

Em um diálogo com Io (criatura que se relacionou com Zeus e por isso foi punida por Hera) no inóspito rochedo que estava acorrentado, Prometeu explicou a importância da concessão do “fogo” para a humanidade:

“- Io, minha querida… o fogo não é pouca coisa. Ele é o princípio do conhecimento e do domínio da natureza. É a conquista da tecnologia. Eu sabia muito bem, assim como Zeus, que ele seria apenas o início de tudo. Com ele, a humanidade entraria num ritmo de progressão cada vez mais acentuado. No fim das contas, com o desenvolvimento da civilização, os deuses perderiam a adoração dos humanos.”

A partir do momento em que a humanidade é presenteada com o “fogo”, ocorreu o desenvolvimento da capacidade de compreensão, de comunicação e de sobrevivência em todos os ambientes. Evoluíram de caçadores e coletores para agricultores e, tempos depois, para sociedades industriais. Da tribo para a civilização. Enfim, de coadjuvante ao protagonismo dos acontecimentos da Terra.

O princípio do pensamento racional que Prometeu presenteou concedeu ao homem a sua maior dádiva: a liberdade genuína. Agora, o homem deixava de ser mero servo do acaso, do sobrenatural ou do divino, para se tornar um deus, um sujeito individual, autônomo e independente, um fim em si mesmo.

Porém, a partir do reinado absoluto do homem na Terra, inexoravelmente também surgiu a eterna luta entre a liberdade e a servidão do homem pelo homem. O “fogo” dos Deuses proporcionou à humanidade romper com a corrente da ignorância e do sobrenatural. Surgiu, então, a corrente que tenta aprisionar o indivíduo à coletividade, ao seu “irmão”, agora o maior inimigo da liberdade individual.

A obra “Cântico” de Ayn Rand retrata um mundo distópico, decadente e primitivo em que o indivíduo (Prometeu) é acorrentado pelo coletivo. A sociedade é totalmente hierarquizada e tudo que se faz deve atender ao “bem comum”. Houve a abolição do “Eu” e somente é permitido se autodenominar “nós”.

O coletivismo atingiu o seu máximo, a ponto de os personagens serem representados por alcunhas genéricas e números: o protagonista “Igualdade 7-2521”, “União 5-3992”, “Internacional 4-8818” e “Liberdade 5-300”. Na obra, os sujeitos são meras engrenagens sociais e a decadência tecnológica nela descrita é previsível, já que todo princípio de processo criativo é fruto da mente individual.

Não obstante, o que move a vida de “Igualdade 7-2521” é o desejo natural, íntimo e insaciável, pelo conhecimento e pela exploração do desconhecido. Naturalmente, para “Igualdade 7-2521” a vida naquela sociedade é um tanto quanto pacata e patética. Assim que nasce, todos são marcados pela denominação genérica, cujo propósito e retirar a essência individualista de todo ser, substituindo-a por uma espécie de “consciência coletiva”.

Em seu íntimo, “Igualdade 7-2521” sempre questionava o status quo e a ordem política totalitária, além de cultivar desejos e pensamentos individualistas, os quais o conduziam a confuso sentimento de culpa.

Assim como Prometeu, além de ser o mais sábio e curioso entre seus pares, “Igualdade 7-2521” também foi o mais visionário. Devida à aguçada curiosidade e ao genuíno desejo pelo conhecimento e exploração, “Igualdade 7-2521” descobriu um túnel que levada para a Floresta Desconhecida, local proibido de acesso.

Além da exploração, “Igualdade 7-2521” era um criador nato. Em um contexto que a vela e o vidro são as invenções mais recentes, após estudos e testes, “Igualdade 7-2521” criou uma espécie de lâmpada, composta por metal e fios. Com o objetivo de melhorar a vida de todos, apresentou a sua criação ao Conselho Mundial de Eruditos, que rejeitou sumariamente a invenção.

Incrédulo com a rejeição, “Igualdade 7-2521” foge do local com a sua invenção rumo à Floresta Desconhecida, único ambiente que não seria punido por ser melhor que seus semelhantes e buscar seus próprios interesses. Na floresta, percebeu que, na realidade, a sua invenção não era destinada ao “bem de seus irmãos”, mas sim à realização de sua própria verdade e desejo.

Ainda nos primeiros dias na Floresta Desconhecida, “Igualdade 7-2521” percebeu que estava sendo seguido por “Liberdade 5-300”, já que o desejo por viver de forma livre e independente de “Igualdade 7-2521” chamou a atenção.

Ao longo da caminhada pelo desconhecido, “Igualdade 7-2521” foi descobrindo sua individualidade, seu propósito e seus desejos. Em certo momento, a dupla encontra uma casa que remonta aos “Tempos Imemoráveis”, quando a humanidade ainda não havia decaído para o coletivismo. Na casa, havia diversos livros e, ao ler um deles, “Igualdade 7-2521” finalmente descobriu a palavra “Eu”, quando, então, percebeu sua identidade própria.

O livro que mais impressionou “Igualdade 7-2521” foi o que contava a história de um homem que viveu há milhares de anos atrás, responsável por ensinar aos homens como serem deuses. Esse tal homem sofreu as consequências de sua atitude, assim como todo homem que busca a luz. Esse homem era Prometeu.

O ápice do valor liberdade é alcançado por “Igualdade 7-2521” e sua companheira “Liberdade 5-300” quando optam livremente por escolherem seus nomes: Prometeu e Gaia (mãe Terra, na mitologia grega, corresponsável por povoar a Terra nos tempos primórdios).

Na Mitologia Grega, o titã Prometeu proporcionou à humanidade o princípio do pensamento racional, possibilitando ao homem romper as correntes da ignorância e do sobrenatural, facultando a liberdade genuína.

Já na obra “Cântico” de Ayn Rand, Prometeu foi o responsável por dar o primeiro passo por novos caminhos. Junto à Gaia, iniciou uma nova jornada responsável por libertar o homem do próprio homem, partindo-se do culto ao ego: todo homem é um fim em si mesmo.

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Revisado por Matheus Pacini.

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