William Junior



Por uma nova definição de honestidade


A honestidade é reverenciada na vida em sociedade e entendida como valor moral, desde que não invalide objetivos pessoais que necessitem de subterfúgios para o alcance da mesma. Para alguns, presenciar a desonestidade de outrem, afere a esse um caráter de sabedoria prática, como se algo da ordem do mistério da vida humana estivesse sendo revelado e experienciado no ato infracional.

Talvez o olhar que trocam e a sensação que segue denuncie não uma escolha individual, mas um passe livre cultural, em que ser inteligente é tirar vantagem de toda e qualquer oportunidade, desde que o lesado pela ação seja alguém em condições iguais ou melhores que você.[1]

O que é perceptível nesse traço cultural, que logicamente não é admitido por nenhuma pessoa em uma conversa que solicite esse nível de sinceridade, é a incapacidade de uma reflexão de causa e consequência que pondere os benefícios e perdas, seja no ato imediato ou nos desdobramentos a longo prazo.

Na obra A Filosofia de Ayn Rand, Leonard Peikoff nos apresenta um novo modo de entender a honestidade, não como sinônimo de honra, probidade ou decência - atributos que requerem algum nível de validação social - mas a honestidade como rejeição da irrealidade. A afirmação das coisas como elas são, recusando fingir ou subverter a realidade, é o que caracterizará aquele que usa de seus mecanismos racionais para viver no mundo[2]. Um exemplo na história da filosofia que demonstra esse tipo de preocupação é o princípio da não contradição de Aristóteles que, em seus estudos de lógica, conclui a identidade de algo como conjunto de características que lhe são próprios e exclusivos. Uma coisa é o que é. Se a realidade de uma pedra lhe mostra aspereza, não é e nem pode ser chamado de corredio[3]. Ambas as teorias têm a preocupação da afirmação da realidade a partir de uma relação individuada com as coisas, assegurando que é possível conhecê-la com os mecanismos de percepção próprios do homem.

Perceba que, diferente da primeira conceituação de honestidade, a proposta objetivista tem como motor o próprio indivíduo que exerce a virtude. Ser honesto não será visto pela comunidade, de modo que, em eventos públicos, você receba homenagens de terceiros; ser honesto, tampouco, garantirá o rótulo social de homem de caráter; ser honesto será, unicamente, a consequência de uma autopercepção daquele que tem compromisso com sua racionalidade, com o uso independente das suas capacidades humanas, e tudo isso resultará em autoestima. A certeza de que você é capaz de viver no mundo.

Honestidade em qualquer contexto da vida é um valor esperado para a existência de relações sociais, mas pela dificuldade de validação, faz pouca diferença no apreço social. Agora, se o indivíduo precisa da aprovação de pessoas quaisquer para sentir que está indo na direção correta, algo está muito errado com seus princípios de vida.

Para não falsear a realidade, há o recurso do uso de sua capacidade cognitiva, desenvolvida justamente para olhar os fatos e aprender com eles. Foi assim que, por milhares de anos, esse fator aparentemente simples determinou quem da espécie Homo continuaria vivo para procriar e se perpetuar. Aqueles que, por medo, acomodação, ou limitação genética, não desenvolveram habilidades de investigação, não criaram ferramentas, não desenvolveram técnicas de aperfeiçoamento da lida com o cotidiano, foram superados pelos homo sapiens (“homem sábio”).

O que podemos aprender com a proposta objetivista de honestidade, validada pelos primeiros homens de coragem da história humana?

O exercício dessa virtude fez com que, há 70 mil anos, Homo sapiens saíssem de seu lugar de origem, a África oriental, para conquistarem o mundo. Há 45 mil anos, atravessaram o mar aberto e chegaram à Austrália; há 30 mil anos já tinham consolidado invenções como lâmpadas a óleo, agulhas, arco e flecha, barcos e outras tecnologias que só são possíveis a partir de mentes que procuram olhar para a realidade e entender seus princípios fundamentais, seus ciclos e rupturas.

Como foi chamada essa revolução humana que, com o advento da linguagem, sofisticou ainda mais a capacidade de pensamento e comunicação, que consolidou a espécie numa improvável possibilidade de extinção ocupando todo o mundo? Revolução cognitiva. Não nego que o desenvolvimento de habilidades sociais, do convívio em grupo, da divisão de tarefas sejam também importantes e de grande relevância para os avanços realizados. Porém, cada indivíduo tinha uma ligação com a realidade que o fez criar meios para que a sobrevivência de todos fosse garantida.

O mesmo Sapien que criou misticismos, acreditando, sinceramente, que sua divindade lhe livraria de um leão, de uma onça ou outro predador, não viveu para se perpetuar. Os engenhosos, pelo contrário, fugiram e se esconderam, até o dia em que suas flechas fossem lançadas com velocidade tamanha a perfurar o couro do animal, garantir em vez de lamento pela perda de entes queridos e participantes do bando, a festa em volta da fogueira, a confecção de colares com dentes do monstro, exaltando o uso da mente humana que estava superando a força bruta mais letal criada pela natureza[4].

Bom, a pergunta que faço então é:

Por que para muitas pessoas do mundo contemporâneo, onde o uso da mente humana já está debruçado sobre questões como o genoma humano ou a neurociência, ainda entende que a desonestidade justificada, seja em nome de uma ideologia ou de um ganho material é algo admirável e aceitável?

Tenho algumas hipóteses:

  1. O ensino das filosofias alicerçadas no indivíduo, ou é mutilado, ou como é o caso do Objetivismo, ainda é incipiente nas universidades e necessita de meios próprios para se propagar, alcançando um número limitado de pessoas.
  2. A dificuldade de fazer o uso da razão de forma sistemática em todos os aspectos da vida. A criação do misticismo concomitante ao desenvolvimento mais sofisticado da linguagem é evidência das dificuldades enfrentadas para lidar com um mundo hostil, e de tristezas maiores que alegrias.
  3. A existência de filosofias e teologias que colocam o homem como animal de sacrifício. Essas ideias têm o mesmo objetivo: tornar homens diferentes em iguais perante alguma instância superior; porém, a natureza do homem é para a individuação, cada homem é único; a tentativa de perverter seus objetivos e finalidades reais, leva em seu bojo, como efeito colateral, a subversão do bando, sob a forma de escape pervertido. O indivíduo precisa afirmar sua identidade, porém necessita, ao mesmo tempo, da validação social do comportamento desviante.

O que você acha? Está disposto a aceitar uma nova definição de honestidade?


[1] Disponível em http://www.casaruibarbosa.gov.br/scripts/scripts/rui/mostrafrasesrui.idc?CodFrase=883

[2] PEIKOFF, L. Objetivismo: A filosofia de Ayn Rand. Porto Alegre: Ateneu Objetivista, 2000. p. 451

[3] Disponível em https://revistas.ufrj.br/index.php/FilosofiaClassica/article/view/2904/2687

[4] HARARI, N. Y. Sapiens: Uma breve história da humanidade. 16° Edição. Porto Alegre: L&PM, 2016. 464 p.