Objetivismo Brasil - A Filosofia de Ayn Rand em Português.

Por que precisamos julgar?

O ato de julgar é realmente negativo e condenável?

Devemos evitar fazer julgamentos morais?

A resposta automática a esses questionamentos costuma ser afirmativa: julgar parece, sim, algo condenável. Crescemos ouvindo que é reprovável julgar os outros, que não devemos julgar para não sermos julgados, que não estamos na “pele” do outro para entender seus motivos, e que ninguém é perfeito.

Considera-se socialmente admirável ser tolerante, neutro, evitando julgamentos. Difunde-se a ideia de que a neutralidade moral é valiosa e que, como “sempre” existem dois lados, ninguém estaria totalmente certo (branco) ou totalmente errado (preto) – como se fôssemos uma mescla do bem e do mal e, portanto, moralmente “cinzas”.

Mais uma vez, a filosofia objetivista desafia esse paradigma, propõe uma nova perspectiva, e insiste que vejamos as coisas com clareza. Para o Objetivismo, essa “neutralidade” só incita um tipo de comportamento: o que não valoriza o bem. Segundo Rand:

“O homem que se recusa a julgar, que nem concorda nem discorda, que afirma não haver absolutos e acredita desse modo se esquivar das responsabilidades – esse homem é responsável por todo o sangue que está sendo derramado agora no mundo. A realidade é absoluta, a existência é absoluta, um grão de poeira é absoluto e uma vida humana também é absoluta. Viver ou morrer é algo absoluto. Ter um pedaço de pão ou não tê-lo, isso também é absoluto. Poder comer o pão ou vê-lo ser devorado por um saqueador, isso também é absoluto.

Há dois lados em toda questão: um está certo e o outro, errado, mas o meio é sempre mau. O homem que está errado ainda guarda algum respeito pela verdade, mesmo que apenas por assumir a responsabilidade da escolha. Mas o homem do meio é o calhorda que silencia a verdade para fingir que não há escolha nem valores, que está disposto a escapulir de todas as batalhas, a lucrar com o sangue dos inocentes ou a rastejar perante os culpados, que faz justiça condenando à prisão tanto o ladrão quanto a vítima, que resolve os conflitos obrigando o sábio e o insensato a encontrarem uma solução intermediária que agrade a ambos. Qualquer transigência entre a comida e o veneno só pode representar uma vitória para a morte. Qualquer transigência entre o bem e o mal só pode ser favorável ao mal (…)[1]

Só podemos julgar, por certo, questões sobre as quais o homem pode escolher. Ou seja, a imoralidade é uma descrição factual da relação entre um comportamento eleito e um valor fundamental. Discriminar entre o bem e o mal deve ser, ao contrário do que se costuma imaginar, uma prática buscada, e não um motivo de culpa, remorso ou penitência.

Quando nos abstemos de fazer julgamentos morais acerca das condutas humanas, praticamos um agnosticismo moral e somos injustos com quem convivemos. Se não elogiamos as virtudes, nem condenamos os vícios, deixamos transparecer que, independentemente das atitudes, ninguém merece nosso juízo de valor, isto é, nem nosso elogio, nem nossa censura.

Ou seja, o comportamento imparcial (ou totalmente tolerante) declara que, assim como não condenamos maus hábitos, tampouco elogiamos boas atitudes. Essa conduta é, pois, desmotivadora justamente a quem merece ser valorizado e engrandecido.

O ato de julgar – ou de não julgar – é uma escolha de vida, dirigida a todos com quem nos relacionamos. A virtude da justiça, segundo Rand, exige avaliações racionais acerca das pessoas com quem nos envolvemos.

Por isso, o julgamento moral é crucial na vida. Por meio dele, elegemos as pessoas com quem queremos nos relacionar, bem como aquelas das quais queremos distância. Julgando, podemos entender quais metas queremos perseguir, quais situações queremos evitar, com quem desejamos compartilhar nossa vida e quem excluímos de nosso convívio. Através de julgamentos racionais, adotamos valores que guiam nossas relações familiares, profissionais e de amizade, cultivando vínculos que valem a pena.

Portanto, julgar é indispensável para uma boa vida. Todavia, as avaliações morais precisam ser objetivas. Fazer julgamentos morais não é gostar ou não gostar de alguém, não é agir movido pelas emoções, nem deixar eventuais preconceitos decidirem.

Pronunciar um julgamento moral é uma grande responsabilidade: pressupõe um caráter destemido e íntegro, implica abstenção do sentimento de clemência, exige reconhecimento do contexto, depende do autocontrole para falar no momento apropriado, de não silenciar quando seus valores e princípios são atacados, mas, não menos importante, saber o valor da quietude em debates irracionais. Ou seja, exige um rigoroso trabalho de adequação do julgamento à realidade objetiva.

"Julgar significa: avaliar uma dada idéia ou coisa concreta com referência a um princípio ou critério abstrato. Não é uma tarefa simples; não é uma tarefa que pode ser executada automaticamente pelos sentimentos, “instintos” ou palpites de alguém. É uma tarefa que requer q mais preciso, o mais exato, o mais implacável objetivo e um processo racional de pensamento. (…)”.[2]

Além disso, ao julgar – e ao se omitir de julgar –, o homem revela muito sobre si mesmo. É possível julgar uma pessoa pelos julgamentos que ela faz, e pelos que ela deixa de fazer. O que uma pessoa condena, bem como o que ela exalta, revela seus padrões e, no processo, seus valores. Talvez a evasão dessa responsabilidade moral seja o motivo porque tantos decidem não julgar. É mais cômodo ensinar “não julgue para não ser julgado” do que “Julgue, e esteja preparado para ser julgado”.

O julgamento moral não se resume a denunciar o mal, mas, principalmente, a promover o bem. Julguemos, e sejamos conscientes dessa responsabilidade!

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Revisado por Matheus Pacini.

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[1] RAND, Ayn. A Revolta de Atlas. Trad. de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Arqueiro, 2010. V III, pp. 378 e 379.

[2]http://aynrandlexicon.com/lexicon/moral_judgment.html, consulta em 15/02/2020.

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