Objetivismo Brasil - A Filosofia de Ayn Rand em Português.

Por que os heróis estão envergonhados?

Esse artigo foi escrito em 2011.

A forma como os heróis têm sido retratados no cinema revela um dos conflitos mais gritantes na cultura popular atual: a necessidade de projetar algum tipo de virtude, de capacidade, de figura admirável, que entra em choque com o fato de que a cultura se tornou antiambição, antiautoestima – ou seja, os valores que tornam os heróis possíveis. Os anos 1980 e 1990 foram décadas em que a cultura foi dominada por projeções inspiradoras e romantizadas do ser humano, tanto no cinema quanto na TV e na música. A partir dos anos 2000, as coisas mudaram. Os heróis não foram abandonados por completo, pois isso seria impossível: é da natureza humana querer ter algo para aplaudir, admirar e servir de inspiração. No entanto, agora isso digladia com o medo da acusação de ser arrogante, superior ou pior: de ferir os que se sentem mais fracos. Então, os heróis dos filmes, da TV e da música estão sendo diminuídos: apesar de demonstrarem algumas virtudes, fazem-no de forma corrompida, disfarçada, envergonhada, misturada com algum elemento subversivo, que serve como um pedido de perdão por suas qualidades.

Existem vários tipos de “heróis envergonhados”, que revelam sempre a culpa dos artistas em projetar autoestima, habilidade e nobreza; um senso de orgulho e ambição que muita gente considera nocivo hoje em dia.

Isso tudo é muito evidente nos filmes de super-heróis, por exemplo, que começaram a ficar cada vez mais sombrios e realistas. Os heróis, em vez de serem figuras de destaque, personagens carismáticos, maiores que a vida, passaram a ficar mais “humanos”, comuns, com todo tipo de fragilidade e distúrbios psicológicos.

As animações infantis também revelam claramente essa mudança. Em vez das princesas belas e inocentes dos tempos da Branca de Neve ou mesmo da Pequena Sereia, você tem figuras muito mais simplórias: príncipes e princesas sem glamour, cínicos, às vezes de caráter ambíguo, que falam e gesticulam de maneira comum, fazem caretas, estão frequentemente em situações e poses ridículas, sem a nobreza que caracterizava os personagens Disney do passado.

Há também uma série de programas de TV e artistas pop que levantam a bandeira dos “losers”, como Glee, afirmando que agora é a vez dos fracos conquistarem os holofotes.

Não estou dizendo que um herói não possa apresentar fragilidades ou desvantagens. Muito pelo contrário – acho importante que um herói tenha vulnerabilidades e pontos fracos, pois seria impossível para o público se identificar com um ser perfeito e indestrutível. Alguém infalível que realiza um grande feito não diz nada ao espectador. Só pode inspirar alguém que tenha limitações humanas naturais e, mesmo assim, supere essas limitações e conquiste seus objetivos. Mas há uma diferença grande entre ter limitações e fragilidades, e ser um “herói envergonhado”. A principal delas é que, no primeiro caso, o foco está na projeção das virtudes, e não na projeção das falhas – as qualidades e as conquistas do herói são dramáticas, convincentes, empolgantes, memoráveis, criativas, enquanto suas fragilidades estão presentes apenas pra dar um senso de realismo e tornar a superação ainda mais intensa.

Já num filme de “herói envergonhado”, toda atenção é dada às fragilidades, às inseguranças, ao lado “humano” e “realista” do herói, mas nunca há uma apresentação dramática de suas virtudes, daquilo que faz dele digno de ser admirado (é comum essas figuras fazerem parte de um grupo, onde a atenção é diluída entre vários personagens, o foco sendo o trabalho em equipe, e o protagonista não ganhe crédito demais por suas conquistas).

É importante também diferenciar entre desvantagens, fragilidades, e falhas de caráter. Enquanto desvantagens e fragilidades são aceitáveis e criam uma ponte para o espectador se identificar com o herói, falhas de caráter são no fundo uma tentativa de corromper o conceito de herói.

Outra maneira de diminuir o herói é através do uso de humor. Não que o herói não possa ser divertido ou ter senso de humor. A pergunta a ser feita aqui é: você está rindo com o personagem ou do personagem? Não há problemas em rir de coisas que o personagem faz intencionalmente e que não diminuem sua estatura. Mas rir às custas dele é quase sempre errado, a não ser que você esteja vendo uma paródia.

Heróis são feitos para inspirar – as crianças saem do cinema motivadas, imitando seus gestos, querendo ser como eles. Já um “herói envergonhado” é feito para amenizar a baixa autoestima, dar um senso de conforto para o espectador, de “inclusão”, dizendo que ninguém é grande demais – que todo mundo é inseguro, tem falhas, portanto, não há por que se sentir inferior. O problema é que eles fazem isso de uma maneira destrutiva, mal intencionada: se você quer celebrar humildade, igualdade, o lado simples e não-heroico do ser humano, há várias formas de fazê-lo sem precisar ser hostil às virtudes positivas. Mas o que esses cineastas querem é contar histórias grandiosas, de superação, de integridade, de reis e princesas – ou seja, primeiro criar heróis, para daí mostrar que eles não são tão heroicos assim. A intenção não é inspirar o fraco e dizer que ele é capaz de superação, mas destruir o forte e igualar todo mundo no nível do comum.

Esse elemento pode surgir de várias maneiras e em vários graus diferentes, nem sempre comprometendo o total do trabalho. Às vezes de maneira óbvia, explícita, às vezes de maneira menos evidente. Em casos em que há uma mistura de heroísmo com elementos de “herói envergonhado”, meu critério final é: no fim das contas a figura é admirável? Inspira um senso de ambição? Tem habilidades que encantam? Uma criança ficaria inspirada – gostaria de evoluir para ser um dia como ela? Se a resposta for sim, pode ser possível perdoar o resto.

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Publicado originalmente em Profissão: cinéfilo.

Revisado por Matheus Pacini.

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