Por que, embora NÃO sejam filosoficamente pró-tecnologia, os japoneses – ao contrário dos ocidentais – normalmente veem os robôs como os mocinhos?

Anos atrás, o futurista José Cordeiro, colega de Ray Kurzweil, comentou que o Japão e o Ocidente veem os robôs de forma diferente. Na ficção ocidental – especialmente na ficção publicada antes de 1997 – os robôs são geralmente os bandidos, enquanto os japoneses os veem como mocinhos.

É verdade que, tanto no Japão quanto no Ocidente, há histórias de robôs do bem que combatem robôs do mal. No entanto, a dúvida que permanece é se eles são bons ou maus por padrão. Em Exterminador do Futuro 2, Arnold Schwarzenegger interpreta o herói, mas, em essência, esse Exterminador é um vilão; ele só luta do lado dos protagonistas humanos porque foi derrotado e reprogramado. Ou seja, o que é comum em filmes ocidentais anteriores a 1997 é que, para o robô inteligente ser considerado o mocinho, precisa ser manipulado para ficar do lado da raça humana.

Apesar da franquia Star Wars ser fortemente influenciada por filmes japoneses, a tendência ocidental de robôs serem vilões ainda se aplica. Sim, C-3PO e R2-D2 estão do lado da Aliança Rebelde, mas muito disso implica que se tornar mais mecânico o torna menos emotivo e atencioso. Quando Anakin assume uma postura mais mecânica é quando ele se corrompe; ele se torna o frio e dominador Darth Vader. Obi-Wan diz: “Ele é agora mais máquina que humano – pervertido e mau”. Ser mais máquina é algo ruim. O General Grievous começou como um organismo, mas transformar paulatinamente seu corpo em robô corresponde a uma degradação deliberada de sua humanidade.

Por outro lado, no Japão, a franquia de videogames Mega Man (chamada “Rockman” no Japão, com “rock” se referindo à rock ‘n’ roll) é uma espécie de inversão de Exterminador do Futuro 2. Mega Man também explora a dinâmica de robôs do bem versus os do mal. No entanto, no primeiro jogo do Mega Man, afirma-se que todos os seus inimigos começaram como robôs do bem que o Dr. Light construiu para ajudar os seres humanos a evoluírem. Eles só se tornam vilões quando o Dr. Wily os captura e os reprograma para cumprir ordens. Ou seja, em contraste com Exterminador do Futuro 2, em que os robôs começam como maus e só depois de reprogramados fazem o bem, em Mega Man, os robôs são bons por padrão: não farão nenhum mal até serem programados a fazê-lo. A recente homenagem ao Mega Man Mighty Numero. 9 é ainda mais explícita sobre isso.

Nem mesmo a franquia Transformers,em que os robôs podem ser do bem ou do mal, não há um padrão óbvio, sendo um contraexemplo a essa tendência. Muitas pessoas assumem falsamente que Transformers começou no Ocidente. Na verdade, essa franquia era originalmente uma linha de brinquedos japonesa, embora, na história original japonesa, todos os robôs fossem pilotados por humanos. Foi a Hasbro dos Estados Unidos que mudou a história, decidindo que os Autobots e Decepticons teriam consciência.

Por muito tempo, pensei que talvez a cultura popular japonesa, tendo uma visão mais benevolente dos robôs do que a ocidental, indicasse uma área mais pró-tecnologia da cultura japonesa em relação à ocidental. Mais tarde, porém, alguns objetivistas no Facebook destacaram que uma explicação mais provável é que isso seja um acidente cultural relacionado à antiga crença japonesa no animismo.

Os japoneses se alinham com os robôs por causa do… misticismo?

O animismo é a crença de povos antigos, principalmente caçadores-coletores, de que todos os objetos tenham espíritos dentro deles. Esse animismo muitas vezes se traduziu numa forma primitiva de ambientalismo político, de que a lei tribal deveria proibi-lo de remodelar a natureza, pois os espíritos da natureza o puniriam. Até hoje, diversos ativistas exitosos de povos indígenas fazem lobby por leis que obstruam a construção de telescópios, estradas ou oleodutos em locais específicos, proclamando que esses locais são sagrados e que o desenvolvimento humano perturbará os espíritos da natureza, provocando sua ira. No entanto, os japoneses deram um toque estranho a isso – disseram que, até certo ponto, você tem permissão para remodelar a natureza para criar ferramentas feitas pelo homem, mas que espíritos benignos – geralmente úteis para humanos – habitarão essas ferramentas. Por exemplo, se você tem um guarda-chuva, o guarda-chuva tem um espírito benigno próprio. Nessa interpretação, um robô como Mega Man também terá, por padrão, uma alma.

O Japão passou a considerar os robôs “do bem” quando Osamu Tezuka começou seu mangá Astro Boy em 1952. Tezuka concebeu Astro Boy como um Pinóquio moderno ou futurista. Astro Boy é um garotinho de bom coração, mas, em vez de ser um boneco de madeira magicamente animado, ele é um robô realista, um androide. (Androide é específico de gênero; o prefixo andro significa homem. Um robô feminino seria um ginoide.)

Tezuka é a principal razão pela qual os personagens de mangá/anime têm olhos grandes e exagerados. Tezuka leu muitos quadrinhos do Tio Patinhas e notou que todos os personagens da Disney tinham olhos grandes e exagerados. Como uma espécie de homenagem, deu a todos os seus personagens humanos olhos grandes, similarmente exagerados. Ele inspirou gerações posteriores de artistas de mangá/anime que o copiaram. Da mesma forma, esses mesmos artistas copiaram a ideia de os robôs serem naturalmente do bem. Notavelmente, os criadores de Mega Man citam Astro Boy como uma grande inspiração.

Quanto ao motivo pelo qual os robôs são geralmente descritos como os malvados da cultura popular ocidental, suspeito que tenha a ver com a filosofia romântica do século XIX.

Filosofia romântica do século XIX: por que artistas ocidentais retratam robôs como bandidos?

Hoje temos esse estereótipo de artistas pretensiosos avant-garde que dizem que a sua arte puramente emocional é superior a qualquer coisa tecnológica, e que se ​​revoltam contra o comércio materialista. Ainda assim, esse estereótipo é relativamente recente; ele parecia bizarro durante a maior parte da história moderna.

Filippo Brunelleschi foi pioneiro no uso da perspectiva linear em pinturas. Ao fazê-lo, revolucionou a arte, e esses princípios eram explicitamente científicos. Seguindo sua liderança, pintores durante o Renascimento entenderam que a arte naturalmente seguia a ciência. Para criar representações mais realistas do nu humano, eles estudaram anatomia, até mesmo cadáveres dissecados. Para produzir um efeito mais realista em suas pinturas, estudaram óptica e a natureza científica da luz e seu efeito sobre como os objetos eram vistos. E, apesar de alguns elogios ao antimaterialismo cristão, eles não se envergonhavam do aspecto comercial de suas atividades. No século XIX, J. M. W. Turner aprendeu ainda mais sobre óptica para melhorar sua arte.

No entanto, foram os contemporâneos de Turner que mudaram a direção da arte no Ocidente. Estamos familiarizados com as virtudes do estilo da arte romântico no século XIX, a ênfase em temas grandiosos e a exploração do que significa ser um herói. Embora o estilo romântico seja benéfico, a maior parte da filosofia explícita dos românticos não é. Nos tempos em que a esquerda política nascente elogiava a industrialização e prometia que a industrialização e a tecnologia se desenvolveriam ainda sob seu coletivismo social, era o movimento filosófico romântico que denunciava a industrialização e a tecnologia. Enquanto Karl Marx escrevia que o coletivo era bom porque promovia a industrialização melhor do que os capitalistas privados, a poesia de William Blake condenava “obscuros moinhos satânicos”. Enquanto membros da Velha Esquerda a la Edward Bellamy anunciavam uma utopia tecnológica coletivista em Looking Backward, Mary Shelley nos dava Frankenstein; ou, O Prometeu Moderno.

Desde o século XIX, as atitudes éticas básicas da filosofia romântica permearam a arte ocidental, e isso inclui o cinema. É assim que terminamos com James Cameron, criador de Exterminador do Futuroproduzindo Avatar. Para os artistas ocidentais, os robôs inteligentes simbolizam a industrialização. Para eles, a industrialização é um mal. Portanto, seguindo esse silogismo, tais robôs também devem ser maus.

Se você acredita que os videogames Mega Man representam a mentalidade japonesa e, em seguida, considera que Avatar de James Cameron representa a perspectiva dos artistas ocidentais, pode parecer que os japoneses têm a mente mais aberta em relação aos benefícios dos robôs e da inteligência artificial. Estranhamente, porém, isso pode realmente ser o resultado da superstição japonesa quanto ao animismo – uma crença mística que, em sua forma atual, é frequentemente implementada como legislação ambientalista.

Outras notas
Ironicamente, na década de 1970, Osamu Tezuka – como era (e é) comum para artistas japoneses desde o final do século XX – tornou-se fervorosamente ambientalista. Como a maioria dos artistas japoneses que cria contos sobre robôs heroicos, Tezuka realmente concordou, até o fim de seus dias, com os românticos ocidentais do século XIX, de que a industrialização está destruindo a natureza selvagem, desumanizando a humanidade e privando o mundo de sua grandeza original.

Do ponto de vista intelectual, creio que Tezuka não mostrou um argumento adequado para justificar os seres humanos queimando energia e alterando a paisagem para energizar seus robôs do bem, da mesma forma que as pessoas não pensam em todos os combustíveis fósseis que queimam para jogar o videogame Final Fantasy, mas conseguem culpar usinas nucleares como vilões.

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Traduzido por Hellen Rose.

Revisado por Matheus Pacini.

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