Paulo Sá Vale



Peter Keating, um capitalista incompreendido?


Em A nascente, temos o confronto entre duas formas de ver o mundo e a arquitetura. De um lado, Howard Roark lidera a visão da arquitetura como uma forma criativa de produção, uma forma de egoísmo e compromisso com suas convicções, e vê a arquitetura como instrumento que absorve e revela os valores de seu criador — o arquiteto. Do outro, Peter Keating defende a visão de que a arquitetura não é uma forma criativa de produção, mas sim um produto que deve ser aceito pelo coletivo, mesmo sob premissas equivocadas.

Ayn Rand era defensora ferrenha do capitalismo laissez-faire. Em A nascente, busca mostrar o seu homem ideal, personificado no protagonista Howard Roark. No entanto, Peter Keating também apresentava  traços supostamente capitalistas em suas ações: afinal, numa economia de mercado, o bom empreendedor não é aquele que agrada o maior número possível de clientes, inclusive aqui os próprios empreendedores do ramo da arquitetura?

Ayn Rand discorda dessa visão. Para ela, empreender é inovar, ver o mercado e o mundo de forma diferente, diferenciando-se de outros empreendedores e consumidores e, no final, apresentando um produto objetivamente diferente e melhor do que já existe. Após essa etapa criativa, cabe ao objetivista, portanto, convencer os consumidores sobre a superioridade de seu produto e de seu trabalho, o que faz Howard Roark ao longo de todo o romance.

Ao contrário de Howard Roark, Peter Keating não buscava a satisfação pessoal na elaboração de seus projetos, mas sim a aceitação de outras pessoas – em especial, de críticos de arquitetura, intelectuais e burocratas. Atender os desejos dos consumidores era secundário, já que a maioria deles terceirizava suas preferências aos críticos. Ao final, Keating era mais querido pelos clientes,  pois buscava agradá-los a qualquer custo, mesmo que isso implicasse inserir elementos estéticos de estilos conflitantes ou tomar decisões que tornavam a estrutura mais cara e menos funcional.

Por outro lado, Howard Roark era fiel à sua forma de ver a arquitetura. Um prédio deveria seguir os princípios racionais de espaço e construção. Caso contrário, se tornava uma obra vazia e arcaica. Recusava trabalhos em que o cliente exigia que o projeto fosse feito à sua maneira, contradizendo o estilo arquitetônico de Howard Roark. Muitos anos se passaram até seu trabalho ser aceito, fato que ocorreu especialmente por conta da economia e racionalidade na disposição dos espaços da sua arquitetura.

Boa parte dessa narrativa se justifica pelo fato de Ayn Rand aproximar a arquitetura da arte, sem, entretanto, distanciá-la do que ela realmente é, a saber, um produto de mercado que deve atender um propósito e uma função. Além disso, Ayn Rand deixa claro que o dinheiro e a busca pela riqueza não são os elementos mais marcantes para qualificar um capitalista ou um objetivista. O dinheiro e a riqueza são resultados inerentes do trabalho racional e da coragem de inovar, sem que, ao longo do processo, se cometa sacrifícios por outras pessoas e nem as exija que se sacrifiquem por você. 

Segundo a visão objetivista, Peter Keating não seria mais capitalista que Howard Roark. Pelo contrário, Keating, na verdade, se distanciou por diversas vezes das leis do mercado. Ao longo do romance, utilizou recursos públicos para conseguir trabalhos com pagamentos generosos. Submeteu sua arquitetura aos moldes exigidos pelos burocratas, envolvendo-se diversas vezes em operações corruptas em benefício próprio. Além disso, Keating deixa transparecer diversas vezes sua falta de moralidade, desonestidade e irracionalidade. Suas concessões em troca de popularidade e aceitação aos críticos mostram um homem fraco, vendido e sem nenhuma honra.

As principais inspirações para a criação dos personagens arquitetos racionais do romance teriam sido Sullivan (Henry Cameron) e Frank Lloyd Wrifht (Roark). Eles próprios, todavia, fizeram várias concessões ao longo de suas carreiras para serem aceitos no mercado de trabalho, especialmente o primeiro, que, sendo um modernista, projetou vários prédios funcionais por dentro, mas com ornamentação eclética em suas fachadas, inserindo elementos sem propósitos funcionais que tornavam a edificação mais cara e menos racional.

Em A nascente, portanto, Ayn Rand cria personagens que poderiam ter sido Sullivan e Frank L. Wright, caso esses tivessem se mantido fiéis às suas convicções. Ou seja, retrata como a arquitetura pode e deve ser. A construção da narrativa segue, portanto, a filosofia da própria autora. Howard, o protagonista, é a personificação de um ideal, de uma realidade na qual a racionalidade e o egoísmo são os norteadores do trabalho e da moralidade de um homem.

Sendo assim, Peter Keating não é um capitalista. Por muitas vezes, ignora as leis de mercado e consegue trabalhos em órgãos corruptos e ineficientes do Estado, atendendo a desejos inescrupulosos de burocratas e intelectuais do setor de edificações populares. Roark, por outro lado, é capitalista por inovar e oferecer seus projetos de forma voluntária, tentando convencer as pessoas do valor de seu trabalho — não exigindo sacrifícios de terceiros, tampouco fazendo sacrifícios para ser aceito, o que o torna não só um capitalista, mas também honesto na perspectiva objetivista.

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Revisado por Bill Pedroso e Matheus Pacini.

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